sexta-feira, 18 de abril de 2014

LIETZU - TRATADO DO VAZIO PERFEITO



Lieh-tzu
Tratado do Vazio Perfeito
ou o caminho sem caminhos
Tradução de Amadeu António Tavares Duarte 2017
duartfil@gmail.com
INTRODUÇÃO
As palavras do taoista Lie-Tzu, nascido por volta de 400 AC, dois séculos após Confúcio e Lao-Tzu, foram registadas (e talvez mesmo alteradas e incrementadas) por altura das dinastias Han e Chin (200- 400 dc). Ele viveu no período primaveril e outonal da dinastia ocidental de Chou (770-476). A maioria dos historiadores concorda agora que ele tenha vivido por volta de 400 AC, cerca de duzentos anos após Lao-Tzu e Chuang-Tzu. Teve a posição de cidadão do reino feudal de Cheng, e à semelhança de muita gente do seu tempo que se via cansada das lutas e intrigas políticas, ele jamais ocupou um cargo governamental. Tinha a reputação de ter estudado sob a alçada de Wen-Tzu, que foi um estudante de Lao-Tzu, e de vários outros personagens obscuros e lendários tal como Hu-tzu e Old Shang, o Imortal.
Aquilo que nos chega através dos textos que prevalecem, que foi escrito ao longo de um período de seiscentos anos, não se assemelha às palavras de um mestre que se encontrava acima dos outros, mas à voz de alguém que se ri de si mesmo e de todos os esforços por permanecer atento, sábio e íntegro. Contudo, durante os cem anos mais ou menos em que foi compilado, o Lie-Tzu não recebeu o tipo de atenção que fora dado ao Lao-Tzu e ao Chuang-Tzu. Além disso, por o Lie-Tzu conter mais histórias do que debate filosófico formal, mais rejeitado foi como um trabalho menor.
Quando o Taoismo alcançou o topo do seu desenvolvimento na dinastia Tan’g (entre o século sete e dez), porém, o Lie-Tzu, o Lao-Tzu e o Chuang-Tzu foram reconhecidos como os três clássicos do Taoismo. A partir daí, o lugar que teve nos clássicos Taoistas foi firmemente estabelecido.
O Lie-Tzu constitui uma colecção de histórias e de reflexões de carácter filosófico. Embora as histórias tenham sido estabelecidas no período primaveril e outonal e nos primeiros anos dos Estados em Guerra, os seus ensinamentos reflectem o tipo de Taoismo que prevaleceu nos anos posteriores dos Estados em Guerra, as dinastias Ch’in, o Han, e mesmo a Wei e a Chin, ou seja, até cerca de 420DC. Durante esses anos, a China encontrava-se num estado de caos político e social. Já antes por volta de 600AC na dinastia Ch’ou Ocidental, os governantes dos estados feudais disputavam o poder, primeiro por vias encobertas e diplomáticas durante o período primaveril e outonal, e mais tarde em guerra aberta durante o período dos Estados em Guerra. O forte prevalecia enquanto o fraco perecia. Foi a era dos “estadistas mercenários”, conselheiros políticos e militares que ofereciam as suas aptidões a quem pagasse mais.
A política era coisa suja, os membros da família espiavam uns os outros e os assassinatos eram coisa comum. A traição e a intriga achavam-se disseminadas por entre os funcionários do governo, e uma pessoa podia facilmente perder a vida no jogo perigoso da política, por a virtude e a lealdade não garantirem segurança. Sob tais circunstâncias, que coisa poderiam as pessoas fazer? Muitos optavam por entrar no jogo da política e assumir os riscos, mas outros, como Lie-Tzu, preferiam permanecer afastados.
Já tinham existido eremitas mesmo antes dos Estados em Guerra, só que eram indivíduos que tinham as suas razões para abandonarem a sociedade. Apenas no Lie-Tzu ser eremita ou recluso foi apresentado como uma forma de vida alternativa. Aqueles que se retraiam do mundo político e social podem ter sido capazes de sobreviver e ainda assim de preservar a sua integridade pessoal.
Como se as coisas não fossem suficientemente más, os Estados em Guerra terminaram no governo tirânico da dinastia Ch’in (221-207AC). Numa tentativa de esmagar a oposição, o imperador Ch’in mandou executar os académicos e queimar livros. Os primeiros anos da dinastia Han Ocidental (206-8AC) providenciaram uma breve pausa no reino de terror, mas após uns cem anos de paz, surgiram de novo intrigas na corte, e eventualmente Wang Meng, um poderoso ministro, afastou o fraco imperador, dissolveu o Han Ocidental e fundou a sua própria dinastia (9-42DC).
Durante a dinastia Han Ocidental o Confucionismo foi favorecido pelos imperadores, que tinham esperado uma filosofia que promovesse a propriedade, a virtude, e uma responsabilidade que criassem uma estrutura social estável. Que um ministro pudesse depor um monarca provocou não só um golpe à continuidade política da dinastia Han como também pôs em questão a efectividade do Confucionismo no estabelecimento da estrutura social. Desiludidos com o Confucionismo, muitos intelectuais abandonaram-no em favor do Taoismo, que na altura advogava o não envolvimento na política e se focava no cultivo da pessoa.
Embora a dinastia Han tenha sido reavivada após Wang Meng ter sido derrotado e morto, a paz teve vida curta. Em menos de quarenta anos, apareceram de novo intrigas na corte, dessa vez mais viciosas do que nunca, e os eunucos tornaram-se intervenientes importantes na política da corte. Facções nas elevadas posições do governo digladiaram-se umas às outras por controlo de imperadores jovens e fracos, e assassinatos e traições uma vez mais se tornaram no modo de tratar os rivais.
Numa tentativa de eliminar os eunucos, um dos generais, Yuan-shao, recrutou o auxílio de um chefe de clã bárbaro, mas o plano foi descoberto e o próprio Yuan-shao foi morto. Quando so exércitos bárbaros chegaram à capital, eliminaram os eunucos, saquearam e pegaram fogo à zona interior, e recusaram-se a ir embora. Desse caos surgiu Ts’ao-ts’ao, um ministro ambicioso que depos os bárbaros, se tornou regente, e tomou o controlo do imperador. Isso foi seguido de uns cinquenta anos de guerra-civil em que os três reinos de Wei, Shu e Wu se combateram pelo controlo da região.
Durante esse período a vida era, quando muito, precária. Nos Estados em Guerra podia-se sobreviver permanecendo longo da política. Nos últimos anos das dinastias Han e Wei, permanecer afastado não era opção. Para o clã Ssu-ma, permanecer afastado significava que não os suportavam. E não os suportar significava oposição manifesta, e ao se oporem a eles, tinham que ser eliminados. Foi um período em que ser virtuoso e leal não os podia salvar, armar esquemas e ser inescrupuloso lhes podia custar a vida e evidenciar vontade de se afastar da situação os podia conduzir à morte. Sob tais circunstâncias, que poderiam fazer? Se a vossa vida estivesse em perigo a cada instante, de que serviria fazer planos para o amanhã? Por que não reconhecer a brevidade da vida, que não têm controlo sobre o destino, e que renome fortuna, e reputação social não valiam o sacrifício de um só dos vossos cabelos? Foram estas condições sociaais e política que deram início à filosofia discutida no capítulo Yang-shu do Lie-tzu.
Talvez as vidas de um grupo de pessoas conhecidas como os Sete Sábios do Bosque do Bambu melhor ilustrem esta perspectiva da vida. Esses sete amigos encontravam-se amiúde na floresta de bambus e passavam o seu tempo a cantar, a tocar música, e improvisar poesia, e a beber. A sua poesia e cantigas versavam sobre a natureza transitória da vida e da vaidade (vazio) que constituíam a fama e a fortuna. Para eles, as convenções sociais e as regras da propriedade eram piores do que a prisão política. Essas regras sociais sufocavam a liberdade de pensamento, de acção, e do sentir. A vida de Lui Ning, (Lui-I-ming?) um desses sete amigos, representou em si mesma uma rebelião contra todas as convenções sociais do seu tempo. Ele permaneceu afastado da política e evitou a vida social. Andava despenteado, de pés descalços, e passava o tempo a beber e a escrever poesia. Num dos seus poemas escreveu: “Se eu morrer à beira do caminho, abram simplesmente uma cova e enterrem-me nela.” Numa outra das cantigas da bebida ele gracejou que era melhor e mais seguro passar a vida num torpor alcoólico do que estar ao corrente do que se passava no mundo. Embora a via alternativa que o Lie-Tzu advoga não atinja atais extremos, possui a mesma coragem de se rir das pessoas ocas que perseguem objectivos vazios na vida.
Que propósito terá a vida? Para alguns, o objectivo do viver reside em tornar-se um cidadão útil e servir a sociedade e a nação, obter renome e contribuir para as artes e as ciências. Contudo quando os tempos são de opressão e as pressões sociais e políticas ameaçam ditar as ideias e as acções das pessoas, o homem sensato que muitas coisas na vida excedem o seu controlo e não se dispõe a trocar a liberdade e a paz de espírito por uma vida de ansiedade que acompanha a fortuna e o renome. Foi uma perspectiva de vida dessas que incitou o grandioso poeta chinês Tu Fu a clamar: Não importa o quão famosos sejais, um dia destes deveis morrer,” e o filósofo Yang-Chu a dizer: “ Na vida podemos ser todos diferentes, mas na morte todos iguais.” Esta voz ecoa por todo o Lie-Tzu, e adverte-nos de que nome, título, e reputação social não valem o sacrifício da saúde física e do bem-estar mental.
Muita gente pensa que todos os Taoistas tenham sido eremitas que se tenham retirado das questões mundanas. Isso não corresponde à verdade dos factos. Na história da China, nem todos os Taoistas eram reclusos. Alguns achavam-se activos nas instituições políticas, trabalhavam de perto com o governo e recebiam apoio imperial. Durante a dinastia Yuan (1271-1368DC) sob a liderança de Ch’iu Ch’ang-Ch’un, a Escola Taoista da Completa Perfeição, ou Quanzhen, apoiou o imperador e serviu a região na qualidade de conselheiros espirituais.
Também havia taoistas que não se satisfaziam com o status quo mas que acreditavam que poderiam ser feitas alterações por meio de reformas na política existente e no sistema social. O grande sábio taoista e erudito da dinastia Sung, Chen Hi-yi, era uma pessoa assim. Ele não serviu como conselheiro espiritual por forma nenhuma oficial, mas as propostas que elaborou com vista à reforma política e social foram adoptadas pelo imperador. A proposta mais famoso que fez ao imperador Sung envolveu preservar Hua-shan como um santuário Taoista.
Depois existiam taoistas que não aceitavam o estado das coisas mas que não acreditavam na reforma. Em vez disso, procuraram substituir o sistema estabelecido por meio da rebelião e da revolução. Chan-tao-liang, o homem que ganhou reputação de ter tornado o Taoismo de uma filosofia que era numa religião – constituiu um exemplo disso. Um exemplo mais recente foi a revolta Boxer do virar deste século 20, que envolveu Taoistas Maoshan (uma seita que advogava práticas mágicas).
Por fim, existiam Taoistas que nem apoiavam o status quo nem acreditavam que a reforma e a revolução pudessem representar opções viáveis. Não queriam, fazer parte de nenhum grupo, quer fosse pro ou contra ao sistema estabelecido. Esses eram os eremitas ou reclusos, e o seu modo de vida é apresentado no Lie-Tzu.
Até mesmo os eremitas têm diferentes razões para uma vida de ausência de envolvimento, e eram aqueles que se tornavam eremitas em protesto contra um governo estabelecido, como Po-yi e Shu.chi, que prefeririam morrer de fome nas regiões selvagens do que servir um senhor inimigo. Havia quem decidisse tornar-se eremita devido ao cansaço e à desilusão que sentiam em relação ao mundo, como o Taoista Lao-Tzu, e Lu Tung-pin. Depois havia aqueles que, á semelhança de Lie-Tzu, se tornavam eremitas não por questões de desapontamento ou de protesto contra o sistema mas antes por inclinação natural de reclusos.
Lie-Tzu era um eremita natural. A partir da escassa informação que nos chega acerca dele, ficamos a saber que, ao contrário de Lao-Tzu, ele jamais ocupou uma função. Ao contrário de Lu Tung-pin, ele jamais aspirou a ter um cargo ou a obter êxito na política. Tinha por disposição natural viver uma vida simples e tranquila, afastado dos assuntos turvos do mundo.
Os textos taoistas contêm uma filosofia destinada a ser vivida. Quando lemos livros sobre Taoismo, esperamos que os ensinamentos nos despertem e nos iluminem, e nos guiem nas nossas vidas. Mais do que qualquer outro texto, o Lie-Tzu apresenta uma filosofia prática de vida cuja mensagem é melhor entendida se escutarmos ao texto do que se o lermos. Este livro constitui uma tentativa de deixar que Lie-Tzu nos fale como se estivesse presente. Tem a esperança de comunicar a intenção do texto ao permitir que o texto fale por si próprio. Esse método de apresentar um texto é chamado de “expor” o texto, e não é de forma nenhuma novo. Faz parte da disciplina da hermenêutica, uma técnica que tem sido utilizada primordialmente na interpretação do sentido dos textos religiosos.
As ideias principais da hermenêutica são as seguintes:
- Um texto possui muitos níveis de significado. O sentido que a semântica do texto carrega constitui o sentido superficial.
- Um nível mais profundo de sentido é expressado na forma como as palavras são expressadas, e não só no que é pronunciado no texto.
- Níveis ainda mais profundos de sentido acham-se contidos na “intenção” de um texto, que constitui a sua “voz”.
- Os níveis ainda mais profundos do significado podem ser captados pela escuta.
- Textos religiosos e espirituais tendem a conter vários níveis de significado. O objectivo da hermenêutica consiste em “expor” o texto de forma que os níveis do sentido possam ser revelados.
A sabedoria é intemporal e transcende a linguagem. Ao mesmo tempo, a linguagem pode ser utilizada para expor o sentido de um texto. Se pudéssemos ver-nos livres das restrições linguísticas, eliminar o processo da tradução de uma língua para outra, e ir directamente dos ensinamentos do Lie-Tzu para dar expressão à sua voz na língua Portuguesa, isso havia de requerer que nos posicionássemos no estado de espírito em que o Lie-Tzu deva ter vivido, ou pelo menos pudéssemos ter afinidade pelo Lie-Tzu. Para isso precisamos tornar-nos unicamente num canal do Lie-Tzu, e deixar que ele flua naturalmente após nos termos imerso por completo nos seus ensinamentos. Quando mais vazia tivermos a mente, mais clara será a voz do texto. Assim, expor um texto e revelar o sentido que tenha requer espírito tranquilo, bem ao contrário de um estado de espírito analítico exigido pelo trabalho de tradução.
Qual será, pois, a voz do Lie-Tzu? Para mim é uma voz amiga, informal, e não a voz de um sábio omnisciente ou mestre. É a voz de alguém que dá conselho não porque seja um perito, mas por ter cometido erros e aprendido com eles. Procede de uma pessoa que nos permite dar atenção. Ele fala, pausa, e quando respondemos, ele volta a falar.
Não obtenho a mesma sensação da leitura do Lao-Tzu. O Lao-Tzu fala como um sábio que apresenta as suas ideias de uma maneira organizada. Além disso, quando terminamos a leitura, não resta nenhum período de interrogação. Cabe a nós inteiramente compreendê-lo.
O Chuang-Tzu transmite uma sensação diferente. O Chuang-Tzu é um excêntrico que se ri de si mesmo e não se interessa por se fazer compreender. Chuang-Tzu vagueia por um mundo diferente do nosso, completamente afastado dos assuntos do quotidiano. Ele vive num mundo em que as coisas vêm e vão em instantes fugazes, e em que o solo da realidade se encontra em constante mudança. Vez por outra conseguimos captar-lhe um vislumbre, mas teria sido impossível permanecer a seu lado e conversar com ele.
O Lie-Tzu é diferente. Lie-Tzu vive no nosso mundo e fala de experiências que conseguimos compreender. Fala sobre a vida e a morte, a fortuna e o infortúnio, o ganho e a perda, coisas por que nos interessamos, e problemas que queremos resolver na nossa própria vida. Ele fala da corrida alucinada pela fortuna e pelo renome e os infortúnios da busca do reconhecimento social. Desdenha das pressões sociais e das ocupações ocas dos ricos e famosos. Fala sobre a amizade, a comunicação humana, os sonhos, a realidade, e aprendizagem. Fala de coisas que não nos atrevemos a falar, mas quando lhe damos ouvidos, podemos sorrir, rir, ou acenar com a cabeça em concordância. O despertar da ignorância não é rude mas suave. É como se alguém suavemente nos abanasse e acordasse de um sono profundo. Assim, enquanto Lao-Tzu nos fala e o Chuang-Tzu fala dele próprio, o ie-tzu conversa connosco.
Lie-Tzu formula interrogações que nós colocamos a nós próprios regularmente: Que será a vida e a morte? Porque correrão as coisas sem problemas para alguns e não para outros? Como poderemos lidar com a ansiedade e a frustração no nosso quotidiano? De que forma poderemos aprender de uma forma mais efectiva? Que coisa será a felicidade na vida? Porque existirão tantos problemas no mundo? Os bens materiais e os ganhos sociais valerão a pena? Ele guia-nos numa direcção onde poderemos encontrar as respostas. E somente quando tivermos encontrado as nossas respostas para essas questões que fará sentido pensarmos na natureza do yin e do yang, em como essas energias interagem no universo e nos nossos corpos, como a energia circula no corpo e a que se assemelha a união com o Tao. Por outras palavras, o Lie-Tzu ajuda-nos a erguer as fundações necessárias para os elevados níveis do treino Taoista.
O lao-Tzu e o Chang-Tzu falam-nos do estado de iluminação. Descrevem a que se assemelha unir-se ao Tao e ficar repleto do sopro indiferenciado da origem. Não nos é dito coo esses sábios atingiram a iluminação nem do caminho que tiveram que seguir. Por outro lado, o Lie-Tzu mostra-nos as lutas que uma pessoa que tenta alcançar o esclarecimento enfrenta. Vemos o lie-Tzu às apalpadelas nas tentativas que empreendeu; vemo-lo rir-se de si próprio. Vemos o tipo de treino a que teve que sujeitar-se e os obstáculos que teve que suplantar. É-nos mostrado a que se assemelha o caminho da iluminação ao invés do seu alcance.
Enquanto Lao-Tzu e Chuang-Tzu não mais se importam com o mundo por o terem transcendido, o Lie-Tzu precisa lidar com problemas bem concretos, o mesmo tipo de problemas com que teríamos de lidar caso pretendêssemos embarcar num caminho espiritual. Ele tem que competir com pressões sociais, problemas financeiros, a política do seu tempo, e a dúvida-própria e egocentrismo. Nem Lao-Tzu nem Chuang-Tzu nos narram os problemas que tiveram que enfrentar pelo caminho até atingirem a iluminação. Quando os defrontamos, eles já são esclarecidos, e falam do estado pós-iluminação. Por outro lado, o lie-Tzu fala do processo para a alcançar. O conhecimento do estado final do treino espiritual é certamente importante, mas o conhecimento dos passos necessários ao processo é inestimável. Além disso, por nos podermos relacionar com os problemas que Lie-Tzu encontrou, descobrimos que o seu esclarecimento é muito mais efectivo e fiável.
O Lao-Tzu descreve o estado de realidade que o sábio experimenta; o Chuang-Tzu descreve o estado de espírito em que o sábio vive. Quantos sábios taoistas estarão na disposição de revelar experiências inerentes às suas vidas pessoais a título de exemplo para os outros? O Lie-Tzu não receia dizer-nos que passou imenso tempo a aprender sob a instrução do Velho Imortal Shang. Nem teme admitir que foi tolo ao pensar que tenha dominado a arte do tiro ao arco quando não o conseguiu. Mesmo quando se tornou num mestre autêntico, admitiu que desfrutava da atenção e da lisonja. A sua esposa não tinha medo de o repreender, nem ele ficava frustrado com os ataques de fúria dela. Todas estas coisas nos revelam que ele era uma pessoa acessível e humilde. Quantos sábios, após terem ficado iluminados, conseguiram voltar para os seus lares, ajudar na lida da casa e na cozinha, sem querer a atenção de discípulos ou admiradores?
Muita gente não admite as histórias do Lie-Tzu seriamente e narra-as como contos de fadas. Mas é precisamente por algumas histórias se acharem tão afastadas da realidade do nosso quotidiano que conseguem dar-nos conta de coisas que de outro modo acharíamos difíceis de aceitar. Se o Lao-Tzu é poesia e o Chuang-Tzu é prosa, então o Lie-Tzu constitui uma série de histórias em quadrinhos. Exagerando os aspectos ridículos das acções humanas, ele retracta a condição humana com bom humor e zomba dos tabus sociais. Quando rimos do humor retractado nas histórias de quadrinhos, em essência estamos a rir de nós próprios. Desse modo, enquanto o Lao-Tzu constitui a voz da sabedoria sincera e o Chuang-Tzu representa a voz da sabedoria tresloucada, o Lie-Tzu constitui a voz da sabedoria bem-humorada.
A filosofia do Lao-Tzu é iminente, e procede de cima; podemos admirá-la e esperar conseguir segui-la, mas é de difícil alcance. A filosofia do Chuang-Tzu procede de um mundo bastante diferente do nosso; podemos tentar captá-lo, mas revela-se demasiado esquivo de captar. A filosofia do lie-Tzu vem da posição em que nos encontramos. Fala-nos ao nosso nível e fala de experiências relacionadas connosco e que conseguimos compreender. Finalmente, o Lie-Tzu representa a voz que podemos ouvir seja onde for que estejamos ou o estado de espírito em que nos encontrarmos. Alguns textos falam apenas nas salas de aula; outros apresentam-se melhor num retiro de montanha. Certos textos falam-nos quando nos sentimos em baixo e outros quando nos sentimos calmos e em paz. Seja qual for o que estado de espírito em que nos encontrarmos, o Lie-Tzu sempre tem algo a dizer. Podemos ouvi-lo falar nas ruas apinhadas das horas de ponta; podemos ouvi-o quando trabalhamos sossegadamente nos nossos jardins, ou enquanto damos um passeio à tarde, ou mesmo em meio a uma festa apinhada de gente. Sentimos reverência pelo Lao-Tzu, perplexidade perante o Chuang-Tzu, mas nunca temor do lie-Tzu.
Da Introdução de Eva Wong
Sinopse
Parte 1 – As Dádivas do Céu: Acerca da Natureza do Tao e da Origem das Coisas
Todas as coisas têm origem no Tao, o vapor primordial indiferenciado que concede vida a todas as coisas. A criação tem quatro estágios: a Unidade Primordial, em que todas as coisas eram indiferentes umas das outras; o Emergente Primordial, quando o Vapor Primordial assumiu forma e tudo abrangeu no seu abraço; o Começo Primordial, quando as energias yin e yang interagiram a fim de produzirem as formas e os contornos das coisas; e a Substância Primordial, em que as formas assumiram qualidades e características definitivas.
A humanidade constitui um produto da interacção das energias yin e yang, e, à semelhança de todas as coisas vivas, percorremos um ciclo de nascimento, crescimento, e de morte. Desse modo, nascimento e morte constituem ocorrências naturais e não deveriam ser combatidas.
Por devermos a nossa existência ao Tao, não somos senhores dos nossos corpos, nem tampouco temos controlo sobre o nosso destino. Todas as coisas vêem e vão naturalmente. O que tiver que vir virá sem que o ajudemos, e o que tiver que ir irá independentemente do quanto arduamente tentemos impedi-lo. Este é o caminho do Tao. Somente aqueles que entenderem isso poderão ser livres da ansiedade do nascimento, do crescimento, e da morte.
(NT: Toda esta última a noção de destino aqui apontada assenta numa enorme distorção, e a impossibilidade de dirigirmos o rumo das nossas vidas é próprio das abordagens indulgentes para com o “poder superior” implícito às noções ancestrais da fatalidade, pelo que se apela à compreensão do leitor para os múltiplos factores que terão contribuído para tal, como limitação de crença da época e mesmo vagas as sucessivas de interpretação e de tradução baseadas na inclinação natural do tradutor)
Parte 2 - O Imperador Amarelo: Sobre a natureza da Cedência ou Não Resistência
Na segunda parte o lie-Tzu fala sobre a arte da cedência. O rígido ramo de uma árvore quebrará diante de uma forte ventania, enquanto um ramo brando e flexível sobrevive à tempestade. O conhecimento da reacção à força com cedência e de como absorver a força com a suavidade constitui a chave da sobrevivência.
No tempo do Lie-Tzu, as nações pequenas podiam somente sobreviver ao deixarem de opor resistência à força, e uma pessoa só conseguia permanecer viva se não marrasse com as potências mais fortes. Conforme o Lao-Tzu tinha ensinado: “De todas as coisas, nada é mais brando do que a água, e no entanto ela consegue desgastar as rochas.” É igualmente isso que o Lie-Tzu recomenda. Enquanto a água pode fluir através das fendas das rochas, ramos e troncos de árvores são rachados por penedos.
A cedência também constitui o segredo da transcendência dos limites do corpo e da mente. Apenas aqueles que não combatem os elementos podem fundir-se neles; ao faze-lo, podem permanecer debaixo de água sem se afogarem e caminhar sobre fogo sem se queimar.
Por fim, a cedência para com a ocorrência natural da vida e da morte e do ganho e da perda preparar-nos-á para o que acontecer. Não nos excitaremos com o ganho nem entristeceremos com a perda. Desimpedidos pelo medo, pela ansiedade, ou pelo entusiasmo, teremos liberdade para proclamar o que nos acometer, para pensar o que nos vier naturalmente à ideia, e para fazer o que naturalmente nos brotar do coração.
Parte 3 – O Rei Mu de Ch’ou: Acerca da natureza da realidade
Aqui, Lie-Tzu questiona as perspectivas convencionais da realidade e pergunta: “Que coisa será o real?” Com isso faz eco ao Chuang-Tzu, quando este dizia: “Estarei a sonhar que sou uma borboleta, ou serei uma borboleta que sonha que é um homem?”
Para o Lie-Tzu, a realidade não é permanente conforme pensamos que seja. As fronteiras entre o real e o irreal, o despertar e o sonhar, são difusas. Por conseguinte, porquê dar tanta importância às coisas impermanentes tais como fama e fortuna? Porquê forçar-nos a nós próprios a limites desnecessários e padecer de ansiedade e de infelicidade em nome da virtude e da honra? Para além disso, a adopção de uma abordagem alegre e despreocupada para com o que é real poderá ajudar-nos a ter menos apego e a envolver-nos menos. Em resultado, tal como o homem que sente saudades que percebe que se aborrece por nada, poderemos compreender que a forma como nos sentimos depende daquilo em que acreditamos.
Parte 4 – confúcio: sobre a natureza da iluminação
De acordo com o Lie-Tzu, a diferença entre a pessoa esclarecida e o não esclarecido tem lugar na relação existente entre mente e corpo e o próprio e os demais. O sábio Kang-sen-tzu conseguia ver e perceber sem olhos e ouvidos por ter a mente em sintonia com tudo o que o rodeava. Por vezes as pessoas esclarecidas ocultam a proficiência de que gozam, como o Conde de Kung-yi. Por vezes, à semelhança de Nan-kuo-tzu, e de Kung-sun-lung, portam-se de modo contrário, ao apresentarem estranho argumentos e ao falarem por paradoxos para despertar os outros da ignorância. Mas em todos os casos, o sábio nem critica nem faz troça dos outros. E acima de tudo, para a pessoa iluminada, o esclarecimento espiritual constitui uma experiência comum e vulgar alcançável por qualquer um.
Pare 5 – as interrogações de t’ang: acerca da natureza da atitude
Nesta secção, Lie-Tzu fala acerca das atitudes e do quão elas nos afectam. Atitudes há que nos destruirão, como o orgulho, a competitividade, e a vingança. Existem atitudes que nos libertam da ansiedade e do estrese, como o desapego, a tranquilidade, e a paz interior.
O facto de uma dada coisa poder ser chocante ou não depende da atitude com que a abordamos. A compreensão e a comunicação dependem igualmente da atitude. Se escutarmos com uma mente serena e não deixarmos que as nossas ideias nos distraiam, entenderemos os outros mesmo antes de pronunciarem as palavras. As pessoas que insistem deliberadamente em esclarecer a semântica destruirão tal atitude e limitarão a comunicação ao discurso e à palavra, e nenhuma compreensão espontânea ou intuitiva será possível.
A aprendizagem também requer uma atitude certa. Quer estejamos a cultivar a arte ou a ciência ou a dominar uma habilidade física ou a destreza mental, precisamos dissolver a barreira existente entre nós e o que é cultivado. A prática requer a capacidade de traduzir a intenção pela acção, o que por sua vez requer que o corpo tenha espontaneidade e capacidade de resposta e a mente permaneça imóvel e clara. Por conseguinte, em toda a matéria de aprendizagem, o treino de mente e de corpo são igualmente importantes. Se a mente estiver imóvel mas o corpo não tiver capacidade de reacção, nenhuma intenção conseguirá ser comunicada ao corpo. Se o corpo tiver capacidade de reacção e a mente se encontrar confusa, as acções resultarão confusas.
Por fim, o ensino requer igualmente uma certa atitude. O verdadeiro professor é aquele que reconhece as suas limitações. Quantos professores ou peritos hoje poderão assemelhar-se a Confúcio, que era capaz de admitir às crianças não saber as respostas para as suas perguntas?
Parte 6 - esforço e destino: acerca da natureza dos acontecimentos
De acordo com Lie-Tzu, sorte e o infortúnio, a vida e a morte, sucedem por si próprias sem qualquer direcção ou controlo da nossa parte ou da parte de um ser supremo. (NT: O que constitui claramente um mito, conforme o conhecimento que nos chega actualmente, recordemos, embora esta passagem encerre um sentido nuclear algo diferente) Posto isso, porque preocupar-se com coisas em relação às quais não podemos fazer muito? Por que razão procurar predizer o que pode suceder e antecipá-lo com a ansiedade?
Lie-Tzu não sugere que devamos ser mórbidos e abraçar o destino. Ele sente que devíamos ser gentis connosco próprios se não quisermos matar-nos procurando fazer com que as coisas sucedam ou impedindo a sua ocorrência. Muitas vezes, sentimo-nos seguros quando pensamos ter considerado uma situação de todas as perspectivas ou sentimos que todas as contingências tenham sido previstas. Porém, tal sentido de segurança é falso, por ninguém poder garantir o que ocorrerá e o que deixará de ocorrer.
O imperador de Ch’in ergueu uma enorme muralha e silenciou a oposição numa tentativa de fazer com que o império perdurasse, mas a sua dinastia caiu após a sua morte. Podemos procurar tomar precauções e assegurar-nos das coisas em prole dos nossos filhos e sucessores, mas nada garante que as coisas saiam da forma que pretendemos.
Por fim, o Lie-Tzu adverte-nos de que, como não exercemos controlo sobre as circunstâncias externas, a única coisa que podemos fazer é controlar as reacções que lhes movemos. Por conseguinte, quando menos apegados formos para com os acontecimentos que nos rodeiam, menos conduzidos a eles seremos, emocionalmente. Para Lie-Tzu a aceitação do destino não significa submissão à fatalidade. Trata-se de reconhecer que muitas são as coisas que se acham além do nosso controlo e que nós não somos impulsionadores dos acontecimentos. (NT: Ora, cá está o conceito inamovível que parece ser o mais difícil de destronar – o que que não criamos TODA a nossa realidade! Característico.) O mundo não revolve ao nosso redor. À semelhança de tudo o mais, somos apenas uma parte do desenrolar dos acontecimentos.
Parte 7 – yang-chu: acerca da liberdade pessoal
A mensagem da sétima parte é muito simples e directa. A vida é curta e transitória; fama e renome são vazios, e as regras sociais e as convenções sufocam a liberdade pessoal.
O capítulo subordinado ao Yang-Chu é muitas vezes considerado uma anomalia no Lie-Tzu. Contudo, se examinarmos os ensinamentos de Yang-Chu de perto, perceberemos que estendem as ideias taoistas da não-acção e da simplicidade à questão da liberdade pessoal. Para ele, regras, regulamentos, normas e conquistas sociais tais como fama, respeito, renome e reputação são tudo obstáculos à liberdade de pensamento, de acção, de expressão, e do sentir. A abordagem que faz da vida é muito inequívoca e simples – vive a tua vida e não deixes que os outros te mandem em ti. Vive de acordo com os teus princípios e não pelos dos outros.
Contudo, a filosofia de Yang-Chu não representa uma forma irresponsável de hedonismo em que muita gente a torna. Os conselhos que Yang-Chu nos dá são de fazermos apenas o suficiente para levarmos uma vida de satisfação. Sabermos quando devemos parar, ou perderemos tudo.
Por fim, o Yang-Chu tem algumas ideias perspicazes sobre tornar o mundo melhor, ou a “salvação do mundo”. Ele pensa que se as pessoas não fossem tão ansiosas por representar o herói ou o salvador e deixassem as coisas em paz, o mundo sair-se-ia muito melhor. Certa gente pensa que este tipo de não envolvimento seja egoísta e indiferente. Contudo, muitas foram as atrocidades que foram cometidas em nome do “tornar as coisas melhores”. Se nos interrogarmos sobre quem tornarás as coisas melhores para quem”, e “porque padrões,” começaremos a entender o ponto de vista de Yang-Chu. Culturas nativas foram destruídas por algumas pessoas pensarem que as coisas seriam melhores se os indígenas se tornassem “civilizados”. Foram cometidos genocídios por alguém ter pensado que o mundo seria um lugar melhor se certos grupos étnicos fossem exterminados. Quando consideramos o imenso número de coisas que foram perpetradas em nome do tornar o mundo num lugar melhor, a asserção que Yang-Chu faz de não sacrificar um cabelo em benefício do mundo provavelmente não seria a atitude egoísta e indiferente que é interpretada.
Parte 8 – explicando coincidências: acerca da relação existente entre as coisas
 Quer entendamos os acontecimentos como causa e efeito, uma resposta a uma situação, recompensa ou retribuição (punição), uma mera coincidência, ou um acidente, depende da forma como interpretamos os relacionamentos entre as coisas e os acontecimentos.
Acontecimentos há que não podem ser explicados, de forma que os atribuímos à sorte, a um posicionamento no lugar certo à hora certa. Enquanto muita gente não considera a sorte como um factor sério, Lie-Tzu pensa ao contrário. Se estivermos dispostos a admitir que a sorte desempenha um papel nas nossas vidas, seremos menos pretensiosos em relação ao êxito e menos deprimiremos em relação ao infortúnio. De modo similar, se aceitarmos que essas coisas simplesmente não podem ser explicadas, o mais provável é que as deixemos em paz e as não tentemos forçar ou tentemos impedir que ocorram.

