quarta-feira, 19 de julho de 2017

O LIVRO DE CHUANG TZU - 2ª PARTE


CHUANG TZU
Tradução: Amadeu António Tavares Duarte
duartfil@gmail.com

ÍNDICE
CAPÍTULOS EXTERIORES

8 Dedos Interligados
(Do Semelhante e do Divergente)
9 Cascos de Cavalos
10 Cofres para Saquear
11 Do Governo do Homem e do Mundo
(Aceitação e Tolerância)
12 Céu e Terra
13 O Tao do Céu
(O Curso Natural dos Acontecimentos)
14 Será que o Céu se Move?
15 Constrangimento de Espírito
(Velhos Ditados)
16 Restauro da Natureza Inata
17Enchentes de Outono
18 A Perfeita Felicidade
19 Compreensão do Propósito da Vida
20 A Árvore da Montanha
21Tien Tzu Fan
22 O Conhecimento Viajou para Norte

TemÁTICA DOS capítuloS

Capítulos Exteriores

capítulo 8
dedos interligados
Um ensaio sobre a natureza humana. Os comportamentos humanos devem corroborar a natureza, em vez de destruírem a natureza humana pela humanidade e pela equidade. Aquilo que fazemos naturalmente está principalmente de acordo com a natureza. Quando acrescentamos as nossas preocupações de benevolência e a justiça ao que fazemos, realmente estragamos tudo.

capítulo 9
cascos dos cavalos
Um outro ensaio sobre a natureza humana. A humanidade, a justiça, os rituais e a música promovidos pelos sagazes têm prejudicado a natureza humana. A melhor maneira de preservar a natureza humana é deixá-la sozinha e não exercer qualquer acção. Chuang Tzu ataca os males dos dispositivos políticos capciosos que circunscrevem a liberdade das pessoas. Eles traem a verdadeira natureza dos homens. Somente desmantelando a servidão as pessoas poderão viver novamente em liberdade.

capítulo 10
cofres para saquear
A política ideal é deixar as pessoas em paz e não tomar ações por os rituais e as leis estabelecidas pelos sagazes prejudicarem o mundo, uma vez que são explorados por usurpadores. Muitas vezes, as pessoas tomam precauções para evitar os acidentes. Ao agirem assim elas podem inadvertidamente permitir que as suas precauções se tornem num instrumento que propicie a ocorrência de acidentes. No final, quem tiver a habilidade na utilização dos instrumentos ganha.

capítulo 11
do governo do homem e do mundo
A política ideal consiste em deixar as pessoas em paz e mais se expõe sobre o não tomar medidas. Não devia haver interferência na vida das pessoas. Este capítulo elabora o tema de ser próprio da natureza humana ter amor pela Natureza. Sempre que antigos governantes favoreceram uma regra pela exactidão e pelo ritual, o mundo não conheceu a paz. Se pudermos prestar atenção ao nosso bem-estar mental e físico, podemos chegar a alcançar a verdadeira paz.

capítulo 12
do céu e da terra
Os governantes devem estar equipados com uma elevada moralidade. Eles devem exibir a essência do Tao: seguir o curso natural dos eventos e a não-ação. Este capítulo consiste em catorze secções, nenhuma das quais está relacionada com nenhuma das outras. Ele descreve como as pessoas geralmente apreendem a Verdade se não tiverem a intenção de a procurar. Várias histórias fictícias desafiam a chamada era pacífica da alta antiguidade.

capítulo 13
o tao do céu
À semelhança do capítulo anterior, este capítulo também consiste em várias secções sem relação entre si, embora principalmente tratem dos princípios da natureza.
A secção 1 elabora o vazio e a quietude. A secção 2 explica as alegrias celestiais e as mundanas. A secção 3 apresenta um diálogo sobre a governação perfeita.
A secção 4 contrasta os diferentes pontos de vista sobre benevolência e a equidade, defendidos por Lao Tzu e Confúcio. A secção 5 é um ensaio sobre um homem aturdido. A secção 6 discute as qualificações do homem superior. As secções 7 e 8 enfatizam a invisibilidade do Tao.

capítulo 14
será que o céu se move?
Tudo no mundo cresce de acordo com a lei natural. A obediência às leis naturais trás sucesso e a violação dessas leis trás a ruína. A primeira secção deste capítulo descreve os movimentos e as mudanças e as causas e efeitos que têm nos céus. Daí vem o título do capítulo, como muitas vezes acontece em muitos outros títulos. As secções restantes descrevem diálogos entre um Taoista ou uma pessoa inclinada para o Taoismo, e um Confucionista ou o próprio Confúcio em vários assuntos sem relação com o primeiro. Nenhuma dessas histórias tem carácter histórico.

capítulo 15
constrangimento de espírito
A melhor maneira de se cultivar o espírito é manter uma mente tranquila e pura e seguir a natureza ao se executar qualquer ação. Este capítulo relativamente curto começa com a descrição de cinco tipos de pessoas. Ele questiona a inadequação das formas com que eles procuram os seus objectivos. Isto é seguido por uma exposição sobre a superioridade da abordagem Taoísta e as realizações do verdadeiro homem (benévolo e justo).

capítulo 16
Restauro da Natureza Inata
Numa época em que a moralidade das pessoas está a deteriorar-se, a melhor maneira de cultivar o corpo e a mente é aprender com os antigos, que preservavam o seu espírito mantendo-se em silêncio. Uma clara distinção é estabelecida entre o que é interior, como a alegria, a felicidade, o Tao, e o que é exterior, como o alcance de uma elevada posição. Embora ambos possam satisfazer-nos, a primeira estará sempre connosco enquanto a última vem e vai livre da nossa capacidade de controlo. No entanto, a maioria de nós opta pela última e acaba virando de cabeça.

capítulo 17
Enchentes de Outono
O tema deste ensaio centra-se na relatividade dos juízos de valor. A elaboração é baseada numa série de sete diálogos entre o Espírito do rio e um Espírito do mar.
O ensaio completo acha-se incluído na secção 1. Académicos chineses de há mais de mil anos acreditaram que apenas Chuang Tzu poderia ter escrito este ensaio tanto pelo seu escopo como pela retórica em que assenta, porém, foi incluído na série exterior. As seis secções restantes deste capítulo contêm variados tópicos não relacionados com As Enchentes de Outono.

capítulo 18
A Perfeita Felicidade
As várias secções deste capítulo tratam de dois tipos de felicidade do homem.
Uma é orgânica, e visa satisfazer os nossos sentidos; a outra é espiritual, que busca um maior e mais duradouro nível de satisfação. Cada secção conta uma história diferente, real ou fictícia, mas o tema é o mesmo.

capítulo 19
A Compreensão do Propósito da Vida
A chave da preservação da vida está em se cultivar o espírito: ignorar a vida e a morte, livrar-se de pensamentos que distraem. Permanecer despreocupado e seguir a lei natural. Este capítulo contém doze secções relativamente curtos. Cada secção trata um requisito específico da vida. Os ensaios esboçam lições de pessoas de todas as áreas da vida, de homens superiores, artesãos e amadores, como o caçador de cigarras, o treinador de galos de luta e até do nadador, do barqueiro e do bêbado. Há um aspecto na vida a ser aprendido com cada um deles.

capítulo 20
a árvore da montanha
A melhor maneira de escapar do desastre numa sociedade desordenada é encontrar-se desprovido de quereres e seguir o curso natural dos acontecimentos. Muitas secções deste capítulo tratam de vários tópicos não relacionados entre si. Algumas ideias, como a utilidade do inútil, a associação baseada em considerações naturais e artificiais, e o louva-a-deus e a pega, poderiam invocar interessante discussão sobre os seus méritos.

capítulo 21
tien tzu fang
Este capítulo é composto por onze secções, cada um em formato de diálogo.
Os assuntos variam, pelo que o capítulo no seu todo não tem tema central. Mas no geral a hipocrisia da escola confuciana é exposta enquanto a natureza pura e simples da escola Taoista é louvada.
A maioria dos personagens são históricos, inclusive Confúcio, mas Chuang Tzu leva-as a falar como Taoistas.

capítulo 22
o conhecimento viajou para norte
Um ensaio sobre ontologia. Todas as onze secções deste último capítulo da Série Exterior se preocupam com um único tema que mais interessa ao Taoista, ou seja, o próprio Tao. O Tao é o criador e mestre de todas as coisas existentes. Como o Tao permanece vazio, a melhor forma de se incorporar o Tao é permanecer em silêncio e na passividade. Elas versam sobre aquilo que o Tao é e o que não é, o que Tao faria ou não faria, e como se chega a apreender o Tao. É dada uma grande ênfase à transmissão sem palavras por meio de uma compreensão silenciosa.

Capítulo 8
dedos interligados
(DO SEMELHANTE E DO DIVERGENTE)


Dedos interligados ou um dedo extra bifurcado pode ser coisa natural, porém, não é coisa que seja útil. Excrescências e tumores podem surgir no corpo mas não brotam da virtude do que quer que seja. Há diversos tipos de benevolência e de rectidão, e comummente associam-nos aos diversos órgãos vitais do corpo. Mas tal não é a via correcta da Virtude.

De facto, dedos interligados não passam de membranas adicionais inúteis e qualquer dedo extra será inútil. Desse modo associar isso aos órgãos vitais equivale a confundir a benevolência e a rectidão, conferir demasiada ênfase à audição e à visão. 

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Uma percepção assim exacerbada confundirá a distinção das cinco cores (multiplicidade) e levar-nos-á ao fascínio pelo ornamento e à confusão do resplandor do verde e do amarelo. Consequentemente, não pararemos até nos tornarmos num Li Chu. Uma apurada percepção auditiva conduzir-nos-á à produção profusa das cinco notas com as cordas e as flautas transversais, e não nos deteremos até que nos tornemos num Shi Kwang (Mestre de música).

Assim, o bem em excesso erradica a virtude e restringe a natureza original, ainda que em função da busca de fama ou de riqueza, e fomentará o ideal inalcançável pelo rufar de tambores e pelo toque de flautas. Uma pessoa assim não se deterá até que se torne num Tseng ou Shi.

A faculdade exacerbada no debate conduzirá ao acúmulo de argumentos e o planejo de ardis, tal como o construtor com os seus blocos de construção ou o tecelão com os fios na construção de redes. Leva a deliciar-nos com a retórica e o debate mesquinho e sem sentido com respeito à semelhança e à divergência até perdermos o fôlego. Tal resulta num Yang (Mestre de Hedonismo) e Mo (Mestre que ensinava o amor por todas as coisas). Consequentemente toda essa gente complicada percorre uma via fastidiosa e pouco uso terão a dar à verdadeira rectidão do mundo.

Aquele que se encontra verdadeiramente no Caminho não abre mão da sua Natureza Inata ou Singularidade. Para um homem assim, aquilo que se acha unido não representa problema, e nem o acordo constitui qualquer redundância, nem a divergência representa coisa supérflua. O longo jamais será demasiado longo nem o curto será demasiado curto.
As patas do pato, por exemplo., são curtas, e se procurássemos esticá-las causar-lhe-íamos sofrimento. As patas do ganso são alongadas, mas cortá-las levá-lo-ia a sentir pesar. O que a natureza cria longo não precisa ser esticado; assim, tão pouco deveríamos tentar encurtar o que a natureza produziu de comprido. Tal não seria maneira de se livrar da preocupação. 

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A presunsão é, pois, e que a benevolência e a rectidão não sejam inerentes à natureza humana. Quanta ansiedade não envolve o exercício da benevolência e da rectidão!
A quem tivesse dois dedos unidos se haveria de causar imenso sofrimento se tentássemos separá-los. Do mesmo modo, se tentássemos cortar-lhe um dedo extra, isso irá causar-lhe dor. De ambas as situações se poderá dizer que uma goze de mais enquanto a outra goze de menos, mas que procurar homogeneizá-las nos levaria a causar idêntico sofrimento.

Os benévolos dos tempos modernos encaram os males da sociedade com mácula, ao considerarem os males com a visão toldada de que padecem, e enchem-se de pesar, enquanto aqueles que carecem por completo de benevolência nivelam a natureza original das coisas em função da ganância de fama ou fortuna. Daí que me interrogue se a benevolência e a rectidão farão parte da verdadeira natureza humana. Desde o começo das dinastias até aos dias actuais, quanta confusão e incómodo a questão não terá trazido ao mundo.

Quando se utiliza fio-de-prumo, esquadro ou compasso (bitolas) a fim de se conseguir linhas perfeitas isso implica o corte de partes naturalmente existentes. Quando se recorre ao uso de cordas e nós, cola ou verniz, para unir ou ligar as coisas, isso implica no comprometimento da virtude original. Do mesmo modo, as flexões e as pausas empregues nos rituais e nas músicas, os sorrisos e as aparências radiantes da benevolência e da rectidão destinam-se a animar toda a gente, mas ignoram os princípios inerentes à natureza humana. E tudo possui a sua natureza inata.

Posto isso, o que é curvo não o é pelo uso do compasso, nem o que é direito ou quadrado o é pelo uso do fio-de-prumo ou do esquadro. Não adere pelo uso de cola nem de verniz, nem é seguro por acção de cordas nem de nós. Todas as coisas no mundo são simples e condescendentes conforme a sua natureza, sem razão e sem saber como. Sempre foi assim, hoje como no passado, e isso não deveria causar a menor diferença.
A indulgência e a rectidão não fazem, pois, qualquer sentido. Enredar e adestrar a fim de conduzir ao caminho da virtude, nada mais faz que confundir. Contudo, se a confusão e o equívoco forem de menor monta, alterarão o sentido e o propósito. Mas uma confusão e um equívoco significativos alterarão a própria natureza das coisas. Como saberei se é assim?

Desde os tempos do governante Yu, que começou a pregar a benevolência e a rectidão, que as coisas começaram a ficar distorcidas e todo o mundo começou a sentir-se enfadado, e as pessoas jamais deixaram de se inquietar e precipitar numa corrida para viverem de acordo com tais princípios. Não se deverá tal coisa ao facto de benevolência e rectidão nos terem alterado a natureza básica?

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Procurarei, pois, explicar o que quero dizer com isto. Desde o começo das dinastias até aos dias actuais, tudo no mundo viu a sua natureza original afectada por uma coisa qualquer externa. O indivíduo de má índole ou mesquinho terá visto a sua natureza original ou o próprio corpo em risco em função do proveito. O alto funcionário arrisca a sua vida pela família. O sábio arrisca o próprio ser em função de todas as coisas. Todos o fazem de modo diverso, e por diferentes razões, mas todos arriscam a vida do mesmo modo.

Por exemplo, o escravo ou a escrava que andavam a pastar as ovelhas deixaram ambos que elas fugissem. Se perguntarmos ao rapaz como isso terá sucedido, ele dir-nos-á que estava a juntar as suas canas de bambu e a ler; e se perguntarmos à rapariga ela dir-nos-á que estava a divertir-se com uma brincadeira qualquer. Ambos estavam a ocupados de diferentes modos mas ambos deixaram que o gado se extraviasse do mesmo modo.

Po Yi morreu no fundo da ravina do monte Shou Yang em função para manter o renome. O ladrão Chi morreu lá para os píncaros do oriente em função do proveito. Ambos morreram de modo diferente mas o facto é que ambos encurtaram a vida e arruinaram a sua natureza inata. Contudo, é suposto que encorajemos Po Yi e desaprovemos o ladrão Chi. Estranho, não?

Se as pessoas pelo mundo todo se sacrificarem em situações dessas por razões de benevolência ou de rectidão, as pessoas tratá-las-ão com nobreza e deferência; se alguém fizer tais sacrifícios em função da riqueza ou da fama, as pessoas chamam-lhe avaro e mesquinho. O sacrifício é o mesmo, no entanto tratam um como um homem honrado e o outro como um homem pérfido. Mas em termos de sacrificarem a sua vida e de prejudicarem a sua verdadeira natureza, tanto o ladrão Chi como Po Yi fizeram o mesmo. Assim, porque diferenciá-los em termos de nobreza e de perfídia?

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Aqueles que se dedicam à benevolência e à rectidão podem percorrer o mesmo caminho que Chang e Shi, mas eu não os teria na conta de sábios. Aqueles que se dedicam aos cinco sabores poderão percorrer a mesma via que o chefe Shu Erh, mas eu não os chamaria sábios. Aqueles que se aplicam às cinco cores, podem percorrer a mesma via que Li Chu, que eu não os consideraria espertos.

A descrição que faço da sabedoria nada tem que ver com a benevolência ou a rectidão mas prende-se, ao invés, com a sensatez para com a nossa natureza original e nada mais. Quando falo do correcto ouvir não refiro o escutar somente mas dar atenção a nós próprios. Quando falo da perspicácia da visão não refiro a observação dos outros mas a de nós próprios.

O facto está em que aqueles que não têm uma perspectiva de si próprios e não se observam na participação que têm, e observam e entendem os outros ao invés, não se entendem a si mesmos. Podem ser bem-sucedidos no reconhecimento do que diga respeito aos demais, mas quanto ao reconhecimento deles próprios falham. Sentem-se atraídos por aquilo de que os outros desfrutam e apreciam mas não conseguem encontrar fruição em si mesmos. Em casos que tais, quer se trate de um ladrão ou de um nobre, tal pessoa achar-se-á de igual modo iludida e enganada
Aquilo de que me envergonho é de fracassar no Caminho e na Virtude, pelo que não me preocupo em distinguir por actos de benevolência e de rectidão, nem por chafurdar em práticas idiotas e inúteis.

CAPÍTULO 9
CASCOS DE CAVALOS

Cavalos com cascos conseguem percorrer o gelo e a neve, e com pelo conseguem suportar o vento frio. Comem erva e bebem água e fazem cabriolas e pinotes bruscos. Essa é a verdadeira natureza dos cavalos. Ainda que lhes providenciássemos magníficos estábulos e currais, isso para eles seria de muito pouco valor.

Mas quando surgiu Po Lo, ele disse que sabia domar cavalos, e os homens começaram a cingi-los e a colocar-lhes ganchos no pelo, a aparar os cascos, a marcá-los e a colocar-lhes bridas. Começaram a conduzi-los com rédeas e a pôr-lhes grilhões e a prendê-los em estábulos, e em cada dez começaram a morrer dois.
Fizeram-nos passar fome e sede, fizeram-nos correr e a mostrá-los em paradas de forma ordeira e em filas regulares, mantendo diante deles o cabresto e as cintas de couro e o medo do chicote e do adestramento por trás deles, e mais de metade deles morreram.

O primeiro oleiro que apareceu disse: “Eu sou perito no trabalho do barro. Moldo peças redondas tão perfeitas como se fossem traçadas a compasso, e quadradas como se fossem feitas com o esquadro.”

O primeiro carpinteiro que surgiu disse: “Eu sou perito no trabalho da madeira. Faço peças curvas como se por acção de escantilhões e direitas como se com a ajuda da régua.”

Contudo, estará na natureza do barro e da madeira ser moldado com compasso e com escantilhão? No entanto, geração após geração os homens disseram que Po Lo era bom no adestramento de cavalos e que o oleiro e o carpinteiro eram boons no trabalho do barro e da madeira. Mas esse é o erro que cometem todos quantos governam todas as coisas no mundo.

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Suspeito que quem soubesse governar o mundo e todas as coisas não o faria assim. As pessoas possuem a sua natureza constante e regular e tecem vestes para vestir e lavram a terra para comer. A isso se chama Integridade Comum. São todas idênticas nisso e não se separam em facções antagónicas, mas permanecem correctas e verdadeiras. A isso se pode chamar Liberdade Espontânea.

Assim, no tempo da perfeita virtude os homens caminhavam com uma integridade e solenidade destituídas de artifício e encaravam o porvir com confiança e ideias assentes. Por essa altura não existiam passagens nem túneis nos montes, nem pontes ou barcos para cruzarem os pântanos. Todas as criaturas viviam em grupos e tinham acampamentos contíguos.

As aves e as bestas multiplicavam-se e formavam bandos e grupos, e as pastagens e as árvores cresciam luxuriantes. É verdade que nesses tempos as aves e os quadrúpedes podiam ser domesticados, mas ainda podiam vaguear sem constrangimentos. As pessoas podiam trepar até aos ninhos das pegas e espreitar sem causar perturbação. Num mundo desses os homens podiam viver lado a lado com os pássaros e os quadrúpedes e viver em comum partilha. Ninguém conhecia distinções de superioridade ou subjugação.
Assim também sucedia que, sem conhecimento de tais distinções não se desviavam da virtude. Livres do desejo, podiam seguir a verdadeira natureza da simplicidade a que chamavam “tosca.”

Depois surgiram os sagazes a esforçar-se na sua humanidade, vagarosos no exercício da retidão e da benevolência e todos no mundo começaram a duvidar. A música proliferou e os ritos multiplicaram-se e tudo começou a ser objecto de divisão. Se o simples e o tosco tivessem permanecido intactos, quem se daria ao trabalho de esculpir um vaso sacrificial? Se o jade tivesse permanecido no seu estado bruto, como poderiam fazer dele ceptros e símbolos da etiqueta? Se o Tao e a virtude não tivessem sido ignorados quem quereria optar pela benevolência e pela retidão? Se a natureza inata não tivesse sido descartada, que utilidade teriam a música cerimonial e os rituais? Se as cinco cores e os cinco tons não tivessem sido confundidos, como poderiam ter surgido padrões e porque haveria necessidade de os suplementar com convênios?
A talha do tosco e do rude em instrumentos constitui o erro do artesão. O enfraquecimento do caminho e da virtude com a benevolência e a rectidão foi o erro do sábio.

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Voltando ao tema dos cavalos, se lhes for permitido viver no meio selvagem, eles poderão alimentar-se de erva e beber água. Quando se acham satisfeitos, esfregam o pescoço uns nos outros. Quando se sentem perturbados voltam os costados uns para os outros e escoiceiam. Isso é tudo quanto conhecem. Se lhes colocarem arreios e os alinharem à força com traves e correias, tudo quanto saberão fazer será tentar quebrar tais traves e romper o jugo e esmagar o caro e expulsar o freio e morder as rédeas. Por conseguinte, levar o cavalo naquilo que sabe fazer a portar-se como não deve, tal foi o crime de Po Lo.

No tempo do Membro do Clã Ho Hsu, as pessoas permaneciam nas suas funções e postos sem saberem que mais fazer. E quando saiam não sabiam para onde se dirigiam. Saciavam-se e contentavam-se por perambular de barriga cheia. Isso era tudo quanto conheciam. Mas depois surgiram os sagazes com o servilismo, a adulação, a bajulação, os rituais e a música cerimonial e infectaram tudo com o conhecimento da natureza. Puseram a nu a humanidade que os caracterizava e propuseram a benevolência e a rectidão com base na premissa de lhes saciar a predileção pelo saber. Em resultado acabaram na contenda em função do ganho e não mais puderam ser detidos na busca da vantagem. Esse foi igualmente o erro dos sagazes.

CAPÍTULO 10
COFRES PARA SAQUEAR

Para se resguardarem dos ladrões que assaltavam os valores as pessoas asseguravam-se de os preservar com cadeados e ferrolhos. Isso é o que o senso comum chama de sensato. Porém, se forem assaltados por um perito na matéria, ele levará simplesmente consigo caixas e sacos aos ombros temendo unicamente que fechos e ferrolhos não os mantenham fechados.

Assim sendo, não estará aquele a quem referi como “sensato! meramente a juntar coisa para o ladrão levar?
Procurarei explicar o que quero dizer. Não estará aquele que o mundo em geral preza como um “sábio” simplesmente a guardar coisas para o ladrão? Como haveremos de saber se assim não será?

Há muito tempo atrás no estado de Chi nas aldeias vizinhas as pessoas podiam ver-se umas às outras e os galos e cães ser escutados nos seus chamados. Lançavam as redes sobre as águas e lavravam a terra por milhas de extensão. Construíam templos nos seus limites e erigiam altares em homenagem às colheitas e à terra e governavam as aldeias e a elas próprias segundo orientações dos sábios.

Mas um dia o visconde Tien Cheng assassinou o governante de Chi e usurpou o estado. Mas terá sido somente o estado que ele usurpou? Não. Também usurpou as leis instauradas pelos sábios. Assim, conquanto tenha ganho, o visconde Tien Cheng arcou com o título de ladrão e de gatuno. Soube manter-se com a firmeza de um Yao ou um Shun. Os estados menores não se atreveram a apontar-lhe defeitos e os estados maiores não se atreveram a puni-lo.

Assim, durante doze gerações a sua família governou o estado de Chi. Consequentemente, não só ele usurpou o estado como usou as leis erigidas pelos sábios para se resguardar no seu acto, embora fosse um ladrão e um gatuno.

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Vejamos e o consigo explicar. Aquilo que o mundo em geral chama de sensato, em última análise não será o acúmulo de coisas para os gatunos usurparem? Não será o chamado sagaz responsável pelo maior roubo? Como haveremos de saber se assim não é?

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Há muito tempo atrás Lung Feng foi executado e Chan Hung foi dilacerado e o corpo de Tzu Shu deixado ao tempo a apodrecer. (Conselheiros que procuraram reformar os governantes e que foram executados pelo sofrimento resultante) Homens de boa índole como o foram, não conseguiram escapar a mortes tão horríveis.
Mas um membro do gangue do Ladrão Chi interrogou o líder quanto à existência de uma via de virtude para a profissão de ladrão, ao que Chi lhe respondeu dizendo que tudo tinha a sua virtude, e que o ladrão exercita o mérito que alcança através do roubo e da sagacidade que demonstra na conjetura e da coragem que emprega no facto de entrar em primeiro lugar e que demonstra em sair por último e na decisão que toma com base na possibilidade, e na benevolência que comprova com a distribuição equitativa dos bens furtados. Sem atributos desses ninguém chegaria a ser cognominado de “grande ladrão.”