Parte I
Cosmogonia
OU as dádivas DO CÉU

INTRODUÇÃO
Os antigos diziam que o gigante Pan-ku tinha criado o mundo ao separar o céu e a terra com um enorme machado. As montanhas e os mares encaixaram nos seus devidos lugares; relva e arvoredo brotaram do solo, e os animais começaram a vaguear pela terra. Mas não existiam seres humanos. Então, a deusa Nu pegou numa terra amarelada, misturou-a com água das nascentes e formou uma pequena figura. Assim que a colocou no solo, esta pequena coisa saltou e correu e fez ruídos estranhos com a boca. O seu nome é “humanidade.”
Os antigos chineses viam a vida como uma dádiva dos céus e reconheciam sermos feitos da mesma matérias das montanhas, da terra, das plantas e dos animais. Lie-Tzu, que compreendeu isso, disse: “O vosso corpo não é pertença vossa; a forma que o compõe foi-vos emprestada pelo céu e pela terra. A vossa vida não vos pertence; chegou a existir pela interacção das energias de céu e terra. A vossa mente e espírito não vos cabe controlar; elas seguem os modos naturais da terra e do céu. Os vossos filhos e netos não são posse vossa; eles não passam de flocos da vossa pele, por a procriação vos ter sido garantida pela terra e pelo céu.
Como a vida constitui um fenómeno natural, o melhor é deixar que assim seja. Não há necessidade de gastar tempo nem esforço a tentar moldá-la ou a restringi-la com regras e regulamentos. Ao contrário, devíamos utilizar o nosso tempo no nosso próprio cultivo, de modo a podermos vaguear e saber para onde nos dirigimos, contentar-nos e saber o que nos impede, e comer e saber a forma como obtemos nutrição.” A isso se chama “esquecer-se de si,” e alcançar esse estado de espírito é atingir o Tao.
1- aquilo que é incriado dá vida a todas as coisas
   O nosso mestre Lieh-Tzu era pessoa humilde e sincera que vivia numa pequena porção de terra cultivada, no Estado de Ching havia quarenta anos e ninguém sabia apreciá-lo por aquilo que ele era. Os seus pensamentos e acções dizem-nos que ele era invulgarmente comum; era despretensioso e jamais exibia os conhecimentos que possuía. Ele levava uma vida simples e tranquila e não competia com os demais por reconhecimento. Por isso, tanto o Príncipe como os ministros e os demais oficiais do governo o tinham apenas na conta de mais um dos seus súbditos.
   Sem os encargos e problemas associados à fama e à fortuna, Lie-Tzu podia levar uma vida de lazer e ser livre para fazer o que quisesse e para ir onde quisesse. Para ele, ser um cidadão desconhecido era melhor do que ser uma pessoa detentora de poder e de responsabilidade. Numa altura em que os políticos faziam jogos de intriga, lie-Tzu achava melhor permanecer em silêncio e ser sincero consigo próprio. Claro está que há coisas a que mesmo um sábio não pode escapar. Mas ao não se achar vinculado aos costumes e às convenções sociais, Lie-Tzu era capaz de lidar com a adversidade muito melhor que qualquer outra pessoa.
   Mas, numa altura em que no Estado grassou a fome e ele deliberara emigrar para Wei, por pensar que para além do mais isso lhe daria a oportunidade de viajar para uma terra desconhecida e de alargar os horizontes do conhecimento que possuía, os seus discípulos perguntaram-lhe: "Agora que partis, sem que possamos prever data certa para o vosso regresso, ousamos finalmente interpelar-vos, mestre, em busca de instrução. Não terá o vosso mestre Hu Tzu proferido nada que possais repartir connosco?" Eles tanto insistiram que por fim ele lá disse: “Pensem nisto. Um homem experimentado jamais profere uma palavra, mas podemos constatar que tudo tem o seu lugar no universo. A natureza tem muito a ensinar-nos. Tudo quanto precisais é abrir os olhos e olhar. As mudanças que vêem na natureza seguem um curso; as quatro estações comportam-se de uma forma ordenada. Na verdade todas as questões humanas seguem os mesmos princípios dos trabalhos do céu e da terra. Que mais poderei dizer?”
   Mas como os estudantes não se deram por satisfeitos e o continuaram a importuná-lo com perguntas, e um deles perguntou: “Senhor, apesar de sentires não teres nada a dizer, poderás pelo menos dizer-nos o que o vosso mestre Hu-tzu vos ensinou?”
Lieh Tzu sorriu e disse: "Supondes que Hu Tzu era homem de conversar? De qualquer forma procurarei repetir aquilo que ele transmitiu a Pohun Maoren, um condiscípulo meu. Eu encontrava-me por perto e consegui apurar o seguinte:
   “Há muitas coisas no universo que não compreendemos. Por exemplo, certas plantas e animais requerem auxílio dos outros para crescerem e sobreviverem, ao passo que outras não. Nós, humanos, dependemos das plantas e dos animais para sobrevivermos. Também precisamos que parte da nossa comunidade cultive a terra e crie gado para sustentarem o resto de nós. Por outro lado, os cactos conseguem crescer nas condições mais hostis sem grande apoio para sobreviver. Em geral, aqueles que não dependem do ambiente externo para sobreviverem acharão a sobrevivência mais fácil do que aqueles que dependem. Quando o ambiente de apoio se extingue eles não perecem.
   “Contudo, não devíamos desprezar aqueles que dependem dos outros para a sobrevivência e devíamos deixá-los crescer à sua própria maneira, por o seu modo de vida ter o seu lugar na manutenção do equilíbrio do universo. Se tentarmos alterar o seu modo de vida, perturbaremos o equilíbrio das coisas, e a ordem do universo sairá perturbada.
   “Todas as coisas têm o seu lugar no universo, quer sejam activas ou passivas, quer se movam ou não. Satisfazem a função que têm no mundo simplesmente pelo facto de existirem da forma que existem. Tudo desempenha a sua parte no processo da criação, da nutrição, da transformação e da destruição. A criação de uma coisa constitui a destruição de outra. Sempre que alguma coisa cresce e se desenvolve, alguma outra entra em decadência. A cada instante há nascimento e morte, vinda e ida. Quando algo desaparece, alguma outra coisa emerge. Isso constitui a lei do equilíbrio natural de todas as coisas. Se subsistisse apenas crescimento isento de decadência, então o mundo ficaria sobrepovoado com pessoas, animais ou vegetação. Se subsistisse apenas decadência sem crescimento, então a vida deveria desaparecer. Para que o mundo possa ter continuidade tem de existir equilíbrio entre todo o crescimento e decadência. Dessa forma a vida tem continuidade no universo. Tal processo jamais se detém.
“Portanto, existe um Princípio Criativo que, em si mesmo, é incriado, e um Princípio de Mudança que, em si mesmo, permanece inalterável. O Incriado é capaz de originar toda a vida e o Inalterável capaz de conduzir toda a mudança. Toda a produção de mudança está sujeita à continuidade. Do mesmo modo aquilo que se desenvolve está igualmente sujeito à evolução. Assim resulta um fluxo permanente de mudança e de evolução que, sob a forma de Lei, jamais cessa de operar. Assim aconteceu com os contrários de Yin e Yang, da mesma forma que com as quatro estações. Yin e Yang formam os Princípios positivo e negativo da Natureza, predominando de forma alternada sob o aspecto de dia e noite. Mas acerca do Incriado, podemos conjecturar apenas que permanece só em si mesmo. A realidade do Supremo Incriado não pode ser comprovada. Podemos unicamente supor que seja misteriosamente uno, isento de princípio e fim. O Incriado vai e vem e o seu alcance é ilimitado. Dele só podemos supor que seja único e que os seus caminhos sejam inexauríveis.
   “Se conseguirem apreender o significado da ausência de esforço, então não haverá nada que não possam empreender. Podem tornar-se rígidos ou flexíveis, altos ou baixos, polivalentes ou ambivalentes.
   “Se obtiverem conhecimento de como não empreender nada (para além do circunscrito pela totalidade implícita...) poderão ter acesso a qualquer conhecimento e obter qualquer coisa.
   “Todavia, se não souberem manter-se serenos, em meio a todo este mundo tumultuoso, serão arrastados para toda a sorte de problemas desnecessários. Perderão o Caminho de vista, e, alcançá-lo de novo deverá já tornar-se demasiado tarde, porquanto pela sua perda também se deverão perder.
   “A vida é tão só a junção das energias do céu e da terra, e a sua fonte é infinita e incriada; não possui começo nem fim. Como poderemos alguma vez chegar a alcançar o Caminho do céu ou da terra?
   “Sem pompa nem ostentação, os indivíduos esclarecidos preservam o seu modo de vida ordinário até ao fim, dotados de simplicidade e contentamento, anónimos e sem sofrerem afectação alguma por parte das suas convenções.
   “No livro do Imperador Amarelo vem escrito que o Espírito do Vale jamais perece, razão porque pode ser chamado de “Misterioso Princípio Feminino”. A questão apresentada por tal princípio deve ser tida em conta de representar a Raiz do Universo que subsiste por toda a eternidade e utiliza o seu poder sem qualquer esforço. Por ser oco, é capaz de suportar, abraçar e nutrir o espírito.
   “É por isso que aquilo que, por ser vazio e representa o Princípio Feminino engendra as diferentes coisas é, em si mesmo, imutável, do mesmo modo que aquilo, a partir do que todas as coisas evoluem, permanece intocado por toda a evolução. Sendo auto-gerado e tendo evoluído de si próprio, contém todos os elementos da aparência, da substância, da força, da sabedoria, dispersão e repouso. Contudo errado seria que o tratássemos por qualquer dessas qualidades.
2- todas as coisas se acham ligadas e procedem da mesma fonte
   O mestre Lie-Tzu sentiu que os estudantes não compreendiam bem o que ele queria dizer, e prosseguiu: “Ele dizia que os inspirados de outrora empregavam o Yin e o Yang ao se referirem à natureza das coisas (Princípios do Céu e da Terra, Masculino e Feminino) e descreviam as mudanças verificadas entre Céu e Terra como a interacção dessas energias. Uma vez, porém, que aquilo que é incorpóreo brota do incorpóreo, a partir do que, então terão sido originados o Céu e a Terra? Foi a partir do Nada do domínio da indiferenciação, em que não existe nem nascimento nem morte, tendo passado a existir por mote próprio. Por jamais perecer, dura para sempre. Acha-se na terra e no céu mas nem céu nem terra o reconhecem. É todas as coisas, mas ainda assim nenhuma o reconhece.
   “Por isso diziam existir um Grande Princípio de Unidade, de Começo Primordial, e de Substância Primordial. Nesse Grande Princípio de Origem reside o começo de toda a substância. No Grande Começo reside o Princípio da forma material.
   “No Sublime Princípio da Unidade reside o começo das qualidades indiferenciadas. Não comporta sujeito nem objecto, forma nem contornos. Numa altura em que a substância, a forma e as qualidades essenciais ainda se encontravam no estado indistinto de associação, existia o Caos que incorporava todas as coisas numa mistura ainda indissociável. Os elementos mais refinados e depurados que tendem a elevar-se constituíram os Céus, enquanto os mais grosseiros e pesados, que tendem a permanecer em baixo constituíram a Terra. A substância, uma vez proporcionada de forma harmoniosa, tornou-se o Homem.
   “Todas as coisas se originaram e desenvolveram do elemento espiritual de Céu e Terra e são inseparáveis Acham-se ligadas à origem indiferenciada. Apesar de todas as diferenças aparentes, todas as coisas se encontram ligadas umas às outras e à sua origem, o Tao.”
3- céu e terra têm as suas forças e fraquezas
   “O mestre dizia: Embora devamos a nossa existência ao Céu e à Terra, os poderes dos sábios e a utilidade da miríade de coisas existentes na criação em nenhum sentido são omnipotentes nem autónomas, por Céu e Terra não poderem fazer tudo. Do mesmo modo, embora os sábios possam contar-nos acerca do passado e mostrar-nos o futuro, eles não conhecem todas as coisas.
   “A função do Céu reside em produzir vida e regê-la, mas não conseguem suportá-la nem mantê-la; a função da Terra está em dar forma aos corpos materiais e sustentá-los, mas não lhes confere vida nem lhes providencia abrigo. É função dos sábios instruir os demais e influenciá-los para o bem. É função de todas as coisas criadas conformar-se à sua própria natureza, e não ir contra ela. Assim sendo, coisas há em que a Terra se torna excelente, ainda que se achem fora do alcance do Céu.
   “Daí podermos concluir que aquilo que gera vida não é capaz de a suportar; aquilo que confere um corpo e sustenta a forma é incapaz de instruir ou de influenciar para o bem; aquele que tal coisa opera não pode ir contra o seu instinto natural. Aquilo que permanece no seu âmbito adequado não se atreve a aventurar-se para fora do seu domínio, e pode ser resumido como virtude e justiça. Por isso a actuação de Céu e Terra tanto pode assumir um como o outro tipo de manifestação: As qualidades de duro ou brando, leve ou pesado, macias ou ásperas. Tudo isso se conforma à sua natureza apropriada e não se coíbe de se demarcar do que lhes está consignado.
   “Por um lado existe a vida, do mesmo modo que aquilo que a produz; existe a forma e existe também aquilo que a cria; existe o som e existe igualmente aquilo que o cria; existe a cor, e aquilo que a provoca; existe o paladar, bem como aquilo que o motiva.
  “Tudo o que é dotado de vida se acha sujeito á morte; porém, aquilo que em si mesmo lhe deu vida jamais perecerá. A matéria é a origem de toda a forma, porém, aquilo que cria a forma não possui existência material. O Princípio sonoro reside no sentido da audição, porém, aquilo que se torna causa desse efeito, não pode ser escutado com o ouvido. A fonte da cor reside na visão, todavia, aquilo que a produz jamais se manifesta à vista. A origem do paladar reside no sabor; contudo, aquilo que faculta o sabor jamais poderá ser percebido através do sentido do paladar. Todos esses fenómenos constituem função do Princípio de Inacção, ou ausência de esforço. (Wu Wei; o Todo Inalterável)
   “Se compreenderem o significado da ausência de esforço, então não existirá nada que não consigais ser, por mote próprio da vontade: claro ou obscuro, duro ou brando, curto ou comprido, redondo ou quadrado, morto ou vivo, quente ou frio, que flutua ou afunda, agudo ou baixo, presente ou ausente, branco ou preto, doce ou amargo, fragrante ou fétido - isso é ser destituído de saber e, no entanto, conhecedor de todas as coisas; destituído de poder, contudo detentor de toda a força. Isso é Tao.”
4 – vida e morte
   De partida para Wei, Lieh Tzu parou à beira da estrada a fim de tomar uma refeição. Os seus discípulos deram com um velho crânio e afastaram a vegetação para melhor o expor ao mestre. Lie-Tzu viu o crânio de um ser humano que tinha mais de cem anos. Ele pegou nele, sacudiu a terra que o envolvia e contemplou-o por um instante. Por fim, pousando o crânio no solo, suspirando, voltando-se para Bo-feng, seu discípulo, Lieh Tzu disse:
“Somente eu e esse crânio compreendemos a vida e a morte, absolutamente. Serás tu afortunado por estares morto e seremos nós felizes por estar vivos? Talvez sejas tu o sortudo e nós os infelizes! Se nos considerarmos como seres que percorrem o ciclo da evolução, então nesse caso eu devo estar vivo e ele morto. Porém, contemplado do ponto de vista do Absoluto - desde que não existe princípio nenhum de vida assente em si mesma - segue-se naturalmente que não pode existir coisa tal como morte.
  “Muita gente sua e labuta e sente-se satisfeita por ter obtido muitas coisas. Todavia, no final não somos tão diferentes quanto isso deste pedaço de osso polido. Daqui a cem anos, todos quanto conhecemos não passarão de uma pilha de ossos. Que haverá que teremos a ganhar na vida e a perder com a morte?
   “Os antigos sabiam que a vida não pode prolongar-se para todo o sempre, e que a morte não representa o término de todas as coisas. Por isso não se entusiasmavam com o evento da vida nem se deprimiam com a ocorrência da morte. Nascimento e morte fazem parte do ciclo natural das coisas.
   “Este conhecimento é mais exacto do que todos os vossos métodos para prolongar a vida, e fonte de felicidade mais promissora que qualquer outra. Somente aqueles que conseguem ver por entre as ilusões da vida e da morte se poderão renovar com o céu e a terra e envelhecer com o sol, com a lua, e as estrelas.
5 – sombras, sons e fantasmas
   “A acção de uma coisa produz um efeito noutras. Num universo em que todas as coisas se acham interligadas, isso é apenas natural. Assim, uma forma e a sua sombra, um som e o eco que produz, sempre permanecem ligados. Quando há acção, dá-se um efeito. Quando se produz um efeito, gera-se uma resposta em termos de acção.
   “Vem descrito no livro do Imperador Amarelo o seguinte: “Quando a forma se move não produz forma mas sim sombra; quando o som se propaga, não emite som mas apenas eco. A imobilidade não gera imobilidade mas movimento.”
Embora as coisas sejam diferentes na aparência, todas brotam da mesma origem e regressarão à mesma fonte. Certas coisas poderão perdurar mais do que outras, mas todas as coisas eventualmente retornarão àquilo que eram antes que chegarem a existir. As pessoas empregam termos como “início” e “fim” para descreverem o começo e o término das coisas. Contudo, “início” não passa da reunião resultante de um aglomerado da energia, e o “fim” consiste simplesmente na dissolução ou dispersão dessa energia. Aquilo que se reuniu pode facilmente dissolver-se caso as condições tornem isso favorável. Aquilo que sofreu dissolução pode voltar a reunir-se caso as circunstâncias sejam apropriadas. Isso é o que nós mortais entendemos por princípio e fim. Por isso, quem poderá dizer que existe um começo ou um fim?
Se bem que para nós esta condensação da forma no estado de aglomeração constitua um começo - do mesmo modo que a sua dispersão um fim - do ponto de vista da dispersão são o vazio e o sereno que constituem o começo e a condensação na forma que formam verdadeiramente um fim. Por isso existe uma alternância contínua em que os constituintes são o momento e o fim, e a verdade subjacente é a de que não existe nenhum começo nem fim, absolutamente.
A vida e a morte seguem o seu curso natural, e nós devíamos deixar que ocorresse e se dispersasse do mesmo modo. O problema para muitos é que quando é hora de partir, ainda se agarram à vida, e quando é tempo de alguma coisa vir ao mundo, impedem-na. Isso atenta contra a ordem natural das coisas. É por isso que os antigos diziam que o que tiver que suceder sucederá, e que o que tiver que ceder, cederá. As pessoas esforçam-se por fazer com que as coisas aconteçam ou com que deixem de acontecer, por não compreenderem a ordem natural das coisas. Acreditam que podem controlar o resultado das coisas, e no final, após imenso esforço, descobrem que o trabalho árduo produz o efeito oposto.
   O curso da evolução termina onde começou, sem existência de nenhum princípio; onde teve início, é aí exactamente que acaba - no Inexistente. Eis um modo paradoxal de declarar que não existe nenhum começo nem fim.
   Tudo aquilo que possui vida retorna à condição “destituída de vida”; aquilo que possui forma, de novo regressa à ausência de forma. Isso que chamo “isento de forma” não constitui o estado Informe original. Aquilo que aqui é cognominado “destituído de vida”, possuiu anteriormente vida e, subsequentemente passou á extinção da morte, enquanto o Inanimado original não conhece - desde o princípio - nem vida nem extinção. Uma vez mais se faz aqui presente uma distinção entre o imutável princípio criador de vida (Tao- ele próprio destituído de vida), e todas as coisas viventes que se acham num fluxo constante entre a vida e a morte. Aquilo que possui vida, deve- pelas próprias leis da sua existência- ter um fim. Tal fim não deverá ser evitável, do mesmo modo que toda a criatura vivente não poderá evitar ter nascido. Por isso, aquele que procura perpetuar a sua vida ou impedir o próprio fim, permanece enganado quanto ao seu destino.
   O elemento espiritual existente no homem faz parte do princípio do Céu, assim como o corpo é moldado pela Terra. O que pertence ao Céu é etéreo e esparso; o que pertence á Terra é denso e aglomerável. Quando o espírito abandona o corpo, cada um desses elementos retoma a sua natureza real. Aquilo que é puro e leve erguer-se-á e subirá aos céus, e aquilo que é denso e pesado afundar-se-á e será absorvido pela terra. É por isso que os espíritos desencarnados são chamados fantasmas - o que prenuncia aquilo que retorna à sua verdadeira morada - a região do Supremo Vazio (Céu e terra). A nossa vida neste mundo constitui uma jornada ao longo do ciclo a que chamamos de “Vida”.
À semelhança de convidados, demoramo-nos algum tempo neste reino antes de partirmos para outro. Mas quem poderá dizer quanto tempo este viajante permanecerá no reino seguinte antes de embarcar numa outra visita ao reino dos vivos?
   O Imperador Amarelo disse: “Se o meu espírito retorna pelos portais por onde veio, e os meus ossos voltam para a fonte da sua proveniência, onde poderá o “eu” continuar a existir?”
6 – estágios da vida
   Entre o nascimento e o seu fim, o homem atravessa quatro grandes estágios: a infância, a adolescência, a maturidade e a velhice. Na infância a força vital acha-se concentrada, a vontade coesa e a harmonia generalizada do corpo em perfeito estado e de acordo com a natural ordem das coisas. Os objectos externos não produzem nenhuma impressão de injúria nem afectam a criança e quanto à sua natureza moral, nem a virtude nem a ética lhe poderão restringir a vontade. Despida e livre de convenções, ela segue a senda natural do seu coração.
Na adolescência, as paixões carnais tornam-se exuberantes e violentas e o coração deixa-se assaltar por desejos e preocupações volitivas. O homem expõe-se ao ataque dos objectos dos sentidos e dessa forma as circunstâncias externas dirigem-lhe o surgimento e o desaparecimento das emoções. A vontade e a intenção são restringidas pelas convenções sociais. A competição, o conflito e a intriga passam a constituir a norma nas interacções com as pessoas. A aprovação ou reprovação dos outros ganha importância, e a sincera e honesta expressão do pensamento e do sentimento perdem-se.
Na idade avançada, o poder dos desejos e inquietações perde a intensidade e a sua moldura corporal busca o repouso. Em comparação com os anos da juventude, sentimo-nos mais em paz e à vontade connosco próprios. As convenções sociais e as influências externas têm menos impacto em nós e desinteressamo-nos pelos heróis e pela competição. Esse estágio, apesar de não ser equivalente à plenitude da infância, em que a pessoa está em harmonia com a ordem natural das coisas, é mais sincera consigo próprio do que o da adolescência.
Ao morrer, penetra no repouso, e retorna ao Absoluto. Por esta altura nada sabemos, nada fazemos, e nada sentimos. A nossa energia volta a unir-se à sua fonte
Confúcio também falou sobre os estágios da vida. Ele dividia a vida em três períodos, e dizia: “Na juventude, o nosso sangue e energia permanecem instáveis. Por isso, nesse período precisamos domar o desejo sexual. Na maturidade, o nosso sangue e energia são fortes e agressivos. Por isso, nesse estágio da vida precisamos domar a nossa natureza competitiva. Na velhice, o nosso sangue e energia acham-se enfraquecidos. Por isso, precisamos dissolver o apego que sentimos pelas coisas.”
(Tanto os Taoistas como os Confucionistas deixaram valiosas informações acerca da natureza humana e das mudanças que se dão durante o nosso tempo de vida. Para os Confucionistas o que era importante era compreender o que precisa ser feito em cada período da vida de forma a podermos ser úteis à sociedade, vier de uma forma honrada, e interagir de uma forma harmoniosa com os demais. Para os Taoistas, o que era importante era compreender que a infância, a juventude, a idade avançada e a morte constituem estágios da vida que precisamos atravessar. Compreendendo isso, poderemos aceitar as mudanças por que passamos e encará-las como uma sequência natural dos acontecimentos num ciclo de nascimento e morte.)
7- a vida é árdua, a morte é repouso
Viajava Confúcio certa vez com seus discípulos pelo monte Tai quando vislumbrou um velho que perambulava pela pradaria. Seguia envolto numa pele de veado, presa à cintura por uma corda, a cantar à medida que ia tocando um alaúde. Confúcio dirigindo-se-lhe, indagou-o: “Meu amigo, que é que o torna tão satisfeito?” O velho respondeu-lhe: “Tenho muitas razões por que me alegrar. Deus criou tudo o que existe, mas por entre todas as coisas da Sua criação, o Homem é a mais sábia. E como me calhou, por sorte, tornar-me num; essa é a primeira razão para a satisfação que sinto. Além disso existe a distinção entre homem e mulher- sendo certo que o homem é mais respeitado e gozar de mais privilégios do que a mulher. Assim, preferível ser homem, e, devido a que eu seja homem, eis aí a segunda razão para me sentir satisfeito. Depois, algumas pessoas nascem e jamais contemplam o sol e a lua, nem jamais chegar a abandonar as fraldas. Mas eu já vagueio por aqui há uns noventa anos; essa é a terceira razão para a minha satisfação. Finalmente, não me importo em saber se sou rico ou pobre, e sei que nascimento e a morte constituem o destino final de todos os seres humanos e a ordem natural das coisas. Enquanto muitos se preocupam por serem pobres e temem a morte, eu não me deixo incomodar por essas coisas. Por isso, que coisa me deverá tornar infeliz?”
Após ter escutado isso, Confúcio ficou impressionado. “Que excelente exemplo de descoberta de autocontentamento, o teu,” e virando-se para os discípulos, disse: “Eis aqui um homem que sabe como enfrentar a vida!”
Numa outra ocasião, quando Confúcio estava a caminho do reino de Wei, encontrou um eremita que tinha pelo menos cem anos. No calor da Primavera, esse homem usava um casaco de pele e juntava grãos que os agricultores tinham deixado para trás nos campos. Enquanto trabalhava, o homem cantarolava.
Confúcio observou-o durante algum tempo, e a seguir comentou com os seus estudantes: “Este velho é um homem e tanto, e bem que deve valer a pena conversar com ele. Quem gostaria de ir ao seu encontro e descobrir o que terá a dizer?”
   Tzu Kung ofereceu-se como voluntário e caminhou para junto to aterro dos campos. Esperou que o velho se aproximasse, e quando se encontravam à distância da conversa, Tzu Kung disse-lhe: “Senhor, estais velho e cansado, e ainda assim ainda precisais de labutar para ganhar o sustento? Estendo-vos toda a minha simpatia!” O velho ignorou a observação de Tzu Kung e prosseguiu ao longo do campo, a apanhar grãos e a cantarolar.
Tzu Kung percebeu que algo devia estar errado, de modo que foi ao encontro do velho e desculpou-se. Aí, o velho homem olhou pata Tzu Kung e disse: “Porque razão serei tão patético que devas sentir pena de mim?” Tzu Kung ainda se aventurou a dizer: “Bom, senhor, Pensei que não trabalhásseis tão duro quando éreis jovem, e durante a vossa vida de adulto não tenhais querido alcançar renome. E em resultado, não tenhais tido esposa nem filhos que olhassem por vós, agora que vos encontrais envelhecido e que a morte se aproxima. Cantais e ris, e nem sequer percebeis ter perdido os melhores anos da vossa vida.”
O velho sorriu e responder a Tzu Kung: “ Eu rio e canto por me sentir feliz Pensa nisso. Se tivesse passado os meus anos de juventude a esforçar corpo e mente, e se tivesse despendido todas as minhas energias a competir com os outros durante os meus anos de vida adulta, não teria chegado aos cem e não seria tão saudável quanto sou. Em relação ao facto de não ter família, tanto melhor. Dessa forma, não precisarei preocupar-me com o seu sustento quando morrer. Poderás dizer-me por que razão não deveria estar satisfeito?”
Tzu Kung respondeu de imediato: “Querer viver e temer a morte fazem parte da natureza humana Tu pareces sentir-te feliz por teres de morrer, coisa que não consigo entender.”
O velho disse-lhe em resposta: “A morte e a vida constituem ciclos da ida e do regresso. Quando abandonamos um mundo, talvez nasçamos num outro mundo. Qual será melhor, a vida ou a morte? Difícil deverá ser dizê-lo. Agora, então por que razão deveremos tornar a vida árdua para nós próprios neste mundo quando nem sequer sabemos se estaríamos melhor vivos ou mortos?”
Após Tzu Kun ter escutado essas palavras, sentiu-se amplamente confuso, e foi confiar o que sentia a Confúcio. Mas Confúcio apenas assentiu. “Tal como eu pensava. Valeu a pena descobrir o que este velho tinha a dizer. Pelas observações que fez, parece que terá encontrado as respostas que procurava na vida, mas não descobriu tudo.” Foi por essa altura que Tzu Kung se cansou dos estudos e pensou que tudo quanto fizera teria sido fútil. Voltou junto de Confúcio e disse-lhe que queria descansar.”
 Confúcio disse-lhe: “Enquanto viveres, a vida não te dará descanso.”
“Então, não haverá sítio onde possa descobrir um descaso do meu trabalho?”
Confúcio exibiu um misterioso sorriso e disse:” Existe, na verdade existem muitos lugares onde poderás encontrar repouso. Olha bem para as sepulturas, as tumbas, os valos profundos, e os cumes elevados. Isso são tudo lugares de repouso.”
Tzu Kung então exclamou: “Ah, agora sei por que aqueles de nós, vivos, não conseguimos saber o que significa repouso, por o repouso ser unicamente para os mortos. A morte deve, na verdade, ser verdadeiramente sublime! É a morte que traz repouso aos nobres de coração e resignação aos homens vulgares! A pessoa satisfeita encontra repouso na morte, e para o ganancioso, a morte coloca um término na sua longa lista de desejos.”
Confúcio a seguir disse ao seu estudante: “Parece que por fim percebeste o que significa “Os homens conhecem as alegrias da vida mas não possuem noção das suas amarguras. Sofrem com o peso da decrepitude mas ignoram a paz que encerra; conhecem a angústia da morte, mas nada sabem do descanso que proporciona. A vida é trabalho árduo e a morte é repouso. A maioria pensa que a vida seja uma coisa feliz sem perceber que por vezes a vida é mais difícil do que a morte. A vida não nos dá descanso. Labutar, na planificação ansiosa do futuro, escravizar-se a acolchoar a armação do corpo - tais são as ocupações que nos preenchem a vida. Do mesmo modo, a maioria das pessoas acredita que a idade avançada nos traga a solidão e o desespero, só que não percebem que por vezes na velhice conseguem recuperar a vida despreocupada e feliz da sua mocidade. Sabem unicamente que a morte deva ser algo terrível, sem perceber que a morte constitui um repouso da nossa árdua labuta.”
O sábio Yen Tzu, que também compreendera o sentido da morte, disse: “Como era excelente a perspectiva da morte que os antigos tinham! Por ser capaz de trazer descanso aos generosos e aos que cultivaram mente e espírito, aos honrados e aos virtuosos, para quem representava uma experiência de libertação, um descanso tão esperado de uma vida de labores. A morte ajudava aqueles sem escrúpulos a pôr um termo à infelicidade do desejo. A morte é a acção da eficácia da Virtude! Ou seja, a morte faz abolir todas as distinções artificiais e temporárias do mal e do bem, que só neste mundo de relatividade encontram suporte! Os antigos falavam dos falecidos como aqueles que estavam de regresso. Porém, se os falecidos são os que regressaram, então os viventes acham-se em meio a uma viagem. Por outro lado, se aqueles que viajam fracassam na descoberta do “lar” quando a sua viajem termina, separam-se da sua morada. No entanto, muita gente vagueia sem retornar à sua morada, e ainda assim, ninguém percebe tal erro. Que homem abandonará a sua aldeia e se separará dos seus parentes e amigos, alienará o seu património e vagabundará pelos quatro cantos da Terra sem regressar mais a casa? Por certo que o mundo o terá na conta de libertino e de insensato. Por outro lado, tomemos o exemplo daquele que se atém à respeitabilidade bem como aos assuntos da sua vida, e sente apreço pela sagacidade e pela estima e desse modo cria reputação e se faz valer entre os amigos, sem se deixar deter? Uma vez mais, de que tipo de pessoa se tratará? Certamente, o mundo deverá olhá-lo como um cavalheiro possuidor de um grande saber, e um bom conselheiro.
Ambos, constituem exemplos de indivíduos que perderam a orientação; conquanto o mundo seja indulgente com um ao invés do outro, só o homem sensato (sábio) sabe a quem terá perdido a sua natureza original, e quem a possui. Associa-se àqueles que encaram a vida e a morte meramente como caminhar e dormir, e afasta-se de quantos se deixam permear pelo esquecimento do retorno.”
8 – o valor do vazio
Alguém perguntou a Lie-tzu: “Porque valorizas o vazio?
Lie-tzu respondeu:
“Eu não aprecio o vazio; na verdade nada há que suplante o calmo e o vazio a fim de permanecer incógnito. A maioria das pessoas adora ser enaltecida e quando vê as suas realizações reconhecidas sente-se bem. Todavia, creio que estaríamos melhor se fôssemos livre de apegos e não nos deixássemos aprisionar pelo reconhecimento, pela aprovação e pela desaprovação. A longo prazo, teríamos poucas coisas com que nos preocupar. É por isso que valorizo o vazio.”
Lie-tzu fez uma pausa e de seguida prosseguiu: “Se vos fosse dado crédito por fazer alguma coisa, devíeis compreender que não se deveria por completo à vossa própria iniciativa. Os acontecimentos dão-se por as condições serem apropriadas, e a vossa acção apenas contribuirá para uma de várias condições. Estamos acostumados a pensar que quando as coisas sucedem, elas sejam realização nossa; não compreendemos que não existe realmente nada a realizar. Por isso, em vez de aceitarmos um crédito que não pertence a ninguém, porque não aquietar-nos e pensar nas maquinações do céu e da terra?
Percebendo o vazio implícito às coisas pode ajudar-nos a cultivar a tranquilidade e a paz mental. Se não souberem como manter-se serenos neste mundo louco, sereis conduzidos a todo o tipo de apuros desnecessários. Perderão a noção do Caminho, e quando o perceberem, será demasiado tarde, por ao perderem o Caminho, ter-vos-eis igualmente perdido.”
(Chuang-tzu contou certa vez uma história acerca de duas pessoas que tinham perdido uma ovelha. Uma delas ficou bastante deprimida e mergulhou na depressão e na bebida, no sexo e no jogo a fim de procurar esquecer a sua desgraça. A outra decidiu que essa seria uma excelente oportunidade de estudar os clássicos e serenamente observar as subtilezas da natureza. Ambos os homens passaram pela experiência de desgraça mas um deitou-se a perder pelo apego em demasia que sentiu na experiência da perda, ao passo que o outro descobriu-se a ele mesmo, por ter sido capaz de abrir mão do ganho e da perda.)
9 – estão as coisas em crescimento ou em decadência?
   Yu Hsing disse:  “A evolução jamais se detém. Mas quem será capaz de perceber os processos ocultos do Céu e da Terra (Unidade)? Desse modo, as coisas que são diminuídas aqui, aumentam além; aquilo que se torna inteiro e completo numa determinada situação, sofre perda numa outra. Diminuição e acúmulo, desenvolvimento e declínio são factores intrínsecos à vida e à morte, e alternam-se numa sucessão ininterrupta de uma transição imperceptível. Esse é o equilíbrio das coisas. Para que o mundo continue a existir, precisa haver existir equilíbrio entre o crescimento e a decadência.
A nossa alma progride de forma ininterrupta, enquanto o corpo muda de aspecto e aparência, tornando-se decadente a cada dia que passa. Todavia, não nos é possível perceber nem o desenvolvimento nem a decadência. Desde que nascemos e até que morremos, tornámo-nos diferentes a cada dia que passa - tanto pelo aspecto como pela conduta e pelo saber. As unhas, a pele, os cabelos, tudo sofre um crescimento e um decréscimo contínuo. Tanto na infância como no crescimento decorrente, a mudança não sofre interrupção. Apesar de imperceptível no seu processo, sempre nos damos conta dele depois de concretizado.
10 – receio de que o céu caia
   Certo homem do Estado de Chi, sentia tanto receio com o possível colapso e o despedaçar do universo que perdeu o apetite e a falta de descanso. Um outro, movido por um sentimento de compaixão pelo primeiro, foi ao encontro dele a fim de o esclarecer:
“O céu não passa de um acúmulo do etéreo; não há lugar onde esse etéreo não se faça presente. No etéreo decorrem ininterruptamente processos de contracção e distensão, inspiração e expiração. Por isso, por que temer qualquer colapso?”
Mas o homem perguntou: “Será isso verdade? Então, se o céu é composto pelo etéreo, o sol, a lua e as estrelas não poderão cair sobre nós?” O seu interlocutor respondeu: “Sol, lua e estrelas são, do mesmo modo, apenas claridades no interior desta massa etérea. A única diferença está em que apresentam uma luz diferente. Mas mesmo supondo que pudessem despedaçar-se, certamente que o seu impacto não nos poderia causar dano.”
“Mas”, perguntou o primeiro, “ e se a Terra vier a despedaçar-se?”
 “A Terra”, replicou o segundo, “não passa de um aglomerado de matéria que preenche todos os quatro cantos do espaço; não existe lugar onde não se faça presente. Todo o dia nós pisamos e repisamos o chão; porque razão, então, deveremos amedrontar-nos que possa ceder?”
A partir de então o homem ficou aliviado dos seus temores e pode rejubilar. O seu instrutor sentiu uma enorme alegria e contentamento.
Porém, quando o eremita Chang Lu Tzu tomou conhecimento desse diálogo, riu-se de ambos e disse: “Arco-íris, nuvens, nevoeiro, vento e chuva, as mudanças das quatro estações - tudo isso não passa de uma forma perfeita de acúmulo do éter que compõe os céus. Montanhas e rochedos, rios e mares, metal e rocha, fogo e madeira - tudo isso não passa de formas de perfeita aglomeração da matéria que constitui a terra. Conhecendo tais factos, quem poderá afirmar que jamais possa sofrer destruição? Decerto que o Céu é vasto e a Terra imensa, mas não são permanentes. Contudo são a coisa mais significativa de tudo o que existe. É bem certo, porém, que, conquanto a sua natureza seja insondável e de difícil compreensão, ainda assim é difícil que deixem de ser o que são. Aquele que possui menor temor de que o céu se desmorone ou a terra se despedace está certamente bastante longe da verdade. Por outro lado, aquele que afiança que não possa ocorrer tal dano, também não alcançou a solução do dilema. Céu e Terra devem necessariamente passar, porém, nenhum deles estará destinado sozinho à destruição. Quem, em face de tal transtorno não se sentirá alarmado?
   Quando o mestre Lieh Tzu escutou o debate, sorriu e disse: “Aquele que sustenta que o céu e a Terra estão destinados à destruição, e aquele que sustenta o contrário, estão, ambos, errados. Se se acham ou não destinados à destruição, isso é algo que jamais saberemos, apesar de, em ambas as posições valer o mesmo. Os vivos nada sabem da morte; os mortos desconhecem o que estar vivo seja; o que passou e o que virá nada sabem um do outro. De que adianta preocupar-nos com a destruição do mundo?
11- vida que é emprestada, riqueza que é roubada
King Shun perguntou ao ministro dele: “Poderei possuir a senda do Céu e da Terra e fazer com que torná-la de acordo com os meus desejos?”
Ó ministro dele respondeu: “Nem mesmo o teu corpo te pertence; como poderás pensar em fazer curvar a senda do Céu e da terra à tua vontade?”
“Se o corpo que tenho não me pertence, então a quem pertencerá?”
“O teu corpo não te pertence; a sua forma foi-te emprestada pelo céu e pela terra. A vida que levas não te pertence; chegou a existir pela interacção das energias do céu e da terra. A tua mente e o teu espírito não te pertencem para que os controles; eles seguem o caminho natural do céu e da terra. Os teus filhos e netos não te pertencem para que os possuas; eles assemelham-se a flocos da tua pele, por a procriação te ter sido garantida pelo céu e pela terra.
“Uma pessoa que compreenda esta verdade será alguém que não se verá atado por ideias do que a mente ou o corpo sejam. Esquecendo o corpo, é capaz de viajar para qualquer parte no mundo sem saber para onde se dirige. Esquecendo a sua mente, ele poderá ser bem-sucedido em tudo quanto faça por não pensar naquilo que faz. Segue os caminhos do céu, indo onde precisa ir, e fica sem saber o que o tenha levado a ficar, e alimenta-se sem saber que está a ser nutrido.
“A vida não passa do agregar das energias do céu e da terra, e a fonte dessas energias não tem começo nem fim. Como poderá alguém alguma vez possuir a senda do céu e da terra?
   Um tal senhor Kuo, do Estado de Chi, era muito rico, enquanto que Hsiang, do Estado de Sung levava uma vida paupérrima. Certa vez este deslocou-se ao Estado do outro a fim de o interrogar acerca do segredo da sua prosperidade. E o senhor Kuo respondeu-lhe: “Isso fica a dever-se a que eu conheça o bom exercício de furtar. Logo no primeiro ano em que comecei a apropriar-me, fui capaz de amealhar o quanto bastasse. No segundo, arrecadei com fartura. No terceiro, repeti os mesmos resultados. No devido curso acabei por me tornar proprietário de todas estas vilas e distritos, e sendo capaz de ajudar quem está em necessidade.”
Entusiasmado, o senhor Hsiang tinha interpretado de modo literal o significado do termo apropriar-se, mas não lograra obter o conhecimento quanto ao modo correcto de o fazer. Desse modo, começou a trepar a muros e cercas e a assaltar casas a fim de se apropriar de tudo aquilo a que pudesse deitar mão. Mas, antes que muito tempo tivesse decorrido, tal acção acabou por lhe trazer complicações e ele viu-se privado até mesmo daquele pouco que antes possuía. Pensando que o tal senhor Kuo o tinha basicamente enganado, saiu novamente à sua procura para o censurar. Mas aquele perguntou-lhe:
“Diga-me, de que modo actua ao furtar?”
Hsiang contou como tinha seguido o exemplo de Kuo de roubar e isso tinha terminado no desastre.
Ao tomar conhecimento do sucedido, aquele exclamou: “Oh, sorte desgraçada! Isso aconteceu-lhe devido a que me tenha trabalhado mal. Jamais me questionou qdo que eu tenha roubado que me tenha tornado rico. Ouviu-me mencionar a palavra “furtar”, tirou as suas próprias conclusões, e acabou por o fazer à sua maneira. Deixe-me dizer-lhe de que forma actuei.
Todos sabem que o Céu produz as estações e a Terra os seus frutos. Pois bem, aquilo a que deito mão são as riquezas do Céu e da Terra, a cada qual na devida estação: os benefícios das nuvens e da chuva, os produtos dos terrenos montanhosos e dos prados. Desse modo faço crescer as minhas sementes e amadurecer os meus cereais, erguer paredes e construir casas. Dos terrenos secos roubo os animais de penas e pêlo, e dos rios e lagos roubo os peixes e as tartarugas. Não há nada que não furte. Sei que a terra muito tem a dar, de modo que furtei alguma da terra para construir abrigos para mim e para o meu gado. Sei que os bosques têm imensas riquezas, de modo que vez por outra furto um veado para comer. Porque, as sementes e as colheitas, o barro e a madeira, os pássaros e os quadrúpedes, os peixes e as tartarugas são tudo produto da natureza. Como poderei declará-los pertença minha? No entanto, aproximando-me deste modo da natureza, não incorro em pena nenhuma, por ninguém possuir essas coisas. Já ouro, jade e pedras preciosas, estoques de cereais, vestimentas de seda, isso são coisas que pertencem às pessoas ao invés de dádivas da natureza. Quem poderá queixar-se de não se meter em sarilhos por os furtar?”
   Perplexo, o senhor Hsiang, pensando que o outro o enganava, foi interrogar uma segunda vez Tung Kuo, o letrado, que por sua vez lhe respondeu: “Não será o senhor já um ladrão com relação ao seu próprio corpo? Você não se apropria da harmonia de Yin e Yang (contrários) a fim de preservar e sustentar a aparência? Quanto mais não o fará com relação às posses externas! Na verdade a Terra e o Céu não podem ser dissociadas de todas as coisas. Clamor pela sua posse pressagia confusão. Os furtos do senhor Kuo são cometidos com espírito de justiça, forma essa que não lhe acarreta retribuição alguma. Já os seus, foram cometidos num espírito de egoísmo e por isso acarretam-lhe punição. Todos aqueles que se apossam da propriedade alheia, seja pública ou privada, são ladrões. Do mesmo modo, aqueles que se abstêm de se apropriar- seja do que é público ou privado- são igualmente ladrões. Porquanto ninguém pode furtar-se a possuir um corpo, do mesmo modo que ninguém pode evitar adquirir posse sobre uma coisa qualquer de que se não livre, ainda que com a maior vontade do mundo. Tal apropriação, contudo, é inconsciente.
   O princípio sublime do Céu e da Terra consiste em considerar como tais a propriedade pública e a privada. Tendo consciência desse princípio, qual de nós será ladrão e, simultaneamente, qual de nós deixará de o ser?
 (Esta anedota tem por objecto causar-nos uma impressão de irrealidade com relação às distinções mundanas. Lieh Tzu não se interessa demasiado pelos aspectos social da questão, e não advoga o comunismo nem tampouco se revolta contra o senso comum de que o roubo seja um crime punível. Com ele tudo é entendido como capaz de conduzir a uma perspectiva metafísica)