Considerando tudo isso, torna-se claro que, se os homens bons não seguirem a via dos sábios, não se conseguirão estabelecer enquanto tal. E o Ladrão chi não poderia ser bem-sucedido caso não o fizesse. Mas neste mundo os homens bons são poucos enquanto os medíocres abundam. Assim, os benefícios do sábio são poucos mas os danos que infligem ao mundo são muitos.

“Quando os lábios faltam os dentes regelam.” (Provérbio Chinês que alude à interdependência natural das partes. Quando uma sofre a outra torna-se periclitante)
A zurrapa (vinho adulterado) de Lu conduziu à guerra de Han Tan. Quando surge o sagaz surgem os grandes ladrões. Destronem a sagacidade e deixem que os ladrões e os larápios sejam desencorajados, e então o mundo ficará em ordem e poderá ser governado.

Quando os rios secam o vale torna-se árido. Quando se nivelam e arrasam as colinas as lagoas são cheias. Mas se a sagacidade desaparecer, então não surgirão ladrões, e o mundo ver-se-á livre da agitação. Se a sagacidade não desaparecer, então grandes ladrões continuarão a aparecer. Quanto mais a sagacidade for encorajada no governo do mundo, mais isso contribuirá para a ajuda de gente como o Ladrão Chi.
Se estabelecerem pesos e medidas na aferição, então ele roubará com peso e medida. Se estabelecerem contractos e acordos legais a fim de inspirar a confiança, as pessoas roubarão por contracto e por acordo legal. Se instaurarem a benevolência e a rectidão a fim de assegurarem a honestidade, mesmo assim a benevolência e a rectidão os ensinará a roubar.

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Este rouba uma fivela e é executado; aquele rouba o estado e é eleito regente. Contudo, é no âmbito dos regentes que mais se professa a benevolência e a rectidão. Não será isso atentar contra a humanidade, a justiça e a sabedoria? Assim, aqueles que seguem o exemplo dos grandes ladrões e exaltam os nobres e atentam contra a humanidade e a justiça juntos com todos os ganhos decorrentes da contabilidade de ábacos e balanças não se deixarão dissuadir nem mesmo com a recompensa de carruagens e de coroas nem com o machado do carrasco os constrange, mas aumentam em número. O impossibilitar o aumento do proveito do Ladrão Chi constitui o erro do sagaz.

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Tal como se diz que “Não se tira os peixes das águas profundas,” também os assuntos de estado não devem ser do conhecimento comum. A sabedoria do sábio constitui o meio de controlo de todas as coisas, pelo que não devem ser revelados a qualquer um. Por conseguinte, tratem de abolir a sagacidade e de abandonar o saber e os ladrões deixarão de surgir. Descartem o jade e as pérolas enquanto objectos de valor, e os larápios não se dedicarão au roubo. (NT: De notar de a distinção que respeito entre “ladrões” e “larápios” não é fortuita, mas prenhe de significado) Queimem os instrumentos de contagem e rasguem os convénios e as pessoas retornarão à simplicidade. Esmaguem os pesos e as medidas e as pessoas abandonarão a contenda e anulem as leis que os regentes impuseram e as pessoas deixarão de argumentar.
Confundam os seis tons, destruam as flautas e o s alaúdes, tapem os ouvidos do Mestre Chuang (músico) e então toda a gente será capaz de ouvir correctamente como que pela primeira vez. Se abolirem os adornos junto com as cinco cores e cerrarem os olhos de Li Chu, então toda a gente será capaz de ver com clareza como que pela primeira vez. Destruam bisel e régua, abandonem esquadro e quebrem os dedos ao artesão Chui e pela primeira vez o mundo disporá e fará uso de competências reais.
Há um ditado que diz: “A arte mais grandiosa assemelha-se a um disparate.”

Descartem as condutas como a de Tseng Shi, fechem a boca a Yang e a Mo, expurguem a benevolência e a rectidão e ninguém se deixará distrair mas começará, em vez disso, a revelar a sua misteriosa excelência.
Quando as pessoas alcançarem a verdadeira visão, ninguém se deixará lograr. Se recobrarem a virtude ninguém se deixará aviltar.

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Homens como Tseng Shi,Yang, Mo, o músico, Kuan, o artífice, Chui ou Tseng, Chu, revelam a sua virtude no exterior. Eles conduziram o mundo ao fulgor da admiração. Um procedimento assim não faz sentido.

Sereis vós o único que nada sabe da era da perfeita virtude? Em épocas passadas, no tempo de Yung Cheng, Ta Ting, Po Huang, Chu Yang, Li Lu, Li Hsu, Hsien Yuan, Ho Hsu, Tsu Lu, Chu Jung, Fa Hsi, e Shen Nung, (Governantes mitológicos ou sábios da antiguidade) as pessoas seguiam as suas naturezas. Contavam por nós que faziam em cordas e davam uso às redes. Apreciavam a comida simples e achavam-na saborosa. Contentavam-se com os estilos de vida que tinham e encontravam alívio nas suas habitações simples. 

Podiam ver os estados vizinhos e escutar os seus galos e cães nos seus chamados e latidos, mas as pessoas jamais transpunham as suas fronteiras. Nessa altura a perfeita harmonia imperava enquanto norma. Actualmente as pessoas vivem na agitação e procuram apurar o que acontece e dizem: “Em tal parte existe um homem de virtude,” de modo que para lá se dirigem de armas e bagagens, abandonando pais e lares e deixando de satisfazer os deveres que têm para com os governantes. Deixam pegadas que se tornam visíveis de um estado até ao outro, e pistas de rodados de carruagens que se estendem por vastas milhas. Isso representa uma falha da parte daqueles que detêm autoridade, no zelo excessivo que nutrem pelo conhecimento.

Quando os superiores anseiam de verdade por conhecimento mas carecem de virtude, tudo será deixado numa enorme confusão. Como saberemos se isso será assim?
Quanto mais conhecimento tiverem da construção de arcos e de bestas e de flechas e de armadilhas, redes de pesca e armadilhas, iscos e anzóis, mais as aves que voam pelos céus serão deixadas na agitação e os peixes a dispersar-se nas águas. Quanto mais conhecimento tiverem para montar paliçadas e armar ciladas, mais os animais dos pântanos serão lançados na confusão.

Quanto maiores forem a astúcia e o engano, a perfídia e a retórica, a prevaricação e os argumentos de igualdade e de diferença, maior será a tendência para estabelecerem o acordo aparente entre o idêntico e o divergente, mas o resultado será que as pessoas cairão na confusão e na disputa. Assim, quando todo mundo cai na confusão, a culpa assenta na predileção pelo saber.

Todos sabem como perseguir o conhecimento que não possuem, mas desconhecem como descobrir o conhecimento que já possuem. Qualquer um é capaz de condenar aquilo de que não gosta e que considera mau, mas ninguém sabe condenar o que considera bom, e isso é causa de grande confusão.

É como se o brilho de sol e lua, por cima, se tivesse obscurecido; como se por abaixo, o vigor produtivo de vales e rios tivesse esmorecido; e é como se, pelo meio, o fluxo natural das quatro estações tivesse sido interrompido, caso em que não restaria nenhum insecto ou planta que cresça que não perdesse a sua própria natureza. Isso resulta da busca do saber, e grande é a desordem que produz. Desde o começo das dinastias que isso é assim. As pessoas são negligenciadas na mentalidade singela que têm e as representações plausíveis do espírito da inquietação são acolhidas com prazer, enquanto aduladores sem espinha se veem encorajados. Os métodos calmos e plácidos de não interferência são desprezados e obtêm prazer pelas expressões do que deixa o mundo na desordem. 

CAPÍTULO 11
DO GOVERNO DO HOMEM E DO MUNDO
(ACEITAÇÃO E TOLERÂNCIA)

Ouço falar em deixar o mundo em liberdade, em exercitar a paciência, e em não interferir, mas jamais ouvi falar de governar ou controlar o mundo. Preservámo-lo em paz com receio de que os homens interfiram nele e aceitámo-lo com receio de que os homens sejam afectados de forma adversa na virtude. Se a natureza de todas as coisas não for corrompida e se a sua integridade não for espoliada, então que necessidade haverá de governar o mundo?

Há muito tempo atrás o sábio Yao governava todas as coisas, todo mundo vivia contente com a sua natureza. Em parte nenhuma existia carência. Mas quando o tirano Chieh governava tudo sob o céu, deixava todo o mundo aflito e exausto, todos achavam a vida um ardo e a natureza implacável e não reinava contentamento em parte alguma. A falta de repouso e de contentamento atentam à integridade e não há quem resista muito tempo à negação da sua integridade.

Andarão os homens excessivamente animados? Caso assim seja, padecerão de excesso do elemento Yang (da expansão). Andarão excessivamente irritados? Nesse caso, o elemento contrário neles, o Yin, achar-se-á excessivamente desenvolvido. Se o equilíbrio de Yin e Yang for perturbado, as quatro estações não seguirão o seu curso (naturalmente) e a harmonia de frio e quente não será mantida, e isso acabará por resultar em prejuízo para o corpo. Se as pessoas perderem a perspectiva equilibrada do contentamento e da irritação, andarão inquietas e perderão a constância e a satisfação, e deixarão por completar aquilo que tiverem começado. Num estado de coisas assim o mundo começará a elaborar objectivos elevados e terá lugar a ambição e o ódio, o que constitui o terreno fértil para ladrões como Chih, Tseng e Shih.

Então, recompensar-se-á o bem e punir-se-á o mal; recompensar-se-á o bem, só que jamais haverá recompensa em demasia; punir-se-á o mal, mas nunca castigarão o suficiente. Por isso, tudo o que existe, conquanto grandioso, não se presta nem se adequa a induzir nem a dissuadir (recompensa e castigo) e tudo, desde as três dinastias para cá, nada mais foi que azáfama e excitação, preocupação com recompensas e castigos, pelo que os homens não encontram repouso nas qualidades essenciais da sua natureza inata nem nos atributos do destino.

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Além disso:
O cultivo prazeroso da visão conduz ao excesso e à corrupção (da estética);
O cultivo agradável do ouvido tende a corromper a pureza do som;
O cultivo deleitoso da justiça instaura no homem leva-o a voltar costas à razão e à correcção, e confundir a virtude (princípios);
A prática gratificante das cerimónias presta-se ao cultivo da artificialidade;
O cultivo encantador da música contribui para a sedução (dissolução) e a dissonância;
O deleite pela sagacidade presta-se à capacidade inventiva e à esperteza;
O cultivo do conhecimento contribui para a repressão e a censura.

Se os homens se firmarem nas qualidades da sua natureza inata e nos atributos do seu destino, essas oito formas de cultivo não farão a menor diferença. Se os homens não se centrassem na verdadeira forma da sua natureza e destino, então essas oito formas de gozo causarão desinquietação e distorção e o mundo cairá no desequilíbrio e na desordem. Quando os homens começam a tê-las em reputação e a ansiar por elas, grande é a decepção que causam ao mundo. Não é coisa de pouca monta, por as pessoas se excederem em jejuns e orações e apregoarem tais coisas como tesouros, e tocarem tambores e lhe prestarem culto. Mas aí, que se poderá fazer para se remediar o mal?

Por isso, quando nada resta fazer ao homem superior senão orientar todas as coisas existentes sob o céu, nisso não há melhor política que a da não interferência (inacção). Dessa forma poderá repousar (centrar-se) na real substância da sua natureza e destino.

Se ele valorizar o próprio mundo como valoriza o corpo, então o mundo poderá ser-lhe entregue ao cuidado. Àquele que ama o mundo como ama o seu corpo, pode-se-lhe confiar o mundo.

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Portanto, se o homem superior não dissipar os seus órgãos vitais e não lhes causar dano, nem cultivar faculdades exacerbadas da visão e do ouvido, conquanto permaneça inactivo como um cadáver, denotará poder de presença, preservará o silêncio e o espírito activo, e o céu acompanhá-lo-á; mantém a postura na inacção enquanto a miríade de coisas existentes se assemelha a grãos de poeira a flutuar no ar. Então que bem se colherá do governo de todas as coisas existentes sob o céu?

Tsui Chu interpelou Lao Tzu dizendo: “Se o mundo não for governado, como se poderá aperfeiçoar a mente (índole) dos homens?”

Lao Tzu disse-lhe: “Toma cuidado com a forma como lidas com a bondade natural do homem. Quando constrangido o coração do homem pode cair na depressão, quando encorajada, pode cair na exaltação. E os homens podem ser aprisionados ou incorrer no dano tanto pela depressão como pela exaltação. É tão delicado que pode sofrer desgaste em face da instigação e da subjugação; no entanto, os seus ângulos são suficientemente afiados para cinzelar e esculpir. A sua mente assemelha-se a um fogo abrasador e a um frio como o do gelo. A sua mente pode ficar tão agitada que se pode dispersar num ápice, em meio à distracção. Uma vez em repouso, é tão profundo quanto um abismo. Activo, revela-se remoto como o céu. Foge de tudo quanto tender a atá-lo. Tal é o coração da humanidade.

Há muito, muito tempo atrás, o Imperador Amarelo foi o primeiro a perturbar a mente dos homens com todo o jargão (hipocrisia) sobre a benevolência e a justiça. Em resultado, Yao e Shun mataram-se a trabalhar para alimentar os seus súbditos e esforçaram-se por estabelecer códigos de leis e por praticar a benevolência e a justiça, que esgotaram as pessoas para as sujeitar à benevolência e o dever; mas não conseguiram obter sucesso. Nesse sentido, Yao teve que enviar Huang Tou ao Monte Chung a fim de banir as três tribos Miao e o ministro do trabalho para a Cidade Negra (Yutu). Tal foi a extensão do insucesso que tiveram no governo do mundo.
O que nos conduz às Três Dinastias, quando o mundo se encontrava no caos e na desordem e reinava a consternação.

Entre os mais baixos tipos de carácter contava-se com o ditador Chieh e o ladrão Chih. Nos mais elevados tipo de carácter encontrava-se Tseng Chen e Shih Chin. Por fim surgiram os Confucianos e os Moistas, em resultado do que os contentes e os furiosos se passaram a encarar com suspeição mútua, os complacentes e a sagazes passaram a ditar regras uns aos outros; os fanfarrões e os homens honestos trocaram recriminações, e o mundo caiu na decadência.

As perspectivas sobre a grande Virtude não mais coincidiam e a natureza interior com os seus dons e o destino foram calcados aos pés. Todos cobiçavam o conhecimento mas as pessoas andavam aturdidas e exauridas com a busca do bem.
Recorreram a machados e a serras e sentenciaram com base na culpa e condenaram por decreto, e instauraram a pena de morte. O martelo e a bitola foram usados na condenação, e o mundo caiu na desordem. O crime teve origem na intromissão no íntimo dos homens. Em resultado disso, os dignos de mérito tiveram que se esconder entre as montanhas e os príncipes dos exércitos refugiaram-se com medo e alarme nos santuários dos seus antepassados.

Na actual geração, os corpos daqueles que foram executados jazem uns por sobre os outros, numa pilha; os que são obrigados a carregar grilhões e cangas atropelam-se uns aos outros; os que foram sentenciados a punições acham-se presentes em todas as praças. E agora surgem os Confucianos e os Moistas com a sua presunção e arrogância por entre as massas de pessoas constrangidas. É uma desgraça que vão tão longe na audácia e descaramento que demonstram, uma total falta de vergonha. Porque não terão ainda percebido que a sagacidade dos eruditos pode muito bem representar os grilhões e as cangas, e que a benevolência e a justiça podem muito bem ser os cravos e os grilhões? Como saberemos se Tseng e Shih não serão os arautos do surgimento de ladrões como Chieh e Shih? É por isso que digo para abolirem a sagacidade e para abandonarem o conhecimento, e tudo sob o céu terá governo.

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O Imperador Amarelo foi senhor do mundo durante dezanove anos: todo o mundo seguia os seus éditos, quando ele ouviu falar do Mestre Kuang Chen que habitava no topo do monte Kung Tung, e foi visitá-lo, dizendo: “Ouvi dizer, senhor, que é proficiente no Caminho (Tao). Poderei aventurar-me a perguntar-lhe qual é a essência do Caminho Perfeito? Gostaria de captar a essência do Céu e da Terra, e de as usar para ajudar no cultivo dos cinco grãos e para alimentar as pessoas. Também gostaria de controlar o Yin e o Yang, para poder assegurar o crescimento de todas as coisas vivas. Com poderá isso ser conseguido?”

O Mestre Kuang Cheng respondeu: “Aquilo que dizes querer é a verdadeira substância (superficial) de todas as coisas; aquilo que queres controlar acha-se cindido. Desde que começaste a governar todas as coisas sob o céu a chuva caiu antes mesmo que chegassem a formar-se nuvens; as árvores e os arbustos deixam cair as folhas sem que elas sequer amadureçam; a luz do sol e da lua estão cada vez mais a empalidecer. Tens um espírito frívolo e uma mente tagarela – que bem poderia advir de te revelar o Caminho Perfeito?”

O Imperador Amarelo retirou-se e deixou de governar o mundo; construiu uma cabana rústica onde estendeu um estrado feito de juncos e aí permaneceu imperturbável por três meses. Depois foi de novo apresentar o pedido.

O Metre Kuang Cheng encontrava-se deitado voltado para sul. O Imperador Amarelo com um ar de deferência, adiantou-se e ajoelhou. Fez duas vénias e disse: “Ouvi dizer, Mestre, que sois um mestre do Tao Perfeito. Gostaria de perguntar como deverei governar o meu corpo para poder ter uma vida longa.”

Mestre Kuang Cheng de súbito sentou-se e disse: “Excelente pergunta! Esplêndido! Vou-te ensinar o Tao perfeito. A sua essência acha-se envolta no mistério, perdida no silêncio. Nada há a ouvir; nada há a ver; quando se envolve o espírito na quietude e na pureza e não se sujeita o corpo à fadiga nem se agita a essência (força vital). Tudo isto resultará numa vida longa. Os olhos nada veem, os ouvidos nada escutam, a mente nada conhece. Assim, o teu espírito preservar-te-á o corpo e ele viverá por muito tempo. Tem cuidado com o que carregas no íntimo, bloqueia o que provenha do exterior, por o conhecimento em demasia ser perigoso. Conduzir-te-ei rumo à grande luz, e atingiremos a origem do perfeito Yang. Guiar-te-ei pelos portões do Obscuro Mistério, até à origem do perfeito Yin. Céu e Terra têm quem os governe, o Yin e o Yang têm os seus recessos. Cuida e zela do teu corpo que o resto tomará conta de si próprio. Eu sustento a unidade e resido na harmonia; foi assim que cuidei de viver até aos mil e duzentos anos sem envelhecer.”

O Imperador Amarelo curvou-se duas vezes e disse: “Mestre Kuang Cheng, para mim vós sois o próprio Céu.”

O Mestre Kuang Cheng retrocou: “Esplêndido! Vou-te instruir. Aquilo que buscas é inesgotável, mas ainda assim as pessoas acham que tenha um fim; é insondável, mas ainda assim as pessoas acham que o conseguem abranger. Aquele que atinge o Tao, será sublime do alto, e um rei na terra. Aquele que falha na realização do Tao, pode ver o brilho acima, mas permanecerá submisso, na terra. Todas as criaturas que nascem provêm do pó e ao pó regressam. Por isso vou-te agora levar a penetrar as gargantas do inexaurível e vaguear pelos campos do ilimitado para aí nos misturarmos com o sol e a lua e tornar-nos eternos com o céu e a terra. Não considerarei o que esteja porvir e ignorarei o que quer que tenha passado. Todos poderão morrer, que só eu sobreviverei!”

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Yun Chiang viajava para leste transportado nas asas de um furação, e de súbito encontrou Hung Mung, que andava aos saltos e a bater nas coxas, a pular como um pássaro. Yun Chiang vindo aquilo deteve-se e com reverência disse: “Quem és tu, velho? Que andas a fazer?”
Hung Mung continuou a bater nas coxas e a pular com um pássaro, e logo respondeu: “Estou a divertir-me.”

Yun Chiang olhou para Yun Chiang e disse: “Isso é de lamentar!”
Yun Chiang disse: “A própria essência do Céu não mais se encontra em harmonia; os espíritos da terra não se misturam (Yin e Yang, vento e chuva, luz e trevas), as quatro estações não seguem a sua ordem natural. Mas agora quero combinar os seis espíritos para trazer vida a todas as coisas. Como conseguirei isso?”
Hung Mung sacudiu a cabeça, bateu nas coxas, deu um salto e respondeu: “Eu não sei; não sei!”

Yiun Chiang não conseguiu prosseguir com as perguntas. Mas três anos mais tarde, ao viajar para leste, passou a região deserta de Sung e topou de novo com Hung Mung. Yun Chiang, muito satisfeito, acorreu junto dele e disse-lhe: “Céu, esqueceste-te de mim? Céu, esqueceste-te de mim?”

Curvando a cabeça duas vezes desejoso de receber instrução da parte dele. Hung Mung disse: “Vagueando sem rumo, não sei o que procurar, levado por um impulso desenfreado sem saber para onde. Vagueando num estado de perplexidade desses vejo que nada é sem razão. Que mais poderei saber?”
Yun Chien respondeu: “Também sou impulsivo, mas as pessoas seguem tudo quanto faço. Não consigo evitar que o façam. Agora, por não conseguir evitar que me imitem, gostaria que me desses um conselho.”
“A interferência nos caminhos do Céu aflige a verdadeira natureza das coisas e detém o cumprimento dos Mistérios do Céu,” disse Hung Mung.

“Isso leva a que os animais se dispersem; os pássaros cantem pela noite; o infortúnio atinja as colheitas e os arvoredos; a calamidade atinja répteis e insectos. Esse é o erro decorrente de governar os homens.”
“Então, que deverei fazer?” disse Yun Chiang.

“Ah, quanta perversão! Vou-te deixar e vou dançar, e recobrar a transcendência.”
Yun Chiang retrocou: “Tem-me sido difícil encontrar-te, Céu, pelo que te peço uma palavra.”

“Ah,” disse Hung Mung. “Fortalece a tua mente. Só precisas assumir a inacção (não interferência) e as coisas transformar-se-ão por si só. Livra o corpo e rejeita o poder da visão e da audição (sagacidade); esquece todas as relações e coisas e torna-te um com o Vasto e o Vazio. Liberta a mente e o espírito; Imerge na passividade, e todas as coisas ao teu redor retornarão à sua origem, sem saberem porquê. Num estado constante de caos, nunca o chegam a abandonar ao longo da vida. Se procurarem entender como regressar à origem (ordem) afastar-se-ão dela. Não perguntem da sua razão nem procurem apurar do seu propósito, e as coisas seguramente chegarão a existir por si sós.”
Yun Chiang disse: “Céu honrou-me com esta virtude e ensinou-me o seu mistério. Toda a minha vida o busquei e agora encontrei-o.”

Fez duas vénias e levantou-se e despediu-se e foi embora.

Aquele que não tem companheiros pode ser o mais nobre de todos.

O homem comum sente-se satisfeito quando os outros se parecem com ele e concordam com ele, e sente-se desagradado quando tal não acontece; aqueles que demonstram afinidade pelos seus gostos e não mostram afinidade pelas suas aversões fazem-no sob influência da diferenciação dos outros, uma ânsia profundamente arraigada. Porém, se eles determinam que são diferentes dos outros, de que forma isso os diferenciará do resto? É melhor ir com todos e ficar em paz do que esforçar-se, independentemente do quão espertos sejam, por os outros todos juntos apresentarem mais competências. Contudo, quando querem administrar os outros estados, fazem-no com o fito apenas no proveito e em função do governante, e sem atender às suas preocupações, conforme os métodos de governo que as Três Dinastias achavam vantajosos; mas não perspectivam os perigos que isso envolve. Isso equivale a deixar um estado entregue à sua sorte. Mas, quantas vezes se poderá fazer isso sem se deixar o estado na ruína? Talvez um só em cada dez mil possa salvar o estado (nação) disso, ao passo que as hipóteses de sair mais arruinado são de dez mil para um. É angustiante ver que os governantes não têm consciência do perigo disso!

Aquele que possui um grande estado possui o maior dos bens. Sendo senhor de uma grande coisa, ele deveria ser tratado como qualquer um e não se deixar influenciar pelos bens. Possuindo-se todas as coisas como coisas sem se deixar influenciar pelas coisas, é-se capaz de tratar as coisas com equidistância. Aquele que acalenta a percepção de tratar as coisas como coisas, em si mesmo não se compara a nenhuma. Consequentemente, não só governará os cem clãs (povo) e tudo quanto existe sob o céu, como transitará entre as seis direcções (norte, sul, este, oeste, para cima e para baixo) e as nove regiões, solitário nas idas e solitário nas vindas. Será o único senhor, e enquanto senhor único ele é o mais perfeito de todos.

Os ensinamentos dos grandes homens assemelham-se à sombra que o nosso corpo lança e ao eco que acompanha o som. Quando questionado, ele responde desdobrando-se em compreensão e levando o inquiridor a confrontar a sua própria mente. Permanece no silêncio e exerce acção no ilimitado; orienta os transviados e rem-rumo para o seu próprio objectivo; adopta e abandona o desapego no seu curso e não deixa rasto, semelhante como é ao sol, sem começo nem fim.
Na descrição deles, diz-se que fazem parte da unidade com o Todo. O Todo não tem personalidade. Não tendo personalidade, como poderão ter posses? Aquele que detém posses é mais nobre enquanto aquele que nada tem é companheiro de Céu e Terra.

O céu assemelha-se ao espírito

As coisas são inferiores, no entanto são úteis.
As pessoas são humildes, porém, depende-se delas.
Os negócios (tarefas) são fastidiosos, mas precisam ser feitos.
As leis são agentes de coerção e imprecisas, no entanto precisam ser estabelecidas.
A integridade (justiça) parece distante mas necessitamos dela dentro de nós.
A benevolência é coisa íntima, porém, precisa ser universal.
As cerimónias são restritas, porém, precisam ser multiplicadas.
A Virtude acha-se alojada no âmago, porém, precisa ser exaltada.
O Tao é Um, no entanto precisa ser modificado.
O Céu é espiritual mas precisa ser praticado (exercitado).

Por conseguinte, os sábios contemplam o Céu, mas não lhe prestam assistência. Encontram o seu aperfeiçoamento na virtude mas não deixam que ela os sobrecarregue.
Demonstram de acordo com o Tao, mas não fazem planos.
Recorrem à benevolência naquilo que empreendem, mas não dependem dela.
Perseguem extensivamente a justiça mas não procuram acumulá-la.
Cumprem com as cerimónias mas não evitam a opinião quanto às suas dificuldades.
Tratam dos negócios e não se esquivam às suas responsabilidades.
Procuram aplicar as leis que estabelecem, mas não creem na sua eficácia.
Valorizam as pessoas e não as desconsideram.
Fazem uso das coisas e não as desconsideram.
É verdade que as coisas são íntimas, mas precisam ser usadas.
Aquele que não percebe o Céu com clareza, não terá a pureza da virtude.
Aqueles que não seguem o Tao não conseguem seguir nenhuma outra senda de forma bem-sucedida.

É pena que não consigam compreender o Tao!

Que é isso que chamamos de Tao? Há o Tao do Céu e o Tao da humanidade. Nada fazer atrai a honra: esse é o Tao do Céu. A acção representa o Tao da humanidade. O Tao do Céu é regente. O Tao da humanidade é servo. Ambos, acham-se afastados. Isso é algo que merece ser criticamente examinado.

CAPÍTULO 12
DO CÉU E DA TERRA

Céu e terra são vastos, porém, são iguais nas transformações que impõem. As dez mil coisas são numerosas, mas são uma só na ordem que lhes trás estabilidade. Embora os seres humanos sejam muitos, são todos governados pelo soberano. O soberano encontra a sua origem na Virtude, e a sua perfeição no Céu. Por isso se diz que o soberano da antiguidade insondável governava o mundo por intermedio da não acção, por meio da Virtude do Céu e nada mais.

Contemplem as palavras à luz do Caminho – então o soberano do mundo será elevado. Observem as distinções à luz do Caminho – então os deveres do soberano e do súbdito tornar-se-ão relevantes e claros. Examinem as competências à luz do Caminho – e então os funcionários do mundo estarão no lugar indicado e governarão bem. Observem tudo à luz do Caminho – e então a resposta e a aplicação às dez mil coisas será cabal.

O Caminho está em nos imbuirmos de Céu e Terra. Mover-se por entre as dez mil coisas com acordo - nisso reside a Virtude. Assuntos superiores que governam o povo – isso é expressão da hierarquia. Destreza que alcança expressão de preparo - a isso se chama perícia. A perícia é necessária à hierarquia e a hierarquia ao dever; o dever advém da Virtude e a Virtude advém do Caminho, e o Caminho advém do Céu. Por isso se diz: Aqueles que conduziam o mundo na antiguidade não acalentavam tal desejo, e o mundo saia satisfeito; eram desprovidos de acção, e as dez mil coisas saiam transformadas; eram introvertidos e silenciosos como as águas das profundezas, mas o povo permanecia estável. Os Registos narram o seguinte: "Comunguem com o Um, e as dez mil tarefas serão satisfeitas; não acalentem a ideia da realização, e os deuses e espíritos submeter-se-ão."

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O mestre disse: O Caminho abrange e suporta as dez mil coisas - ampla, vasta é a sua grandeza! O homem superior deve erradicar a ideia da realização do seu íntimo!
À actuação por meio da não acção se chama Céu. Ao discurso por meio da não acção se chama Virtude. Do amor pelos homens e do benefício das coisas se diz que é benevolência. Ao que torna o diferente igual se chama grandeza. Ir além de barreiras e limites é chamado magnanimidade. Ser senhor de uma miríade de atributos diferentes é chamado riqueza. Gozar de Virtude e ater-se a ela é chamado orientação. A maturidade da virtude é chamada estabilidade e firmeza. Alinhar pelo acordo do Caminho é chamado realização. Ver que as coisas externas não embotem nem distraiam a vontade é chamado aperfeiçoamento. 

Quando o homem superior claramente compreende estas dez qualidades, quão benéfica não será a magnanimidade e a harmonia com que empreende as dez mil coisas!
Um homem assim é o que acumula tesouros no céu e o que deposita o valor no sentido, ao deixar o seu “ouro” enterrado nas “montanhas,” as “pérolas” ocultas nas profundezas. Não verá o verdadeiro proveito no dinheiro nem nos bens, não se deixará seduzir pela fama nem pela fortuna, não terá prazer em gozar uma vida longa, nem sentirá pesar com a morte prematura, não verá qualquer valor na afluência, nem se envergonhará com a pobreza. Ele não arrebatará os lucros de toda uma geração para deles fazer seu tesouro privado; não desejará ser senhor do mundo nem pensará que nisso esteja a honra. Para ele a honra encontra-a na compreensão clara, por ter consciência de que as dez mil coisas pertencem a um mesmo tesouro, e que a vida e a morte são o mesmo.

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O Mestre disse: O Caminho – quão profundo é o seu repouso, quão límpida a sua clareza! Sem ele nem os sinos tocariam nem as pedras de toque ressoariam. Os sinos e as pedras possuem sons, mas a menos que sejam golpeados, não os emitirão. As dez mil coisas – quem as poderá determinar?
O homem de régia virtude move-se na simplicidade, e envergonha-se de se imiscuir na condução dos assuntos. Ele estabelece o seu conhecimento na fonte original do natural, e a sua compreensão estende-a até ao sobrenatural.

Por isso, a sua virtude é abrangente e a sua mente estende-se às coisas que a estimulam. Sem o Caminho o corpo não pode sustentar a vida, e sem os atributos da Virtude, a vida não se pode manifestar. Preservar o corpo e desenvolver a vida em pleno; estabelecer os atributos da Virtude e exibi-los com clareza – não será isso possuir régia Virtude? Quão aberto e sem premeditação é o seu espontâneo avanço, e prontas e inesperadas as respostas que dá, enquanto as dez mil coisas o seguem – isso é o que significa um homem cujas qualidades o levam a ajustar-se ao governo!
Ele percebe na ausência de expressão, ouve onde tudo permanece inexpressivo. Em meio à obscuridade só ele distingue um vislumbre; em meio ao silêncio, só ele escuta a harmonia. Por conseguinte, ao atingir as profundezas uma e outra vez ele consegue chegar a obter um vislumbre; ao perseguir o repetidamente o carácter subtil da essência, longe de ter alguma coisa, ele consegue dá-lhes cobertura por meio da sua diligência; conquanto esteja sempre apressado, sempre regressa ao seu lugar de repouso; me meio ao grande, ao pequeno, ao extenso, ao curto, ao próximo e ao distante.

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O Imperador Amarelo foi passear pelo Norte da Água Vermelha, subiu às encostas de Kun Lun, e observou o sul. Ao chegar a casa, descobriu que perdera a sua Pérola Negra. Enviou o Conhecimento à sua procura, mas o conhecimento não a conseguiu encontrar. Enviou o perspicaz Li Zhu à sua procura, mas Li Zhu não a conseguiu descobrir. Enviou a Disputa Acalorada à sua procura, mas a disputa Acalorada também não a encontrou. Por fim procurou usar o Sem Objectivo, e o Sem Objectivo encontrou-a. O Imperador Amarelo disse: “Que estranho! – como foi que o Sem Objectivo foi capaz de a encontrar?”

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O Mestre de Yao foi Xu You; o Mestre de Xu You foi Nie Que; o mestre de Nie Que foi Wang Ni; e o Mestre de Wang Ni foi Piyi. Yao perguntou a Xu You: “Poderia Nie Que ser igualado ao Céu? Eu podia pedir a Wang Ni que lhe pedisse para me suceder no trono.”

Xu You disse-lhe: “Cuidado! Com isso colocará tudo em risco! Nie Que é um homem de inteligência aguda e de soberba compreensão, ágil e inteligente. É, por natureza, superior aos outros, e ele sabe como explorar o que o Céu lhe der.
“Ele faria o melhor que pudesse para impedir as falhas e os erros, mas não compreende de onde os erros e as falhas procedem. Igualá-lo ao Céu? Veja – ele começaria a confiar nos outros e a esquecer o Céu. Colocar-se-á à frente e relegaria os demais para segundo lugar. Servir-se-ia do artificial e negligenciaria o natural mais rápido que o vento. 
Tornar-se-ia escravo das suas próprias ideias, ficaria à mercê das exigências, procuraria por todas as direcções a ver como as coisas estariam a sair e tentaria atender a todas as carências, mudara sempre junto com as coisas, e deixaria de apresentar quaisquer vestígios de firmeza própria. Como poderia ele ser igualado ao Céu? No entanto, existem clãs menores. Ele poderá servir de chefe de um desses clãs, embora jamais servisse de chefe dos chefes da vasta tribo. Um governo da sua parte seria precursor da desordem, tanto para os ministros voltados a norte, como para os soberanos voltados a sul!”

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Yao andava a ver as vistas por Hua quando o guarda de fronteira de Hua disse: “Ah, eis um sábio! Peço que me permita rogar-lhe bênçãos. Possa o sábio gozar de uma vida longa!”
Yao disse: “Não, obrigado.”
“Possa o sábio obter riquezas!”
Yao disse: “Não, obrigado.”
“Possa o sábio ter muitos filhos!”
Yao disse: “Não, obrigado.”
“Vida longa, riquezas, muitos filhos – isso é o que todos os homens almejam!” disse o guarda de fronteira. “Como é que só vocês não as deseje?”
Yao disse: “Muitos filhos implica muita ansiedade. Riquezas implicam muitos apuros. Uma vida longa trás opróbrio e humilhações. Tais bênçãos são inúteis no cultivo da Virtude – razão porque declino.”

O guarda de fronteira disse: “Inicialmente achei que fosse um sábio. Mas agora vejo que não passa de um mero nobre. Quando o Céu dá lugar às dez mil pessoas, é certo que tem um emprego a dar-lhes; que haverá a temer nisso? Se partilhar as suas riquezas com os outros, que apuros terá? Se tiver muitos filhos, atribuir-lhes-á um cargo, por isso, que terá a temer?”

“O verdadeiro sábio é como a codorniz no repouso, ou como o passarinho nas suas refeições, e como as aves em voo, não deixa vestígios. Quando o Caminho prevalece no mundo, ele goza de prosperidade junto com todas as coisas. Quando o Caminho está ausente do mundo, ele favorece a Virtude e retira-se do envolvimento. Após mil anos, deva ele sentir-se cansado do mundo, ele deixá-lo-á para ascender para junto dos imortais, e cavalgará aquelas nuvens brancas até subir até à residência do Supremo.
“As três formas de preocupação que citou não lhe afectam o corpo. Como poderá ele sofrer qualquer vergonha?”

O guarda de fronteira voltou-se e afastou-se. Yao seguiu-o, dizendo: "Faça favor, gostaria só de lhe perguntar..." "Vá-se lá embora," disse-lhe o guarda de fronteira.

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Quando Yao governava o mundo, Bosheng Zigao obteve propriedade plena como nobre. Mas quando Yao passou o trono a Shun, e Shun o passou a Yu, Bocheng Zigao renunciou ao seu título e assumiu funções de lavoura. Yu foi vê-lo e encontrou-o a lavrar os campos. Yu acorreu à frente dele e em deferência fez-lhe uma vénia, e ateve-se para a seguir dizer: "Quando Yao governava o mundo, o senhor servia-o como governador. Mas quando Yao passou o trono a Shun, e Shun o passou a si, a seguir ao que o senhor mo passou a mim, o senhor renunciou ao seu título e assumiu a lavoura. Poderei atrever-me a perguntar-lhe porquê?"

Zigao disse: "Quando Yao governava o mundo, ele não atribuía recompensas, e no entanto as pessoas trabalhavam duro; não decretava castigos, e no entanto as pessoas veneravam-no. Agora você recompensa e pune, e ainda assim as pessoas não conseguem fazer o bem. A partir de agora, a Virtude entrará em decadência e as penalidades prevalecerão. A desordem das gerações futuras têm o seu começo precisamente aqui! Senhor, porque não vai embora? Não me interrompa o trabalho!" E atarefado lá continuou com as tarefas da lavoura, sem se voltar para olhar para trás.

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No Grande Começo, não existia nada; não existia ser nem nome. Daí surgiu o Um; existia o Um, porém, não tinha forma. Quando as coisas conseguiram aquilo por que chegaram a existir receberam o que veio a ser chamado Virtude. Antes que as coisas adquirissem forma, elas foram divididas, só que não separadas umas das outras. Por meio do equilíbrio e do movimento surgiram as coisas, e à medida que se desenvolveram, adquiriram formas distintas; a isso se chamou forma.

Quando as formas e corpos encerraram os espíritos, cada um dos quais dotados das suas características e limitações, e a isso se chamou natureza inata. Se a natureza inata for treinada, podereis retornar à Virtude, Virtude essa que se for aperfeiçoada nos tornaremos como no Começo. Ao ser idênticos, ver-nos-emos despojados; estando despojados, seremos grandiosos. Poderemos juntar-nos aos chilreios e às brincadeiras dos pássaros, e quando nos tivermos reunido aos chilreios e às brincadeiras dos pássaros poderemos juntar-nos ao Céu e à Terra. Essa reunião é feroz e confusa, como se fossemos estúpidos, como se fossemos dementes. A isso se chama Virtude Misteriosa. Rudes e sem consciência, tomamos parte na Grande Submissão.

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Confúcio disse a Lao-tzu: "Alguns esforçam-se por dominar o Caminho como se tentassem derrotar um oponente no debate, ao tornar o inaceitável aceitável, e ao tentarem tornar o impossível possível. Conforme os oradores que com a sua retórica dizem, "conseguem separar o "contraste" do "nítido" com tanta clareza como se pendessem dos beirais. Poderá um homem destes ser chamado de sábio?"

Lao tzu disse: "Um homem assim assemelha-se a um burro de carga, a um artesão preso à sua vocação, que desgasta o corpo, e aflige a mente. Por o cão ter mestria a apanhar ratos, ele acaba preso a uma trela. Por apresentar agilidade, o macaco é arrebatado da floresta na montanha. Shiu, vou-te contar uma coisa - algo que jamais pensarias ouvir, algo que jamais conseguirias dizer. Aqueles que têm cabeça e pés mas não têm coração nem ouvidos - desses há muitos. Quem seja dotado de corpo e consiga preservar aquilo que não tem corpo nem forma - disso nunca se ouviu falar! Não é no começo ou fim de um homem, na vida nem na morte, na ascensão nem no declínio que isso se encontra. O domínio disso não está ao alcance do homem! Já o cultivo de si mesmo está nas suas mãos. Permanecer inconsciente das existências objectivas é esquecer-se da própria personalidade. Daquele que se esquecer de si se poderá dizer que terá combinado em si mesmo o humano e o divino. 

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Chiang Lu Mien foi ver o mestre Chi Che e disse: "O governante de Lu implorou-me que o instruísse. Eu declinei, porém, como ele não me deixava, não tive escolha senão dizer-lhe alguma coisa. Não sei se aquilo que disse foi ou não acertado, mas gostaria de vos repetir o que eu disse ao governante de Lu: "Precisa ser cortês e moderado! Seleccione e promova aqueles que forem leais e tiverem um espírito público em vez dos subservientes e dos egoístas; não admita louvor nem favoritismo, e então quem do seu povo se aventurará a ser indisciplinado?"

Chi Che desatou a rir. "No que toca à Virtude de reis e de imperadores," disse ele, "o concelho que lhe deu assemelha-se ao louva-a-deus que se pôs a acenar agitadamente com os membros em frente da carruagem que se aproximava - simplesmente não está à altura do pretendido. Caso o governante de Lu procedesse desse modo, ele simplesmente construiria torres mais altas e ajuntaria um crescente número de bens, e as pessoas esqueceriam os bons modos e tornar-se-iam como ele!"

Chian Lu Mien ficou de olhos esbugalhados tal a admiração com que ficou. "Estou estupefacto com as suas palavras," disse. "No entanto, gostaria de ouvir o que o Mestre tem a dizer acerca disso."

Chi Che disse: "Se um sábio governasse o mundo, ele deixaria a mente dos seus súbditos livre e a erraria por longe. Com base nisso ele influenciaria a formação das pessoas e reformaria os seus costumes, aniquilando toda a cobiça da mente e encorajá-las-ia a trabalhar pelo bem comum. Tudo é feito de acordo com a disposição inata, sem que soubesse o que as tivesse levado a isso. Quem age assim, que necessidade terá de se espantar com as doutrinas que Yao e Shun pregaram à sua gente? O único desejo que acalentaria seria o de levar a que estivessem de acordo com a Virtude e a Paz de Espírito."

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Tzu Kung viajou para sul para Chu, e no regresso por Chin, ao passar pela margem sul do rio Han viu um velho a preparar os campos para o plantio. Ele tinha deixado uma abertura por onde passava a água que tirava de um poço para as valas, para regar os campos, e tirava-a com um jarro. A soprar e a bufar, ele emprega uma enorme quantidade de energia mas conseguia muito pouco resultado.

"Existe uma máquina para regar," disse-lhe Tzu Kung. "Num só dia é capaz de regar cem campos, e exige muito pouco esforço além de produzir excelentes resultados. Não gostaria de ter uma?"

O jardineiro ergueu a cabeça e olhou para Tzu Kung.
"Como é que funciona?"

"É uma engenhoca construída em pau. A parte de trás é pesada e a da frente é leve e eleva a água e despeja-a, tão rápido quanto água a ferver! Chama-se engenho."
O jardineiro ficou ruborizado de raiva e de seguida disse por entre uma risada: "Ouvi o meu mestre dizer que, onde entrarem as engenhocas, certo é que venham a surgir problemas engenhosos; e onde imperarem os problemas engenhosos, certo é que venhamos a ficar assoberbados de problemas e acabemos prejudicados. Assoberbados de corpo e mente, deterioraremos o puro e o simples, e não conheceremos repouso. E quando não conhecemos repouso, o Caminho deixará de nos animar. Não é que não saiba nada sobre as máquinas - só que me envergonharia por a usar!"

Tzu Kung corou de confusão, olhou para baixo, e não deu qualquer resposta. Passado um bocado, o jardineiro disse: "De qualquer modo, quem é o senhor?"

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"Ah, bom - nesse caso você deve ser um daqueles que confia no vasto conhecimento que tem de modo a imitar o sábio, e que impressiona as multidões com a superioridade e disparates sem sentido, e toca os acordes que mais ninguém sabe na esperança de obter fama? Melhor seria que esquecesse o seu espírito e o fôlego e desconsiderasse o corpo - porque então seria capaz de chegar a algum lado. Assim, nem sequer sabe cuidar de si próprio - como disporá de algum tempo para pensar em cuidar do mundo?! Vá lá senhor, e não interfira no meu trabalho!"

Tzu Kung assumiu um ar de gravidade e ficou branco como a cal. Atordoado e atrapalhado, não parecia conseguir recompor-se, e só depois de ter percorrido uma boa distância é que começou a recobrar. Um dos seus discípulos perguntou: "Quem era aquele homem ainda há pouco? Por que mudou a sua expressão e perdeu assim de cor, Mestre, e levou todo o dia a recobrar?"

"Eu costumava pensar que só existia um tipo de homem iluminado no mundo," disse Tzu Kung. "Não sabia que também existia este. Ouvi o Mestre dizer que nos negócios se deve visar o sucesso, e que nos empreendimentos se deve visar a conclusão, a fim de despendermos o menor esforço e conseguirmos o máximo de resultado; e que o teste das teorias está na sua praticabilidade. Mas agora parece que não é assim. 

“Aqueles que se atêm com firmeza ao Caminho aperfeiçoam-se na Virtude; ao serem perfeitos na Virtude, tornam-se íntegros no corpo; sendo íntegros de corpo, poderão ter integridade de espírito; ser íntegro de espírito é o jeito do sábio. Ele confia a sua vida às pessoas, a faz a jornada a seu lado, sem jamais saber para onde se encaminha. Parecendo simplório, permanece intacto na sua pureza. Realização, proveito, engenhos, proficiência - isso não tem lugar nos afectos de tal homem! Um homem assim não irá onde não tem vontade de ir, nem fará o que não tem em mente fazer. Embora o mundo o possa elogiar e aclamar, ele parecerá completamente desatento e jamais volta a cabeça; embora o mundo o possa e rejeitar o que diz e dizer que tenha perdido o juízo, parecerá sereno e ausente. O elogio e a censura do mundo não representarão benefício nem prejuízo para ele. Ele poderá ser apelidado de homem de Perfeita Virtude. Ao contrário, eu pareço não passar de um homem lançado ao vento e às ondas."

Quando Tzu Kung voltou a Lu, ele reportou o incidente a Confúcio. Confúcio disse: "Ele é um daqueles praticantes falsos das artes do Ante Mundano. Compreende a primeira coisa, mas não compreende a segunda. Cuida do que se acha dentro mas não trata do que está por fora. Um homem que goze do verdadeiro esplendor da clareza e da pureza que seja capaz de adoptar a simplicidade e que consiga regressar ao primitivo pela não acção, dar corpo à sua natureza inata e abranger o seu espírito, e desse modo consiga perambular pelo mundo do dia-a-dia - se tivesses conhecido um desses, terias tido verdadeira causa de admiração.

Quanto às artes do homem do Ante Mundano, não vale a pena preocupar-nos com ele."

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Chun Mang seguia o seu caminho em direcção ao leste, ao Grande Desfiladeiro do mar quando aconteceu encontrar Yuan Fung junto à costa do oceano oriental. Yuan Fung disse: "Mestre, onde vai?"
"Vou ao Grande Desfiladeiro."
"Que fará uma vez lá chegado?"
"O Grande Desfiladeiro é aquele tipo de coisa que nunca virá a encher pelas águas que entram, nem esvaziar pelas águas que saem. Vou passear por lá."
Yan Fung disse: "Não se interessa pelo que acontece ao homem comum? Não me dirá tudo sobre o governo do sábio?"

"O governo do sábio?" disse Chun Mang. "Atribui pastas sem negligenciar as competências; Promove os homens segundo o mérito; examina as circunstâncias e os assuntos dos homens antes de agir para se inteirar dos verdadeiros factos. Revela coerência entre o que diz e o que faz e tudo no mundo sai transformado. Assim, um aceno de mão ou a um sinal com o olhar toda a gente das quatro direcções virá a vós. A isso se chama governo do sábio."

"Poderei interrogá-lo sobre o homem de virtude?"

"O homem de virtude permanece na serenidade do não pensamento, na acção não emprega a ansiedade. Não reconhece certo nem errado, belo nem repulsivo. Preza o proveito e o benefício de todas as coisas nos quatro mares; isso constitui a sua felicidade; zelar pelas suas necessidades constituía sua paz. De aspecto pesaroso, ele assemelha-se a uma criança que perdeu a mãe. Aturdido, assemelha-se ao viajante que se esqueceu do caminho. Embora disponha de mais do que riqueza e bens, mas não sabe de onde vêm. Consegue mais do que o suficiente para beber e comer, porém, não sabe como o obtém. A isso se chama o Tao do homem de Virtude."

"Poderei perguntar-lhe acerca do homem espiritual?"

"Ele deixa o espírito ascender à mais elevada luz; e a forma corporal deixa de se discernir. A isso se chama absorção na luz. O homem espiritual cumpre o seu destino, e age de acordo com a sua natureza. Habita na alegria do Céu e da terra enquanto as dez mil inquietações deixam de existir. Assim, todas as coisas retornam ao seu estado original. A isso se chama desenvolvimento na obscuridade."

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Meng Wu Kuei e Chih Chang Man Chi observavam as tropas do Rei Wu. Chih Chang Man Chi disse: "Ele não tem a estatura do Nobre do clã de Yu. É por isso que arranjou todos estes sarilhos!"

Meng Wu Kuei disse: "Estaria o mundo já em ordem quando o Nobre do clã de Yu assumiu o governo? Ou ele precisou conter a desordem?"

Chih Chang Man Chi disse: "Toda a gente quer ver o mundo em ordem. Se já se encontrasse em ordem, de que adiantaria dizer alguma coisa acerca das boas regras de Yu? O nobre do clã de Yu representou um remédio para as chagas, mas esperar que fiques careca para depois comprar uma peruca, ou esperar que adoeças para chamar o doutor, assemelha-se ao filho com sentido de dever filial que preparou o remédio de ervas e o foi apresentar ao pai com um olhar sombrio e inquieto - disso o verdadeiro sábio se envergonharia. 

“Numa era de Perfeita Virtude, não se exalta os dignos de mérito nem se valoriza a sabedoria, e evita-se dar emprego aos talentosos.

"Os superiores são como ramos altos de uma árvore – um símbolo – ao passo que as pessoas, são como veados nas florestas. Desejam aquilo que é certo, mas não sabem que isso seja retidão. Amam-se umas às outras, mas não têm ideia de que isso seja benevolência.