Livro II
O Imperador Amarelo

INTRODUÇÃO
Se a vida correr de acordo com os nossos desejos, sentimo-nos satisfeitos. Assim que a coisa não correr de feição, sentimo-nos aborrecidos. É por isso que apenas aqueles que não são afectados pelas circunstâncias externas sempre permanecerão calmos. Eles seguem a senda natural e não se deixam controlar pelas reacções para com os acontecimentos que se dão ao seu redor.
O Imperador Amarelo visitou uma terra mítica que não possuía nem líder nem governo. As pessoas viviam de acordo com a natureza e não se entusiasmavam com o nascimento nem se deixavam ansiar com a morte Todos possuíam incríveis capacidades e eram capazes de permanecer debaixo de água sem se afogarem ou de caminhar sobre o fogo sem se queimarem. Tendo alcançado o ponto em que conseguiam esquecer-se por completo deles próprios, viam-se livres das limitações do corpo e da mente e conseguiam cavalgar o vento e flutuar juntamente com as nuvens.
A transcendência de mente e corpo produz capacidades que teriam parecido estranhas às pessoas vulgares. Na verdade, alguém que conseguisse caminhar sobre o fogo ou permanecer debaixo de água poderia ter sido considerado mago, e muitos dariam ou fariam qualquer coisa para adquirir esses poderes. Eles não sabem que tais aptidões representam o produto do abandono do corpo e da mente e de uma fusão com as leis da natureza.
Esse abandono tem início com a visão através da ilusão das formas externas e das convenções sociais. Aqueles que não se deixam atar pelas questões mundanas do mundo não serão afectados pela pressão social, pelas emoções, nem pelo desejo. Conhecem a senda do Céu e não se limitam com ideias de certo nem de errado, beleza e fealdade.
Por fim, transcender mente e corpo requer disciplina e paciência, e quando isso é alcançado, somente o iluminado saberá que ele ou ela tenham alcançado a iluminação. Sem publicidade nem fanfarra, os seres iluminados prosseguem as suas vidas como gente vulgar e vivem o resto dos seus dias na simplicidade e no contentamento, desconhecidas para o mundo e não influenciados pelas suas convenções.
12 – o imperador amarelo visita as regiões imortais
 Após ter reinado por quinze anos, o imperador amarelo, regozijava-se por os seus súbditos o olharem como seu soberano. Retirando-se dos deveres do governo, tornou-se zeloso do seu bem-estar, prezava a beleza e a música e cultivava elevado apreço por aromas e paladares. Apesar disso foi tornando-se melancólico e a sua fisionomia foi adquirindo uma tez amarelada, os sentidos adquiriram traços de confusão e foi-se tornando vago, e as suas emoções estavam à flor da pele.

Nos quinze anos seguintes deixou-se afligir com a desordem reinante no império, exauriu todos os recursos do seu saber e tratou de concentrar toda a inteligência e esforço de que foi capaz a procurar governar o povo. A despeito de tudo isso, porém, o rosto manteve-se macilento e pálido e os sentidos conservaram o estado de torpor e confusão, o espírito vago, e as emoções voláteis.
(A prática da virtude iluminada não conseguirá implantar o governo justo, mas tão só desorganizar as faculdades espirituais)
   Então, o Imperador Amarelo suspirou num gemido e exclamou: “Errei na condução por falta de moderação. A infelicidade de que padeço provém da concentração de atenção que dedico a mim próprio e aos problemas do Império, devido a demasia na intervenção. Não admira que tenha perdido a saúde e a paz interior.”
A partir de então ele abandonou todos os planos e o seu palácio ancestral, despediu os criados, abandonou os artifícios, cortou com todas as iguarias da cozinha e retirou-se para uma dependência privada, anexa ao edifício da Corte, a fim de ter tempo para pensar, e cultivar o espírito. Aí observou o jejum do coração e procurou controlar o organismo.
 (Jejum do coração significa libertar-se da ganga composta pelos desejos terrenos, segundo o que, na óptica do comentador, o corpo será naturalmente capaz de se controlar de modo natural. Tal jejum não significa a abstenção de alimentos nem outras formas de mortificação corporal.)
   Durante um período de três meses, ele absteve-se de toda a intervenção pessoal nos assuntos do governo. A certa altura adormeceu e sonhou que tinha viajado para o reino de Hua-hsu, situado não sei a quantas dezenas de milhar de milhas de distância do Estado de Chi, para lá do alcance de qualquer veículo, navio ou ida a pé. Somente o espírito podia viajar para tão longe.
 (Os chineses acreditam que durante o sono a alma abandona o corpo)
   Esse reino era destituído de chefe ou governante, por ninguém ser mais sábio do que os demais, e lá a natureza seguia o seu curso. A população não nutria desejos nem ânsias e seguia apenas o seu instinto natural. Não sentia alegria pela vida nem aborrecimento com a morte; desse modo jamais morria de forma prematura. Não sentia simpatia nem indiferença pelos demais e desse modo estavam isentos tanto de sentimentos de amor como de ódio. Não conheciam aversão por nenhuma actuação nem indignação ou qualquer pretensão; desse modo desconheciam todo o proveito e perda. Todos estavam ao abrigo de sentimentos de amor e simpatia, ciúme e temor. A água não tinha o poder de os afogar e tampouco o fogo os queimava; acidentes e ferimentos que pudessem sofrer não lhes causavam afectação e tampouco dor. Pois não podiam causar ardência nem comichão. Andavam com o mesmo à-vontade no ar como se pisassem chão firme, e sentiam-se de tal forma cómodos como se descansassem no leito. Nem o nevoeiro nem as nuvens lhes obstruíam a visão, tampouco o silvo dos trovões conseguia aturdir-lhes os ouvidos. A visão da beleza física não lhes acelerava o bater do coração e as montanhas e os vales não lhes impediam os passos. Eles moviam-se como deuses.
   Quando por fim despertou do seu sonho convocou os seus três ministros e contou-lhes o que vira: “Tenho vindo a levar uma vida de ócio, há já três meses a observar o jejum do coração, a subjugar o corpo e à procura por um ou outro caminho ou um método verdadeiramente eficaz de me animar e de regular a vida dos outros. Todavia, não consegui encontrar tal segredo. Contudo, não me tornei esclarecido por pensar conscientemente nas coisas.”
 (É errado seguir métodos a fim de nutrir a própria vida ou reger a vida dos outros. Nenhuma tentativa para empreender tal coisa por parte da luz da inteligência poderá ser bem-sucedida)
 “Cansado, adormeci e sonhei o que acabei de relatar. Agora, sei que o Caminho da Perfeição não pode ser obtido pela via do pensar consciente. Disso estou bem certo mas guardo essa certeza comigo, incapaz de a transmitir a vós, porque se a Via não pode ser descoberta pela acção dos sentidos também não pode ser transmitida por via deles.”
   Nos vinte e oito anos subsequentes o Império conseguiu fazer prevalecer a ordem e chegou quase a assemelhar-se ao reino mítico de Hua-Hsu-Shi. Quando o imperador se alçou às alturas, o povo chorou a sua perda por dois séculos sem interrupção.
(Nas ilhas das ilhas do leste existem seres imortais que vivem nas gotas de orvalho e nas pinhas. Não se alimentam de grãos, mas do vento e do éter, e as suas mentes permanecem tão claras e imóveis quanto um lago de montanha. Possuem bochechas rosadas e todos se assemelham a crianças saudáveis. Mostram-se abertos, amistosos, e não têm inibições. Todos procedem às próprias tarefas e revelam-se auxiliares para com os outros. Não sentem medo, nem raiva, nem tensão, nem insatisfação. Ninguém é superior nem inferior a quem quer que seja. Tudo é generoso e todos desfrutam da providência de céu e de terra. O sol e a lua emitem uma luz suave, as estações jamais são ásperas, o solo é rico, e os habitantes amáveis. Esta é a terra que o Imperador Amarelo visitou em sonhos)
13 – cavalgando o vento, flutuando com as nuvens
   Lieh Tzu tinha Lao-Shan por seu mestre e Po-Kao-Tzu como seu amigo. Quando conseguiu dominar ambos os sistemas de filosofia que preconizavam, regressou à sua morada cavalgando os ventos  e flutuando nas nuvens.
Tendo tomado conhecimento disso, Yin-Sheng tornou-se seu discípulo e permaneceu junto dele durante algum tempo sem regressar a casa. Durante esse período em vão suplicou para ser iniciado nas artes secretas do seu mestre. Dez vezes apresentou o pedido e por dez vezes ficou sem obter qualquer resposta. Como, em resultado se tenha tornado impaciente Yin-Sheng pediu autorização para partir, mas nem assim Lieh-Tzu lhe respondeu. Finalmente dispôs-se a partir. Passados alguns meses, no entanto, sentiu-se insatisfeito com a impulsividade que o impelira a partir e resolveu retornar e procurar tornar-se novamente seu seguidor.
Aí Lieh-Tzu disse-lhe: “Qual será a razão para todas essas idas e voltas?”
Yin-Sheng respondeu-lhe: “Há algum tempo atrás pedi-lhe que me dispensasse alguma instrução, senhor, mas vós não me respondestes. Isso deixou-me irritado convosco, mas agora que me livrei desse sentimento de impaciência e dessa negligência resolvi regressar.”
Lieh-Tzu retrucou: “Eu costumava ter-te na conta de um indivíduo capaz e talentoso, e tu agora permites-te descer tão baixo? Senta-te que vou transmitir-te o que aprendi com o meu mestre. Três anos após ter começado a servi-lo e a gozar a amizade de Po-Kao, a minha mente não se aventurava a avaliar o bem do mal, e a minha boca não ousava discorrer sobre o lucro ou a perda. Só então, pela primeira vez, o meu mestre lançou o olhar na minha direcção. Isso foi tudo.”
 (Abrigar noções de ganho e perda, apesar de na realidade não se fazer uso da sua enunciação, é como ocultar ressentimentos ou dar guarida a secretos desejos; daí que um mero olhar de relance lhe tenha sido concedido)
 “Ao fim desses cinco anos iniciais tinha ocorrido uma mudança: a minha mente reflectia sobre livremente o certo e o errado e a minha boca pronunciava livremente termos como ganho e perda. Então, pela primeira vez, o meu mestre aliviou o semblante e sorriu-me.”
 (Certo e errado, ganho e perda são princípios fixos predominantes na esfera dos sentidos. Permitir que a mente reflicta seja no que for, ou a boca pronuncie o que lhe apraz, sem abrigar qualquer ressentimento no íntimo, de modo que o “interno” e o “externo” se tornem um só, ainda não se compara a exceder os limites do “eu”, abstendo-se de toda a manifestação. No entanto, este primeiro passo agradou ao mestre e provocou-lhe um sorriso)
 “Ao fim de sete anos ocorreu uma outra mudança: Já permitia que a minha mente divagasse à vontade, mas agora sem se ocupar com pensamentos de certo e de errado, e as palavras acudiam a mim sem qualquer intenção de agradar nem de ofender. Permitia-me proferir o que quer que fosse; porém, já não falava em proveito nem perda. Então por fim o meu mestre permitiu que me sentasse a seu lado na esteira.”
 (A questão reside em saber como levar a mente a um estado de serenidade isento de pensamento ou actividade mental. De que modo preservar a boca fechada limitando-nos à simples inalação e exalação. Se deixarmos de exercer controlo pessoal votando-nos desse modo à perfeição, certo e errado deixarão de existir; se os lábios seguirem a via natural, deixarão de conhecer proveito ou perda. Em concordância de vistas, mestre e amigo sentam-se lado a lado junto um ao outro, no mesmo lugar, tal como não poderia deixar de ser)
 “Ao fim de nove anos a minha mente dava livre curso à reflexão e ao livre discurso, porém, não abrigava qualquer noção de certo nem de errado, ganho ou perda, quer no tocante a mim próprio quer aos demais. Não sabia se o meu mestre era meu instrutor nem se o outro era meu amigo; foi então que tomei consciência de não existir barreira algum entre “interno” e “externo”, por se terem misturado numa unidade. Após esse período não havia distinção alguma entre o olho e o ouvido, o ouvido e o nariz, o nariz e a boca; todos eles eram idênticos. A minha mente tornou-se gélida, o meu corpo aparentava dissolução, a carne e os ossos numa mistura. Não tinha qualquer noção dos pés nem do solo que pisava. Deixava-me levar pela corrente como palha seca ou folhas mortas. Na realidade não sabia se o vento me levava ou se era eu que cavalgava o vento.
  E tu, agora, que ainda não passaste uma estação completa junto do teu mestre, já te deixas conduzir pela impaciência, uma e outra vez. Com que razão, quando a atmosfera e a terra mal suportam um só dos átomos do teu corpo e o peso dos teus membros? De que modo assim poderás esperar mover-te no vazio ou cavalgar o vento?”
  Ao escutar isto Yin-Sheng ficou profundamente embaraçado e incapaz de tomar fôlego, não mais ousou proferir palavra nesse sentido.
14 – a arte de permanecer debaixo de agua e de caminhar sobre o fogo
Lie-Tzu questionou o sábio Wen-tzu: por que razão conseguirá o iluminado permanecer debaixo de água sem se afogar, caminhar sobre o fogo sem se queimar, e flutuar no ar sem cair?”
Wen-tzu disse: “Ele não sabe por meio da destreza nem da coragem mas pela congregação da energia e focalização do espírito.
“Pensamos que algo que possua forma, cor e som consista numa coisa. Mas que diferenciará uma coisa de outra? A forma que tem, a cor e o som que emite. E em que consistirão as formas, as cores e os sons? São simples aspectos externos de coisas. Se conseguires ver por entre essas qualidades externas das coisas, então perceberás que todas possuem a mesma estrutura subjacente, por procederem todas as mesma origem. Assim que transcenderem as diferenças externas, qualquer coisa poderá misturar-se com qualquer outra coisa. Ao se tornar um com a água, não vos afogareis; ao vos tornardes um com o fogo, não vos queimareis.
“Para o iluminado, o mundo não apresenta limites. Ele oculta-se no domínio que não contém começo nem fim, e vagueia vagarosamente onde a miríade de coisas surgem e se desvanecem. Ele purifica a sua natureza original, cultiva a sua energia e mantém a sua virtude. Unido às leis da natureza, funde-se com a ordem natural das coisas. Desse modo o seu espírito sai ileso, e as coias externas não conseguem penetrá-lo nem prejudicá-lo.
“Quando um bêbado cai de uma carroça, ele não se magoa com gravidade. Por que será? Os ossos e a carne do homem embriagado são idênticos aos de toda a gente, mas enquanto o indivíduo com consciência pode matar-se numa queda, o bêbado pode escapar sem um arranhão. Isso deve-se ao facto de o embriagado não ter consciência do medo da morte. Para ele não existe diferença entre permanecer na carroça ou cair dela. Por outro lado, o indivíduo consciente encrespa-se de medo ao cair devido a que se veja afectado pelo que se dá so seu redor. Se conseguirdes abrandar o sentido de vós e dos outros por intermédio do álcool, pensai on que na verdade o que esquecendo-vos de vós podereis conseguir. O iluminado funde-se com tudo o que o rodeia. Por isso, nada em torno dele poderá afectá-lo.
14 – a arte do tiro ao arco
Lie-tzu estava ansioso por mostrar a perícia que tinha atingido na arte do tiro ao arco a um amigo. Ele puxou do arco e colocou uma taça de água no antebraço esquerdo dele. A seguir introduziu uma flecha e após ter retesado o arco, libertou-a. Antes da primeira flecha atingir o alvo, já ele tinha soltado uma segunda e uma terceira. Quando viu que todas as três tinham atingido o centro do alvo, Lie-tzu sentiu-se amplamente satisfeito consigo próprio. Tão firme era a sua mão e focada a sua concentração que a água da taça não foi se entornou.
O seu amigo, contudo, não se deixou impressionar. Ele disse a Lie-tzu: “Aquilo que me mostraste não passa da destreza do olho e da mão, e não o estado de espírito de um verdadeiro arqueiro. Vamos até ao monte e ficar à beira de um penhasco. Se conseguires disparar com precisão sob tais condições, então ter-me-ás conseguido convencer da tua mestria de arqueiro.”
Os dois subiram até os montes, e assim que chegaram ao todo de um penhasco, o amigo de lie-tzu caminharam até à beira do precipício que descia um milhar de pés até baixo. Ao permanecer de pé com as costas para a encosta, e com metade do pé sobre a borda, ele convidou Lie-tzu a juntar-se a ele.
Lie-tzu, claro está, tremia já quando viu o amigo caminhar até à beira do precipício. Agora, só de pensar que permanecer ali com as costas voltadas para o precipício, caiu de cara e foi invadido por suores frios.
Então, o seu amigo disse: “O mestre arqueiro consegue disparar o arco seja em que condições for. Quer consiga ver num céu claro ou em face de um abismo e da morte, por nada conseguir perturbar-lhe a imobilidade da mente. Olha para ti. Encontras-te de tal modo assustado que nem de pé consegues manter-te ou olhar a direito. Como poderás sequer começar a demonstrar a arte do tiro ao arco?”
16 – façanhas de poder
  Na região de Chin, o Sr. Fan Shi teve um filho chamado Tzu Hua que, não obstante não ter um cargo oficial de posição, possuía um poder que se equiparava ao dos ministros. Obteve um grande sucesso alcançando fama como exponente da magia negra. O reino inteiro prestava-lhe vassalagem. O Príncipe de Chin concedia-lhe alto favor, e muito embora não lhe confiasse qualquer cargo elevou-o ao nível de Conselheiro de Estado. A quem quer que Tzu Hua lançasse o olhar interesseiro era promovido; enquanto aqueles de quem ele falava desfavoravelmente ou desprezava eram em seguida destituídos. As pessoas amontoavam-se no seu corredor com um fervor tal como se estivessem na Corte. Tzu Hua costumava encorajar os seus seguidores a criar polémicas e disputas entre si, de forma que os espertos sempre tiranizavam os detentores de um espírito obtuso, e os fortes espezinhavam os fracos. Embora isto resultasse invariavelmente em ferimentos, mesmo diante de si, ele não tinha muito por hábito deixar-se aborrecer com isso. Dia e noite, este tipo de conduta servia como diversão, acabando por se tornar praticamente um costume no Estado.
   Um dia, Ho Shêng e Tzu Po, dois dos principais partidários de Tzu Hua, partiram em missão, e depois de terem atravessado uma extensão de território selvagem, pela noite resolveram recolher-se à choupana dum velho camponês chamado Shang Ch'iu Wai. Durante a noite, os dois viajantes conversaram entre si sobre a reputação e a influência de Tzu Hua, sobre o poder que ele detinha sobre a vida e a morte, e como ele poderia tornar um homem rico pobre, e um pobre rico. Contudo, Shang Ch'iu Wai achando-se no estado de indigência e à beira de morrer de inanição, rastejou até à janela e escondendo-se sob o parapeito desta escutou a conversa deles. Posteriormente, mostrando-se de acordo com eles, tomou algumas provisões, pegou na sua cesta e partiu para a mansão de Tzu Hua.