"São justos sem se considerarem correctos. São autênticos, porém, mas desconhecem a boa-fé. Agem com espontaneidade, e desempenham serviços uns aos outros, mas não têm ideia de estar a ser amáveis. Por isso, movem-se sem deixar rasto, e os feitos actos não deixam lembrança."

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O filho obediente que não é indulgente com os pais, e o ministro leal que não adula o seu senhor, constituem o melhor exemplo de um filho e de um ministro. O filho que concorda com tudo que os pais dizem e aprova tudo quanto fazem é tido na opinião pública como um filho desprezível; o ministro que concorda com tudo que o seu senhor diz e aprova tudo quanto o seu senhor faz, é tido na opinião pública como um ministro indigno. Porém, as pessoas não percebem que o mesmo princípio se aplica pelo inverso: Se um homem concordar com tudo que a opinião pública assevera e considerar como bom tudo o que a opinião pública aclamar como bom, nesse caso ele não é, conforme deverão esperar, apelidado de bajulador nem de adulador. Deveremos, pois, presumir que a opinião popular detém uma maior autoridade do que a de um pai, ou que deva ser mais honrada do que a de um ministro?

Chamem a uma pessoa bajuladora por anuir a tudo quanto lhe dizem, e ela enfurecer-se-á; chamem-lhe aduladora e ela mostrar-se-á ruborizada. Contudo, do princípio ao fim ela continua a bajular e a adular com as justificações que apresenta e a articulação da retórica que faz para mostrar concordância com a multidão. Do princípio ao fim os fundamentos e ramificações do argumento que apresenta não mais apresentam coerência e consistência. Vejam-na a exibir as vestes, a ostentar as suas cores vistosas, e a simular uma cara de solenidade na esperança de obter o favor dos pares - ela ainda assim não reconhece ser bajuladora e aduladora! Vejam-na a anuir com as opiniões dos superiores sobre certo e o errado - mesmo assim ela não se reconhece como mais uma da multidão. É assim que se chega ao cúmulo da estupidez e da insensatez!

Porém, aquele que conhece a estupidez que o domina, não é tão estúpido quanto isso; aquele que sabe que se encontra confuso, não se encontra na maior das confusões. Porém, aquele que se ilude e não se reconhece pelo que é, terminará a sua vida sem nem sequer a ter alguma vez chegado a endireitar; o que é monumentalmente estúpido terminará a sua vida sem alguma vez ter chegado a brilhar. Se três homens forem em viagem e um se mostrar confuso, eles ainda poderão chegar onde queriam chegar - por a confusão estar em minoria. Porém, se dois deles estiverem confusos, então poderão andar até se sentirem fatigados que nunca chegarão a parte alguma - por a confusão estar em maioria. Com toda a confusão que reina no mundo por estes dias, posso tentar esforçar-me quanto quiser por apontar o caminho, que de nada adiantará. É triste, não é?

Música solene não chega ao ouvido do povo, mas toquem-lhe cantigas de escárnio e de zombaria e ele rirá e dará atenção. Do mesmo modo, palavras sábias não impressionam a mente do povo. Palavras sublimes não lhe conquistam o coração, por as palavras vulgares se encontrarem em maioria. É como o caso dos dois viajantes que passeavam em estado de confusão sem nunca chegarem onde queriam.

Com toda a confusão que reina por estes dias no mundo, mesmo que eu queira apontar o caminho, de que me adiantará isso? Mas, seu souber que de nada adianta, e ainda assim me forçar a persuadir o povo, também isto representará um tipo de confusão. Assim, o melhor é deixar as coisas entregues a si mesmas e não as forçar. Se eu não forçar as coisas, pelo menos não causarei preocupação a ninguém. Quando uma leprosa dá à luz uma criança a meio da noite, ela corre à procura de um lâmpada para a poder examinar, e estremece de terror só de pensar que possa ser como ela.

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A árvore de cem anos é retalhada para fazer vasilhas para o vinho sacrificial, que são adornadas a azul e a amarelo mais os padrões e o resto é lançado à valeta. Comparem as vasilhas cerimoniais com os o que é jogado à valeta e notarão distinções de beleza e fealdade; contudo serão semelhantes pelo facto de terem perdido a sua natureza inata.
O ladrão Chi, Tseng e Shi encontram-se muito distanciados entre si em termos de feitos e de justiça; contudo, são idênticos no facto de terem perdido a sua natureza inata.

Há cinco condições sob as quais a natureza inata se perde. A primeira: quando as cinco cores confundem a visão e a levam a ficar desfocada. A segunda: quando as cinco notas confundem a audição e nos levam a perder a agudeza. A terceira: quando os cinco odores nos estimulam o nariz e produzem estresse e congestão mental. A quarta: quando os cinco sabores entorpecem a mente e debilitam o sentido do paladar e o levam a perder a faculdade do sabor. A quinta: quando semelhante e dissemelhante alteram a mente e levam a que a natureza inata se torne instável e volúvel.

Estas cinco são todas um veneno para a vida. No entanto, os seguidores de Yangzi e de Mozi andam todos por aí a pensar que realmente compreendem alguma coisa. Mas isso não é o que eu chamo entender alguma coisa.

Se o que tiverem entendido os tiver metido em sarilhos, então poder-se-á realmente dizer de vós que tenhais entendido alguma coisa? Se assim for, então os pombos e as pombas na sua jaula também deverão ter entendido alguma coisa. Com gostos e aversões, sons e cores, vocês mutilam o interior; com capuzes de pele e chapéus de penas, bastões presos em cintos e faixas a arrastar, vocês restringem o exterior.
Interiormente cercados por preferências e aversões e exteriormente atados pela contenda e pela inquietação, e ainda afirmam ter entendido alguma coisa! Se assim é, então o condenado com os pulsos algemados e os dedos amarrados, o tigre e o leopardo nos seus redis e prisões, também terão entendido alguma coisa!

Capítulo 13
o tao DO CÉU
(O CURSO NATURAL DOS ACONTECIMENTOS)

O TAO DO CÉU está em manter-se em constante movimento e não permitir o acúmulo - daí que todas as formas de vida sejam conduzidas à perfeição. O Caminho do Imperador está em manter-se em movimento e não permitir acúmulos - por isso todos no mundo inteiro se lhe submetem. O Caminho do sábio está em manter-se em movimento e não permitir que nenhum acúmulo - daí que todos nos mares se inclinem para ele. Abrangendo o Céu, familiarizado com o sábio, habituado às seis avenidas e às quatro fronteiras da Virtude dos Imperadores e dos Reis - as acções de um homem assim vêm espontaneamente; como que por sonhos, e nunca lhe falta o silêncio.

O sábio alcança a tranquilidade não porque tome a tranquilidade como boa. As coisas não são suficientes para lhe distrair a mente - essa é a razão pela qual ele permanece tranquilo. A água que permanece imóvel reflecte uma imagem clara da barba e das sobrancelhas; Perfeitamente nivelada, oferece uma medida para o mestre carpinteiro. E se a água imóvel possui tal clareza, quanto mais não deverá o espírito puro possuir. A mente do sábio imóvel é espelho do céu e da terra, a taça das dez mil coisas.

Vazio, quietude, limpidez, silêncio, não acção - estes são os níveis do Céu e da Terra, a substância do Caminho e as características da Virtude. Por isso, o Imperador, o Rei, o sábio apoiam-se nisso. Apoiando-se nisso, poderão permanecer vazios; desse vazio, obtêm a plenitude; a plenitude traz a clareza da distinção. Vazios, poderão permanecer imóveis; imóveis, eles poderão atingir a acção sem acção; dessa não-acção, poderão obter o êxito. Nada fazendo, eles podem apoiar-se na não acção; eles podem exigir o sucesso daqueles que estiverem
​​ actividades a seu cargo. Descansando na não acção, podem chegar a sentir-se satisfeitos; sentindo-se satisfeitos, poderão ver-se livres do cuidado e da ansiedade, e poderão viver por muitos anos.

O vazio, a quietude, a limpidez, o silêncio, a inação são a raiz das dez mil coisas. Compreendê-las e é tornar-se um governante como Yao ou como Shun foram. Possuir isso em posições elevadas é atributo de Imperadores e Reis; manter isso em posições baixas é o caminho do sábio obscuro, do rei não coroado. Retirem-se com elas para uma vida de vadiagem errante e irão encontrar em primeiro lugar os eremitas dos rios e mares, das colinas e das florestas. Avancem com isso em socorro desta geração e o vosso sucesso será grande, o vosso nome ficará conhecido e o mundo ficará unido. Na quietude vocês serão sábios, na acção reis. Na imobilidade, serão honrados; de simplicidade bruta, a vossa beleza será tal que ninguém no mundo poderá competir convosco.

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Aquele que possui uma clara compreensão da Virtude do Céu e da Terra pode ser chamado de Grande Origem, o Grande Ancestral. Ele está em harmonia com o Céu; e ao fazê-lo, ele leva um acordo equitativo ao mundo e também cria harmonia com os homens. Criar harmoniza com os homens é chamado de alegria humana; criar harmonizar com o céu é chamado de alegria celestial. Chuang Tzu disse: "Este meu mestre, oh, este meu mestre! - ele julga as dez mil coisas, mas ele não se considera severo, a sua benevolência estende-se às dez mil gerações, mas ele não se considera benevolente. É mais antigo do que a peça de antiguidade mais rara, mas ele não se pensa ter vivido há tanto tempo assim; ele cobre o céu, carrega a terra, esculpe e modela inúmeras formas, mas ele não se julga qualificado." Isto é o que se chama alegria celestial.

Assim, é dito que para aquele que entende a alegria celestial, a vida representa coisa do céu; a morte é a transformação das coisas. Na quietude, ele e o yin compartilham uma única Virtude; em movimento, ele e o yang compartilham um único fluxo. Assim, aquele que entende a alegria celestial não incorre em nenhuma ira do céu, nenhuma oposição do homem, nenhum emaranhamento com as coisas, não recebe qualquer culpa da parte dos espíritos. Por isso se diz que o seu movimento procede do céu, a sua quietude procede da terra. Com a sua mente sem igual no repouso, ele é o rei do mundo; os espíritos não o afligem; a sua alma não conhece cansaço. A sua mente sem igual repousa, as dez mil coisas submetem-se - o que significa que o seu vazio e o seu silêncio alcançam o céu e a terra e penetram as dez mil coisas. Isto é o que se chama alegria espiritual. A alegria espiritual é a mente do sábio, por meio da qual ele conduz o mundo.

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A Virtude de Imperadores e Reis tem o Céu e a Terra como seu antepassado, o Caminho e a Virtude como mestre, a não acção como regra constante. Com a não acção, vocês podem fazer com que o mundo trabalhe a vosso favor e poupar lazer; com a acção, vocês trabalham para o mundo sem que nunca achem suficiente. Portanto, os homens da antiguidade prezavam a não acção.

Quando tanto superiores como inferiores adoptarem a não acção, então inferiores e superiores partilharão a mesma virtude, e se inferiores e superiores partilharem a mesma virtude, não haverá ninguém para agir como ministro. Se os inferiores adoptarem a acção e os superiores adoptarem igualmente acção, então superior e inferior partilharão o mesmo caminho, e se superiores e inferiores partilhem o mesmo caminho, não haverá ninguém para servir de senhor. Os superiores devem adoptar a não acção para levar o mundo trabalhar a seu favor; os inferiores devem adoptar ação e trabalhar para o mundo. Essa é uma verdade que não muda.

Por isso, embora o conhecimento dos Reis do mundo nos tempos antigos abrangesse todo o Céu e a Terra, eles não faziam planos; embora tivessem um poder de discriminação que abrangia as dez mil coisas, por si sós eles não expunham teorias; embora suas capacidades ultrapassassem tudo pelos quatro mares, eles não agiam por mote próprio. O céu não produz nada, contudo, as dez mil coisas saem transformadas; a Terra não sustenta, contudo as dez mil coisas são nutridas. O Imperador e o Rei não agem com base na acção, mas o mundo sai beneficiado. Por isso se diz que nada tão espiritual como o Céu, nem nada tão rico como a Terra; nada é tão grande quanto o Imperador e o Rei. Por isso se diz que a Virtude do Imperador e do Rei é o equivalente do Céu e da Terra. Este é o caminho para montar sobre o céu e a terra, fazer com as dez mil coisas andam para a frente, para empregar as massas de homens.

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A fonte reside nos superiores, o trivial nos inferiores; o essencial encontra-se com o governante, os detalhes com os seus ministros. A lisonja dos três exércitos e dos cinco tipos de armas - isso é o trivial, os aspectos irrelevantes da Virtude. A atribuição de recompensas e punições, benefícios e perdas, os cinco tipos de penalidade - isso é os aspectos irrelevantes da instrução pública.
Ritos e leis, pesos, medidas, a comparação cuidadosa de formas e nomes - isso são os aspectos irrelevantes dos governantes. Os tons de sino e de tambor, os maneirismos de penas e franjas - isso são os aspectos triviais da música. O luto e as roupas grosseiras, os períodos de luto de diferente extensão - isso são os aspectos irrelevantes do pesar. Estas cinco formas de trivialidade e de irrelevância devem aguardar o movimento do espírito puro, em prol da vitalidade da arte da mente antes que possam exigir respeito. O estudo de tais trivialidades era conhecido na antiguidade, mas os homens da antiguidade não lhes davam precedência.

O governante precede, o ministro segue;
O pai precede, o filho segue;
O irmão mais velho precede, o irmão mais novo segue;
O maior precede, o menor segue;
O homem precede, a mulher acompanha;
O marido precede, a esposa acompanha.
Honra e humildade, precedência e acompanhamento são parte do modo do céu e da terra, e deles o sábio retira o seu modelo.

O céu é grandioso, a terra humilde - isso reflecte a iluminação espiritual. Primavera e verão precedem, outono e inverno seguem - tal é a sequência das quatro estações. As dez mil coisas mudam e crescem, as suas raízes e brotos, cada uma com a sua forma distinta, gradualmente a maturação e a decadência, um fluxo constante de mudança e de transformação. Se o céu e a terra, o mais elevado da espiritualidade, ainda encontram a sua sequência na honra e humildade de precedente e seguidor, quanto mais não deve isso acontecer com o homem! Na antiguidade, a honra era determinada pelo grau de parentesco; na corte, pelo grau de nobreza; na aldeia, era determinada pelo grau de antiguidade; na administração dos assuntos, pelo mérito. Essa é a sequência do Grande Caminho (Tao).

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Se falarmos do Caminho e não dos seus padrões de sequência, então não é o Caminho; mas se falarmos de um caminho que não é o Caminho, então, como alguém poderá conseguir um caminho que o oriente? Por isso, os homens dos tempos antigos que entendiam claramente o grande Caminho primeiro buscavam o sentido do Céu e depois buscavam o sentido do Caminho e da Virtude. Quando compreenderam o Caminho e a Virtude, eles compreenderam a benevolência e a justiça. Tendo entendido a benevolência e a justiça, eles descobriam como observar dos deveres. Quando captavam o entendimento da observância dos deveres, eles compreendiam a forma e os nomes. Quando compreenderam a forma e os nomes, eles estavam preparados para atribuir as funções de modo adequado. Quando atingiam a competência na atribuição das funções, eles davam atenção ao escrutínio e ao desempenho. Quando davam atenção ao escrutínio e ao desempenho, eles seguiam para o julgamento do certo e do errado. Tendo tornado claro o julgamento do certo e do errado, eles passavam para as recompensas e as punições. Tendo definido com clareza as recompensas e as punições, podiam ter certeza de que os tolos e os sábios ocupariam o seu devido lugar; que eminente e indigente eram correctamente classificados; que os homens bons e dignos, bem como os indignos, mostravam a sua verdadeira textura; que todos tinham deveres adequados às suas habilidades, que todos agiriam de acordo com os seus respectivos títulos. Era assim que os superiores eram atendidos, e que os inferiores eram encorajados, era assim que as coisas externas eram ordenadas, e que o homem interno era desenvolvido. Não recorriam à sagacidade nem à intriga, e ainda assim tudo encontrava apoio no Céu. Isso chegou a ser chamado de Grande Paz, a mais elevada forma de governo. Daí que o Livro diga: "Há formas e há títulos." As formas e os nomes eram do conhecimento da antiguidade, mas os homens de outrora não lhes davam importância."

Aqueles que falavam do Grande Tao na antiguidade, falavam dos cinco passos sequenciais que lhes traziam "a forma e o nome", ou percorriam os nove passos e debatiam "recompensas e punições." Mas se falassem directamente de "formas e nomes" isso denotaria falta de compreensão dos passos iniciais que levam a isso; se começassem directamente a falar de "recompensas e punições" isso denotaria falta de uma compreensão da sua génese. E aqueles cujas palavras representavam o inverso do curso apropriado, ou se revelassem em oposição, poderiam ser conduzidos à ordem pelos outros, mas como poderiam eles ser capazes de conduzir os outros à ordem? Esses têm compreensão dos métodos indispensáveis à ordem, mas não entendem o modo de produzir essa ordem. Adequam-se para o trabalho em prole do mundo, mas eles não são dignos de fazer com que o mundo trabalhe para eles. Não passavam de sofistas que recorriam à retórica, homens que alcançavam um pequeno entendimento. Ritos e leis, pesos e medidas, a comparação cuidadosa de formas e nomes - os homens de antigamente tinham tudo isso. Eles são o meio pelo qual aqueles abaixo servem os que se encontram acima, e não o meio pelo qual aqueles acima orientam aqueles abaixo.

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Há muito tempo atrás, Shun perguntou a Yao: "Enquanto rei designado pelo céu, em que situa os seus cuidados?"

Yao respondeu: "Eu nunca abuso dos desvalidos, nem desamparo os pobres. Sofro pelos mortos, conforto o órfão, compadeço-me da viúva - eu emprego o meu pensamento nessas coisas apenas."

Shun disse: "Admirável, no que diz respeito ao que é admirável, porém, ainda não é óptimo".

Yao disse: "Então, o que devo fazer?"

Shun disse: "O céu ergue-se no alto, a terra repousa na paz, o sol e a lua a brilhar, as quatro a suceder-se - se puder seja como a constante sucessão do dia e da noite, das nuvens que se movem, das chuvas que caem!"

"E pensar que tenho passado por toda esta agitação e incomodo!" Disse Yao. "Você deseja alcançar a harmonia com o Céu, eu desejo alcançar a harmonia com o homem".

O céu e a terra que têm sido chamados grandes desde os tempos antigos, foram louvados em coro pelo Imperador Amarelo, Yao e Shun. Os reis do mundo nos tempos antigos - que necessidade tinham eles de ação? O céu e a terra eram suficientes para eles.

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Confúcio foi para o oeste para depositar as suas obras na casa real de Chou. Tzu-lu aconselhou-o, dizendo: "Ouvi dizer que o Guardião dos Arquivos Reais é um tal Lao Tzu, agora aposentado. Se desejar depositar as suas obras, pode tentar visitá-lo com respeito a isso."

"Excelente!" Disse Confúcio e foi visitar Lao Tzu, mas Lao Tzu não lhe concedeu permissão. Então, Confúcio pegou nos seus Doze Clássicos e começou a expor sobre eles. A meio da exposição, Lao Tzu disse: "Isso levará uma eternidade! Deixe-me ouvir apenas a essência da questão."

"A essência dela," disse Confúcio, "é benevolência e equidade."

"Posso perguntar se a benevolência e a equidade pertencem à natureza inata do homem?" Disse Lao Tzu.

"Claro," disse Confúcio. "Se o cavalheiro carecer de benevolência, ele não chegará a realizar o seu carácter, se ele não tiver equidade, ele não poderá manter-se vivo. A benevolência e a equidade são verdadeiramente a natureza inata do homem. O que mais poderiam ser?"

Lao Tzu disse: "Posso pedir que defina benevolência e equidade?"

Confúcio disse: "Um coração reto, um amor universal e isento de parcialidade - essa é a verdadeira forma de benevolência e de equidade."

Lao Tzu disse: "Hmm - anda lá por perto - excepto na parte final. "Amor Universal" - esse é um ideal muito vago, não será? E não se ser partidário já representa um tipo de partidarismo, não será? Você quer fazer com que o mundo perca a simplicidade?

O céu e a terra obedecem aos seus caminhos constantes, o sol e a lua têm o seu curso no seu brilho, as estrelas e os planetas obedecem às suas posições, os pássaros e as bestas encontram-se confinados aos seus rebanhos, as árvores e os arbustos aos lugares em que medram. Você só tem que continuar a usar de Virtude nas suas acções, a seguir o Caminho na sua jornada, e você já situar-se-á nela. Qual a razão desses emblemas de benevolência e de justiça tão bravamente empunhadas, como se estivesse a bater num tambor e andasse à procura de um filho que se perdeu? Ah, você irá suscitar confusão na natureza do homem!"

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Shih Cheng-chi foi ver Lao Tzu. "Ouvi dizer que você é um sábio," ele disse, "pelo que, sem me importar com a extensão do percurso, vim implorar-lhe uma entrevista. Cem jornadas ao longo do caminho, pés cobertos de calos, e ainda não me atrevi a desistir. Contudo, agora que o vejo, acho que não é sábio. Deparo-me com buracos de ratos cheios de sobras e, no entanto, você deixa a os ignorantes sem instrução, o que é um acto de indelicadeza! Mais comida crua e cozida à sua frente do que alguma vez conseguirá comer, e, no entanto, você continua a acumular bens!" Lao Tzu ficou pálido e não respondeu.

No dia seguinte, Shih Cheng-chi veio vê-lo novamente e disse: "Ontem eu fui muito mordaz consigo, mas agora não tenho coração para esse tipo de coisa. Interrogo a que se deverá esta súbita mudança."

Lao Tzu disse: "Eu pensava ter-me desprendido da sagacidade e de categorias desse tipo! Se me chamasse de boi, eu teria dito que era um boi, se me chamasse cavalo, eu teria dito que era um cavalo. Se a realidade estiver nisso e você se recusar a aceitar o nome que os homens lhe derem, você apenas se exporá a um duplo assédio. A minha submissão é uma submissão conformada, eu não me submeto por achar que deva submeter-me."

Shih Cheng-chi recuou respeitosamente para não pisar na sombra de Lao Tzu, e então avançou mais uma vez de modo humilde e perguntou como deveria cultivar a sua pessoa.

Lao Tzu disse: "De modos repelentes, rosto altivo, porte imponente, uma testa larga, uma boca expressiva, como um cavalo preso por uma amarra, sempre à procura de uma hipótese de se esgueirar, sempre a examinar de forma prudente, astuto na sagacidade, a alardear-se na sua arrogância, e ainda pretende dar a entender que se sente à vontade - tudo isso não parece genuíno e verdadeiro. Para alguém desconfiado, um homem assim seria tomado por um ladrão!"

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O Mestre disse: O Caminho não se perde com o imenso, nem se ausenta do pequeno; daí que as dez mil coisas se encontrem completas nele. Vasto e amplo, não há nada que não nele não tenha cabimento. Profundo e secreto, como poderá ser esclarecido? Punição e favor, benevolência e equidade - são triviais para o espírito e, no entanto, quem, senão o Homem Perfeito, poderá determiná-los?

Quando o Homem Perfeito governa o mundo, ele detém uma coisa grandiosa, não deterá? - no entanto, não é suficiente apanhá-lo no emaranhado. Ele trabalha os manípulos que controlam o mundo, mas não toma partido no funcionamento. Ele vê claramente em meio ao que não apresenta falsidade e não se deixa governar por pensamentos de ganho. Ele investiga a verdade das coisas e sabe como apegar-se à fonte. Daí que, consiga situar o céu e a terra fora de si mesmo, esquecer as dez mil coisas, e o seu espírito não tem motivo para se esgotar. Ele descarta a benevolência e a equidade, rejeita ritos e música, pois a mente do Homem Perfeito sabe onde encontrar repouso.

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Os homens do mundo que valorizam o Caminho voltam-se para os livros. Mas os livros não valem mais do que palavras que contêm. As palavras são o que neles tem valor; Mas o que tem valor nas palavras é o sentido. O sentido refere algo mais, mas aquilo que refere não pode ser traduzido nem transmitido por palavras. O mundo valoriza palavras e multiplica os livros, mas, embora o mundo valorize isso, não acho que valha a pena valorizar. O que o mundo assume como um valor não é um valor real.

Assim é que, tudo o que conseguimos ver e observar são as formas externas e as cores; aquilo que conseguimos escutar são nomes e sons. Que pena! - que o homem do mundo suponha que a forma, a cor, o nome e o som sejam suficientes para transmitir a realidade de uma coisa. É porque no final, não são suficientes para transmitir a verdade. Assim é que "aqueles que conhecem não falam, e aqueles que falam não conhecem." Mas como poderá o mundo entender isso!

O Duque Huan estava no seu salão do piso superior do seu palácio a ler um livro. O fabricante de rodas Pien, que estava no piso de baixo a construir uma roda, pousou o martelo e o cinzel, foi pelo corredor e disse ao Duque Huan: "Posso ousar perguntar-lhe de que trata esse livro que Sua Majestade está a ler?"

"As palavras dos sábios," disse o duque.

"Os sábios ainda estarão vivos?"

"Estão mortos há muito tempo," disse o duque.

"Nesse caso, o que Sua Majestade está a ler não passa da palha e da escória dos homens de outrora!"

"Desde quando um fabricante de rodas tem permissão para comentar os livros que eu leio?" disse o Duque Huan. "Se tens alguma explicação, muito bem. Se não, pagarás com a vida!"

O construtor de rodas Pien disse: "Eu vejo isso do ponto de vista da experiência que tenho. Quando talho uma roda, se os golpes do malho forem demasiado gentis, o formão desliza e não corta. Mas se forem muito fortes, o formão prende-se e não corre. Nem muito suaves, nem muito fortes - podemos consegui-lo com a mão e senti-lo na mente. Não o podemos traduzir por palavras e, no entanto, isso tem um truque. De alguma forma, não posso ensiná-lo ao meu filho, e ele não pode aprender isso comigo. Assim tenho andado há setenta anos e na minha idade ainda tenho que entalhar rodas. Também os homens de outrora morreram e levaram consigo a sua arte que não puderam transmitir. Por isso, aquilo que está a ler não deve ter nada mais que os resíduos dos homens de outrora."

CAPÍTULO 14
SERÁ QUE O CÉU SE MOVE?

Encontrar-se-á a terra parada? Competirão o sol e a lua por um lugar para resplandecer? Quem criou tudo isso? Quem o controlará? Quem, repousando inactivo, faz com que tudo isso passe a ser assim? Pergunto-me se existirá algum mecanismo que o faça funcionar quer o desejem ou não? Pergunto-me se isso simplesmente volve e revolve e se não conseguirá parar? As nuvens virão antes da chuva, ou a chuva dá lugar às nuvens? Quem as sopra, quem as derrama assim? Quem, descansando inactivo, desperta toda essa alegria licenciosa? Os ventos elevam-se ora do norte, e sopram ora do oeste, ora de leste, girando até sabe deus onde. A quem pertence o seu alento? Quem, repousando inactivo, impele tudo isso?

O xamã Hsien acenou e disse: "Vem, eu vou-te contar. O céu tem as seis direções (espaço) e os cinco elementos. Quando os imperadores e os reis os seguem, reina a ordem; quando eles se movem contrariamente a isso, dá-se o desastre. Com as instruções do Nine Lo, a ordem pode ser instaurada e a virtude completa. O governante brilhará como o espelho sobre a terra abaixo, e o mundo o suportará. Ele pode ser chamado de Governante Augusto." 

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Tang, o primeiro-ministro de Shang, inquiriu a Chuang Tzu sobre a virtude da benevolência.

Chuang Tzu disse: "Tigres e lobos - eles são bondosos."

"Como pode dizer isso?"

Chuang Tzu disse: "Os progenitores e os filhotes têm afecto e carinho uns pelos outros - por que você diz que eles não são bondosos?"

"O que quero ouvir é sobre a benevolência suprema."

"A benevolência suprema nada tem que ver com o afecto," disse Chuang Tzu.

O primeiro-ministro disse: "Ouvi dizer que onde faltar o afecto, não haverá amor, e se não houver amor, não haverá piedade filial. Quer mesmo dizer que a perfeita benevolência nada tenha de piedade filial?" 

"Decerto que não", disse Chuang Tzu. "A benevolência suprema é da mais elevada ordem, e palavras como "piedade filial" nunca bastariam para a descrever. E o que estou a dizer não é algo que a piedade filial seja suplantada, mas que nada sequer chega a comparar-se-lhe. Se um viajante que vá para sul e ao chegar à cidade de Ying se voltar para norte, ele não verá mais as montanhas Ming. Porquê? Por se encontrar muito afastado. Por isso se diz, ter afecto filial por uma questão de respeito pode ser fácil; ter afecto filial por uma questão de amor já é mais difícil. Se a piedade filial por amor é fácil, esquecer-se dos pais já é difícil. Esquecer-nos dos pais é fácil porém, levar os pais a esquecer-nos já é mais difícil. Levar a que os pais se esqueçam de nós será fácil, porém, esquecer o mundo inteiro é difícil. Esquecer o mundo inteiro pode ser fácil, fazer com que o mundo inteiro nos esqueça é difícil. A virtude genuína está em esquecer Yao e Shun e repousar na inactividade sem querermos ser como eles. Os benefícios disso alcançam as dez mil gerações sem que ninguém o entenda. 

Para quê todos os profundos suspiros e toda essa conversa acerca da benevolência e da piedade filial? Piedade filial, fraternidade, benevolência, equanimidade, lealdade, confiança, honra, integridade - para tudo isso, precisaremos orientar-nos e esforçar-nos pela virtude. Isso por si só não é digno de apreço. Por isso se diz que a perfeita nobreza despreza os títulos do estado; a maior riqueza rejeita os tesouros do estado; a mais elevada realização ignora a fama e a reputação. Somente o Caminho nunca varia."

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Ch'eng dos Portões do Norte perguntou ao Imperador Amarelo: "Quando Sua Majestade interpretou a música Hsien-ch'ih nas imediações do Lago Tung-t'ing, ao escutá-la, inicialmente senti apreensão. Mas á medida que a ia escutando mais senti fadiga, mas pelo final senti-me aturdido. Perturbado e sem palavras, perdi a confiança em mim próprio."

"Não é surpresa que se tenha sentido assim", disse o imperador. "Eu realizei-a com base no sentimento humano, em sintonia com o Céu, de acordo com o espírito dos rituais e enraizado na Suprema Pureza. A música perfeita deve primeiro fazer eco às coisas do homem, e obedecer às leis do Céu, acompanhar as Cinco Virtudes e responder à espontaneidade, e só então poderá trazer ordem às quatro estações e conceder harmonia final às dez mil coisas. Então, isso reflectir-se-á na ordem das quatro estações, que se sucederão, e as dez mil coisas tomarão a sua vez na vida. Ora florescentes, ora decadentes, constrangidas pelas limitações civis e militares. Ora claras, ora sombrias, o yin e o yang misturam tudo na harmonia, os sons fluirão como luz. Como insectos hibernantes que começam de novo a mexer, como o estrondo do trovão. Sem começo nem final, ao mesmo tempo morta e viva, ora esborrachada no chão, ora de pé, a sua constância é interminável. Contudo, não resta padrão fiável algum. Por isso se sentiu alarmado.

"De seguida, toquei-a com a harmonia yin e yang, iluminei-a com o brilho do sol e da lua; as notas mudavam de longas para curtas, fracas para fortes, moduladas numa única harmonia, porém, sem obedecer a nenhuma regra ou constância. As notas encheram os vales, preencheram os desfiladeiros, de nada lhe adiantava bloqueá-las, ou proteger o seu espírito. As suas notas eram claras e radiantes, e moviam-se por onde queriam. Os fantasmas e os espíritos mantiveram-se na obscuridade e o sol, a lua, as estrelas e as constelações marcharam nas suas órbitas. Eu fi-las fluir por onde não há paragem e parar onde há um fim para as coisas. Tentou compreendê-lo, mas não o pôde entender, tentou vislumbrá-lo, mas não o conseguiu ver, tentou captá-lo, mas não o pôde alcançar. Ficou atordoado diante do vazio das quatro direções do Caminho, e inclinou-se na velha árvore e gemeu. Os seus olhos fracassaram antes que o conseguisse vislumbrar, as suas forças esgotaram-se. Eu não podia fazer nada. Dissolveu-se diante do vazio, e isso o fez perder o controlo. Foi isso que o levou a sentir-se cansado.

"Depois toquei-a com notas constantes
​​e afinei-as pelo ritmo da espontaneidade. Por isso, parecia reinar o caos que leva a que elas se sucedessem numa confusão, uma maturação em que nada chega a tomar forma, uma colheita universal onde nada é colhido, uma obscuridade sombria onde não há som. Não se movia em nenhuma direção, repousava na sombra misteriosa. Alguns chamam a isso morte, outros chamam-lhe vida; uns chamam-lhe maturação, outros ainda chamam-lhe floração. As notas fluíam e disseminavam-se e não seguiam nenhum padrão constante. O mundo, perplexo com isso, acorreu ao sábio para instrução, por o sábio ser bom entendedor da forma verdadeira e do verdadeiro destino. Quando o mecanismo celestial não é posto em acção e, no entanto, os cinco órgãos vitais estão completos, isso pode ser chamado de Música das Alturas, que sem palavras, delicia a mente. Portanto, o senhor de Yen louvou isso assim: "Querendo escutá-lo vocês não lhe ouvem o som; procurando-o, vocês não lhe veem a forma. Ela preenche todo o céu e a terra, envolve todas as seis direções. Vocês desejam ouvi-la, mas não têm como o conseguir. Foi isso que o deixou confuso.

"A música começa com o medo, e por causa desse medo resulta pavor, como uma maldição. Então adicionei-lhe o cansaço, e por causa do cansaço há complacência. Eu termino tudo na confusão, e por causa da confusão há estupidez e, por causa da estupidez, existe o Caminho, o Caminho que pode ser elevado e levado para onde quer que vocês vão." 

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Quando Confúcio estava ausente no oeste de visita ao estado de Wei, Yen Yuan disse ao Mestre de Música Chin: "O que acha da viagem do meu amo?"

O Mestre de Música, Chin disse: "Uma lástima! - o seu mestre provavelmente irá terminar em apuros".

"Como assim?" Perguntou Yen Yuan.

O Mestre de Música Chin disse: "Antes que os sacrifícios sejam representados, os adornos cerimoniais eles são armazenados em caixas de bambu e cobertos com bordados padronizados, enquanto o imitador dos mortos e o sacerdote jejuam e praticam austeridades em preparação para os apresentar. Mas assim que eles tiverem sido apresentados, então tudo o que lhes resta é ser pisoteados pelos transeuntes, varridos e incinerados pelos cantoneiros. Isso é tudo para que servem. E se alguém vier e os colocar de volta nas caixas de bambu, os cobrir com os bordados padronizados, e se demorar ou se deitar a dormir no passado, ele não terá sonhos adequados; antes pelo contrário, ele certamente será apoquentado repetidas vezes por pesadelos.

"Agora, o seu mestre pegou alguns velhos adornos que haviam sido apresentados pelos reis do passado e apela aos seus discípulos para vagaram e permanecerem e dormirem debaixo deles. Por causa disso, a árvore sob a qual elaboravam as cerimónias em Sung foi abatida, e foi obrigado a abandonar Wei, e reduzido ao extremo em Shang e Chou - tais eram os sonhos que ele tinha. Eles o sitiaram entre Ch'en e Ts'ai, e durante sete dias ele não comeu alimento cozinhado, até ele entre a vida e a morte - tais coisas não se assemelharão a pesadelos?

"Nada é tão bom quanto um barco para atravessar a água, nada tão bom como uma carruagem para cruzar a terra. Mas, embora o barco o leve com facilidade sobre a água, se tentar empurrá-lo em terra, bem que poderá empurrá-lo até ao fim dos seus dias que dificilmente o moverá. E o passado e o presente não serão como a água e a terra, e os estados de Chou e Lu não serão como um barco e uma carruagem?

"Esperar praticar os caminhos de Chou no estado de Lu é como tentar empurrar um barco em terra - uma tarefa e tanto, nenhum êxito e um certo perigo para a pessoa que tenta. O homem que tenta fazê-lo não conseguiu entender que para não se ver na escassez, tem que saber acomodar-se e responder às coisas sem se envolver numa direcção.

"Nunca viu um engenho? Quando o forçamos ele desce, e quando o soltamos e lá sobe. Ele se deixa puxar pelos homens, não tenta puxá-los. Assim, ele pode subir e descer e nunca cometer ofensa a ninguém.

"Assim é que os rituais e os regulamentos dos Três Augustos e dos Cinco Imperadores são prezados, não porque fossem uniformes, mas por serem capazes de produzir ordem. Os rituais e regulamentos dos Três Augustos e dos Cinco Imperadores podem ser comparados ao espinheiro, à pera, à laranja e à lima. Os seus sabores diferem bastante, mas todos são agradáveis
​​ao paladar. Rituais e regulamentos são algo que muda em resposta aos tempos. Se pegarem num macaco e o vestirem com as vestes do duque de Chou, ele mordê-las-á e rasgá-las-á insatisfeito até que se tenha despojado delas. E um olhar de relance mostrará que o passado e o presente não podiam ser mais parecidos do que um macaco e o Duque De Chou!

"Quando a bela Hsi-shih, incomodada com algo, franzia a testa aos vizinhos, uma mulher feia do bairro, vendo que Hsi-shih era bela, foi para casa e também batia no peito e franzia a testa para os vizinhos. Mas ao vê-la os homens ricos do bairro fechavam as portas e não se atreviam a sair, enquanto os pobres agarravam nas mulheres e nos filhos pela mão e abalavam. A mulher entendeu que alguém que franzisse a testa poderia ser linda, mas não entendeu de onde a beleza do franzir vinha. Na verdade é uma pena! O seu mestre vai acabar por arranjar problemas!" 

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Confúcio tinha andado até atingir os cinquenta e um anos e ainda não tinha ouvido o Caminho. Finalmente, ele dirigiu-se para sul, para Pei para visitar a Lao Tzu. "Ah, você veio," disse Lao Tzu. "Ouvi dizer que é um homem sábio da região do norte. Encontrou o Caminho?"
"Ainda não," disse Confúcio.
"Onde o andou a procurar?" Perguntou a Lao Tzu.
"Eu procurei-o nas regras e nos regulamentos, mas passaram cinco anos e ainda não o descobri."
"Onde mais p procurou?" Perguntou a Lao Tzu. 

"Procurei no yin e no yang, (contrários) mas passaram doze anos e ainda não a descobri."
"Parece razoável!" Disse Lao Tzu. "Se o Caminho pudesse ser apresentado, não haveria homem que não o apresentasse ao seu governante. Se o Caminho pudesse ser oferecido, não haveria homem que não o oferecesse aos seus pais. Se o Caminho pudesse ser relatado, não existe quem não o denunciasse aos seus irmãos. Se o Caminho pudesse ser transmitido, não haveria quem não o deixasse aos seus herdeiros. Mas não pode - e por nenhuma outra razão que não a seguinte: Se não houver nenhum princípio interior para o dirigir, ele não irá lá permanecer; se não houver correcta obediência exterior para o guiar, não virá a ser transmitido. Se o que é transmitido fora, da mente, não for recebido pela mente exterior, então o sábio não o conduzirá adiante. Se o que é aceite do exterior não for recebido por um poder que o acolha, o sábio não o confiará."

"A fama é um instrumento público em que não se deve permanecer em demasia. Benevolência e equidade são as pousadas dos antigos reis e soberanos, onde não podem parar por muito tempo, mas apenas por uma noite. Uma estadia prolongada nelas equivaleria a convidar recriminações. Os homens perfeitos dos tempos antigos usavam a benevolência e a justiça como albergue, para vaguearem pelo vazio livre e sem cuidados, nutriam-se nos campos da sobriedade e passeavam pelos jardins sem obrigação. "Livres e sem cuidados," significava repousar na não acção; "abundância" implicava sustento - não era difícil para eles viver; "Sem cuidados" significava ausência de despesas. Os homens do passado chamavam a isso de vagabundear em busca da Verdade.

"Aquele que considere a riqueza como uma coisa boa nunca poderá abrir mão das suas rendas; o que considera a distinção como um bem não poderá tolerar a renúncia à sua fama. Quem tem gosto pelo poder nunca chega a suportar delegá-lo a outros. Mantendo-se agarrados a essas coisas, tais homens tremem de medo. Quando as deixam, caem no desalento. Nunca param por um instante para reflectir, nunca deixam a ganância - são homens que incorrem no castigo do Céu. 
Ressentimento e bondade, receber e dar, repreensão e instrução, vida e morte - essas oito coisas são os instrumentos de disciplina. Mas somente aquele que cumpre a Grande Mudança sem se permitir ser obstinado no seu cumprimento poderá fazer uso delas. Por isso é dito: O que corrige precisa ter correcção. Se a mente não puder aceitar esse facto, as portas do céu nunca se lhe abrirão!" 

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Confúcio chamou Lao Tzu e falou com ele sobre a benevolência e a equidade. Lao Tzu disse: "O farelo da peneira pode cegar de tal modo o olho que o céu, a terra e as quatro direções parecem mudar de lugar. Um mosquito ou uma mosca que o ferre pode mantê-lo acordado a noite inteira. E quando a benevolência e a equidade, com todo o temor que geram, lhe confunde a mente, a confusão torna-se inimaginável. Se quer evitar que o mundo perca a simplicidade, precisa mover-se com a liberdade do vento, permanecer na perfeição da virtude. Por que todo esse esforço, como se estivesse a carregar um grande tambor ou à procura de uma criança perdida? O ganso da neve não precisa de nenhum banho diário para ficar branco, e o corvo não precisa de tinta diariamente para ficar preto. Preto e branco na sua simplicidade não deixam lugar a argumento; a fama e a reputação no seu clamor não garantem motivo para inveja. Quando as fontes secam e os peixes ficam encalhados no fundo, eles cospem uns nos outros a humidade para se molharem - mas era muito melhor quando eles conseguiam esquecer uns aos outros nos rios e lagos!" 

Quando Confúcio voltou de visita que fez a Lao Tzu, não falou durante três dias. Os seus discípulos disseram: "Mestre, você viu Lao Tzu - que avaliação faria dele?"

Confúcio disse: "Por fim, posso dizer que vi um dragão - um dragão que se enrola para mostrar o corpo no seu melhor, e que se estende para exibir os seus padrões no seu melhor, que anda pelas nuvens, se alimenta do Yin e Yang. Minha boca abriu-se e não a consegui fechar, a minha língua prendeu-se e nem consegui balbuciar. Como eu poderia fazer qualquer avaliação de Lao Tzu!?" 

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Tzu-kung disse: "Então é verdade que o Homem Perfeito pode controlar a quietude do cadáver e a visão do dragão, a voz do trovão e o silêncio dos lagos profundos; que se precipita no movimento como o Céu e a Terra? Se também eu conseguisse vê-lo!" 

No final, ele foi conseguiu uma recomendação de Confúcio e apelou a Lao Tzu. Lao Tzu estava prestes a sentar-se no corredor e a esticar as pernas. Em voz baixa, lá disse: "Eu vivi para ver passar um grande número de anos. Que conselho é que você tem para mim?" 

Tzu-kung disse: "Os Três Augustos e os Cinco Imperadores governaram o mundo de maneiras que não as mesmas, embora fossem iguais nos elogios e aclamassem o que ganharam. Disseram-me, senhor, que só o senhor não os considera sábios. Posso perguntar por quê?"
Lao Tzu disse: "Jovem, chegue-se um pouco mais perto! Por que diz que eles governaram de maneiras que não as mesmas?" 

"Yao cedeu o trono a Shun, e Shun cedeu a Yu. Yu ocupou-se dele, e T'ang chegou até a recorrer à guerra. O rei Wen obedeceu a Chou e não se atreveu a opor-se, mas o seu filho, o rei Wu, voltou-se contra Chou e recusou-se a permanecer fiel. Por isso, digo que não foram parecidos nos seus actos."

Lao Tzu disse: "Jovem, aproxime-se um pouco mais e eu dir-lhe-ei como os Três Augustos e os Cinco Imperadores governaram o mundo. Nos tempos antigos, o Imperador Amarelo governava o mundo tornando os corações das pessoas num só. Por conseguinte, se houvesse entre as pessoas quem não lamentasse a morte dos pais, as pessoas não veriam nada de errado nisso. 

Yao governou o mundo, tornando os corações das pessoas afeiçoados. Por conseguinte, se houvesse entre as pessoas que decidisse fazer um luto mais ou menos prolongados de acordo com o grau de parentesco que tivessem com o falecido, as pessoas não veriam nada errado nisso. 

Shun governou o mundo levando as pessoas a afeiçoar-se pela rivalidade e a tornar-se competitivas. Por conseguinte, as mulheres do povo ainda engravidavam e davam à luz ao fim do nono mês como no passado, mas os seus filhos aprendiam a falar ainda não tinham cinco meses, e aprendiam a distinguir quem era quem antes atingirem a infância. Foi assim que surgiu a morte prematura. 

Yu governou o mundo ao introduzir enormes mudanças no coração das pessoas. As pessoas começaram a ter desejos próprios, e a não obedecer senão pelo recurso às armas. Matar um ladrão não constituía um mal. Em resultado disso surgiram as classes e gerou-se uma enorme consternação no mundo, e os Confucianos e os Moistas surgiram, a pregar pela primeira vez a moralidade e as regras do comportamento ético. Mas que diriam eles daqueles homens que hoje em dia tomam as suas filhas por esposas?  

"Eu dir-lhe-ei como os Três Augustos e os Cinco Imperadores governaram o mundo! Eles chamaram a isso "poder de decisão," mas na verdade encontravam-se mergulhados na pior das confusões. A "sabedoria" dos Três Augustos foi tal como o brilho apagado do sol e da lua acima, minou o vigor de colinas e riachos abaixo e cortou o ciclo das quatro estações para metade. A sua sagacidade era mais temida do que a cauda do escorpião; até a mais pequena das bestas, nem uma só coisa viva tinha permissão para repousar na verdadeira forma da sua natureza e destino. E no entanto, tinham-se eles na conta de sábios! Não era vergonhosa - a sua falta de vergonha?!" 

Tzu-kung, atordoado e sem palavras, ficou sem saber para onde se virar. 

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Confúcio disse a Lao Tzu: "Estive a estudar os Seis Clássicos - as Odes, os Documentos, o Ritual, a Música, as Mudanças e a Primavera e o Outono, pelo que diria ser muito tempo, e conheço o seu conteúdo de ponta a ponta. Mas eu já consultei cerca de setenta e dois governantes diferentes com eles, expus as maneiras dos antigos reis e esclareci o caminho trilhado pelos duques de Chou e de Shao e no entanto, nenhum governante encontrou nada que lhe excitasse o interesse. Quão difícil é persuadir os outros; quão difícil é esclarecer o Caminho!"

Lao Tzu disse: "É uma sorte que não tenha encontrado um governante que tentasse governar o mundo como você diz. Os Seis Clássicos são os antigos caminhos desgastados dos antigos reis - não são o que percorreu o caminho. O que você está a expor são simplesmente esses caminhos. Os caminhos são feitos pelos sapatos que os percorrem, e não são os próprios sapatos!

"O falcão de peixe branco só tem que encarar sem pestanejar a sua companheira para que a fertilização se dê. Com os insectos, o macho chora ao vento acima, a fêmea chora ao vento abaixo e dá-se a fertilização. A criatura chamada lei é do sexo masculino e feminino e assim pode tornar-se fértil.
A natureza inata não pode ser alterada, o destino não pode ser mudado, o tempo não pode ser interrompido, o Caminho não pode ser obstruído. Apegue-se ao Caminho e não haverá nada que não possa ser feito; perca-o e não haverá nada que possa ser feito."
Confúcio ficou em casa por três meses e depois voltou a ver Lao Tzu. "Já entendi," disse ele. "A pega incuba as crias, o peixe cospe o seu esperma, a vespa de cintura fino tem os seus estágios de transformação, e quando o bebé nasce, o irmão mais velho uiva. Há muito tempo que não tenho vindo a tomar o meu lugar como um homem junto dos processos da mudança. E se eu não tomar o meu próprio lugar como um homem junto dos processos da mudança, como poderei mudar os outros?"

Lao Tzu disse: "Óptimo, Ch'iu - agora você entendeu!" 

CAPÍTULO 15
CONSTRANGIMENTO DE ESPÍRITO
(velhos ditados)

Restringir a vontade, mostrar-se rígido, afastar-se do mundo, apartar-se dos seus costumes, usar de discurso altivo, desprezar criticar os outros, isso é sintomático da vida que o sábio privilegia no seu retiro de montanha, do que se distancia do mundo e vive qual árvore desgastada e que se lança nas profundezas. 

Pregar a benevolência, a equidade, discursar sobre a lealdade e a boa-fé, ser cortês, comedido, modesto e atencioso, ter o cultivo moral por objectivo - tal é a vida que o humanista que procura conduzir o mundo à ordem favorece, do homem que tem por objectivo ensinar e instruir, que querem aprender em casa e no exterior. 

Falar de grandes méritos, conseguir fama, obedecer ao protocolo do governante e do súbdito, distinguir a posição dos superiores e dos inferiores, ter a ordenação do estado por único objectivo - tal é a vida que o dignitário na corte e no conselho favorece, o homem que honra o soberano e o país, e se devota a anexar outros estados. 

Retirar-se pata as matas e os lagos, viver ociosamente no isolamento, pescar em lugares solitários, isso é o que fazem os que têm a não acção por único objectivo - tal é a vida que o sábio do retiro para rios e mares favorece, o homem que deixa a sua geração em paz, o ocioso que não tem pressa.
Ofegar, bufar, expelir o velho alento e inspirar o novo, praticar exercício físico e preservar o espírito, é ter a longevidade por única preocupação - tal é a vida que o sábio que canaliza o sopro vital favorece; o homem que nutre o corpo, e que espera viver por muito tempo.

Mas alcançar a eminência sem restringir a vontade nem abrigar preconceito; alcançar a perfeição pessoal sem fomentar a benevolência e a retidão, governar sem mérito nem fama; procurar o lazer sem andar por rios nem mares; procurar ter uma vida longa sem canalizar o sopro vital e sem exercício - esse pode perder tudo e ainda assim ter tudo; perambular à vontade pelo ilimitado, onde todas as coisas boas lhes vêm prestar tributo - esse é o Caminho do Céu e da Terra, a integridade do sábio.

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Por isso se diz: A limpidez, o silêncio, o vazio, a não acção – isso é o que mantém os níveis do Céu e da Terra; a substância do Caminho e da Virtude.
Por isso se diz: O sábio busca a calma; com a calma vem o desapego e a paz; com o desapego vem a moderação, e onde reina o desapego e a moderação, a inquietação e a preocupação não o podem atingir, nada de perturbador o pode afectar. Por conseguinte, a sua Virtude é perfeita e o seu espírito não é agitado.