 Os partidários deste último constituíam um grupo de pessoas profundamente mundanas que usava vestes de seda pura e se passeavam em carruagens sumptuosas puxadas por excelentes cavalos pelas redondezas, cheios de pompa e de nariz empertigado e a lançar olhares altivos. Vendo que aquele Shang Ch'iu Wai era um homem velho e fraco, com a face emaciada e roupas sem qualquer costura cuidada, eles menosprezaram-no. Cedo se tornou um alvo habitual para os seus insultos e ridicularização, sendo empurrado, levando palmadas nas costas e sabe-se lá o que mais. Porém, Shang Ch'iu K'ai nunca mostrou o menor aborrecimento, e por fim, os partidários, tendo deste modo esgotado os seus ânimos com ele cansaram-se da diversão. Assim, por via de um gracejo, eles levaram o velho com eles para o topo de um precipício, e fizeram passar a palavra ao redor de que aquele que fosse mais ousado e se lançasse dali abaixo seria recompensado com cem onças de prata. Isso suscitou uma resposta calorosa, e Shang Ch'iu K'ai, em perfeita boa-fé, quis logo ser o primeiro a saltar para o precipício. Ele planou até ao chão, lá em baixo, como que levado pelas asas de um pássaro, e nem um osso ou músculo sequer do seu corpo recebeu qualquer ferimento.
Os partidários do Sr. Fan shi, encarando o sucedido como um acto afortunado da sorte, não se mostraram surpreendidos e muito menos maravilhados.

Conduziram Shang Ch'iu K'ai a um rio onde as águas eram profundas e rápidas e disseram-lhe: “Algures por entre essas águas acha-se uma pérola. Aquele que for suficientemente bravo para mergulhar nelas e encontrá-la ficará com ela.” Não muito depois voltou à superfície com uma pérola brilhante na mão.

    Depois disso, Shang começou a angariar o respeito de toda a companhia de partidários de Tzu-Hua, e deixaram de se meter com ele. Até mesmo Tzu-Hua ouviu falar das habilidades dele e começou a dar-lhe uma remuneração em ouro e tecido como os demais recebiam. Uma noite acenderam uma enorme fogueira perto do armazém em que os tecidos eram guardados. Tzu-Hua chegou à cena junto com os partidários, e ao ver que estava prestes a perder uma enorme fortuna, o mestre disse aos seus correligionários: “Se forem capaz de retirar as minhas sedas do edifício em chamas, recompensar-vos-ei,” disse, “ e podereis de bom grado ficar com aquilo que conseguires obter de todas estas matérias-primas bordadas como recompensa, seja muito ou pouco.”
Sem revelar a menor comoção, Shang Ch'iu K'ai atirou-se directamente e atravessou o fogo, para voltar a sair de novo com as sedas e os brocados intocados e o corpo livre de queimaduras. 
Após tal façanha, Shang não só passou a ser respeitado como foi admirado. Tzu Hua e os partidários perceberam então que ele tinha realizado o Tao, e todos começaram a apresentar desculpas, dizendo: “ Nós não sabíamos, mestre, que tinha realizado o Tao, e estávamos somente a pregar-lhe uma partida. Insultamo-lo e ofendemo-lo no total desconhecimento de ser um inspirado. Você acabou de expor a nossa estupidez, surdez e cegueira. Permitirá que nos aventuremos a perguntar qual é o seu grande segredo ou método?  
  Outros se se juntaram igualmente ao redor de Shang a congratulá-lo, e a rogar-lhe que lhes revelasse os segredos de conseguir voar pelos ares, permanecer sob a água, e de caminhar sobre o fogo. Então Shang respondeu-lhes:
 “Eu não tenho qualquer segredo nem método, " respondeu Shang Ch'iu K'ai. “Não tenho mesmo a menor ideia sobre a causa real de agir assim. Não obstante a minha ignorância, subsiste em tudo isto uma questão que tentarei explicar-lhe. Pouco tempo atrás, senhor, dois discípulos seus vieram dispostos a passar a noite na minha cabana. Eu ouvi como exaltavam os poderes do Sr. Tzu Hua - como ele era capaz de dispor à vontade da vida e morte, e como ele foi capaz de tornar o homem rico pobre, e o homem pobre rico. Eu acreditei nisso com toda a sinceridade, e como não me achava muito distanciado deles cheguei-me ainda para mais perto. Tendo escutado, aceitei sem quaisquer reservas todas as declarações feitas por seus discípulos como verdadeiras, e só receei não vir a ter oportunidade de as pôr à prova de modo triunfante. Desconhecia até que ponto o meu corpo se achava em segurança, nem tampouco se o perigo espreitava em algum lugar e da impossibilidade da tarefa. A minha mente residia simplesmente na Unidade, e desse modo os objectos materiais não ofereceriam a menor resistência. Isso é tudo.
Mas, tendo descoberto que os seus discípulos estavam a enganar-me, o meu espírito vê-se alçado a um estado de dúvida e de perplexidade, enquanto os meus sentidos exteriores como as sensações de visão e do ouvido deixam-me relutante em face da natureza do desafio com que me deparo. Quando reflicto como escapei, há pouco, de forma providencial, de me submergir no fogo e morrer queimado, o coração dentro de mim vê-se petrificado pelo horror, e as minhas pernas tremem de medo. Eu jamais terei novamente a coragem para me chegar perto da água ou do fogo.” 
Daí em adiante, quando os seguidores do filho de Fan Shi se deparavam com um mendigo na estrada, ao invés de zombarem dele, eles haveriam de descer da montada e saudá-lo com um cumprimento humilde.
Tendo Tsai Wo escutado esta história, foi conta-la a Confúcio:
“ Parecer-te-á isso demasiado estranho?” respondeu-lhe este. “ Ignoras que quem quer que tenha uma confiança absoluta possa estender a sua influência às coisas inanimadas e a espíritos desencarnados; ele é capaz de mover céu e terra, e de voar até aos seis pontos cardeais sem encontrar qualquer impedimento.
 