Por isso se diz: A vida do sábio é resultado de uma conduta espiritual; a sua morte representa a transformação das coisas. Quando se encontra imóvel, a sua virtude assemelha-se ao Yin; quando está em movimento, a sua abrangência assemelha-se ao Yang. Ele não produz nem a boa sorte nem o azar. Ele actua e move-se em resposta aos estímulos externos; quando descobre algo eleva-se. Descarta o conhecimento e o objectivo e obedece à razoabilidade do Céu. 

Por conseguinte, ele não incorre em nenhum desastre do Céu, em nenhum emaranhado motivado pelas coisas, em nenhuma oposição ou acusação, em nenhuma recriminação por parte dos espíritos dos mortos. A sua vida é um circular; a sua morte um descanso. Ele não mede nem projecta nem conspira, não traça para o futuro. É um homem de luz, que não resplandece; dotado de boa-fé, ele não faz promessas. Dorme sem sonhar, acorda sem se preocupar. O seu espírito é puro e limpo; a sua alma nunca se cansa. Vazio, desafeiçoado e com clareza, ele se junta em harmonia à Virtude do Céu.

Por isso se diz: o pesar e a sorte são perversões da integridade; a ventura e a raiva são transgressões do Caminho; a bondade e o ódio constituem ofensas à Virtude. Quando o coração repousa sem cuidado ou ventura, isso é o auge da Virtude. Quando se encontra unificada e imutável, isso é o auge da quietude. Quando não se rala com nada, isso é o auge da equanimidade. Quando não se sente dissidência pelas coisas, isso é o auge da pureza.

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Por isso se diz: Se o corpo for excessivamente submetido ao trabalho e não descansar, ele se desgastará; se sobrecarregarem sem cessar o espírito, isso levará a um esgotamento, e o esgotamento levará à exaustão. É próprio da água, se não for contaminada por outras coisas, permanecer clara, e se nada a agitar, dar o nível perfeito. Mas se for represada e não puder correr, então, também deixará de apresentar clareza. Como tal, é um símbolo da virtude celestial.
Por isso se diz: Ser puro, claro e livrar-se da contaminação; permanecer tranquilo, equilibrado e imutável; límpido e agir sem se intrometer; mover-se com os trabalhos do Céu – essa é a maneira de cuidar do espírito.

Ter uma espada como a de Kan ou de Yueh implica que a tenhamos que preservar numa caixa, não nos atrevermos a usá-la, por ser o maior dos tesouros. O espírito puro alcança as quatro direções, e corre ora de uma maneira, ora de outra - não há lugar a que não se estenda. Eleva-se ao Céu, penetra na Terra e abraça-a. Transforma e nutre as dez mil coisas, mas ninguém consegue determinar-lhe a forma. O seu nome é Harmonia com o Supremo. 

Só o caminho para a pureza e a simplicidade resguarda o espírito; se o preservarem e nunca o perderem, tornar-se-ão um com o espírito, um com a sua essência pura, que se comunica e se mistura com a Ordem Celestial. 

O ditado do homem rústico reza assim: "O homem comum preza o ganho acima de tudo, o académico preza a fama. O sagaz preza a ambição, o sábio valoriza a essência espiritual." Simplicidade significa ausência de contaminação; a pureza significa que o espírito permanece intacto. Aquele que consegue encarnar a pureza e a clareza pode ser chamado de Homem Verdadeiro.


CAPÍTULO 16
RESTAURO DA NATUREZA INATA

Eis os que não passam de cegos e ignorantes: Aqueles que decidirem restaurar a natureza inata por meio de um aprendizado vulgar, esperando assim retornar mais uma vez à Origem; aqueles que decidem controlar os desejos pelos meios do pensar vulgares, na esperança de alcançar a iluminação.

Os homens dos tempos antigos que praticavam o Caminho empregavam a calma para cultivar o conhecimento. O conhecimento representava a sua vida, mas eles não faziam nada com base no conhecimento. Assim, poder-se-á dizer que empregavam o conhecimento para cultivar a tranquilidade. O conhecimento e a tranquilidade cultivavam-se um ao outro, e a harmonia e a ordem emergiam da natureza inata. 

A virtude é harmonia, o Caminho é ordem. Quando a Virtude abraça todas as coisas, temos a benevolência. Quando o Caminho está, em todos os aspectos, em ordem, temos justiça. Quando a equidade é claramente compreendida e todas as coisas aderem a ela, temos lealdade. Quando existe pureza no íntimo, e retorno à forma verdadeira, temos a música. Quando a sinceridade é expressada em articulação com o corpo, e em conformidade com a elegância, temos os rituais. 

Porém, se toda a ênfase for colocada na condução dos rituais e da música, então o mundo cairá na desordem e na confusão. Quando se empreende esforços por corrigir os outros, obscurece-se a própria virtude, e a própria virtude não mais se estenderá a todas as coisas. E caso se procure forçá-la a estender-se, então as coisas perderiam invariavelmente a sua natureza inata.

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Mesmo no caos, os homens da antiguidade permaneciam centrados, calmos e em silêncio com o resto do mundo. Nesse tempo, o yin e o yang estavam em harmonia, fantasmas e espíritos não operavam qualquer dano, as quatro estações mantinham a sua ordem natural, as dez mil coisas não conheciam dano e as criaturas vivas estavam livres da morte prematura. Embora os homens fossem dotados de conhecimento, eles não faziam uso dele. Isso foi chamado de Unidade Perfeita. Nesses tempos, ninguém planeava nada, pois reinava uma espontaneidade constante.

Contudo, chegou uma altura, em que a Virtude começou a diminuir e a entrar em declínio, e então vieram Sui Jen e Fu Hsi ocupar-se do governo do mundo. Em resultado, reinou a obediência, mas não mais a unidade.

A virtude continuou a decair e a diminuir, e em resultado disso Shen Nung e o Imperador Amarelo tomaram o governo a seu cargo. Em resultado, reinou a segurança, mas já não a obediência. A virtude continuou a desaparecer e a declinar, e em resultado Yao e Shun avançaram a tomar posse do mundo. Propuseram-se transformar o mundo por decretos e grandiosos planos e assim conspurcaram a pureza e comprometeram a simplicidade. O Caminho foi posto de parte e o Bem substituído; a virtude foi posta em perigo por causa do oportunismo. 

Depois disso, a natureza inata foi abandonada e as pessoas viram-se livres de seguir o seu próprio caminho; reinou o conhecimento, mas ele não pode trazer paz ao mundo. Mais tarde acrescentaram a esse conhecimento a "cultura" e a "pompa." A “cultura" destruiu a simplicidade, a "pompa" assolou o coração, e depois disso as pessoas começaram a ficar confusas e desobedientes. Não tinham como voltar à sua natureza inata nem forma de retornar uma vez mais à sua Origem.

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Disto, podemos ver que o mundo perdeu o Caminho e que o Caminho perdeu o mundo; o mundo e o Como poderá o Caminho conduzir o mundo? Que meios terá um homem do Caminho para avançar pelo mundo? De que meios terá o mundo para apreciar o Caminho? O Caminho não pode dirigir o mundo, nem o mundo pode dirigir o Caminho. Assim, embora o sábio não se retire para as florestas da montanha, a sua Virtude ainda se encontra oculta, quer ele goste disso quer não. Já se encontra oculta pelo que ele não precisa retirar-se a ele próprio.

Os chamados sábios recatados (eremitas) do passado não deixavam de revelar a sua pessoa (exemplo) mas recusavam-se a expor as suas ideias; não deixavam de emitir as suas ideias ao se recusarem a falar; não ocultavam os seus conhecimentos mas recusavam-se a expô-los por a condição que lhes era imposta pelos tempos ser muito má. Se a condição lhes tivesse permitido agir, eles teriam podido instaurar a Unidade sem dar sinais de o fazer. Mas a condição dos tempos não era favorável e trouxe-lhes apenas grandes dificuldades no mundo, e, assim, eles aplicaram-se às suas raízes, aprimoraram-se na imobilidade e aguardaram. Dessa maneira conseguiram preservar o seu ser e o Caminho.

Aqueles que, na antiguidade desejavam manter-se vivos não usavam a eloquência para expor os seus conhecimentos. Não usavam os seus conhecimentos para provocar perturbação no mundo; não usavam os seus conhecimentos de modo a comprometer a Virtude. Com entusiasmo eles mantinham-se onde estavam e restauravam a sua natureza inata. O que mais poderiam fazer? O Caminho não serve para a condução mesquinha; a Virtude tão pouco se presta à compreensão mesquinha. A compreensão mesquinha avilta a virtude; a conduta mesquinha avilta o Caminho. Daí que se diga: Rectifiquem-se e acabem com isso! Quando a alegria é perfeita, chama-se a isso o Tempo Certo da Intenção.

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Quando os homens da antiguidade falavam do Tempo Certo da Intenção, não se referiam a carruagens nem a chapéus finos. Queriam simplesmente dizer que a alegria era tão perfeita que não poderia ser maior. Contudo, hoje em dia, quando se fala do Tempo Certo da Intenção, refere-se cargos e distinções. Mas cargos e distinções dizem somente respeito ao corpo, e não abrangem a natureza nem o destino inatos. De tempos a tempos, tais benefícios podem vir ao vosso encontro. Quando isso acontecer, não conseguirão impedi-lo do mesmo modo que não poderão evitar que os abandonem de novo. Portanto, cargos e distinções não são desculpas para a inflação do orgulho e da arrogância, nem as dificuldades e a pobreza são desculpa para bajularem o ordinário e se tornarem vulgares. Vocês deviam encontrar a mesma alegria tanto numa condição como na outra e, portanto, viver sem cuidados. Mas se a perda da felicidade lhes causar aflição, vocês poderão compreender que tal felicidade era sem valor. Por isso é que se diz: Aqueles que se perdem no desejo por coisas também perdem a sua natureza inata por se tornarem vulgares. Eles poderão ser chamados de pessoas que entendem tudo ao contrário. 
  
CAPÍTULO 17
ENCHENTES DE OUTONO

A ÉPOCA DAS ENCHENTES DE OUTONO chegou e os cem riachos correram a afluir para o Rio Amarelo. A sua corrente rápida ganhou proporções tais que, olhando do canal, de margem a margem, era impossível distinguir um cavalo de uma vaca. Então o Espírito do Rio ficou fora de si de alegria, ao acreditar que toda a beleza do mundo lhe pertencia em exclusivo. Seguindo a corrente, viajou para o leste até chegar ao Mar do Norte. Olhando a toda a extensão, ele não conseguiu divisar o começo das águas.

O Espírito do Rio começou a sentir-se envergonhado do contentamento que sentira. Olhando à distância na direcção de Jo, o Espírito do Mar do Norte, ele suspirou e disse: "O ditado comum diz: "Ele ouviu falar do Caminho uma mera centena de vezes, e já acha que não há quem o supere." Isso aplica-se a mim. No passado, ouvi os homens menosprezar a instrução de Confúcio e depreciar a rectidão de Po Yi, e, embora eu não tenha acreditado neles, porém, agora divisei a tua imensidão incomensurável, impossível de abarcar, acredito. Se não tivesse chegado até aos teus portões eu incorreria no perigo de me ver inúmeras vezes ridicularizado pelos mestres do Grande Método!"

O Espírito do Mar do Norte respondeu: "Não se pode discutir a natureza do oceano com a rã - ela acha-se condicionada ao espaço em que está donfinada. Não se pode discutir a natureza do gelo com um insecto de verão - por ele se achar restringido a uma única temporada. Não se pode discutir o Caminho com um académico restringido à sua área - por ele estar agrilhoado às suas doutrinas. Agora foste além das tuas margens e limites e viste o grande mar - de modo que percebes a tua própria mesquinhez. A partir de agora, será possível conversar contigo sobre o Grande Princípio.

"De todas as águas do mundo, nenhuma é tão vasta quanto a do mar. Dez mil ribeiros fluem para ele - nunca ouvi dizer de que tenham deixado de correr - no entanto, ele nunca está cheio. A água entranha-se perto de Wei-lu; nunca ouvi dizer que tenha deixado de o fazer, no entanto, o mar nunca esvazia. Seja primavera ou outono, ele nunca se altera. Inundação ou seca, nem toma conhecimento. É tanto maior do que as correntes do Yangtze ou o Rio Amarelo que é impossível medir a diferença. Mas nunca me regozijei por isso. Tomo o meu lugar junto do Céu e da Terra e obtenho alento do yin e do yang. Situo-me aqui entre o Céu e a Terra como uma pequena pedra ou uma pequena árvore numa montanha enorme. Dado que consigo objectivar a minha própria pequenez, que razão tenho eu para me regozijar?

"Compare-se a área incluída pelos quatro mares com tudo o que existe entre o Céu e a Terra - não se assemelhará a um pequeno formigueiro num vasto pântano? Compare-se o Reino Médio (China) com a área incluída nos quatro mares - não se assemelhará a um pequeno grão de arroz num grande armazém? Quando nos referimos aos objectos da criação, falamos delas como " as dez mil," entre as quais o homem não passa de uma delas. Falamos das Nove Províncias, onde os homens são mais numerosos e, no entanto, de toda a área onde o arroz e os alimentos são cultivados, e onde os barcos e as carruagens passam de um lado para o outro, o homem ocupa apenas uma fracção. Em comparação com as dez mil coisas, não se assemelhará ele à ponta de um pelo do corpo do cavalo? Aquilo que os cinco imperadores planearam, porque os três reis de digladiaram, e os homens benevolentes se afligiam, e os homens responsáveis trabalham - tudo termina aqui! Po Yi elaborou o conhecimento em prol da fama, Confúcio falou dele em prol do saber. Mas ao se regozijarem desse modo, não seriam eles como tu há pouco, quando te regozijavas com as tuas águas de enchente?"

"Bom, nesse caso," disse o Espírito do Rio, "poderei eu julgar a grandeza pelo Céu e pela Terra e a pequenez pela ponta de um cabelo?"

"Nao!" disse o Espírito do Mar do Norte. "Não existe fim para as possibilidades das coisas, por as suas dimensões serem indefinidas; nem há forma de lhes determinarmos a duração, nem temos como aferir a constância na determinação dos destinos, nem existe uma regra fixa para começo e fim. Por isso, a grande sabedoria contempla tanto o distante como o próximo, e por isso reconhece o pequeno sem o considerar insignificante, e o grande sem o considerar significativo, por saber que as suas dimensões são indefinidas. Possui uma clara compreensão do passado e do presente, e por isso encara o duradouro sem o achar entediante, e o efémero sem se sentir defraudado nem desiludido, por saber que o tempo não para. Percebe a natureza da plenitude e do vazio, e por isso não e deleita ao adquirir algo, nem se preocupe se o perder, pois sabe que não existem absolutos na determinação dos destinos. Compreende o Caminho do Meio, e por isso não se alegra com a vida nem encara a morte como uma calamidade, pois sabe que nenhuma regra fixa de anterioridade ou de posterioridade pode ser atribuída ao começo e ao fim.

"Calcule-se o conhecimento de um homem e não se poderá compará-lo àquilo que ele desconhece. Calcule-se o tempo em que permanece vivo e não se poderá compará-lo ao tempo decorrido antes de ele nascer. No entanto, o homem pega em algo tão pequeno assim e tenta por seu intermédio aferir o grande! Por isso, ele fica baralhado e confuso e jamais consegue chegar a parte alguma. Encarando-o desse modo, como saberemos se a ponta de um cabelo pode ser apontada como a medida da menor coisa possível? E como haveremos de chegar a saber se o Céu e a Terra conseguem abranger por completo as dimensões da maior coisa imaginável?"

O Espírito do Rio disse: "Os homens que debatem tais assuntos hoje em dia afirmam que a mais minúscula das coisas não tem forma e que a maior das coisas não pode ser circunscrita. Corresponderá isso à realidade?"

O Espírito do Mar do Norte disse: "Se considerarmos o grande do ponto de vista do pequeno, não poderemos vê-lo na sua totalidade. Se considerarmos o diminuto do ponto de vista do grande, não podemos distingui-lo com clareza. O subtil é o menor dos mais pequenos; o descomunal é o mais vasto dos grandes, pelo que é conveniente distinguir as suas aptidões. Mas isso é mera questão de circunstância. Contudo, antes que possamos falar de descomunal ou do subtil, é preciso que tenham uma forma. Se uma coisa não tiver forma, as suas dimensões não poderão ser quantificadas e, se não puder ser abrangida, então o seu tamanho não poderá ser quantificado. Pelo uso das palavras poderemos abordar o descomunal das coisas e pelo uso da mente poderemos visualizar a subtileza das coisas. Mas o que as palavras não conseguem descrever e o que o entendimento não chega a compreender - isso nada tem que ver com o descomunal nem o subtil.

"Portanto, o Grande Homem nas suas acções não prejudica os demais, mas não faz demonstração de benevolência nem de caridade. Ele não age em função do benefício nem do lucro, mas não menospreza o subordinado. Ele não entra em disputas por bens ou riqueza, mas não faz demonstração de recusa nem de renúncia. Ele não se candidata a ajudar os outros no seu trabalho, mas não faz demonstração de se sustentar a si próprio, nem despreza o ganancioso nem o vil. Nas suas acções difere das da multidão, mas não faz demonstração de singularidade nem de excentricidade. Contenta-se em ficar para trás da multidão, mas não despreza aqueles que correm para a frente em busca da lisonja e da adulação. Todos os títulos e gastos da época não são suficientes para o levar a mexer-se e a esforçar-se; todas as penalidades e censuras não bastam para o levar a sentir vergonha. Ele sabe que nenhuma linha de distinção pode ser traçada entre o certo e o errado, nenhuma linha de demarcação pode ser fixada entre o grande e o pequeno. Ouvi dizer: "O Homem do Caminho não ganha fama; a maior das virtudes nada tem a ganhar; o Grande Homem não tem personalidade. Contenta-se com o que lhe é atribuído ao grau da perfeição."

O Espírito do Rio disse: "Quer sejam exteriores ou implícitas às coisas, não entendo como chegamos a estabelecer tais distinções de nobre e humilde, grandes e pequenas."

O Espírito do Mar do Norte disse: "Do ponto de vista do Caminho, as coisas não encerram nobreza nem humildade. Do ponto de vista das coisas em si mesmas, cada uma considera-se como nobre e às demais como insignificantes. Do ponto de vista da opinião pública, nobreza e humildade não são inerentes às próprias coisas, mas residem no apreço que se tem por elas.

"Do ponto de vista das diferenças, se considerarmos uma coisa grande por apresentar uma certa importância, então, entre todas as dez mil coisas, não haverá nenhuma que não seja grande. Se considerarmos uma coisa rizível por evidenciar uma certa pequenez, então, entre as dez mil coisas, não haverá nenhuma que não seja pequena. Daí se poderá deduzir que o céu e a terra não são maiores que minúsculos grãos de arroz e que a ponta de um cabelo é tão grande quanto uma cadeia de montanhas. Assim se poderá determinar o grau da diferença.

"Do ponto de vista da função, se considerarmos uma coisa tão útil quanto a utilidade que demonstrar ter, então, entre todas as dez mil coisas, não haverá nenhuma que não seja útil. Do mesmo modo, se considerarmos algo do ponto de vista negativo por apresentar uma certa carência, então, entre as dez mil coisas não haverá nenhuma que não seja negativa. Tal como o leste e o oeste que se opõem um ao outro, mas em que um não pode existir sem o outro; assim poderemos estimar o grau da função e da dependência mútua que têm.

"Do ponto de vista da preferência ou interesse, se considerarmos uma coisa favoravelmente correcta por apresentar uma certa correcção, então, entre as dez mil coisas não haverá nenhuma que não seja correcta. Se encararmos as coisas do ponto de vista desfavorável como más por apresentarem um certo mal, então, não haverá entre as dez mil coisas nada que não seja um mal. Daí se poderá entender como Yao e Chieh se consideravam a si mesmos bons e condenavam o outro como mau. Isso que determina o critério do interesse e da estima.

"Nos tempos antigos, Yao abdicou em favor de Shun e Shun governou como imperador; Kuai abdicou em favor do seu ministro Chih e foi destruído por este último. Tang e Wu tornaram-se reis deitando mão à contenda; por seu turno o Duque Po revoltou-se e foi exterminado. Encarando desse ponto de vista, veremos que a revolta ou a cedência, a nobreza ou a ruindade de um Yao ou de um Chieh, dependem das circunstãncias e não podem ser tornadas regra; por poderem ser num momento nobres e no momento seguinte desprezíveis.

"Uma trave pode ser usada como aríete para derrubar uma muralha da cidade, mas não serve para tapar nem sequer um pequeno orifício dessa mesma muralha - isso refere a diferença da função. Cavalos puros-sangues como Chi-chi e Hua-liu podiam galopar seiscentos quilómetros num só dia, mas no quer tocava a caçar ratos, eles não se equiparavam ao gato selvagem nem à doninha - o que refere faculdades distintas. A coruja caça pulgas na obscuridade da noite e pode detectar a ponta de um cabelo, mas quando surge a luz do dia, mesmo que mantenha os olhos bem abertos, não consegue ver nem uma montanha - o que refere uma faculdade natural diferente. Agora, as pessoas dizem: "Porque não adoptar o certo e acabar com o errado? Porque não adoptar a paz e pôr termo ao transtorno?" Se o fizerem, então não entendem o princípio do Céu e da Terra nem a natureza das dez mil coisas. Isso é como dizer que se vai deixar-se conduzir somente pelo Céu e abandonar a Terra, ou guiar-se pelo elemento Yin e esquecer o Yang. Obviamente que isso é impossível. E se os homens insistirem em falar desse modo, devem ser tolos ou enganadores!

"Os imperadores e os reis sempre tiveram diferentes maneiras de se fazer suceder, já desde as Três Dinastias, diferentes causas de sucessão. Aqueles que actuaram de forma extemporânea e desobedeceram aos hábitos das respectivas épocas foram chamados usurpadores; aqueles que acompanharam os tempos e seguiram oportunamente os costumes foram chamados de justos. Acalma-te e fica calado, ó Ancião do rio! Como poderias entender alguma coisa sobre o nobre e o vil, ou o grande e o pequeno?"

"Bom; nesse caso", disse o Espírito do Rio, "o que deverei fazer e o que deverei deixar de fazer? No final, como saber o que aceitar e o que rejeitar, ao que obedecer e o que descartar?"

O Espírito do Mar do Norte disse: "Do ponto de vista do Caminho, o nobre ou o mal confundem-se, já que um é o oposto do outro. Não passa do que é chamado a Interminável Mudança. Não claudiques na tua vontade, ou irás afastar-te do Caminho! O que será pouco e o que será muito? Isso é meramente o que é chamado as Infindáveis Voltas da Alternância. Não te esforces por ser uniforme nas tuas acções, ou estarás em divergência com o Caminho! Sê isento de preconceito como o governante de um estado - que declina todo favoritismo. Destaca-te e sê imparcial, como o mestre de cerimónias numa oferenda sacrificial - que não pede por quaisquer bênçãos particulares. Sê amplo e infinito como as quatro direções - elas não têm nada que as limite ou cerceie. Abraça as dez mil coisas numa atitude universal - como poderia haver alguém a quem deveria conceder um apoio especial? Isso é chamado de liberdade do desvio. Quando as dez mil coisas são unificadas e iguais, então, o que será curto e o que será comprido?

"O Caminho não tem começo nem fim, já as coisas têm a sua vida e morte - não se pode confiar no seu desempenho. Num momento vazias, no momento seguinte repletas - não podes depender da sua condição. A passagem dos anos não podem ser impedida, o tempo não pode ser detido. O declínio, o crescimento, a plenitude e o vazio terminam e depois começam de novo. É assim que devemos descrever o plano do Grande Significado e discutir os princípios das dez mil coisas. A vida das coisas é um galope, uma corrida precipitada - com cada movimento que elas se alteram, a cada passo elas mudam. O que deverias fazer e o que não deverias fazer? Não há movimento que não traga mudança - isso é certo. As próprias coisas desenvolver-se-ão e mudarão por si próprias!"

"Se assim é," disse o Espírito do Rio, "então, o que terá de estimável o Caminho?"

O Espírito do Mar do Norte disse: "Aquele que entende o Caminho é certo que entende os princípios básicos. Aquele que entende os princípios básicos é certo que sabe como lidar com as vicissitudes. E, aquele que sabe como lidar com as vicissitudes não permitirá que as coisas exteriores o prejudiquem. Quando um homem goza de perfeita virtude, o fogo não consegue queimá-lo, a água não consegue afogá-lo, o frio e o calor não conseguem afligi-lo, os pássaros e os animais não podem prejudicá-lo. Eu não digo que ele menospreze essas coisas, quero unicamente dizer que ele distingue as situações de segurança e de perigo, e contenta-se com fortuna ou com o infortúnio, e é cauteloso no afastamento e na aproximação. Portanto, nada pode prejudicá-lo.

"Daí que se diga: os compromissos do espiritual dão-se dentro, os assuntos humanos têm lugar fora. O supremo cultivo do indivíduo é conseguido em conformidade com o espiritual. Compreende e distingue bem as acções do espiritual e do homem, põe o teu fundamento no espiritual, toma posição na virtude, e então, embora avances ou retrocedas, te retraias ou expandas, podes voltar ao essencial e falar do irrevogável."

"O que quer dizer o espiritual e o humano?" perguntou o Espírito do Rio.

O Espírito do Mar do Norte respondeu: "Os cavalos e os bois têm quatro patas – o que perfaz uma condição inata - é isso que quero dizer com o espiritual. Colocar uma corda na cabeça do cavalo, perfurar o nariz do boi – o acessório - isso é o que quero dizer com o humano. Por isso digo: Não deixes o que é humano desvirtuar o que é espiritual, nem permitas que o artifício arruine a vida, não permitas que a ganância te prejudiquem o bom nome. Tem cuidado, preserva a condição inata e não a percas - Isto é o que eu quero dizer ao retornar à simplicidade pura." 

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O dragão Kuei tem inveja da centopeia, a centopeia tem inveja da cobra, a serpente tem inveja do vento, o vento tem inveja do olho e o olho tem inveja da mente.

O K'uei disse à centopeia: "Tenho essa perna com que vou andando aos saltos, embora eu consiga muito pouco progresso. Agora, como é que consegues fazer funcionar todas essas cem pernas?"

A centopeia disse: "Você não entende. Nunca viu um homem cuspir? Ele puxa simplesmente uma cuspidela e aí vem ela, algumas gotas tão grandes como pérolas, outras tão finas quanto a névoa, chovendo na desordem de um infinito número de partículas. Agora, tudo o que faço é pôr em marcha o mecanismo celestial em mim - não tenho consciência de como a coisa funciona."

A centopeia disse à cobra: "Tenho todas essas pernas com que me movo, mas não consigo acompanhar-te a ti que não tens pernas. Como acontece isso?"

A serpente disse: "É apenas o mecanismo celestial que me move, como poderei mudar o jeito que tenho de ser? O que faria eu com as pernas se as tivesse?"

A serpente disse ao vento: "Eu movo a minha espinha dorsal e as costelas e consigo dar-me bem, embora ainda tenha algum tipo de corpo. Agora você vem girando do Mar do Norte e segue girando para o Mar do Sul, e não parece ter nenhum corpo. Como acontece isso?"

O vento disse: "É verdade que eu me levanto do Mar do Norte e sigo para o Mar do Sul. Mas se segurares um dedo contra mim, derrotar-me-ás e, se me pisoteares, também me derrotarás. Por outro lado, mais ninguém como eu consegue derrubar grandes árvores e varrer grandes casas - é um talento de que só eu gozo. Assim, o facto de não conseguir vencer coisas pequenas leva-me a superar as coisas grandes. Só o sábio é capaz de superar grandes coisas!" 

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Quando Confúcio ia a passar por Kuang, os homens de Sung o cercaram com vários cordões de homens, mas ele passou a tocar o seu alaúde e a cantar sem parar. "Tzu Lu entrou a vê-lo e perguntou-lhe: "Mestre, como pode estar tão despreocupado?"

Confúcio disse: "Vem, vou-te explicar. Durante um longo período de tempo eu tentei evitar as dificuldades inerentes à minha doutrina; que não tenha conseguido escapar-lhes deve-se ao destino. Durante muito tempo tentei alcançar o sucesso na sua disseminação; que eu não o tenha conseguido deveu-se às circunstâncias. Se acontecesse ser na era de um Yao ou de um Shun, então não haveria obstrução - mas não por as pessoas gozarem de elevada inteligência. Se acontecesse ser na era de um tirano como Chieh ou Chou, não se verificaria uma disseminação - mas não por falta de inteligência. É o tempo e as circunstâncias quem determina o resultado.

"Navegar pelo mar sem temer o dragão - isso revela a coragem do pescador. Viajar por terra sem fugir do rinoceronte ou do tigre - isso revela a coragem do caçador. Ver as lâminas das espadas a chocar diante de si e encarar a morte como se fosse vida - isso revela a coragem do patriota. Entender que as vicissitudes são coisa do destino e que o sucesso na disseminção da doutrina é fruto das circunstâncias e enfrentar grandes dificuldades sem medo - isso revela a coragem do sábio. Contenta-te com isso, Tzu Lu. O meu destino já me colocou sob tensões."

Pouco depois, um líder dos homens apresentou-se e pediu desculpas. "Pensamos que você fosse Yang Huo, foi por isso que o cercamos. Agora que vemos que você não é, vamo-nos retirar." 

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Kung Sun Lung disse ao príncipe Mou de Wei: "Quando eu era jovem, estudei as doutrinas dos reis anteriores e, quando envelheci, aprendi a praticar a conduta da benevolência e da equidade. Reconciliei a diferença e a semelhança, distingui dureza e brancura, mudei a afirmativa na negativa ou vice-versa, e o permissível no proibitivo. Abarquei o conhecimento de múltiplas escolas e derrotei os argumentos de muitos palestrantes. Eu acreditava que tinha alcançado o maior grau de realização. Mas agora escutei as palavras de Chuang Tzu e fiquei surpreendido pelo fascínio que demonstram. Não sei se será a minha eloquência que não se comprara com a dele, ou se não consigo equiparar-me a ele na compreensão. Agora não me atrevo a abrir a boca. Posso pedir-lhe conselho?"

O Príncipe Mou inclinou-se sobre o sofá e deu um grande suspiro, e depois olhou para o céu e riu, disse: "Você nunca ouviu falar do sapo do poço? Ele disse à tartaruga do Mar do Leste: "Como me divirto tanto! Eu ando aos saltos e vou até ao redor da beirada do poço, ou descanso nos buracos deixados pela falta de um tijolo. Na água, uso as patas dianteiras para me manter à tona e a boca de fora, e na lama, enterro os meus pés nela e deixo que me cubra até aos tornozelos. Observo à minha volta as larvas de mosquitos e os caranguejos e os girinos e vejo que nenhum deles consegue equipar-se a mim no desfrute da vida. Monopolizar por completo a água do poço, isso é do melhor que há! Por que não vens um dia destes e vês por ti própria?"

"Mas mesmo antes da grande tartaruga do Mar do Leste conseguir pôr o pé esquerdo no poço, ficou rapidamente encravada. Ela precisou recuar e retirou-se por um bocado, e então começou a descrever o mar: "Uma distância de seiscentos quilómetros não pode dar uma ideia da sua grandeza, uma profundidade de mil medidas não pode expressar a profundidade que tem. No tempo do imperador Yu, verificaram-se inundações em nove de dez anos, e ainda assim as águas do mar não sofreram qualquer aumento. Na época de Tang verificaram-se secas em sete de oito anos, e ainda assim o nível das águas jamais recuou. O que o tempo, seja um instante ou uma eternidade, em nada consegue alterar ou mudar, nem a abundância ou a escassez possam fazer avançar ou recuar - essa é a grande delícia de viver no Mar Oriental!"

"Quando o sapo do poço raso ouviu aquilo, ficou surpreendido e cabisbaixo.
"Agora o teu conhecimento nem sequer chega a distinguir os limites do certo do errado, e ainda assim tentas usar disso para comentares as palavras de Chuang Tzu - isso é como tentar fazer um mosquito carregar uma montanha às costas ou um insecto querer correr mais do que o rio Amarelo. Nunca estarás à altura da tarefa!

"Aquele, cuja compreensão não consegue entender essas palavras subtis e obscuras, mas se encontra unicamente pronto a conseguir um ganho temporário - não será ele como o sapo do poço? Neste exacto momento Chuang Tzu – com os pés assentes no mais profundo da terra atinge as alturas do vasto azul. Para ele, não há norte nem sul - em total liberdade ele dissolve o seu ser pelas quatro direcções e submerge no insondável. Para ele não há leste ou oeste - ele coemça na origem do sério e do solene e retorna a uma via que conduz a infinitas possibilidades. Agora vens juntar-te e tentar captar pouco a pouco o seu pensamento munido da discriminação e do sofisma. Isso é como usar um cano para esquadrinhar o céu ou um fio de sovela para medir a profundidade da terra – não serão instrumentos demasiado pequenos para a tarefa? Será melhor que sigas o teu caminho! Ou talvez nunca tenhas ouvido falar do jovem de Shou-ling que foi aprender a caminhar como os de Han-Tan. Ele teve não só que dominar o seu caminhar como esquecer a sua própria maneira antiga de caminhar, de modo que precisou rastejar todo o caminho de volta para casa. Agora, se tu não te pões a caminho, é provável que esqueças o que aprendes e fiques sem a tua ciência!"

Kung Sun Lung ficou de boca aberta e não a conseguia fechar. A língua colou-se ao céu-da-boca, pelo que ele deitou a correr e fugiu. 

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Certa vez, quando Chuang Tzu estava a pescar no rio Pu, o rei de Chu enviou dois funcionários a anunciar-lhe: "Eu gostaria de o incomodar com a administração do meu reino."

Chuang Tzu manteve a cana de pesca na mão e, sem virar a cabeça, disse: "Ouvi dizer que há uma tartaruga sagrada em Chu que está morta há três mil anos. O rei mantém-na envolta em pano numa caixa, e armazena-a no templo ancestral. Essa tartaruga preferirá estar morta e deixar os seus ossos para trás para serem venerados, ou preferiria estar viva e a arrastar a cauda na lama?"

"Preferiria estar viva e a arrastar a cauda na lama," disseram os dois funcionários.

Chuang Tzu respondeu: "Então vão-se embora! Também eu prefiro ficar a arrastar a minha cauda na lama!" 

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Quando Hui Tzu se tornou primeiro ministro de Liang, Chuang Tzu partiu a visitá-lo. Alguém trouxe a Hui Tzu o boato de que queriam usurpar-lhe o posto: "Chuang Tzu está de chegada por querer substituí-lo como primeiro-ministro!" Com isso Hui Tzu foi tomado de alarme e mandou procurar Chuang Tzu por todo o estado por três dias e três noites a ver se o encontrava. Mas Chuang Tzu lá veio ao seu encontro e disse:
"No sul há um pássaro chamado Yuan-chu - eu me pergunto se já ouviu falar dele? Esse Yuan-chu sobe do Mar do Sul e voa para o Mar do Norte, e não repousa senão nas árvores de Wu-tung, não come nada além dos frutos do bambu, e bebe apenas das fontes de água doce. Acidentalmente uma coruja que tinha caçado um rato velho meio podre e, à medida que o Yuan-chu andava a esvoaçar por cima, ela levantou a cabeça, olhou para o Yuan-chu e disse: "Shoo!" Agora que com a posição que obteve no estado de Liang, está a tentar espantar-me?"
presunção de saber e conhecimento pela observação
Chuang Tzu e Hui Tzu passeavam pela ponte do rio Hao quando Chuang Tzu disse: "Veja como o peixe miúdo sai e se dispersa por onde quer! É o que os peixes realmente gostam de fazer!"

Hui Tzu disse: "Não sendo você peixe nenhum - como sabe o que os peixes apreciam?"

Chuang Tzu disse: "Você não sou eu, então como sabe que eu não sei o que os peixes apreciam?"

Hui Tzu disse: "Eu não sou você, decerto que não sei se sabe disso ou não. Por outro lado, você certamente não é um peixe - de modo que isso ainda prova que você não sabe o que os peixes apreciam!"

Chuang Tzu disse: "Voltemos à sua pergunta original, por favor. Você perguntou-me como sei do que o peixe gosta, de modo que você já sabia que eu sabia e mesmo assim perguntou-me. Eu sei disso por permanecer aqui ao lado do rio."

CAPÍTULO 18
A PERFEITA FELICIDADE

Será possível encontrar por todo este vasto mundo uma felicidade verdadeira ou não? Haverá maneira de nos mantermos vivos ou não? Bom, que poderá ou não ser feito e em que se deverá confiar? Que deverá ser evitado e a que deveremos ater-nos? Que se deverá perseguir e que se deverá abandonar? Onde residirá a felicidade e onde residirá o mal?

Aquilo que todo mundo valoriza são as riquezas, a posição, a vida longa e a fama. O que garante a felicidade são a segurança pessoal, os bons apetites, vestes vistosas, as belas vistas e sons agradáveis. Aquilo que o mundo despreza é a pobreza, a baixeza moral, a morte prematura e a má reputação. O que considera desagradável é o estilo de vida que não acarreta repouso, a falta de pratos requintados, a falta de boas roupas, olhos que jamais pousam em vistas adoráveis ao olhar, e uma música agradável ao ouvido.
Quando não conseguem obter tais coisas tornam-se alvo da agitação e do temor. Mas essa é uma forma atoleimada de tratar o corpo! Os ricos afadigam-se e apressam-se a obter mais e mais riquezas, para além daquela que necessitam. Consequentemente, embora façam isso em prol do corpo, alienam-no.

Aqueles que detêm posições de poder passam dia e noite a traçar e a ponderar no que fazer para atingir os melhores fins. Mas, do ponto de vista do nosso corpo não será esse um tratamento muito descuidado? As pessoas vivem a vida constantemente cercadas pela ansiedade. E se viverem muito acabam na senilidade, desgastada pelas preocupações: que terrível destino! O corpo é tratado de uma forma muito desagradável. Homens de coragem são vistos por todos os cantos sob o céu como dignos, mas isso é insuficiente para os manter vivos. Não estou certo de saber se essa sabedoria será ajuizada ou não. Se a considerarmos boa, não chega para a sua salvação. Se a considerarmos como não boa, é suficiente para a salvação dos outros. É dito que se um amigo não der ouvidos aos conselhos que lhe ofereceremos, devemos fazer uma vénia e retirar-nos sem discussão. Afinal, Tzu Hsu mostrou resistência para com o seu soberano e acabou por perder a vida. Caso não tivesse discutido, não teria ficado famoso. Será possível que realmente contenha alguma grandeza efectiva, ou não?

Bom, quando as pessoas comuns tentam encontrar felicidade, não estou certo se a felicidade que encontram será realmente felicidade ou não. Observo o que as pessoas ordinárias fazem para conseguir felicidade, aquilo por que se debatem, e o quanto correm aparentemente incapazes de se deter. Dizem sentir-se felizes, mas eu não me sinto feliz nem infeliz tão pouco. Em última análise gozarão ou não de felicidade? Eu considero a acção sem agir (sem intenção) como mais digna de ser chamada felicidade, embora as gentes comuns a considerem como um grande fardo. Foi dito: "A perfeita felicidade é ausência de (consciência de) felicidade, a perfeita glória não ser objecto de glória."

O mundo todo é incapaz de julgar certo e errado. Mas é certo que a acção (inação da ausência de resistência interna) pode ajuizar tanto o certo quanto o errado, só que o mundo receia-a. A perfeita felicidade está na preservação da vida; somente a acção sem agir pode produzir tal efeito. É por isso que sou levado a dizer:

"O céu e a terra nada operam e no entanto nada fica por fazer."
Ambos combinam o agir sem acção e todas as formas de vida saem mudadas e desse modo voltam à vida! Maravilha das maravilhas, elas não vêm de parte alguma! Toda a vida é misteriosa e emerge da acção sem agir. Há o dito de que o céu e a terra adoptam uma acção sem agir, mas nada fica por fazer. Por entre as pessoas, quem será capaz de seguir tal agir isento de acção?

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A mulher de Chuang Tzu morreu e Hui Tzu chegou a fim de o consolar, mas Chuang Tzu permaneceu sentado de pernas cruzadas, a bater numa bacia surrada e a cantar.
Hui Tzu disse: “Viveste com ela como homem e mulher, e ela criou-te os filhos. Na morte o que pelo menos devias fazer seria sentir vontade de prantear, em vez de estares para aí a fazer da bacia um tambor e a cantar: Isso não está certo."

Chuang Tzu respondeu: “Certamente que não. Quando ela morreu, decerto que fiz o luto tal como toda a gente! Contudo, recordei que ela já existia antes, num estado anterior ao do nascimento. Na verdade, não só antes que nascer, mas antes do seu corpo ser sequer criado. Não só sem forma como sem substância, mas antes mesmo do seu sopro vital ser adicionado ao seu corpo. E por meio do maravilhoso mistério da mudança foi-lhe atribuído o alento de vida. Esse alento vital forjou uma transformação e ela passou a possuir um corpo. O seu corpo gerou outra transformação e ela morreu. Ela assemelha-se às quatro estações, na forma como a primavera, o verão, o Outono e o inverno se sucedem. Agora encontra-se em paz, a repousar no seu ataúde, mas se eu me entregar aos soluços e ao pranto decerto parecerá que eu não compreenda o destino. Foi por isso que me abstenho.”

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O Corcunda e o Aleijado perambulavam pelas tumbas dos heróis falecidos nos montes de Kun Lun onde o Imperador Amarelo repousa (Símbolos ou locais de imortalidade). Sem aviso uma úlcera começou a brotar do ombro esquerdo de Aleijado. Ele certamente ficou surpreendido e um tanto baralhado.
"Sente-se ressentido por isso?" disse o Corcunda.
"Não, disse o Aleijado. Porque deveria sentir-me ressentido? A vida tem lugar na partilha e constitui um empréstimo. E com esse empréstimo, só acrescentamos mais sujeira e lixo à soma total da nossa existência. A morte e o nascimento assemelham-se à manhã e à noite. E enquanto vós e eu, observamos as evidências da mortalidade que nos rodeia, se a mesma mortalidade me acometer, porque haverei eu de me ressentir por isso?"

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Chuang Tzu foi a Chu para observar um crânio antigo que lé havia sido dissecado, que ele espicaçou com a sua chibata, dizendo: "Senhor, seguiu algum curso desafortunado que lhe tenha trazido desonra ao seu pai ou à sua mãe para terminar dessa forma? Terá, porventura, sido o frio e a fome que o terá reduzido à expressão de indigente? Talvez tenha sido a resoluta sucessão das primaveras e outonos (a idade) que o tenham conduzido a isso, não senhor?" Assim dizendo, puxou o crânio de encontro a si e deitou-se a dormir, utilizando o crânio como travesseiro. A meio da noite sonhou que o crânio lhe aparecia em sonho e disse: "Senhor, você grasna que nem um orador público (bem). Mas tudo quanto diz, senhor, é referente à vida dos mortais e aos problemas da mortalidade. Nós, mortos, nada temos que ver com isso. Gostaria que lhe falasse sobre a morte, senhor?"

"Certamente," disse Chuang Tzu.

E o crânio lá lhe disse: "Os mortos não conhecem soberania nem sujeição. As azáfamas das estações são-lhes desconhecidas, de modo que vivemos como se a nossa existência fosse restringida unicamente pela eternidade e pelo infinito. Não se iluda, porque a felicidade de um rei entre os homens não se iguala àquela de que desfrutamos."

Chuang Tzu não pode acreditar e retorquiu: "Se eu pudesse gozar de arbítrio sobre o destino de modo a poder trazê-lo de novo à vida, senhor, e pudesse voltar a gozar de um corpo de carne e osso, e a voltar a ter companheiros, isso não lhe agradaria?"

O crânio fez uma careta com ar de chateado e respondeu: "Porque quereria eu afastar felicidade maior do que a dos reis entre os homens e tornar-me de novo um ser humano e assumir os trabalhos e as dificuldades dos mortais?"

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Yen Yuan viajou para Este em direcção ao Estado de Chi, e Confúcio ficou muito ansioso. Tzu Kung ergueu-se da sua esteira e perguntou-lhe: "Posso eu, enquanto humilde discípulo, Senhor, perguntar-lhe porque ficou tão ansioso, uma vez que Hui também partiu para o Este, rumo a Chi?" 
Confúcio respondeu: 

"Essa é uma boa pergunta! Kuan Tzu tinha um dito que eu acho ser de levar em conta. Dizia ele: "Um saco pequeno não pode conter nada grande e um balde de corda curta não pode chegar até ao fundo do poço." Do mesmo modo é igualmente verdade que o que é determinado pelo nosso destino possui a sua própria ordem particular tal como a sua forma as suas limitações. A nenhuma delas podemos tirar ou acrescentar. Sinto-me preocupado por quando Hui chegar ele vá pôr-se a pregar ao Duque de Chi acerca de Tao de Yao, Shun e o Imperador Amarelo, e subsequentemente se debruce sobre as palavras de Sui Jen E Shen Nung. O Duque procurará ver se ele está à altura de tudo isso e apontar-lhe-á falhas, e ficará desapontado, e quando uma pessoa dessas cai na dúvida, incorre-se na morte!

"Além disso, já não terás ouvido esta história antes? Certa vez uma ave marinha pousou nos arredores da capital de Lu. O Príncipe de Lu foi acolhê-la e levou-a em procissão até ao santuário dos antigos, onde tocou o Chiu Shao (música composta pelo imperador Shun) para a animar e sacrificou um touro para a alimentar? Mas isso deixou a ave confusa, em razão do que deixou de comer e beber e no espaço de três dias morreu. Por esse não corresponder ao tratamento natural a dar a uma ave. Tivesse ele dado um tratamento adequado a uma ave, teria sido levá-la para o meio da floresta, e deixá-la livre para vaguear com o bando e para se banhar nas águas dos riachos ou lagos, caçar peixes, e por lá ficar tranquila. Quando os pássaros se sentem aterrados com as vozes dos homens, de nada adianta porem-se com cânticos! Se procurarem contentá-los com música, as aves deitarão a fugir para longe. Se os animais o ouvirem, também eles fugirão e correrão a esconder-se e se os peixes o escutarem correrão para as profundezas. Apenas as pessoas acorrerão a reunir-se para a escutar.

"Os peixes podem subsistir contentes nas águas, mas se os homens o tentarem, morrerão, por diferentes seres as necessidades dos diferentes contextos que lhes são apropriados. Sendo diferentes, também os seus gostos e aversões diferem. É por isso que os antigos sábios nunca favoreciam a uniformidade, a perícia nem a ocupação no trato das criaturas nem procuravam conformá-las. A reputação é proporcional à realidade, e os meios adaptavam-se aos fins, por isso ser sensato e atrair a fortuna. A isso se chamava o devido relacionamento com os demais junto ao benefício pessoal."

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Lie Tzu ia de viagem quando parou à beira da estrada para comer quando avistou um velho crânio. Arrancando uma haste de relva, apontou para ele e disse: "Só tu e eu sabemos não existir vida nem morte; que nunca viveste e que nunca morreste. Estarás verdadeiramente em paz, ou estarei eu verdadeiramente feliz? Quem poderá dizer se a morte não será, afinal de contas, vida, e se a vida não será morte?”

Quando determinados germes caem na água transformam-se em lentilhas de água. Ao atingirem a costa tornam-se líquenes. Ao se espalharem pela margem transformam-se em Lírios Violeta. Ao atingirem o solo rico tornam-se numa planta cujas raízes se tornam larvas e as folhas tornam-se borboletas. As borboletas transformam-se e tornam-se insectos que andam por baixo das lareiras, que se parecem com cobras. Após um milhar de dias tornam-se aves de cuja saliva surge um tipo de mosca do vinho, moscas essas que se transformam em Vaga-lume, de que outros insectos se formam, que por sua vez se transformam em lavas, que se deita nos bambus que não germinam há muito tempo, de modo a se dar lugar às plantas dos Jardins. Esses, dão lugar a leopardos, os leopardos dão lugar aos homens, os cavalos dão lugar aos humanos, e eventualmente os humanos voltam ao Grande esquema das coisas. Toda a diversidade da vida surge do mistério dos começos e aí retorna.

CAPÍTULO 19
COMPREENSÃO DO PROPÓSITO DA VIDA

Se tivermos compreendido o propósito da vida, de nada valerá tentarmos tornar a vida algo que ela não pode ser. Se tivermos compreendido o propósito do destino, de nada valerá devotarmos qualquer atenção às coisas que o conhecimento não pode controlar. Se desejarmos preservar a vida, cuidemos das coisas materiais; contudo, quando as coisas materiais não são abandonadas, a vida nem sempre poderá prosseguir, e poderá sucumbir.

A vida vem a nós e não a podemos recusar. Quando ela se esvai, não a podemos deter. Contudo, que tristeza que as pessoas pensem que nutrir o corpo seja suficiente para preservar a vida! Porém, se os cuidados a ter com o corpo não são suficientes para sustentar a vida, que haverá que se possa fazer que seja suficiente? Embora fazer coisas seja inútil, seja como for, não podemos evitá-lo, ou negligenciá-la-emos.

Se alguém desejar evitar fazer alguma coisa pelo sustento do corpo, não há coisa melhor que abandonar este mundo, porque abandonando-o podermos ser livres de todas as obrigações, e, se formos livres de todas as obrigações, poderá reinar a equanimidade. E quando reina a equanimidade, voltamos a nascer à semelhança dos outros; uma vez renascidos, aproximar-nos-emos do Tao. Mas, porque será tão apelativa a ideia de abandonar as dificuldades inerentes à existência e de esquecer o propósito da vida? É que se abandonarmos as dificuldades inerentes à existência, não exaurimos o corpo; se esquecermos a vida, a nossa essência não sairá prejudicada. Assim, com o corpo satisfeito e a energia restaurada, podemos tornar-nos Um com o Céu. O Céu e a Terra são pai e mãe de toda a vida e quando ambos são respeitados o corpo é satisfeito; quando se dispersam, criam um novo começo. Se corpo e energia não padecerem, isso será conhecido como faculdade de adaptação. Fortalecidos uma e outra vez, votamo-nos ao auxílio do Céu.
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O mestre Lieh-Tzu perguntou ao porteiro Yin: "Só o homem perfeito consegue andar debaixo de água sem se afogar, e caminhar sobre o fogo sem se queimar, e passar por uma quantidade de formas de vida sem receio. Posso perguntar-lhe como é que o homem perfeito consegue isso?"

O porteiro Yin respondeu: "Isso deve-se a que preserve a sua energia vital, e nada tem que ver com o conhecimento, nem com perícia, determinação nem atrevimento. Senta-te que eu te falarei acerca disso."
"Tudo possui uma face, forma, som e cor: mas isso não passa de aparência. Como será possível que as coisas se achem tão distanciadas entre si? Na realidade por que deverá qualquer delas ter precedência sobre todas as outras? Não passam de formas e de cores, nada mais. Contudo, as coisas brotam da ausência de forma e encontram o seu término no que é imutável.