Os poderes dele não se limitam a entrar em lugares perigosos nem a atravessar a água e o fogo. Se Shang Ch'iu K'ai, que depôs a sua fé em falsidades, não encontrava nenhum obstáculo nos assuntos externos, quanto mais certo isso não será quando formos sinceros!  “Pensa nisso meu filho! “
Em Shang, enquanto o caso de Ch'iu K'ai  era um caso sincero, o mestre dele Fan Tzu Hua não passava de um impostor. 
17 – a arte de domar tigres
   O guardião do parque zoológico do Rei Hsüan, chamava-se Liang, e pertencia à dinastia de Chou, era assistente do rei e era bastante hábil no trato com os pássaros selvagens e as feras. Quando lhes dava de comer nas jaulas existentes no parque, todos os animais se mostraram dóceis e afáveis, embora incluíssem entre si tigres, lobos e águias. Os animais mostravam-se tão mansos que ele podia deixá-los passear pelo pátio. Machos e fêmeas propagavam-se livremente diante dele, e o seu número multiplicava-se.
A dificuldade de adquirir animais selvagens para criação em cativeiro é amplamente conhecida por parte dos naturalistas. As diferentes espécies, contudo, reproduziam-se em cativeiro e coabitavam de forma livre, sem jamais se agredirem entre si. 
O Rei, com medo que o segredo deste homem pudesse morrer com ele, ordenou-lhe que o revelasse ao guardião.
Assim, o rei enviou um dos seus servos para junto de Liang Yang para servir de aprendiz. Mas quando ele chegou o guardião disse-lhe:
   “ Eu não passo dum humilde criado e realmente não tenho nada a transmitir quanto à arte de domar estes animais. Receio que sua majestade pense que eu esteja a esconder algum conhecimento.
   “Mas presta atenção. Com relação ao método que uso na alimentação dos tigres, tudo o que eu tenho a dizer é o seguinte: Os animais possuem uma natureza singular. Eles não se enfurecem nem acalmam sem uma razão aparente. O segredo da domesticação dos animais selvagens está em compreender a sua natureza. Conformar-se ao seu temperamento agrada-lhes; contrariá-los irrita-os. Tal é a disposição natural de todas as criaturas vivas. Se não lhes despertarmos a ferocidade, eles andarão calmos; todavia, se fizermos algo que vá contra a sua natureza, eles enfurecer-se-ão. Nem o seu contentamento nem o seu enfurecimento se manifestam sem uma causa; ambas procedem naturalmente do exagero. A irritação manifesta-se de forma directa; a satisfação de forma indirecta, devido à reacção natural gerada pela superação da oposição.
   “Desse modo, ao alimentar os tigres evito dar-lhes presas ainda com vida ou carcaças inteiras, para que com o acto de retalhar as carcaças, não se lhes excite a sede de matança. De seguida, dou de comer ao tigre antes de ele começar a sentir-se esfomeado, controlando desse modo o tempo exacto em que devo dar-lhe de comer, e a importância de o fazer de modo regular, obtendo assim a plena compreensão das causas da sua raiva, e assim controlando-a. Assim, quando tiverem sido alimentados os animais sentir-se-ão satisfeitos. O tigre é duma espécie diferente da do homem, mas, de modo semelhante, reage bem para com aqueles que lhe dispensa um bom tratamento e lhe entende os instintos; mas em caso contrário tende a atacar.
   “Sendo assim, cuido de não lhes provocar qualquer oposição que  lhes possa provocar fúria nem lhes espevito qualquer contentamento que lhes cause  prazer, porque esse sentimento de satisfação a seu tempo deve ceder lugar à fúria, da mesma maneira que a fúria, invariavelmente, deve ser sucedida pela satisfação; qualquer justa medida provar-se-á meramente impossível de conseguir. E nenhum destes estados alcançam o devido objectivo. Consequentemente, é meu propósito não me revelar antagónico nem complacente, nem lisonjear nem contrariar de modo que os animais me considerem como mais um, idêntico a eles. Mantendo o justo equilíbrio não me atrevo a agir de outro modo, por isso levar os animais a sentir que sou um deles. Desse modo chegamos a ver que eles se passeiam pelo parque sem lamentar a perda do habitat natural, nas florestas altas e nos vastos pântanos, e descansam nas jaulas sem ansiar pelas montanhas desertas nem pelas selvas impenetráveis. Tal são os princípios que conduziram aos resultados que presencias.”
18 – a arte de conduzir um barco
Um estudante perguntou a Confúcio:
“Certa vez, quando estava a cruzar um rio, notei que o barqueiro conduzia o barco com tal graciosidade que lhe perguntei se a perícia que demonstrava poderia ser objecto de aprendizagem. Ele respondeu-me que qualquer um poderia aprender aquilo, mas que se soubesse nadar, então a acharia especialmente fácil. De seguida perguntei-lhe se uma pessoa que saiba nadar debaixo de água mas que não tenha visto um barco antes também acharia fácil manobrar o barco. O homem não me respondeu a essa pergunta. Poderás dizer-me porquê?”
Confúcio respondeu:
Torna-se fácil para um nadador conduzir um barco por tal pessoa já compreender a natureza da água. Para ele é natural mover-se através da água. De facto, os movimentos que o nadador empreende na água são tão naturais que ele se esquece de que se encontra na água. O mergulhador que jamais tenha visto um barco também não deveria ter problema em aprender a habilidade da náutica. Para ele, as profundezas do oceano assemelham-se à terra seca. Está tão acostumado a andar debaixo de água que para ele um barco à sua superfície nada representa. Por não temer o que possa acontecer ao barco, e se sentir tão descontraído no barco quanto em terra seca. Por isso, aprenderá rapidamente.”
Quando Confúcio viu que o seu estudante ainda se encontrava perplexo, prosseguiu:
“Se jogares a contas de vidro, jogá-lo-ás habilmente. Se o que estiver em jogo for a fivela cara do teu cinto, começarás a sentir-te desajeitado. Se jogares a dinheiro, sentir-te-ás inepto. Portanto, não é que tenhas perdido a perícia, mas por te sentires nervoso pelo que sucede externamente que perdes a compostura interna. Perde a calma e fracassarás em tudo o que fizeres.”
19 – a arte de nadar
Confúcio e os seus aprendizes encontravam-se junto a uma cascata. A água corria sobre a borda e caía abaixo de uma altura de sessenta metros, onde o ri prosseguia veloz por um desfiladeiro de trinta léguas de extensão. Nem mesmo os peixes, as tartarugas, nem os jacarés, se atreveriam a aproximar-se dessas águas traiçoeiras.
De súbito assistiram a um indivíduo a saltar do cume da queda de água para as águas espumantes do rio. Confúcio pensou que aquele homem devesse estar a tentar cometer suicídio, de modo que disse aos aprendizes para se dirigirem para a margem do rio e para se prepararem para o salvar. Mas quando acorreram apressados para a borda do rio, viram que alguém vinha a nadar vagarosamente para a margem. Para sua surpresa, o homem ergueu-se nos baixios, sacudiu a águas dos seus longos cabelos, e começou a cantar.
Confúcio não conseguia acreditar naquilo que via, razão por que se acercou do estranho homem e lhe disse: “Quando vi que se lançou do topo da queda de água, pensei que se queria matar. Mas assim que o vi a nadar nessas águas traiçoeiras enquanto se deleitava, pensei que fosse um fantasma. Mas ao me aproximar, posso constatar que é um homem.” Com é que consegue nadar por entre águas tão perigosas?”
O homem de cabeleira longa respondeu-lhe:
“Não tenho nenhum método particular de natação, excepto que, quando me encontro na água, não luto com ela. Deixo-me flutuar nela e afundar-me nela em vez de tentar forçar um caminho através dela. Poderás dizer que tenha iniciado a minha aprendizagem com o que me foi dado à nascença, que a tenha continuado o que me era natural fazer, e a tenha completado ao confiar no que deveria tornar-me.”
Confúcio disse: “Diz-me o que queres dizer com isso.”
O homem respondeu: Significa seguir o curso natural das coisas. Se tivesse nascido nas montanhas, ter-me-ia sido natural sentir-me confortável no alto dos montes. Isso significa começar com o que me foi dado ao nascer. Se tivesse nascido no mar, teria sido natural eu brincar na água. Isso seria prosseguir com o que seria natural fazer. Quando faço qualquer coisa, jamais me ocorre pensar no modo como a faço. Isso é confiar no que está destinado a ser.”
20 – o homem que conseguia caminhar sobre o fogo
Um caçador seguido de vasta facção de seguidores perambulavam pelos maciços centrais à procura de veados. Quando não conseguiam encontrar animais na área, chegavam fogo à erva alta na esperança de que os animais fugissem dos abrigos. De súbito contemplaram um vulto emergir das pedras. Quando o caçador e os amigos viram o vulto passar por entre as labaredas e o fumo pensaram ter visto um fantasma.
Todavia, assim que o fogo esmoreceu, voltaram a ver o vulto, que desta vez caminhava vagarosamente como se nada se tivesse passado. O caçador ficou curioso, de modo que se encaminhou na direcção do vulto, para o ver de perto. Assim que percebeu que o vulto tinha aspecto e forma humana, ficou ainda mais fascinado. Assim, dirigiu-se ao homem e perguntou-lhe: “Porque é que vives nos rochedos e passas por entre as labaredas?”
O homem respondeu-lhe: “Que coisa é “rochedos,” e que coisa será “labaredas” Não sei de que falas.”
Tal façanha foi motivada pela inconsciência que permitiu desempenhasse aquele feito.
Quando o Marquês de Wei veio posteriormente a ter conhecimento disso, perguntou a Tzu-hsia, um estudante de Confúcio: “Já terás ouvido falar de gente que consegue caminhar por entre o fogo? Que homem extraordinário não deve ser!”
Tzu-hsia respondeu: “O meu mestre Confúcio certa vez disse que se nos encontrássemos em harmonia com os elementos que nos rodeiam, não nos veríamos prejudicados por eles. Um fulano assim seria capaz de se “fundir” com as rochas e de caminhar sobre o fogo.”
“Serás tu capaz de tal façanha?”
“Não consigo, por ainda me ver incapaz de esvaziar a mente e de descartar o conhecimento que obtive. Sei somente o suficiente para falar acerca disso.”
“Conseguirá o teu mestre uma façanha dessas?”
“O meu mestre é capaz de tanto, mas não o quererá.”
Assim que o marquês escutou aquilo, ficou encantado e não fez mais perguntas.
21 – liet-zu e o feiticeiro
Havia um certo feiticeiro que era capaz de prever o futuro. Um olhar para as características faciais de alguém era tudo quanto precisava para ser capaz de predizer se a pessoa viria a vier ou a morrer, se viria a ter sorte ou azar. Era mesmo capaz de dizer a idade do indivíduo, o dia do nascimento e o dia em que faleceria.
Toda a gente o evitava, com receio que lhes indicasse coisas que preferiam não saber. Apenas Lie-tzu se deixou impressionar com as capacidades do feiticeiro e o acolhia na sua companhia. Tão impressionado se encontrava com o seu poder que foi até junto do seu mestre, Hu-tzu e disse: “No passado cheguei a pensar que dominavas os mistérios do Céu e da Terra, mas agora encontrei alguém que possui poder mais vasto.”
Hu-tzu respondeu: “Apenas tocaste ao de leve nos ensinamentos que dispenso. Ainda nem sequer comecei a mostrar-te a natureza subjacente das coisas, e acreditas ter compreendido os mistérios do universo. Se interagires com gente dotada de conhecimento superficial, tornar-te-ás plenamente previsível. Traz-me esse feiticeiro e vejamos o que sucede.”
No dia seguinte, Lieh-tzu levou o feiticeiro a visitar Hu-tzu, e ficou respeitosamente a aguardar no exterior. Quando o feiticeiro saiu, disse a Lieh-tzu: “Tenho más notícias para te dar. O teu mestre está às portas da morte. Restam-lhe, quando muito, uns dez dias de vida. Tem o rosto branco como cinzas e encontra-se de tal modo imóvel que mais parece um cadáver.”
Aflito e num pranto, Lieh-tzu acorreu junto ao mestre e relatou-lhe o que o feiticeiro lhe tinha revelado.
Hu-tzu respondeu-lhe: “ Mostrei-lhe apenas o domínio que o Yin exerce sobre o Yang, Apresentava um corpo enrijecido e uma respiração inactiva. Foi isso que o levou a concluir que me encontrava às portas da morte. Pede-lhe que venha visitar-me uma segunda vez.”
No dia seguinte, lá conseguiu Lieh-tzu levar o feiticeiro numa nova visita a Hu-tzu. Desta vez, ao sair, o feiticeiro disse-lhe: “Parabéns! O teu mestre está a melhorar. Ele teve sorte em me ter conhecido. Agora posso ver sinais de vida nele.”
Assim que Lieh-tzu contou o sucedido Hu-tzu sorriu: ”Foi por lhe mostrar o domínio do Yang sobre o Yin. O sopro primordial tinha acabado de despertar em mim. Não posso nomeá-lo nem descrevê-lo. Foi como erguer-me nos meus calcanhares e encher todo o meu corpo. Foi por isso que ele percebeu que eu regressava à vida. Vê se o trazes de novo.”
Quando feiticeiro viu Hu-tzu de novo, disse a Lie-tzu: “O teu mestre está sempre a mudar. Não consigo ver nada nele. Terei que regressar quando se encontrar mais estável.”
Mais tarde Hu-tzu disse a Lieh-tzu: “Tinha acabado de lhe mostrar a cópula do yin e do yang. Provavelmente ele terá contemplado o processo da criação e da dissolução e o fluxo da mudança as coisas.
Ribeiros, riso, quedas de água, nascentes, lagos, rápidos, redemoinhos e vórtices são tudo diferentes manifestações da água, mas eventualmente tudo corre para as profundezas. Existem nove dessas profundezas, e só lhe mostrei três. Diz-lhe para cá vir de novo.”
Desta vez, mal tinha o feiticeiro posto pé na habitação de Hu-tzu quando saiu a correr desenfreado. “Detém-no,” disse Hu-tzu. Lie-tzu correu atrás do feiticeiro mas não foi rápido o suficiente para o apanhar, e em breve perdeu-lhe o rasto.
Lieh-tzu voltou para o mestre e disse-lhe: “Ele correu tão rápido que não o consegui apanhar.
Logo Hu-tzu lhe disse: “Aquilo que acabei de lhe mostrar foi o aspecto que tinha antes de vir ao mundo. Não tinha corpo nem forma, ouvido nem olfato. Andava à deriva por entre as coisas em que entrava e saía sem ser notado nem examinado. Ele jamais tinha visto esse tipo de coisa, antes.
A partir dessa altura Lieh-tzu ficou com a noção de que o que tinha aprendido era frívolo e que se encontrava na verdade longe de compreender os caminhos do Céu e da Terra. Assim, regressou a casa e dela não saiu durante três anos. Cozinhou para a mulher e fez as obrigações de casa, cuidou dos porcos e foi amável com todos quanto passavam. Distanciou-se dos assuntos mundanos e libertou-se do emaranhado de mentiras e de verdades. Não mais se parecia com um pedaço de jade esculpido mas com um bloco tosco de madeira. Em meio a esse mundo turvo permaneceu verdadeiro para consigo próprio, e na simplicidade e tranquilidade passou o resto da sua vida.
22 – o receio de lieh-tzu
Encontrava-se Lieh-tzu a caminho do condado de Chi quando subitamente decidiu voltar atrás. No regresso encontrou-se com um dos seus mestres anteriores, Po-hun, que lhe perguntou: “Tu ias a caminho de Chi; porque voltaste para trás?”
Lieh-tzu respondeu: “Por estar com receio.”
“Que tens a temer?”
“Eu entrei em dez estalagens para comer, e em cinco serviram-me antes de servirem os demais.”
“Que problema tem isso?”
Lieh-tzu respondeu: “Ocorreu-me que o ego me estivesse a levar a melhor e que me impunha um tipo qualquer de respeito ou que levava as pessoas a pensar que eu seja um homem importante. Isso terá levado os estalajadeiros a dar-me a preferência no tratamento. Se continuar ver-me-ei em sarilhos.”
Lieh-tzu lá prosseguiu: “Os estalajadeiros não ganham muito e decerto que não têm lá grande voto em questões de política. Se as pessoas que pouco têm a ganhar me têm na conta de pessoa tão importante, então deverei estar mesmo em apuros quando os generais e o s ministros vierem consultar-me e pedir conselho. É por isso que tenho receio.”
Po-hun respondeu-lhe: “Excelente observação! Mas deixa que te diga uma coisa. Mesmo que fiques e deixes de ir a Chi, os outros não te largarão facilmente.” Lieh-tzu nunca chegou a ir a Chi. Em vez disso decidiu instalar-se num sítio sossegado.
Passado não muito tempo, Po-hun veio visitá-lo. Ao ver o calçado de inúmeras visitas à entrada de casa de Lieh-Tzu, Po-hun não entrou e partiu sem proferir palavra.
Quando o sucedido chegou aos ouvidos de Lieh-tzu que o seu antigo mestre tinha sido visto no exterior, ele correu descalço no seu encalço e lá conseguiu apanhá-lo a tempo de lhe dizer: “Mestre, uma vez que vieste, porque não entras e me instruis?”
Po-hun disse: “Eu nada tenho a dizer. Eu disse-te que as pessoas não te largariam facilmente, e agora isso foi comprovado. As pessoas acorrem a ti, não porque sejas capaz de permitir que te respeitem mas por não os poderes impedir de fazer isso. Tu exibiste a tua virtude e as tuas conquistas e com isso atraíste as pessoas que procuram aprender contigo, mas nem tu nem essa gente beneficia disso. Eles bajulam-te, e tu dizes-lhes aquilo que eles querem ouvir. Amparais-vos uns aos outros, e no final nenhum sai esclarecido.”
23 – lao-tzu ensina yang-chu
Yang-chu era discípulo de Lao-tzu. Assim que ouviu dizer que Lao-tzu se encontrava de viagem para a terra ocidental de Chi, foi encontrar-se com o seu mestre na estrada mesmo à saída da cidade de Liang.
Lao-tzu olhou para Yang-chu e de seguida ergueu os olhos para o céu e suspirou, dizendo: “Certa vez pensei que fosses capaz de aprender. Agora tenho a certeza de que és incorrigível.”
Quando Yang-chu ouviu aquilo fiocu intrigado, mas nada disso. Seguiu Lao-tzu até à estalagem e prestou assistência ao mestre. Estendeu-lhe um pente, uma toalha e uma bacia com água e aguardou pacientemente enquanto o mestre se lavava. Quando viu que Lao-tzu se tinha finalmente sentado, tirou as sandálias, rastejou sobre as mãos e os joelhos até junto do mestre, e disse respeitosamente: “Mestre, há pouco disseste que eu era incorrigível. Ao ver que te dirigias apressado opara a cidade, não me atrevi a atrasar-te com pedidos de explicação. Agora, porém, que pareces dispor de um certo tempo, gostaria de descobrir que foi que fiz de errado."
Lao-tzu disse-lhe: “És altivo e arrogante. Não sentes respeito por coisa nenhuma. Não é de admirar que ninguém procure a tua companhia.”
Yang-chu humildemente pediu que o instruísse, e aí Lao-tzu respondeu: “Uma pessoa de virtude não se considera virtuosa, e quem quer que tenha alcançado o esclarecimento não apresenta aparências de perfeição. Somente assim poderás transcender o mundo e ainda assim fazer parte dele.”
Yang-chu acatou o conselho do mestre de imediato.
Quando chegou pela primeira vez à estalagem, o estalajadeiro cumprimentava-o com deferência com regularidade. A mulher do estalajadeiro receava não o servir de modo apropriado. Os outros fregueses sentavam-se a uma distância respeitável e não se atreviam a proferir palavra. Por altura em que Yang-chu deixou a estalagem para prosseguir viagem, ele já gracejava com o estalajadeiro e mostrava-se tão amigável com a clientela que ela começou a disputar um lugar à mesa dele.
24 – que terão as aparências de errado?
Enquanto viajava para o condado de Sung, Yang-shu foi hospedar-se numa estalagem. O estalajadeiro tinha duas mulheres, uma bonita e a outra feia. Quando Yang-shu viu que o estalajadeiro amava mais a mulher feia do que a bonita ficou surpreendido e perguntou-lhe: “A maior parte das pessoas amaria uma mulher bonita e ignoraria uma feia. Porque fazes tu o contrário?”
O estalajadeiro respondeu: “A bonita pensa que é bonita mas não lhe distingo tal beleza. A feia tem-se na conta de feia, porém, não lhe noto fealdade alguma.”
Yang-shu regressou para junto dos discípulos e disse: “Lembrem-se bem disto. Se forem sinceros convosco próprios e fizerem as coias de boa-fé, toda a gente em vós perceberá a virtude. Assim, não importa onde vão, serão respeitados.”
Quando olhamos as coisas muitas vezes presumimos que, quando duas coisas têm um mesmo aspecto exterior devem ser iguais por dentro. Contudo, o sábio sabe que as aparências não nos dão conta do que vai no íntimo. Qualquer coisa poderá parecer humana e ainda assim não apresentar a mesma inteligência que um ser humano; algo poderá não possuir o aspecto humano e ainda assim ter a inteligência de um ser humano.
Além disso, temos a temos a tendência para nos deixarmos atrair por coisas que se nos assemelham, e a distanciar-nos daquelas que não se parecem connosco. Quando vemos alguma coisa alta que caminha sobre duas pernas, que possui cabelo e mãos com dedos, chamámos-lhe humano e de imediato os mostramos amigáveis para com ela. Quando vemos algo que caminha sobre quatro patas, que voa ou rasteja, sentimos de imediato como se alguma coisa de fosse diferente de nós e tornámo-nos cautelosos.
No entanto, o sábio sabe que certos animais são tão inteligentes e zelosos quanto aos seres humanos, e que alguns seres humanos são tão selvagens quanto animais. Como se poderá julgar pelas aparências?
Os benfeitores da humanidade, a deusa Nu que nos criou, o sábio Sheng-nun que nos inculcou o conhecimento da agricultura e muitos dos mestres da humanidade da antiguidade – não surgem sob a forma humana. Alguns possuem corpo de serpente, outros têm cabeça de touro, e outros ainda possuem asas e cascos. Por outro lado, os tiranos que escravizam as pessoas e que matam inocentes, possuem aparência humana. Desse modo, como se poderá julgar qualquer coisa pelo aspecto que apresenta?
Quando o Imperador Amarelo defendia a sua nação dos invasores, possuía um exército de tigres e de ursos, de lobos e de leopardos. Águias e falcões carregavam-lhe os estandartes. No entanto dizia-se que o Imperador Amarelo conseguia chamar para o seu lado animais com flautas e sininhos. Por conseguinte, em que é que tanto diferem os animais de nós, se são capazes até de responder ao nosso chamado?
Pensamos não ser capazes de comunicar com os animais por não se assemelharem a nós e produzirem ruídos diferentes. Todavia, os sábios da antiguidade sabiam ser ao contrário, por serem capazes de falar com os animais e de os compreender.
Na realidade os animais parecem-se muito com os humanos. Sabem cuidar deles próprios, acasalam, tratam e protegem as crias, evitam o perigo e buscam o calor e o abrigo, para além de possuírem inteligência, tal como o homem. Sempre que viajam, os mais fortes protegem os mais fracos. Alguns procuram água, outros abrem caminho, e outros ainda ficam a vigiar o perigo. Não será isso o que os seres humanos fazem?
No passado, animais e seres humanos viviam em paz, juntos. Os seres humanos não prejudicavam os animais, nem estes temiam as pessoas. No tempo dos imperadores, os animais começaram a recear as pessoas, por se terem tornado objecto de caça. Agora raramente vemos os animais no seu habitat natural, por terem aprendido a esconder-se- de nós.
N uma povoação distante que fica lá para leste, há quem ainda consiga falar com os animais domésticos e os entenda. Todavia, só os sábios da antiguidade conheciam a língua dos animais e conseguia chamá-los e dar-lhes instruções. Na verdade, tais sábios conseguiam falar com os espíritos, e desse o os seus ensinamentos prolongavam-se à miríade de coisas existentes na criação, tanto humanos como não humanos.
Versão de Lionel Giles
Pode existir semelhança no entendimento sem existir semelhança na forma de exteriorização. Pode igualmente existir similitude no modo de exprimir sem, contudo, haver qualquer semelhança na compreensão. O sábio abraça a semelhança da compreensão e não dá qualquer importância à similitude do modo.
Toda a gente, em geral, se deixa atrair pela semelhança dos modos enquanto permanece indiferente à similitude do entendimento. Aqueles que se assemelham pela forma, eles estimam e tornam-se seu consorte; aqueles que diferem deles na forma, eles têm a tendência para temer e manter à distância.
A criatura que possui um esqueleto com sete pés de comprido, e a forma das mãos ligeiramente diferente da dos pés, cabelo na cabeça e um feixe de dentes nas mandíbulas, é tida na conta de ser um homem. Mas isso não quer dizer que um homem não possua o cérebro dum bruto. Ainda que possa ser o caso, outros serão capazes de distingui-lo como um par da mesma espécie em virtude da sua forma externa.
As criaturas que possuem asas nas costas ou chifres na cabeça, dentes afiados ou garras extensivas, e que voam por cima ou correm sobre quatro patas, são chamadas aves ou bestas. Todavia, não quer isso dizer que uma ave ou uma besta não possua a mente dum homem. No entanto, mesmo nesse caso jamais é tido como da mesma espécie devido à diferença na forma.
Pao Hsi Nu Kua, Shen Nung e Hsia Hou tinham corpo de serpente, face humana, cabeças de boi e focinho de tigre. Por isso a sua forma era tudo menos humana, não obstante a sua virtude ser das mais santificadas. Chieh da dinastia Hsia, Chou da Yin, Huan do Estado de Lu e Um do estado de Chu, eram todos, no que toca ao aspecto externo, aparência física e posse dos sentidos, semelhantes a qualquer outro; todavia possuíam a mente de um bruto. Seja como for, na busca da compreensão perfeita, o homem considera unicamente a forma externa, a qual não o leva nem sequer perto.
25 – suavidade e dureza
Há muita coisa acerca do caminho do Céu e da Terra que as pessoas acham intrigantes. Por exemplo, a força nem sempre vence, e por vezes a suavidade pode mesmo chegar a representar a estratégia mais eficaz. Se por rotina tentarem superar a força com a força, um dia acabarão por encontrar quem seja mais forte que vós, e serão derrotados. Se souberem submeter-se, então, jamais se verão em perigo. Se forem competitivos sempre chegarão a uma altura em que se verão derrotados. Se não forem competitivos não precisarão preocupar-se por vencer ou perder.
A força deveria sempre ser complementada pela brandura. Se resistirem demasiado acabarão por quebrar. Desse modo, aquele que é forte sabe quando empregar a força ou fazer uso da concessão; a sorte e o desastre dependerão de saberem como e quando fazerem concessões.
Lao-tzu disse certa vez: “Se um ramo for demasiado rígido, ele quebrará. Resisti e perecereis. Saibam ceder e sobreviverão.
Houve certa vez um rei que estava unicamente interessado em contratar quem fosse forte e bravo, por acreditar que a força constituísse a melhor maneira de se proteger. Certo dia um filósofo itinerante foi visitá-lo. O rei nesse dia encontrava-se de mau-humor e mostrava-se carrancudo, ao andar para a frente e para trás. Ao ver o filósofo disse:  “Só estou interessado em ouvir falar de força e coragem. Se me vieres falar sobre virtude e moral, então perderás o teu tempo.”
O filósofo disse: “Se eu possuísse estratégia que garantisse que qualquer um que tentasse apunhalá-lo falhasse, estaria interessado?”
“Claro que gostaria de ouvir falar disso.”
“Se alguém o tentar apunhalar e falhar ainda se sentirá humilhado por ter sofrido um atentado à sua vida. Por isso, estratégia melhor seria uma que levasse as pessoas a jamais se atreverem a atacá-lo, desde logo.”
O rei relutantemente lá concordou, enquanto o filósofo prosseguia:
“Bom, se as pessoas não se atreverem a prejudicá-lo, não há garantia de que não tenham o desejo de lhe fazer mal. Por isso, estratégia ainda melhor seria uma que levasse as pessoas a não querer fazer-lhe mal em absoluto.”
O rei assentiu pensativo. A seguir o filósofo acrescentou: “Mas o simples facto de as pessoas não serem levadas a querer prejudicá-lo não quer dizer que o respeitem ou amem. Suponhamos que dispunha de uma estratégia que as conseguisse levar a amá-lo e a respeitá-lo, de modo que as suas preocupações fossem as preocupações delas. Não seria tal estratégia várias vezes melhor do que a mera força e coragem?”
O rei exclamou: “É disso exactamente que ando à procura. E o filósofo respondeu: “Nem Confúcio nem Mo-tzu eram príncipes. Jamais se tornaram líderes ou tiveram qualquer cargo político. No entanto as pessoas respeitavam-nos do mesmo maneira que a reis e a nobres. Por toda a parte em que andassem as pessoas agarravam-se-lhes ao pescoço e punham-se em bicos de pés para obter um olhar da parte deles. Toda a gente os respeitava e lhes desejava bem. Vossa majestade já possui poder político e militar. Se governar a sua gente com virtude e integridade, a sua grandeza não suplantaria a de Confúcio e a ed Mo-tzu?”
O rei ficou mudo, sem palavras. Ao ver que tinha conseguido o objectivo, o filósofo saiu rapidamente. O rei voltou-se para os ministros e disse: “Aqui está um homem que sabe falar de verdade.” Ele deu-lhe a volta por completo com os argumentos que apresentara.

Livro III
O REI MU DE CHOU
INTRODUÇÃO
Por vezes um sonho parece de tal modo real que quando acordamos sentimos não ter sido um sonho. Uma vez acordados, esquecemos os sonhos que tivemos. Quando dormimos esquecemos a vida do estado desperto. Qual será mais real: a nossa vida onírica ou a vida do estado desperto? É acerca disso que Lie-tzu nos questiona.
Até mesmo no estado esperto, as coisas não são tão permanentes quanto pensamos. O que hoje poderá parecer razoável, poderá amanhã soar a ridículo. Os pensamentos que nos ocupam a mente durante o dia poderão parecer-nos destituídos de sentido quando permanecemos despertas à noite e voltamos a pensar neles.
Se nada é permanente, então porque nos afeiçoamos tanto ao sucesso e ao fracasso? Após a morte ninguém irá recordar o que fizemos. Mas mesmo que sejamos recordados, o que recordado será apenas o que optarem por recordar.
Porque conduzir-nos com tanta dureza quando ao morrer não conseguimos levar as nossas riquezas connosco? Porque dar tamanha importância ao amor e à perda quando sabemos que um dia teremos que abandonar toda a gente? A vida é uma jornada curta, por isso, porquê tornar-nos presa das convenções sociais, da aprovação dos pares e de preocupações inúteis?
Enquanto o rei Mu viajava pelo reino do espírito, tudo lhe parecia real. Mas quando regressou ao próprio reino descobriu que tudo quanto tinha experimentado tinha sucedido num pestanejar de olhos. Será o domínio do espírito real ou não passará de uma ideia fugaz?
Para aquele que conseguia fazer com que nevasse no Verão e trovejasse no Inverno, o nosso mundo “real” pode não passar de uma ideia efémera. Poderá um tal homem mudar a realidade? Ou será que a nossa realidade não será tão permanente quanto somos levados a crer?
Se conseguirmos deixar-nos levar sem nos aprisionarmos pelas preocupações mundanas, então não nos preocuparemos durante o dia nem sonharemos com os problemas durante a noite. Onde não existir um “Eu” (separado, subentenda-se) não existirão sonhos. O sono constitui um período de descanso. Porque gastá-lo com preocupações?
Perceber as ilusões do “Eu” e do mundo permitir-nos-á entender a natureza da felicidade e do pesar. O rico que era senhor do seu ofício durante o dia e que sonhava ser um escravo ao dormir não difere muito do escravo que sofre durante o dia e que sonha ser rei pela noite. Ambos experimentam meio dia de felicidade e meio dia de tristeza.
Se nos formos sentir infelizes nas nossas vidas despertas ou nos nossos sonhos, então porque não sermos como aquele que perdeu a memória das preocupações? Quem será mais afortunado – aquele que perdeu a memória e as preocupações ou aquele que as retém?
O mundo é aquilo que dele fazemos. Nós criamos a nossa felicidade e os nossos pesares. Se esse for o caso, porque criar problemas para nós próprios?
26 – o sonho do rei mu
O rei Mu de Chou foi visitado por um estranho do extremo oeste. Tratava-se de um feiticeiro que era capaz de caminhar sobre o fogo e a água, penetrar a pedra e o metal, voar pelos ares e mover montanhas e rios. O rei Um ficou sobejamente impressionado com as habilidades do feiticeiro e tratou-o como a um deus.
Construiu-lhe um palácio, enviou-lhe os melhores pratos que tinha no reino, e providenciou-lhe as melhores cortesãs. Todavia o feiticeiro não levou tais oferendas em grande consideração. Achou o palácio desconfortável, a comida desagradável e as cortesãs feias, malcheirosas e incultas.
Ao ver que o seu convidado se sentia insatisfeito o rei mandou construir um outro palácio maior do que o anterior. Contratou os melhores artífices e arquitectos e usou a melhor madeira e pedra que tinha no condado. O palácio era formado por uma torre que subia até às nuvens e que tinha as vistas mais incríveis sobre vales e montanhas. O rei Mu chamou-lhe a torre do meio do céu.
O rei congregou igualmente as mulheres mais belas e delicadas que tinha no reino. Forneceu-lhe as melhores peças e joalharia e de seda, aspergiu-o com as mais puras fragrâncias e disponibilizou-lhe os melhores assistentes. Todos os dias lhe oferecia vestimentas caras e as melhores iguarias e convocou os melhores músicos ara tocar a melhor música alguma vez composta.
O feiticeiro ainda se sentia insatisfeito, mas ao ver que orei tinha dado o seu melhor, de má vontade aceitou as oferendas.
Passado não muito tempo, o feiticeiro convidou o rei Mu para viajar com ele à sua terra no oeste. Dizendo ao rei para fechar os olhos e para se agarrar à manga da veste dele, alçou-se ao céu. Assim que o rei abriu os olhos deu por si na terra do feiticeiro. Ao entrar na área do palácio viu que os edifícios se achavam decorados com prata e ouro. Jade, pérolas e outras joias preciosas adornavam as paredes e as janelas. O palácio situava-se num leito de nuvens que ficava acima da chuva e das tempestades. Tudo quanto viu, ou viu, experimentou, era desconhecido no seu mundo. Foi então que o rei Mu percebeu que os deuses deveriam ter apreciado tais luxos nos seus palácios celestes. Comparado com aquilo, o seu próprio palácio parecia um mero casebre.
O rei Mu disse para consigo próprio: “Jamais vi coisa assim. Não me importava de aqui ficar dez ou vinte anos.” O seu devaneio foi interrompido pela aproximação do feiticeiro que o levou a visitar ainda um outro reino.
Desta vez, quando o rei Mu chegou, não conseguiu vislumbrar sol nem lua, montes nem mar. Para onde quer que olhasse a luz era de tal modo deslumbrante que tudo quanto conseguia divisar era um caleidoscópio de cores que o deixavam estonteado. Os sons que escutava eram estranhos e misteriosos e logo ficou com os sentidos desorientados. O corpo tremia-lhe e sentia a mente ofuscada; sentia-se enjoado e pensou que ia adoecer. Rapidamente pediu ao feiticeiro que o levasse dali ou enlouqueceria. O feiticeiro deu-lhe um leve empurrão, e o ri Mu viu-se de volta ao seu palácio.
Ao abrir os olhos verificou que se encontrava sentado na sua cadeira, que jamais tinha deixado. O vinho que tinha na taça ainda não tinha sido ingerido, e a comida no prato ainda se encontrava tépida. Os seus assistentes permaneciam na mesma posição anterior. Quando lhes perguntou o que tinha acontecido, os assistentes responderam que permanecera sentado na sua cadeira e que fechara os olhos por breves instantes.
O rei Mu achava-se de tal modo chocado com aquilo que levou quase três meses a recobrar de toda aquela experiência. Por fim decidiu perguntar ao feiticeiro o que tinha realmente sucedido e o seu distinto convidado respondeu-lhe: “Fizemos uma jornada pelos domínios do Espírito. Foi por isso que o teu corpo permaneceu imóvel e não sentiste passagem de tempo. Experimentaste um mundo que te é desconhecido enquanto permanecias sentado no seu próprio palácio. Existirá mesmo alguma diferença entre os lugares que visitaste e aquele a que chamar “lar”? Ficaste chocado e desorientado por te sentires confortado com o que designas por permanente, e sentiste-te- nervoso com as coisas que consideras transitórias. As reacções que sofreste são o resultado das partidas que a tua mente te provocou. Quem poderá asseverar quando e com que rapidez uma situação pode mudar numa outra e qual será real e qual não será?”
Após ouvir aquilo o rei Mu decidiu retirar-se da política. Ordenou aos assistentes que preparassem a sua carruagem e os cavalos a partiu numa longa viagem pelo seu reino. Viajou para terras estranhas onde foi entretido pelos senhores dessas terras. Num dos locais que visitou o chefe tribal deu-lhe a beber o sangue de um ganso da neve, e lavou-lhe os pés com leite de vaca e de cabra. A seguir o rei escalou as montanhas Ku-lun até ao topo, de onde vislumbrou o palácio real do Imperador Amarelo, e construiu um memorial para que as gerações futuras recordassem esse poderoso governante.
A seguir foi em visita à Mãe Imperatriz do Oeste, que lhe ofereceu um banquete de honra e entreteve com música e canto. O rei cantou em dueto juntamente com a Imperatriz celeste mas a música apenas invocou sentimentos de tristeza.
À medida que o sol se começou a pôr nos céus do oeste, o rei Mu percebeu que viajara mais de dez mil milhas num só dia. Suspirou e disse: “Em vez de usar o tempo de que dispunha a governar o país e a cuidar dos meus súbditos, desperdicei este dia a cantar a divertir-me. O provável é que venha a ser visto pelas gerações futuras com um tolo!”
O Rei Mu não era divino. Ele desfrutou por completo da sua vida e morreu quando chegou a hora. Mas toda a gente acreditava que se tinha tornado num deus e que tinha ido para o céu.
27 - aprendendo as artes arcanas
Lao Cheng Tzu foi aprender os segredos das artes arcanas com o sábio Wen-Tzu. Depois do seu mestre não lhe ter ensinado nada durante três anos, ele desculpou-se pela estupidez e pediu permissão para retornar a casa.
Went-zu fez uma vênia a Lao Cheng Tzu, conduziu-o aos aposentos dele, dispensou os outros estudantes e fechou a porta, a seguir ao que, disse:
"Quando o meu mestre partiu para as terras do ocidente disse-me que a vida e a essência do céu e da terra e a forma de todas as coisas na verdade constitui uma ilusão. Quando as energias do Yin e do Yang copulam e as coisas vêem à existência, chamamos a isso nascimento. Quando se separam e desvanecem, chamamos-lhe morte. Àquilo que ocorre segundo a aritmética da mudança chamamos transformação, ou arcano."
"Os princípios da criação e da dissolução são profundos e de difícil compreensão. Se nos aferrarmos simplesmente aos aspectos superficiais da mudança, só lidaremos com ilusões, e o que quer que manipulemos não terá efeito duradouro. Somente quando penetramos a aritmética da transformação e nos tornamos unos com a mudança estaremos qualificados para a aprendizagem das artes arcanas. Afinal de contas, tu e eu não passamos de ilusões de corpo e mente, por isso, que terão as artes arcanas de tão mágico?"
Lao Cheng Tzu agradeceu ao seu mestre e regressou a casa. Pensou no que ele lhe tinha dito durante três meses e começou a abrir mão da ilusão de corpo e mente. Tendo-o conseguido, tornou-se capaz de surgir e de desaparecer à vontade e de dar a volta às estações. Era capaz de convocar o trovão no inverno e a neve no verão. Podia fazer com que animais que corressem passassem a voar e de fazer com que animais que voassem passassem a correr. Contudo, não revelou essas faculdades a ninguém, de modo que tais artes não foram transmitidas às gerações futuras.
Lie Tzu disse: "Aqueles que são adeptos das artes arcanas não as revelam casualmente. De facto ocultam-nas tão bem que chegam a parecer comuns. É geralmente aceite que os antigos sábios e reis conseguiam o que pretendiam por intermédio da virtude e da coragem. Mas quem poderá dizer que não tenham feito uso das artes do arcano?"
28 - sonhos
É dito que os episódios da nossa vida desperta podem ser classificados em oito categorias, e que as experiências da nossa vida onírica podem ser divididas em seis. A nossa vida terrena gira em torno desses catorze tipos de eventos.
Os oito episódios da nossa vida desperta são: Acontecimentos, acções, ganho, perda, felicidade, tristeza, vida e morte. Isso é experimentado sempre que o nosso corpo defronta algo no mundo.
As seis experiências com que nos deparamos na nossa vida onírica são: sonhos comuns sem grande significado, sonhos de aviso, sonhos resultantes do excesso de pensar, sonhos instrutivos, sonhos agradáveis e sonhos desagradáveis ou pesadelos. Tais estados oníricos são experimentados quando a nossa mente permanece inquieta.
Se não reconhecermos quando ocorrem as mudanças, nem a razão por que ocorrem, ficaremos confusos. Contudo, se conhecermos a causa e o efeito das coisas, então estaremos preparados e não nos entusiaremos nem amedrontaremos. O mesmo se passa com os sonhos.
O aumento ou a diminuição da energia nos nossos corpos segue o fluxo da energia de céu e terra. Quando há muita energia Yin, experimentaremos sonhos ligados à água e ao medo do afogamento. Quando há demasiada energia Yang, sonharemos com fogueiras quentes e experimentaremos a ameaça de sofrer queimaduras. Quando tanto as energias Yin e Yang se encontram no seu pleno vigor então sonhamos com violência e assassínio. Quando estamos esfomeados, sonhamos que imploramos por comida. Quando satisfeitos, sonhamos que damos comida aos outros. Pela mesma razão, aqueles que padecem de febre alta sonham que os seus corpos se acham leves e a pairar. Aqueles que estão a tiritar de frio sonharão que estão a afundar-se e a afogar-se. Durmam com o cinto apertado e sonharão que estão a ser sufocados por uma cobra. Adormeçam assim que a escuridão da noite começar a cair e sonharão com a luz da fogueira. Se tiverem perturbação estomacal ao dormir, sonharão que comem. Aqueles que vão dormir deprimidos sonharão que bebem vinho. Aqueles que adormecem após um pranto de tristeza, sonharão que dançam e que cantam.
Lie-Tzu disse: "Quando a mente se acha inquieta, sonhamos. O que tenha estimulado o corpo durante o dia surgirá nos nossos sonhos pela noite. Essa é a maneira como mente e corpo reagem um ao outro. Assim, as pessoas que têm uma mente vazia de pensamentos e cujos corpos não sofrem o estímulo das coisas que as rodeiam não se sentirão perturbadas por sonhos pela noite. Essa gente permanece completamente desperta no estado de vigília e em pleno repouso durante a noite. Os sábios não se apegam às ideias que têm nem às acções que empreendem durante o dia, de modo que pela noite não sonham."
Há uma terra distante que não chega a receber o sopro do Yin e do Yang. Por isso, nesse lugar não sucede a mudança das estações nem do dia e da noite. Lá, as pessoas não trabalham, nem comem, nem usam vestuário. Dormem a maior parte do tempo e só acordam uma vez em cada quinze dias. No pouco tempo em que permanecem despertos, sentem estar a sonhar. Por outro lado, os sonhos são muito reais para eles.
Há uma outra terra no centro do mundo. Essa terra estende-se a norte e a sul de um rio enorme; encontra-se cercada por montes a leste e a oeste, e estende-se por mais de dez mil milhas. Por se situar no centro do mundo, acolhe o sopro de Yin e de Yang com equanimidade. Por isso as estações não apresentam diferença nem distinção clara o dia e a noite. Nessa terra, alguns são inteligentes e outros são embotados. Alguns são talentosos e outros vulgares. As pessoas nessa terra possuem uma sociedade organizada, sabem como cultivar a terra, e são lideradas por um líder. Também são destros numa diversidade de actividades que exercem. Essa gente acredita que aquilo que experimenta no estado de vigília seja real e que o que experimenta nos sonhos seja irreal.
Há contudo uma outra terra onde sempre faz calor. O sol e a lua nunca se põem, e não há noite. Fustigada pelo calor, a terra não produz cultivo. As pessoas alimentam-se de frutos silvestres e de raízes de árvores e não conhecem a cozinha pelo fogo. São ferozes e violentas, e o forte conquista o fraco, por valorizarem a força ao contrário da virtude. Por não existir noite, acham-se activos a toda a hora e só raramente dormem.
Serão os acontecimentos do nosso estado e vigília mais reais do que os dos sonhos? Para aqueles que dormem a toda a hora, os sonhos serão mais reais do que o estado de vigília. Contudo, aqueles que dividem o seu tempo de forma igual entre a vigília e o sono, as experiências do estado de vigília não serão mais reais do que acontecimentos oníricos. Ainda assim, para aqueles que não conhecem o sentido do sono, não faz sentido falar acerca da diferença entre um e o outro estado. Que diferença existirá, pois, entre ambos?
29 – a verdade acerca da felicidade e da infelicidade
Um certo homem rico do condado de Chou tinha uma forma de gerir o seu negócio. Sob a sua supervisão, as suas propriedades e investimentos rendiam-lhe avultados lucros. Contudo, tratava os trabalhadores de forma impiedosa e fazia-os trabalhar do raiar do dia até ao anoitecer.
Havia um velho servo que tinha trabalhado toda a sua vida nas propriedades. Extenuado pelo trabalho árduo e pelo tratamento áspero, esse servo tinha perdido tanto a robustez quanto o vigor e não conseguia produzir mais. Mas o negociante não tinha compaixão pelo pobre servo. Em vez disso, castigava-o por ser preguiçoso e levava-o a trabalhar mais e durante mais tempo. O servo sentia-se de tal modo infeliz que gemia o dia todo enquanto trabalhava. Cansado de corpo e de mente pela noite caiu num sono profundo. Ao perder a consciência começou a sonhar, e sonhou que era rei numa terra próspera e que tinha milhares de servos às suas ordens. Vivia num palácio belíssimo, visitava o seu reino com pompa e luxo, e sentia-se feliz para além da imaginação. Mas ao acordar no dia seguinte, enfrentou outro dia de infelicidade.
Quando os colegas de trabalho o confrontaram, o velho servo disse: "Não é tão mau quanto isso. Sofro durante o dia, mas pela noite desfruto do facto de ser rei de uma nação."
Entretanto o rico homem de negócios descobriu que se sentia profundamente cansado depois de passar os dias a tratar dos assuntos das suas propriedades. Também ele caiu num sono profundo e sonhou. Mas quando sonhou, o sonho que teve foi um pesadelo. Tornou-se num escravo preso a um mestre cruel. Eram-lhe atribuídas as tarefas mais desprezíveis e via-se forçado a trabalhar por muitas horas seguidas de dureza. Mesmo quando se sentia cansado era tratado sem misericórdia. Era açoitado e punido por toda a falha imaginável quer com razão ou sem razão. Sofreu miseravelmente no sonho e só conseguiu alívio ao acordar.
Todos os dias os dois homens desempenhavam os papéis de mestre e de servo. E todas as noites sonhavam e desempenhavam os papéis de escravo e de rei. Os dias e os meses foram passando. O rico sentiu-se infeliz e pediu ajuda a um amigo.
O amigo disse-lhe: "Tu possuis uma vasta fortuna e um nome respeitável no mundo dos negócios. A posição social de que gozas é muito superior à do homem comum. Por isso, sonhar que te encontras no fundo da escala social é bastante normal. As coisas têm o seu jeito de se equilibrarem. Se quiseres ter tudo à tua feição tanto no estado de vigília como no estado onírico, isso será impossível."
O homem de negócios pensou nas palavras do amigo e percebeu que ele estava a forçar as coisas ao extremo. Ele tratava-se de uma forma demasiado afortunada e aos servos de uma forma demasiado infeliz. A partir daí passou a tratar os trabalhadores com compaixão, diminuiu-lhes a carga de trabalho e não dirigiu a sua vida de forma tão árdua. Em resultado, toda a gente se sentiu melhor. O rico deixou de ter pesadelos em que era escravo pela noite, e o velho servo não teve que sofrer durante o dia.
30 – o que será real e o que será irreal?
Um lenhador que reunia lenha na floresta cruzou-se com um veado, que matou e que escondeu num buraco para poder voltar mais tarde e recolhê-lo. Ele ficou tão contente com esta tremenda sorte que em breve se esqueceu onde o tinha guardado e começou a suspeitar que possa ter sonhado com a coisa toda.
Ao regressar a casa, ele murmurava consigo mesmo com respeito a tal sonho tão estranho. Aconteceu que um transeunte ouviu os murmúrios do lenhador e decidiu ver se conseguiria descobrir o veado que o lenhador tinha mencionado.
Depois de ter procurado com todo o cuidado pela área que o lenhador tinha descrito ele descobriu o veado oculto num buraco coberto por ramos de árvore. Espantado com a sorte que teve, o homem levou o veado para casa e disse à mulher: “Hoje encontrei um homem que sonhou que tinha morto um veado mas que esquecera onde o tinha escondido. Mas fui e procurei por toda a zona onde ele tinha dito que tinha morto o animal e encontrei-o num buraco. Não será incrível como os sonhos podem tornar-se reais?”
A mulher retorquiu: “não terá sido que tu sonhaste com todo o incidente? Descobriste um veado e sonhaste ter encontrado um lenhador que falou em ter morto um veado.” O marido respondeu: “Bom, realmente não tem importância que eu tenha sonhado o incidente ou não. Eu descobri um veado e agora dispomos de um bom suprimento de alimento.”
Quando o lenhador chegou a casa ele ainda se sentia incomodado por não conseguir ter a certeza se tinha morto um veado ou não. Nessa noite teve um sonho, e sonhou que efectivamente tinha morto um veado, e que o tinha metido num buraco e tapado com ramos. Além disso, no sonho viu que alguém que tinha visto a caminho de casa tinha descoberto o esconderijo e tinha levado o veado.
Na manhã seguinte ele dirigiu-se directamente a casa que vira no sonho e encontrou o veado no pátio. Entrou para reclamar o seu veado, porém o outro homem não abriu mão dele. Por fim, ambos foram ao magistrado da região para resolver a questão.
O magistrado escutou as alegações de ambos os dois homens, e disse: “Um de vocês matou o veado e depois disse ter sido um sonho. Mais tarde alegou ser verdade e não um sonho. Agora, o outro encontrou o veado que alguém sonhara ter matado, mas diz-me que a sua mulher dissera que sonhara toda a trama e que o lenhador no seu sonho jamais existira. Pois bem, tudo quanto aqui vejo é um veado e duas pessoas a contestar as suas reivindicações. Determino que o veado seja dividido em partes iguais entre vocês os dois.”
Quando rei ouviu falar desse estranho incidente, perguntou aos seus ministros: “Supõem que o magistrado sonhará dividir o veado?”
O seu magistrado respondeu: “Eu não consigo apurar se algo foi real ou produto de sonho. Somente os sábios como o Imperador Amarelo ou Confúcio poderão falar da diferença entre o estado de vigília e o sonho, mas como ambos deixaram este mundo, não temos maneira de aferir o que foi produto do sonho e o que não. Entretanto, eu prosseguiria com a decisão do magistrado de dividir o veado em metades iguais.”
31 O Homem que Perdera a Memória
Um certo homem chamado Hua Tzu de repente perdeu a memória na meia-idade. Se lhe dessem alguma coisa pela manhã, à noite já o teria esquecido. Se lhe perguntassem alguma coisa pela noite, no dia seguinte tê-lo-ia esquecido. Na estrada, esquecer-se-ia de caminhar. Em casa, esquecer-se-ia de se sentar. Hoje esquecer-se-ia do que ocorrera ontem, e amanhã não se recordará do que acontecera no dia anterior. 
Preocupado com a sua perda de memória, a sua família começou por convidar um adivinho e de seguida um feiticeiro a ver se conseguiriam ajudar Hua Tzu a recuperar a memória. Quando nenhum dos dois conseguiu ser de alguma valia, foi chamado um doutor, mas o terapeuta abanou a cabeça e disse que tão pouco tinha o que pudesse fazer.
Por fim, Hua Tzu pensou num filósofo que provavelmente poderia ajudá-lo. Tão desesperada estava a mulher de Hua Tzu por lhe descobrir uma cura que dispensou metade das posses que tinha para levar o marido ao filósofo e pedir-lhe ajuda.
A família viajou até à casa do filósofo e suplicou ao homem sábio que curasse Huz Tzu. O filósofo disse à família: “Esse tipo de doença não pode ser curado por presságios, magia ou ervas. Vou ter que recorrer a métodos especiais que são concebidos para funcionarem na sua mente.”
O filósofo então fez uma experiência com Hua Tzu. Quando dizia a Huz Tzu para despir as roupas, Hua Tzu queria ser vestido. Quando deixava o homem passar fome, Hua Tzu pedia comida. Quando fechava Huz Tzu num quarto escuro, o homem queria sair. Ao ver as reacções de Hua Tzu, o erudito ficou encantado e disse à mulher de Hua Tzu: “O seu marido pode ser curado, contudo, vou precisar recorrer a um método secreto que me foi passado ao longo de gerações, pelo que não posso que aqui permaneça a assistir. Volte dentro de sete dias. Dou-lhe a minha garantia de que ele será curado.”
A família de Huz Tzu não teve escolha senão partir. Durante sete dias, o filósofo isolou-se com Huz Tzu. Ninguém sabe aquilo que fez nem como o fez, mas quando a família de Hua Tzu regressou para o levar para casa, encontraram-no completamente curado.
Após Huz Tzu ter recuperado a memória, tornou-se irritadiço e nervoso. Ele expulsou a mulher, espancou os filhos e ameaçou o filósofo com uma lança. Quando a polícia o prendeu por perturbar a paz e questionou os seus motivos, Hua Tzu disse: “Quando perdi a memória, tornei-me despreocupado e feliz. Dormia pacificamente e ao despertar não tinha preocupações. Não tinha nada em mente, pelo que era um homem livre. Agora que recuperei a memória sinto-me infeliz. Considero a sorte e o azar, os ganhos e as perdas, bem como as alegrias e tristezas que tive na minha vida, e sinto-me oprimido. Despertei de um belo sonho e encontro-me num pesadelo. Jamais serei capaz de regressar aos bons tempos de quando perdera a memória!”
Quando Tzu-kung, um estudante de Confúcio, ouviu falar de Hua Tzu teve um acesso e ficou intrigado. Foi pedir uma explicação ao mestre, mas Confúcio disse somente: “Isso é algo que jamais compreenderás.” Então, voltou-se para o seu aluno mais promissor, Yen-Hui, e disse-lhe para tomar nota de tudo aquilo.

32  quem é que se encontra confuso?
Havia um homem que tinha um filho muito precoce, mas quando o menino cresceu, ele parecia ter um tipo estranho de doença mental. Quando ouvia riso, ele pensava que estavam a chorar. Quando sentia uma fragrância, pensava que eles era um cheiro pungente. Quando via preto, dizia que era branco. Quando comia algo amargo, dizia que era doce. Quando fazia algo errado, achava que estava certo. Parecia que ele estava completamente confuso e fazia tudo ao contrário do que esperado.
Seu pai ficou preocupado com o problema do filho e pediu ajuda aos amigos. Um homem aconselhou o pai: "Há um cavalheiro sábio na terra de Lu, que provavelmente poderia ajudar o seu filho. Por que não tenta?" O pai reuniu o dinheiro que tinha e, levando o filho com ele, fez a longa viagem até ao reino de Lu. Na estrada, conheceu Lao-tzu e descreveu o problema do filho ao sábio taoísta.
Lao-tzu disse ao pai: "Como sabe se o seu filho se encontra mentalmente perturbado e confuso? Hoje em dia, há muitas pessoas que estão confusas acerca do certo e do errado, do verdadeiro e do falso. Há ainda mais pessoas mentalmente perturbadas pelo ganho e pela perda. Assim, o seu filho não é a único com esse problema. De qualquer forma, só porque uma pessoa está confusa não significa que toda a família esteja confusa. E se toda uma família estiver confusa, isso não deverá afectar toda a aldeia. Se uma aldeia inteira estiver confusa, não deve afectar todo o país. Se um país estiver confuso, isso não significa que o mundo inteiro esteja virado do avesso. Se o mundo inteiro estiver confuso, então quem poderá dizer a alguém que estão confusos?
"Suponha que todos sejam como o seu filho e você seja o único que é diferente. Quem estará confuso, nesse caso: você, ou o seu filho e o resto do mundo? Quem no mundo pode reivindicar estar absolutamente esclarecido acerca do certo e do errado, do preto e do branco, do verdadeiro e do falso, e da felicidade e da tristeza? Não estou nem certo de estar ou não confuso quando lhe digo estas coisas. E os sábios senhores de Lu encontram-se ainda mais confusos. Assim, como poderão eles esclarecer a confusão de outra pessoa? Eu acho que você deveria economizar o seu dinheiro e levar o seu filho para casa."
33  o homem que ficou chateado por nada
Houve um certo indivíduo que nasceu no país de Yen, mas que cresceu muito longe, na terra de Chu. Na idade avançada, ele ansiou pela pátria e decidiu voltar a viver lá.
Ao percorrer o país de origem, ele atravessou o país de Chin. Os seus companheiros de estrada decidiram pregar-lhe uma partida. Assim, um deles disse-lhe: "Esta é a tua cidade natal." O homem ficou calado e pensativo. Outro amigo apontou um prédio e disse: "Olha, ali está o templo do teu bairro". O homem suspirou profundamente. Um outro companheiro levou-o até uma casa abandonada e disse-lhe: "Aqui está a casa de teus antepassados". O pobre homem rebentou num pranto. Um outro companheiro ainda fez um gesto para um grupo de lápides e disse: "Os teus ancestrais encontram-se enterrados aqui." O homem começou a chorar alto e de forma amargurada. Ao ver a sua angústia, os amigos decidiram que já não tinha piada, e então confessaram que estavam apenas a pregar-lhe um truque. O homem saudoso ficou muito envergonhado com as explosões emocionais por que passou e ficou quieto durante o resto do caminho. Quando por fim chegou à sua cidade natal e viu a sua casa ancestral e as tumbas dos familiares, ele não se sentiu tão mal como da primeira vez.
Podemos dizer que o homem ficou chateado por nada quando os amigos o provocaram? Não podemos dizer que suas emoções eram falsas, por ele realmente ter acreditado no que os seus amigos lhe disseram. As nossas emoções são resultantes das nossas crenças. Elas não têm nada que ver com o que existe realmente no exterior. Se acreditarmos numa coisa, então, certas emoções acompanharão a nossa crença. Se acreditarmos em alguma outra coisa, experimentaremos diferentes emoções.
Compreendendo isso, o homem saudoso percebeu que as suas emoções dependiam daquilo em que ele acreditava que via, e não do que se lhe apresentava. Então, quando finalmente alcançou a sua pátria, ele estava menos apegado ao seu anseio e, em resultado, os seus sentimentos encontravam-se menos agitados pelo meio circundante.

LIVRO QUARTO
Confúcio
INTRODUÇÃO
Quem será sábio? O que será uma pessoa esclarecida? Serão pessoas que são conhecidas e respeitadas por muitos? Ou serão aqueles que escondem o seu conhecimento e a sua sabedoria e parecem como pessoas comuns?
Lie-tzu acha que as pessoas esclarecidas são aquelas que raramente falam e que não revelam as suas habilidades e realizações de forma casual. Na verdade, eles podem parecer lerdas e embotadas. Elas vêem com os ouvidos e ouvem com os olhos. Elas podem esconder-se por trás de uma expressão de pau, ou podem perceber e agir de maneiras contrárias ao que as pessoas esperam. Assim, para a maioria elas parecem loucas e inconsistentes, mas muitas vezes nem sequer são notadas.
A maioria das pessoas questionaria a razão por que essas pessoas esclarecidas não quer dar-se a conhecer. Afinal, elas possuem habilidades além da nossa imaginação e certamente podem causar impacto na sociedade e no mundo. Mas num mundo de verdade e mentira, onde as pessoas são aprisionadas pela fama, pela fortuna, pela aprovação e pela ganância, os sábios que escondem as suas habilidades são os que sobrevivem.
34  a verdadeira felicidade e contentamento
Confúcio tinha-se justamente retirado da política quando Tzu Kung o foi visitar. Quando Tzu Kung entrou, viu o mestre com um ar triste e desanimado. Ele jamais tinha visto Confúcio comportar-se assim antes, pelo que saiu em silêncio e foi conversar com o seu amigo Yen Hui.
Yen Hui foi um dos estudantes mais promissores de Confúcio. Ele desfrutara de um relacionamento especial com o mestre e entendeu a doutrina do mestre melhor do que qualquer outro aluno. Quando Yen Hui ouviu o que Tzu Kung havia dito sobre o seu mestre, ele não proferiu uma palavra. Em vez disso, pegou no seu alaúde e começou a tocar e a cantar enquanto caminhava até a casa do seu mestre.
Quando Confúcio ouviu o canto de Yen Hui, ficou surpreendido. Ele deixou de franzir a testa e convidou Yen Hui a entrar. Yen Hui estava feliz por o seu pequeno acto ter conseguido animar o mestre, mas Confúcio saudou-o da seguinte forma: "Por que andas tão feliz contigo próprio por estes dias?"
Yen Hui não respondeu directamente à pergunta do mestre. Em vez disso, perguntou a Confúcio: "Mestre, por que anda tão deprimido por estes dias?"
Confúcio disse: "Vamos escutar as razões que tem para se sentir feliz, primeiro."
Então, Yen Hui respondeu: "Você ensinou-me que aceitar a vida e contentar-se com a vontade do céu é ser feliz. Mantive essas palavras na mente e agora ando sempre satisfeito e feliz."
Confúcio ficou surpreendido com a resposta de Yen Hui. "Eu realmente ensinei-te isso? Eu acho que me entendeste mal. Além disso, isso foi há muito tempo. As coisas agora são diferentes, e a compreensão que tenho da felicidade mudou."
Confúcio então olhou Yen Hui com atenção e prosseguiu: "Tu sabes somente que aceitar a vida e estar contente com a vontade do céu é felicidade. Não sabes que às vezes pode trazer tristeza. Achas que estás contente e feliz se não te sentires atraído pela fama e pela fortuna, ou não te preocupares com a vida e a morte, ou não te perturbares com mudanças que se operem ao teu redor. A compreensão que tenho do que significa ser feliz e contente não se centra apenas nisso. Deixa que te conte algumas das experiências por que passei e talvez entendas o que significa estar verdadeiramente feliz e contente.
"Quando eu era jovem, prometi a mim mesmo que um dia eu iria oferecer os meus serviços ao meu país e ajudar a criar uma sociedade melhor. Assim, estudei os clássicos, adquiri competências nas artes marciais e cultivei-me com música e poesia. Esperava poder conduzir outros com o meu exemplo, tornar-me num conselheiro do regente do meu país e ajudar as pessoas a levar uma vida melhor. Mas quando completei os meus estudos, a situação mudou. Meu país enfraqueceu e a corte tornou-se corrupta. Os políticos começaram a lutar pelo poder, e as intrigas e as traições tornaram-se norma.
"Hoje em dia, ninguém mais está interessado em ouvir falar da virtude e da harmonia. Na nossa sociedade, as pessoas dão mais importância à vantagem comercial do que à amizade. As relações tornaram-se superficiais, e todos estão a curvar-se devido à pressão social e à pressão exercida pelos colegas para obter aprovação ou para avançar.
"Quão ingénuo eu fui ao pensar que poderia mudar as coisas! Agora eu sei que ninguém pode mudar o governo nem a sociedade estudando os clássicos. Mas também não encontrei maneira de resolver os problemas do mundo. Quando se perde os ideais e a visão, percebe-se que a simples aceitação da vida não nos torna necessariamente felizes."
Yen Hui ficou estupefacto com a confissão de Confúcio. Ele nunca tinha ouvido o mestre falar da sua vida nem das suas experiências. Assim, ele continuou a atento.
Confúcio disse: "Para seres verdadeiramente feliz e contente, deves deixar a ideia do que significa ser feliz ou contente. Quando entenderes que realmente não existe nada por que se esteja feliz ou triste, então sentir-te-ás satisfeito. Quando alcançares esse estado de espírito, então perceberás que não importa se a música, a poesia ou os clássicos são úteis à mudança de sociedade. De facto, ter ou não impacto na sociedade não é importante." Yen Hui finalmente entendeu o que o mestre queria dizer. Ele curvou-se respeitosamente e saiu.
Ao ver que Yen-hui voltou para casa, Tzu Kung foi ver o seu amigo. Quando Yen Hui lhe contou o que Confúcio lhe havia dito, Tzu Kung ficou confuso. Pensou nas palavras do seu mestre e descobriu que estava longe do estado de espírito que Confúcio havia alcançado. Sentindo-se frustrado e sem esperança, foi para casa e trancou-se em sua casa. Durante sete dias não conseguiu dormir. Perdeu o apetite e ficou magro e pálido.
Quando Yen Hui viu a condição em que Tzu Kung se encontrava, ele explicou pacientemente os ensinamentos do mestre a Tzu kung e encorajou-o a confiar nele próprio. Com a ajuda de Yen Hui, Tzu Kung finalmente deu a volta à situação. A partir de então, Tzu Kung já não se encontrava deprimido. Diariamente ele ia estudar com Confúcio e ria e cantava com os outros alunos.
35 ver com ouvidos e ouvir com os olhos
Havia um diplomata do país de Chen que visitou um conhecido quando ele estava na administração no reino de Lu. Quando os dois homens trocaram saudações, o conhecido Shu Sun disse: "Nós, no nosso país temos um sábio famoso."
O homem de Chen disse: "Entendo que esteja a referir-se àquele homem chamado Confúcio?"
"Exactamente."
"Como sabe que ele é um sábio?" desafiou-o o homem de Chen.
"Ouvi o discípulo dele, Yen Hui, dizer que o mestre dele pode esvaziar a sua mente e tornar o seu corpo inteligente."
"Nós também temos um sábio no nosso país. Ouviu falar dele?"
"Quem é ele?"
"É um estudante de Lao Tzu, de nome Kang Sen Tzu. Ele não só dominou todos os ensinamentos de Lao Tzu, como superou o seu mestre em muitos aspectos. Ele consegue ver com os ouvidos e ouvir com os olhos.
Shu Sun ficou perplexo. Ele nunca tinha ouvido falar de alguém com tais competências. Ele falou aos amigos nesse Kang Sen Tzu, e logo todos no país de Lu começaram a falar sobre o sábio que podia ouvir com os olhos e ver com as orelhas.
A conversa chegou ao marquês de Lu, que ficou tão espantado com as extraordinárias habilidades desse homem que enviou um convite pessoal para pedir a Kang Sen Tzu que aceitasse ser seu convidado.
Quando Kang Sen Tzu chegou, o marquês perguntou com humildade: "Ouvi dizer que você pode ouvir com os olhos e ver com os ouvidos. Isso é verdade?"
Kang Sen Tzu respondeu amigavelmente: "Isso não passa tudo de rumor. Não é verdade que eu consiga ver com os meus ouvidos e os meus olhos ouçam. Mas consigo ver e ouvir sem usar os meus olhos ou os meus ouvidos."
O marquês ficou ainda mais impressionado. "Isso é mais do que eu esperava. Você pode me dizer como você consegue isso?"
Kang Sen Tzu então disse: "É bastante simples. O meu corpo encontra-se em harmonia com a minha mente, e a minha mente encontra-se em harmonia com as minhas energias. As minhas energias seguem o meu espírito, e o meu espírito encontra-se em sintonia com tudo à sua volta. Por isso, eu consigo ouvir o som mais débil e ver o menor movimento. Nada escapa à minha consciência, seja longe ou bem à minha frente. Eu não sei se percebo isso com os meus sentidos, se o experimento com o meu corpo, ou se o chego a conhecer pela minha coragem. Digamos que é apenas um sentimento natural que tenho pela natureza das coisas."
O marquês de Lu ficou muito satisfeito com a resposta de Kang Sen Tzu e foi contar a Confúcio o sucedido. Confúcio simplesmente sorriu e não disse nada.
36  quem será sábio?
Um ministro do reino de Shang veio visitar Confúcio. Não sendo alguém que usasse de rodeios, o ministro sempre fazia perguntas de forma franca e directa. Assim, no instante em que ele viu Confúcio, perguntou: "Você é um sábio?"
Confúcio respondeu: "Não me atrevo a reivindicar que o seja. Sou apenas alguém que estudou muito e que leu amplamente."
"Nesse caso, os Três Reis terão sido sábios?"
"Os Três Reis sabiam usar a sua coragem e inteligência. Já se eles foram ou não sábios, eu não saberia dizer."
"E os Cinco Imperadores?"
"Os Cinco Imperadores sabiam como governar com virtude. Terão eles sido sábios? Eu não sei."
"E os Três Senhores? Terão eles sido sábios?"
"Os Três Senhores souberam usar as pessoas certas no momento certo. Não me cabe a mim dizer se eles foram sábios ou não."
O ministro estava a começar a sentir-se impaciente. "Então, quem é que acha que é sábio?"
Confúcio não se precipitou, mas esperou até que o ministro se acalmasse de novo e respondeu: "Talvez lá longe no Ocidente haja alguém que não fala sobre a arte do governo e, no entanto, o seu país esteja conheça a ordem e a paz. Alguém que raramente falará em promessas, mas que obtém a confiança de todos. Alguém que não usa a força, mas a quem tudo corre bem. O seu coração está aberto e as suas ações são espontâneas. Os seus súbditos nem mesmo sabem o que lhe chamar. Eu suspeito que ele seja um sábio, mas se realmente o é que eu não saberia dizer."
Quando o ministro de Shang ouviu aquilo, não ficou satisfeito e foi embora a pensar consigo mesmo: "Não faz sentido. Este Confúcio deve-me estar a enganar."
Será que realmente importa se alguém é reconhecido como sábio ou não? Se é verdadeiramente honesto, sincero e reto em tudo o que faz, precisa que os outros reconheçam as suas virtudes para que seja virtuoso?
37 que coisa é a sabedoria?
Certo dia Tzu Hsia estava a conversar com Confúcio. Quando começaram a discutir os méritos de cada aluno, Tzu Hsia perguntou ao seu mestre: "O que acha de Yen Hui?"
Confúcio respondeu: "Yen Hui é muito amável e gentil. A sua compaixão ultrapassa a minha."
"E que tal Tzu Kung?"
"Tzu Kung é muito melhor do que eu no que toca a debater e a argumentar."
"E quanto a Tzu Lu?"
"Tzu Lu é um homem corajoso. Não posso igualá-lo em coragem."
"E Tzu Chang?"
"Tzu Chang sabe manter a sua dignidade melhor do que eu."
Tzu Hsia ficou tão surpreso com as respostas do seu mestre que se levantou e exclamou: "Então, como é que todos desejam aprender consigo?"
Confúcio fez um gesto para que o discípulo se sentasse. Quando viu que Tzu Sia se acalmou, disse: "Yen Hui é compassivo, mas é teimoso e inflexível. Tzu Kung pode ser muito persuasivo, mas não sabe quando parar de falar. Tzu Lu pode ser corajoso, mas não conhece a tolerância. Tzu Chang pode ser digno, mas não sabe como se harmonizar com os outros. Eu não trocaria os seus méritos pelos meus, mesmo que mos fossem oferecidos. É por isso que todos eles vieram aprender comigo."
A sabedoria não é destreza numa competência ou em muitas. É a capacidade de reconhecer forças e fraquezas em nós mesmos e nos outros. Assim, um mestre sábio sabe que, embora ele não consiga superar certos discípulos em competências específicas, ele pode dar-lhes o que eles precisam para se tornarem melhores indivíduos.
38 o homem com cara de pau
Depois que Lie Tzu completou os estudos com o imortal Tzu Shang e o seu amigo, o sábio Po Hun, ele instalou-se na parte sul da cidade. Não muito tempo depois, ele foi assediado por visitantes e candidatos a estudantes. Às vezes, a casa de Lie Tzu chegava a comportar centenas de pessoas.
Lie Tzu acolheu a sua companhia e gostava de conversar com eles o dia todo. Ao lado de Lie Tzu morava um homem chamado Nan Kuo Tzu. Durante os vinte anos em que foram vizinhos, Lie Tzu e esse homem nunca se cumprimentaram. Se eles se cruzassem na estrada, Nan Kuo Tzu caminharia como se Lie Tzu não estivesse presente. Os amigos de Lie Tzu acharam que os dois homens deviam ser inimigos.
Quando alguém perguntou a Lie Tzu sobre o seu vizinho, Lie Tzu disse: "O rosto de Nan Kuo Tzu é cheio, mas a sua mente encontra-se vazia. Ele não ouve nada, pelo que não é distraído pelo que se passa ao seu redor. Ele não vê nada, pelo que ele não é atraído pelas coisas ao seu redor. Ele não diz nada, pelo que nunca discute com os outros. A mente dele ainda encontra-se imóvel, pelo que nada o incomoda. O corpo dele não é estimulado, pelo que ele é como uma parede em branco. Alguém como ele não gostaria de ser incomodado por ninguém nem por coisa nenhuma, pelo que não faz sentido tentar ir até ele."
No entanto, Lie Tzu decidiu visitar o vizinho. Seguia-o um grande grupo de amigos e de discípulos enquanto Lie Tzu entrava na casa de Nan Kuo Tzu. Entrando, viram Nan Kuo Tzu sentado lá como um boneco de barro. O seu rosto era tão inexpressivo quanto um bloco de madeira. Os seus olhos estavam em branco e o seu corpo encontrava-se imóvel. Na verdade, ele não era alguém com quem se pudesse conversar. Mesmo Lie Tzu não tinha como chegar até Nan Kuo Tzu.
Enquanto todos se encontravam ali de pé, sem saber o que fazer, de repente Nan Kuo Tzu olhou para os discípulos que estavam nas traseiras e disse: "Vocês são todos arrogantes e competitivos." A multidão ficou assustada. Quando todos voltaram para a casa de Lie Tzu, eles perguntaram: "O que foi que aconteceu?"
Lie Tzu respondeu: "Se consegue ver a intenção, então você não precisa usar o discurso para comunicar. O sábio não precisa falar com as pessoas para entender a intenção delas. Além disso, elas não precisam usar palavras para comunicar a sua própria intenção. Isso é chamado de nada dizer. A pessoa esclarecida também é capaz de sentir a verdade sem passar pela dedução ou raciocínio. Isso é chamado de nada saber e ainda assim tudo conhecer. Nan Kuo Tzu parece que ele não vê nada, não ouve nada e não sabe nada. No entanto, ele vê tudo, ouve tudo e sabe de tudo. Para ele, não existe separação entre ver e não ver, ouvir e não ouvir, agir e não agir, saber e não saber."
A comunicação verdadeira nem sempre requer fala ou acção. As pessoas esclarecidas comunicam por meio do espírito e não precisam transmitir as suas intenções por meio do som e do movimento. Consequentemente, a maneira como se comunicam é mais eficaz do que a da pessoa comum.
39  a arte de viajar e de ver a paisagem
Lie Tzu costumava adorar viajar e ver a paisagem. Quando o seu mestre, Hu Tzu, lhe perguntou o que achava tão agradável no viajar, Lie Tzu disse: "Enquanto outras pessoas viajam para ver a beleza das vistas e dos arredores, eu gosto de ver a maneira como as coisas mudam. Para os outros visitantes, pode parecer que eu seja como eles, mas a diferença entre nós é que eles vêem as coisas enquanto eu vejo mudanças."
Hu Tzu disse: "Achas que és diferente dos outros viajantes, mas na verdade não és. Embora se divirtam com as vistas e os sons, e tu estejas fascinado pelas coisas que sempre mudam, ambos estais ocupados com o que é exterior, em vez daquilo que experimentais interiormente. As pessoas atraídas pelo mundo externo estão sempre à procura de algo novo e maravilhoso que lhes satisfaça os sentidos. No entanto, apenas as pessoas que se voltam para o seu íntimo encontrarão a verdadeira satisfação."
Depois desta conversa, Lie Tzu deixou de viajar por achar que não havia entendido o que significava viajar. Ao ver isso, Hu Tzu disse-lhe: "A viagem é uma experiência tão maravilhosa! Especialmente quando nos esquecemos de que estamos a viajar. Então aproveitamos o que vemos e fazemos. Aqueles que se voltam para si próprios quando viajam não pensam no que vêem. Na verdade, não existe distinção entre o que vê e o visto. Você experimenta tudo com a totalidade de si próprio, de modo que cada haste de relva, cada montanha, cada lago se encontra vivo e faz parte de si. Quando não há divisão entre você e o que o outro é, essa é a melhor experiência do viajar."
40 a estranha doença de lung-shu
Certo dia Lung Shu estava a conversar com o seu amigo que afirmava ser especialista em curar de doenças estranhas. Lung Shu achou tal coisa difícil de acreditar, em razão do que ele desafiou o amigo: "Eu tenho uma doença estranha. Se conseguir curar-me, eu concordarei em que você é o melhor médico."
O amigo não pareceu nervoso. "Conte-me sobre a sua doença," disse-lhe.
"Agora ouça com atenção," disse Lung-shu. "Esta é a doença de que padeço: Quando sou elogiado pelos outros, não sinto orgulho. Quando os outros falam mal sobre mim, não me sinto desonrado. Quando ganho algo, não fico feliz. Quando perco, não fico triste. Vida e morte, riquezas e pobreza, sorte e infortúnio são a mesma coisa para mim. Na verdade, eu posso ver pessoas como porcos e ver-me a mim como os outros. Quando estou em casa, sinto que ando a perambular. Quando estou no meu país, sinto que estou entre os estrangeiros. Desde que contraí esta doença estranha, perdi todo o interesse por me tornar rico e famoso. Não me preocupo com títulos, terras ou renome. Não penso muito em regras e regulamentos. A ascensão e a queda do governo e dos políticos não são coisa que me interesse, e não me deixo afectar pelas emoções das pessoas que me rodeiam. Por causa da minha doença, não posso mais servir o meu país, administrar os meus negócios ou tornar-me o chefe da minha família. Como poderá ajudar-me?"
O médico disse a Lung Shu para ficar de costas para o sol. Diante da luz, ele examinou Lung Shu à distância e examinou-o de cima abaixo cuidadosamente. Logo, disse: "Ah, eu posso ver que o teu coração está vazio e você estás quase a tornar-te um sábio. Seis das sete cavidades do teu coração estão completamente abertas. No entanto, uma delas ainda está fechada. Este bloqueio é provavelmente a causa da tua doença. Se, de facto, a tua doença estiver em ver a sabedoria como uma doença estranha, então as minhas habilidades são inadequadas para te curar."
Lung Shu tinha-se livrado de todos os seus apegos, excepto um. Ele ainda mantinha uma concepção do que significa ser esclarecido. Comparando a iluminação a uma doença estranha, Lung Shu tornou-a misteriosa, extraordinária e não natural.
A iluminação é uma experiência muito normal, passível de ser alcançada por todos. Consequentemente, não tem nada de misterioso ou de secreto. Também não há nada não natural com relação a ela, por seguir o caminho natural das coisas.
41 respondendo naturalmente
Quando um dos amigos de Yang Chu morreu, Yang Chu foi ao funeral a rir e a cantar e não mostrou sinais de luto. Quando um outro dos seus amigos morreu, Yang Shu abraçou o homem morto e chorou amargamente.
Normalmente, as pessoas ficam felizes com o nascimento e tristes pela morte. Por que Yang Chu riu com a morte de um e chorou com a morte do outro? Yang Chu não encontrou nada triste em relação ao homem que morreu depois de ter vivido a sua vida ao máximo. Na verdade, ele sentiu-se feliz pelo amigo que deixou este mundo como um homem contente. No entanto, Yang Chu ficou triste com a morte do seu outro amigo, por ter sentido que esse morrera antes do seu tempo. Em ambos os casos, Yang Chu estava simplesmente a responder naturalmente às circunstâncias.
42 há algumas coisas que simplesmente não se pode combater
Um olho que está prestes a perder a capacidade de visão tende a tornar-se extremamente nítido na elaboração dos detalhes. Um ouvido que está prestes a ficar surdo tende a ser tornar-se muito apurado na audição. Uma língua que está prestes a perder a sensibilidade consegue distinguir a diferença entre a água de duas fontes. Um nariz que está prestes a perder a sua capacidade torna-se mais sensível às fragrâncias. É como se os sentidos lutassem para manter a sua utilidade. No entanto, não obstante o quanto se esforcem, eles acabarão por perder a eficácia.
Acontece o mesmo com as pessoas. As pessoas que começam a enfraquecer empurrarão os seus corpos até ao limite. As pessoas que estão prestes a perder a cabeça tornar-se-ão invulgarmente argumentativas. Isso porque elas não estarem dispostas a admitir que todas as coisas devem terminar, e quererem fazer uma demonstração da sua força para encobrir as suas fraquezas.
Por outro lado, as pessoas esclarecidas aceitam o curso natural das coisas. Elas não forçam os seus corpos a mostrar força ou as suas mentes a demostrar astúcia. Sabendo que existem algumas coisas que não podem combater, aceitam o que vier. É por isso que elas podem abraçar a vida e aceitar a morte.
43 quem está a apoiar quem?
Na parte da cidade onde Lie Tzu viveu e ensinou, havia muitos filósofos de elevada virtude. Numa outra parte da cidade, no bairro leste, viviam muitos funcionários públicos e políticos.
Um dia, quando Pai Feng, um estudante de Lie Tzu, ia a passar pelo bairro leste, encontrou Teng Hsi, um legislador e um funcionário respeitado. Teng Hsi e os seus discípulos sempre falavam de como resolver os problemas políticos do seu tempo. Os filósofos, por outro lado, raramente discutiam a política. Quando Teng Hsi viu Pai Feng, ele virou-se para os discípulos e disse: "Vejam como vou fazer com que esse companheiro dê uma volta em círculo." Os discípulos encorajaram-no.
Teng Hsi aproximou-se de Pai Feng e disse: "Conhece a diferença entre apoiar-se e ser apoiado pelos outros? Aposto que não. Deixe que lhe diga: As pessoas que são sempre apoiadas pelos outros e que nunca fazem um esforço para se sustentarem não são melhores do que cães ou porcos. Neste mundo, apenas aqueles que contribuem podem esperar receber benefícios da sociedade. Aqueles que se sentam à espera que a cozinha lhes forneça alimentos são exactamente como os animais domésticos e o gado."
Pai Feng não respondeu, mas um de seus discípulos adiantou-se e disse a Teng Hsi: "Meritíssimo, já ouviu dizer que nos países de Chi e de Lu há muitas pessoas que possuem dons especiais? Alguns são especialistas em carpintaria e cerâmica. Outros são excelentes trabalhadores do metal. Uns são músicos e artistas talentosos. Outros são bons em estratégia militar e outros ainda são grandes lutadores. Alguns são profundos conhecedores de cerimônias e rituais religiosos, e outros são hábeis na adivinhação e magia. Apesar da sua experiência nas suas próprias áreas, nenhum deles é bom na administração. Eles podem executar as suas próprias tarefas, mas não podem dizer aos outros como fazer as suas. Felizmente, existem pessoas sem dons especiais que possam ser empregadas como burocratas. Assim, temos a seguinte situação: Aqueles que são qualificados são empregados por aqueles que não são qualificados, e vocês, administradores e burocratas, são empregados por cidadãos como nós. Agora, quem é que apoia quem?"
Teng Hsi não soube o que dizer. Timidamente, virou-se para os discípulos e afastou-se.
44 que coisa é a força?
O conde do estado de Kung Yi era considerado um homem muito forte. Um certo duque ficou impressionado com a força desse homem e falou muito dele ao rei. O rei estava ansioso por conhecer o conde, pelo que lhe enviou um grande presente e o convidou para fazer uma demonstração da sua força na corte.
Quando o conde de Kung Yi chegou, o rei ficou chocado. O homem que via diante de si não era um homem pesado nem musculoso, mas um homem magro e esguio. O rei começou a ter duvidas sobre a capacidade do homem, franziu a testa e disse: "Quão forte é você na verdade?"
O conde respondeu: "Eu sou forte o suficiente para quebrar as patas de um gafanhoto e estalar as asas de um insecto."
Quando o rei ouviu isso, ficou imensamente irritado. Ou este homem era uma fraude ou ele estava a tentar fazer um reparo espirituoso. Irritado, o rei disse em voz alta: "Os homens fortes que tenho ao meu serviço conseguem rasgar a pele de um rinoceronte e arrastrar nove bois pela cauda, e ainda assim não fico satisfeito com a sua força. Como é que você é tão famoso pela sua força quando só consegue quebrar as asas e as patas de insectos?"
(continua)






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