"Se compreendermos e seguirmos isso, e o usarmos em pleno, nada se poderá intrometer no nosso caminho! Significa a capacidade de residir nos confins do que não possui limite, ocultar-se nas fronteiras que não têm começo, perambular por onde ambos - começo e fim de toda a vida - residem; unificar a nossa natureza essencial, nutrir o alento vital, harmonizar a virtude e, seguindo o nosso caminho, comungar com a origem de todas as coisas. Alguém assim preserva a integridade das suas qualidades celestes, e a sua espiritualidade não apresentará falha, pelo que, como poderão as coisas intrometer-se e afectá-lo?

"Se um homem ébrio cair da carruagem, mesmo que a carruagem vá acelerada, ele não morrerá. Os seus ossos e juntas são exactamente os mesmos que os dos outros, porém, não sai ferido, por se apresentar coesão de espírito. Como não percebe que está a viajar, não faz ideia de ter caído, de modo que nem vida nem morte, nem o alarme nem o temor poderão afectá-lo ou causar-lhe apreensão, e ele baterá nas coisas sem sentir ansiedade ou provocar ofensa corporal. E, se é possível manter-se coeso por meio da embriaguez, imagina só quanto mais íntegros podemos sentir-nos pela unidade com o Céu! O sábio resguarda-se na serenidade das suas qualidades espirituais, e em resultado nenhum dano o acomete. 

“Mesmo alguém que seja impelido pela vingança não irá a ponto de se meter à feição da espada do oponente. Tão pouco o rancoroso se irritará com uma telha que aconteça cair-lhe sobre a cabeça. Em vez disso, reconhecer que tudo sob o Céu se acha em unidade, será a única maneira de eliminarmos o caos, a violência e a guerra, assim como os rigores do castigo, da punição e da execução.

"Não tentemos desenvolver o que é natural à humanidade, mas desenvolvamos o que é espiritual, porquanto desenvolver isso é benéfico à vida, ao passo que desenvolver o que é próprio da humanidade atenta contra a vida. Não ponhamos de parte o que é espiritual, nem ignoremos o aspecto humano: então as pessoas aproximar-se-ão da realização da Verdade!"

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Confúcio ia de viajem para Chu e atravessava o coração da floresta quando se deparou com um corcunda que apanhava cigarras usando uma vara pegajosa com tal habilidade que parecia que estava a utilizar as mãos. "Senhor, quanta perícia!" disse Confúcio. "Obteve alguma faculdade especial para esse fim?"
"De facto possuo uma faculdade,” disse o corcunda. “Durante os primeiros cinco ou seis meses aprendi a equilibrar duas bolas um sobre a outra com uma vara, e quando deixaram de cair, soube que conseguia apanhar umas quantas cigarras. A seguir pratiquei com três bolas, e quando elas não caíram, soube que podia apanhar uma cigarra em cada dez. A seguir pratiquei com cinco bolas, e quando deixaram de cair, tive noção de que conseguiria apanhar cigarras com toda a facilidade. 

"Fortaleço o meu corpo como se ele fosse um tronco recto de uma árvore e estendo os meus braços como uma vara. Não importa que Céu e Terra sejam vastos, nem que existam vastas multidões de seres vivos, eu concentro o conhecimento que possuo na captura de cigarras. Jamais me canso, jamais tomo consciência de qualquer outro ser vivo, excepto cigarras. Seguindo esse método, como poderia eu falhar?"
Confúcio voltou-se e disse aos seus seguidores: "Com a vontade coesa e concentração de espírito, isso servirá para descrever este cavalheiro, não?"

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Yen Yuan fez um comentário sobre Confúcio dizendo: "Eu ia a cruzar o desfiladeiro de Chang Shan enquanto o barqueiro conduzia o barco com verdadeira perícia. "Poder-se-á aprender a arte da condução de um barco?" Ele respondeu:

"De facto, quem quer que saiba nadar bem não terá problema. Se alguém conseguir mergulhar debaixo de água, poderá não ter visto um barco antes, porém, saberá como conduzi-lo." Eu indaguei dele o que queria dizer com isso, mas ele não foi capaz de dizer, de modo que lhe pergunto a si: que significam as suas palavras?"

"Um bom nadador aprende-lhe rapidamente o jeito," disse Confúcio, "por saber como esquecer a água. Alguém que consiga nadar debaixo de água poderá realmente nunca ter visto um barco, mas encarará as vastas águas como se fossem terra seca, e o virar de um barco como nada mais grave do que o virar de um vagão. Assim, também ele pode aprender-lhe o jeito rápido. Todas as formas de vida podem virar-se do avesso ou deslizar terra abaixo bem diante dele que ele não se sentirá afectado no seu íntimo, pelo que onde poderá ir que não se sinta à vontade? 

“Numa competição de tiro com o arco, vós disparais com tanta perícia quanto possível, na esperança de vencerem. Se competirem para ganhar medalhas, preocupam-se com a pontaria. Se competirem a ouro, isso já os poderá deixar nervosos. A vossa perícia será a mesma em ambos os casos, mas por um deles ser mais significativo que o outro, isso deixa-os sob tensão. Mas prestar demasiada atenção a coisas externas torna-os desajeitados com respeito às coisas do íntimo (calma e serenidade).”

Tien Kai Chih foi ver o Duque Wei de Chou, e o Duque perguntou-lhe: “Ouvi dizer que Chu Hsien anda a estudar o viver. Enquanto companheiro de Chu Hsien, que terá ouvido acerca disso, senhor?”
Tien Kai Chih respondeu: “Eu só varro o pátio e guardo o portão, como poderia eu ter ouvido alguma coisa acerca disso?”

“Mestre Tien, não seja tão recatado,” disse o Duque Wei. “Eu estou ansioso por ouvir mais.”
“Bom,” disse Kai Chi, “Eu ouvi o Mestre dizer que quem quer que sustente a vida é em definitivo como o pastor que vigia os retardatários e os põe na linha.”

“Que quer dizer com isso?” retorquiu o Duque Wei.

“Em Lu, eles tinham Shan Po, que habitava nas cavernas, e que nada bebia excepto água, e que não rivalizava com os outros pelo proveito como o resto das pessoas,” disse Tien Kai Chih, “e durante setenta anos ele viveu assim e manteve a compleição de uma criança. Então, desafortunadamente, ele deparou-se com um tigre feroz que o atacou e comeu. Vocês têm Chang Yi, que nunca hesitava bater a todas as portas dos ricos e poderosos, e nunca perdeu uma oportunidade de fazer visitas. Prosseguiu assim durante quarenta anos, e contraiu uma febre, adoeceu e em breve morreu. Po cuidou do que era interno e o tigre devorou-lhe o externo, enquanto Yu cuidou da imagem externa e a doença destruiu-o a partir de dentro. Ambos esses mestres não conseguiram manter o seu rebanho unido.”

Confúcio disse: “Não vos escondais no interior, nem se ostentem com o exterior como Yang, mas atenham-se firmemente ao meio termo. Sigam estas três regras e ficarão conhecidos como autênticos. Quando as pessoas se preparam para partir numa viajem perigosa, se ouvirem contar que uma em cada dez pessoas tenha sido morta, então pais e filhos, irmãos velhos e novos todos prevenirão para que tenham cuidado, e não partirão até que tenham uma escolta armada. Isso é sensato, não? Porém, no que toca ao que devia apoquentar de verdade as pessoas - as ideias que surgem quando se encontram despertas na cama durante a noite ou enquanto estão a comer e a beber à mesa - mas elas não compreendem esses avisos – que erro!

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O sacerdote dos antigos, nas suas vestes de corte quadrado, olhou para a pocilga e disse: “Que tem a morte de tão ruim? Eu vou-te engordar durante três meses, depois vou submeter-me a uma disciplina espiritual durante dez dias, jejuar durante três dias, mudar-te a cama, dividir-te os ombros e o traseiro e coloca-los no altar do sacrifício. Decerto que nada tens a dizer acerca disso, tens?”

Contudo, será verdade dizer que, da perspectiva do porco seria melhor comer aveia e farelo e permanecer na pocilga. Também é verdade que, encarando a questão da minha perspectiva, eu gostaria de ser honrado como um funcionário importante e, quando morrer, gostaria de ser enterrado num carro fúnebre, e repousar numa cama de penas. Eu conseguiria viver com isso! Do ponto de vista do porco, eu não daria nada por uma vida assim, mas do meu ponto de vista, eu ficaria muito satisfeito, apesar de me surpreender de perceber as coisas de modo diferente do porco.

O Duque Huan andava a caçar nos campos, acompanhado por Kuan Chung, condutor, quando viram um fantasma. O Duque agarrou a mão de Kuan Chung e disse: “Kuan Chung, que vês tu?” E ele replicou: “Eu não vejo nada.”

O Duque regressou a casa, começou a delirar e adoeceu, e durante uma série de dias não se aventurou a sair. Um erudito de Chi chamado Huang Tzu kao Ao disse: “Senhor, o senhor está a causar isso a si próprio. Como poderia o fantasma ter poder de maldade para o afectar?! Quando o alento vital se dispersa e não se reúne, então dá lugar à fraqueza. Se se elevar e não voltar a descer, tornará um homem mal-humorado. Se descer e não voltar a elevar-se, deixará um homem cronicamente esquecido. Se não se elevar nem descer mas se centrar no corpo, na região do coração, então resultará na doença.
“Será certo que existam fantasmas?” perguntou o Duke Huan.

“Existem coisas dessas,” respondeu. “Nos poços existem os espíritos dos animais lá caídos, a lareira apresenta as salamandras. Na pilha de estrume que fica fora das portas existe outro. A nordeste tem dois; a noroeste tem outro. Há um nas águas, as ondinas; nas colinas há os duendes. Os montes têm os seus próprios, assim como os prados e os pântanos.”

“Poderia perguntar-te com que se parece o fantasma dos pântanos?” disse o Duque.
“O fantasma do pântano é tão gordo quanto o cubo de uma roda, e tão comprido quanto o eixo da carruagem, enverga uma veste púrpura, um chapéu avermelhado e tem um aspecto horrível, como tais coisas normalmente são. Ao ouvir o ruido do vagão ou do relâmpago, segura a cabeça nas mãos e levanta-se. A visão de uma criatura dessas significa que aquele que a vê se tornará num ditador.”
O Duque Huan ficou absolutamente encantado e rindo, e disse: “Então foi esse o homem que eu vi!” Depois, sentou-se, arrumou-se e antes mesmo que o dia terminasse, embora não o tenha percebido, melhorou.

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Chi Hsing Tzu criava galos de combate para o Rei. Dez dias mais tarde ele perguntou: “Os galos estão prontos?”
“Ainda não,” respondeu Chi Hsing Tzu, “Ainda preciso aprimorar-lhes a arrogância e controlar-lhes o espírito.”
Dez dias mais tarde o Rei voltou a perguntar, e ele respondeu: “Ainda não, elas ainda se alarmam com facilidade.” 
Dez dias depois, o Rei voltou a perguntar, e ele respondeu: “Ainda não. Eles ficam deslumbrados consigo próprios, e preciso controlar-lhes o espírito.”
Dez dias mais tarde, o Rei voltou de novo a perguntar e Chi Hsing Tzu respondeu-lhe: “Estão quase. Um galo das vizinhanças pode vangloriar-se que eles não se perturbam: se os visse de longe, diria que parecem galos de madeira. Harmonizaram a virtude, e outros galos não se atreverão a desafiá-las, mas fugirão.”

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Confúcio andava a passear por Lu Liang, onde a queda de água atinge as trinta braças de altura e o rio corre ao longo de umas quarenta milhas, tão rápido que nenhum peixe nem qualquer criatura consegue nadar nas suas águas. De súbito viu alguém que mergulhou e presumiu que esse indivíduo procurasse a morte, motivado por alguma ansiedade, em resultado do que colocou os seus seguidores ao longo da margem e eles prepararam-se para o sacar das águas.

Confúcio procurou-o e disse: "Pensei que fosse um fantasma, mas agora vejo, senhor, que não. Quero perguntar-lhe se terá algum modo especial para nadar debaixo de água."
Ele respondeu: "Não, não tenho modo especial nenhum. Eu comecei com aquilo que me era natural, amadureci a minha natureza inata, e permiti que o destino fizesse o resto. Deixo-me levar pelas correntes e com a corrente saio, deixando-me levar pela água sem nunca me preocupar. É assim que sobrevivo."

Confúcio disse: "Que quis dizer quando disse que começou com aquilo que lh era natural, amadureceu a natureza inata e permitiu que o destino fizesse o resto?"
Ele respondeu: "Eu nasci em terra seca e sentia-me contente na terra onde conhecia aquilo que conhecia, ou natureza inata. Fui alimentado pelas águas e senti-me seguro nelas: isso reflecte a minha natureza inata. Não estou certo da razão porque faço isto, mas estou certo de ser o destino."

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O Entalhador Ching entalhou uma peça de madeira para criar suporte a um sino, e aqueles que presenciaram isso ficaram admirados por parecer que tivesse sido feito por fantasmas ou espíritos. O Marquês de Lu viu-o e perguntou: "De onde lhe vem o engenho?"
"Eu sou só um entalhador," replicou Ching. "Como poderia ter engenho? Contudo, uma coisa é certa, quando esculpo um suporte de sino, não permito que me esgote o sopro vital, de modo que me preocupo por apaziguar o coração. Depois de ter jejuado durante três dias, não mais pensei no louvor nem no elogio, na recompensa, títulos ou renda. 

Depois de ter jejuado pro cinco dias, deixei de me preocupar com glória ou responsabilidade, destreza ou estupidez. Depois de ter jejuado por sete dias sinto-me tão calmo que esqueci se tenho quatro membros e um corpo. Por essa altura o Duque e a sua corte terão deixado de existir no que me diz respeito. Toda a minha energia é concentrada e as preocupações externas desaparecem. Depois disso parto e penetro na floresta do monte, e exploro a natureza celeste inata das árvores; assim que dou com uma que apresente a forma perfeita, consigo vislumbrar a possibilidade de um suporte de sino e deito mão à obra; caso não consiga descortinar a possibilidade, deixo-a em paz. Assim procedendo, harmonizo o espiritual com o celeste, e talvez seja por isso que achem que os meus entalhes sejam feitos por espíritos."

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Tung Yeh Chi estava a exibir a perícia que tinha na condução de cavalos ao Duque Chuang. Ele conduzia para cima e para baixo mantendo um alinhamento semelhante ao do fio-de-prumo, e voltava à esquerda e à direita com a graça e a precisão do compasso. O Duque Chuang ficou impressionado e achou que ninguém conseguiria melhor, pelo que lhe deu ordem para percorrer mais uns cem circuitos.
Yen Ho passou por ali e foi ver o Duque, dizendo: "Os cavalos de Chi estão quase esgotados." Mas o Duque nada disse. Pouco tempo depois, os cavalos ficaram esgotados e o Duque disse: "Senhor, como sabia que isto iria suceder?" Ho respondeu: "As energias dos cavalos estavam quase exauridas mas ele continuou a exigir mais deles. Foi por isso que disse que entrariam em colapso."

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O Trabalhador Chui conseguia desenhar tão direito quanto com um esquadro ou fazer curvas como com compasso, por os dedos conseguirem acompanhar as mudanças sem que o seu íntimo o obstruísse. Desse modo tinha a mente em harmonia e jamais bloqueada. Quando se caminho com um calçado confortável pode-se esquecer os pés. A cintura pode ser esquecida quando se aperta o cinto de modo a causar conforto. O conhecimento pode conduzir ao esquecimento do sim e do não, caso o coração siga contente. Nada muda dentro, nada procede do exterior, caso se reaja ao que acontece com contentamento. Começando pelo que traz contentamento, e sem se submeter àquilo que é perturbador, é possível chegar-se a conhecer a satisfação de esquecer em que consiste o contentamento.

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Havia um homem chamado Sun Hsiu que veio até aos portões do Mestre Pien Ching Tzu apelar-lhe, e disse: "Eu costumava viver no campo e ninguém que eu tenha encontrado alguma vez disse que eu não vivia adequadamente, nem tão pouco ninguém que tenha conhecido disse que, uma vez confrontado com problemas, eu não tenha demonstrado força de espírito. Contudo, quando trabalhava nos campos, as colheitas jamais saiam boas, e quando trabalhava para o governante, as coisas não andavam bem para avanços. Por isso fui expulso do campo e exilado da corte, contudo qual será a natureza da ofensa que tenha cometido contra os Céu? De que modo este infortúnio se tornou na minha sina?"

Ching Tzu respondeu: "Senhor, não ouviu falar do comportamento do homem perfeito? Ele esquece fígado e intestinos e despreza ouvidos e olhos. Sem objectivo definido ele serpenteia por entre os escombros. Aquilo em que é bom é em nada fazer. De facto a isso se chama existir mas não esperar qualquer recompensa, educar sem controlar. Você exibe os seus conhecimentos a fim de impressionar os tolos; luta pela fama para acentuar o distanciamento que tem sobre os outros, procurando um polimento de modo a parecer tão brilhante quanto o sol ou a lua. Até agora criou harmonia com o corpo, ao dispor das nove aberturas do costume, e não foi atingido no decorrer da vida pela cegueira ou pela surdez, pela imperfeição nem pela deformação pelo que, em comparação com muitos, é afortunado. Assim, porque anda por aí a resmungar acerca do Céu? Desapareça, senhor!"

O Mestre Sun deixou-os. O Mestre Pien chegou, sentou-se e repousou, após o que voltou o rosto para o Céu e soltou um lamento. O seu discípulo disse: "Professor, porque está a lamentar-se?"
Mestre Pien disse: "Eu recebi uma visita de Hsiu e falai-lhe da Virtude do homem perfeito. Receio que tenha ficado perturbado e tenha acabado completamente confuso."

O seu discípulo disse: "Não necessariamente. Não foram as palavras do Mestre Sun correctas? As palavras do nosso Mestre foram erradas? Caso tenham sido, então nada as corrigirão. Mas, e caso as palavras do Mestre Sun tenham sido inadequadas, e as do nosso Professor adequadas? Isso quererá dizer que ele já se encontrava confuso, de modo que qual terá sido o dano?!"

O Mestre Pien disse: "Não entendes. Certa vez um pássaro pousou na periferia da cidade capital de Lu. O governante de Lu ficou tão contente que lhe preparou um sacrifício especial e mandou que tocassem a música Nine Shao para a entreter. O pássaro sentiu-se angustiado e aturdido e deixou de comer e de beber. A isso se chama procurar sustentar um pássaro com o nosso sustento. Se quiserem alimentar um pássaro, então deixem que vá para o meio da floresta, ou que esvoace sobre as águas e cace cobras. É isso o que os pássaros querem. Agora, Hsiu é um tolo e ouviu falar muito pouco, pelo que quando procuro contar-lhe sobre a virtude do homem perfeito, é como se eu tentasse levar um rato a passear numa carruagem puxada por cavalos, ou tentasse deixar uma codorniz satisfeita entoando-lhe sons de campainhas e tambores. Não é de surpreender que ele ficasse atónito!"

CAPÍTULO 20
A ÁRVORE DA MONTANHA

CHUANG TZU CAMINHAVA PELOS MONTES quando viu uma enorme árvore de ramos grossos e folhas exuberantes. Uns lenhadores pararam a seu lado, mas não deram qualquer sinal de que a iam cortar. Quando Chuang Tzu lhes perguntou do motivo, eles responderam: "Não há nada para que possa ser usada!" Chuang Tzu disse: "Por causa da sua inutilidade, esta árvore é capaz de viver os anos que o céu lhe concedeu."

Ao descer da montanha, o Mestre parou para pernoitar em casa de um velho amigo. O amigo, encantado, ordenou ao seu filho que matasse um ganso e o preparasse." Um dos gansos pode grasnar e o outro não," disse o filho. "Posso perguntar, qual deverei matar?"

"Mata o que não consegue grasnar," disse o anfitrião.

No dia seguinte, os discípulos de Chuang Tzu questionaram-no: "Ontem, foi a árvore no monte que consegue viver os anos que o céu lhe concedeu por causa da sua inutilidade. Hoje, o ganso do nosso anfitrião foi morto por causa de sua utilidade. Que posição você toma neste caso, mestre?"

Chuang Tzu riu e disse: "Provavelmente tomo a posição intermédia entre o valor e a inutilidade. Mas a posição intermédia entre o valor e a inutilidade, embora pareça ser uma posição confortável, na verdade não é, por nunca nos inevitavelmente apresentar problemas. Contudo, seria muito diferente, se pudéssemos viver segundo a Natureza pois assim não haveria elogio nem censura, e seríamos como um dragão nas alturas num momento, ou uma cobra a rastejar noutro momento. Tudo mudaria com o tempo e o local, e não haveria regra fixa para coisa nenhuma, mas contentar-nos-iamos em avançar numa altura e em nos retirarmos noutra altura. Por regra preservem a harmonia com a natureza e deixem que as vossas ideias alcancem a origem das coisas. Tornai-vos mestres das coisas externas, mas não permitais que elas os dominem. Então, nada será enfadonho. Esta é a regra, o método de Shen Nung e do Imperador Amarelo. 

Contudo, na prática não é esta a realidade que constatamos, nem é esta a doutrina que se ensina entre os homens, pelo que a situação muda de figura. Assim, o que se junta será disperso e o que estiver completo ver-se-á desmantelado, e o que tiver sido ganho conhecerá a sua correspondente perda. Quem quer que tenha sido honrado ver-se-á rebaixado, e quem tiver obtido sucesso será alvo de censura, e quem tiver alcançado o mérito será desacreditado, e quem for inútil será insultado. Como conseguir estabilidade e paz? Lembrem-se, discípulos meus, de aceitarem o que vem naturalmente."

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Shinan Yiliao do sul da capital foi visitar o marquês de Lu. O marquês apresentava um aspecto muito triste. "Por que esse olhar tão preocupado?" Perguntou o Mestre do sul do mercado.

O marquês de Lu disse: "Estudei a sabedoria dos antigos reis e imperadores, e exercitei-me nas práticas dos meus ancestrais, respeito os espíritos, honro os homens de mérito, tenho intimidade com eles, sigo os seus conselhos e nem por um instante deixo de os seguir. mas ainda assim parece que não consigo evitar os males. Por isso me sinto tão triste."

O Mestre do Sul da capital disse: "A técnica que vossa alteza usa para evitar os males é muito superficial. A raposa e o leopardo de manchas elegantes habitam na floresta da montanha e abrigam-se nas cavernas dos penhascos - em função do seu sossego. Eles saem para o exterior pela noite, mas ficam emboscadas na toca durante o dia - em função da precaução. Quando a fome, a sede os pressionem, eles percorrem um longo caminho para encontrar comida junto dos rios e lagos - em função da sua subsistência. E, no entanto, parecem não conseguir escapar do infortúnio das redes e armadilhas. De quem será a culpa? O seu pelo é a causa da sua desgraça. Agora, não será este estado de Lu a sua pele? Eu desejaria que descartasse a consciência que tem de si, se livrasse dessa pele, purificasse o seu espírito, acabasse com o desejo e de seguida vagueasse pelos campos.

"Em Nan-Yueh há uma cidade cujo nome é A Terra da Virtude Estabelecida. A sua população é tola e ingênua, é pouco propensa a pensar em si próprio e possui escassos desejos. Eles sabem lavrar, mas não sabem armazenar; eles dão livremente, mas nada buscam em troca. Eles não sabem o que fazer com a justiça, nem sabem para que serve o ritual. Toscos, desinibidos, mexem-se de forma irrestrita - e assim seguem o caminho do Grande Tao. O nascimento para eles trás alegria, a morte, um bom funeral. Assim, eu desejaria que pusesse o seu estado para trás das costas, que rompesse com os bons costumes e que caminhe com o Tao."

O governante de Lu disse: "O caminho é longo e perigoso. Além disso, existem rios e montanhas pelo meio e eu não tenho barco nem carruagem. O que posso fazer?"

O Mestre do Sul da capital disse: "Rejeite os imperativos, e os convencionalismos e mantenha a abertura de espírito - faça disso a sua carruagem."

Mas o governante de Lu disse: "O caminho é solitário e longo e não encontro ninguém que me acompanhe. Quem terei por companheiro no caminho? Quando se me acabar a ração, nem terei nada que comer; como eu poderei chegar ao meu destino?"

O Mestre do Sul do Mercado disse: "Diminua os gastos e reduza as ambições, que assim, mesmo sem provisões, poderá encontrar o suficiente. E poderá andar pelos rios e cruzar o mar. Olhará ao redor mas não verá o seu término; quanto mais longe chegar melhor irá distinguindo o infinito. Aqueles que o tiverem acompanhado, irão todos voltar às suas casas; e vossa majestade terá chegado verdadeiramente longe.

"Aquele que for senhor dos homens conhecerá o infortúnio de se ver restringido por eles; o que se tornar subserviente conhecerá apuros. Assim, o rei Yao não tinha subservientes nem se permitia tornar subserviente. Por isso, eu quisera que se livrasse das dificuldades, rejeitasse os seus cuidados e vagasse sozinho com o Caminho pela Terra do Grande Silêncio.

"Se um homem amarrar dois barcos juntos, e estiver a atravessar um rio, e acontecer um barco vazio bater nele, por mais temperamental que o homem seja, ele não se irritará. Mas se o outro barco levar alguém, então ele gritará e dir-lhe-á para ver por onde anda. E se o primeiro grito não for ouvido, ele gritará de novo, e se não for ouvido uma vez mais, ele gritará uma terceira vez, e desta far-se-á acompanhar de uma torrente de imprecações. A razão para não mostrar raiva no primeiro caso e já mostrar no segundo deve-se a que anteriormente ele enfrentasse o vazio, e agora enfrente um ocupante. Se um homem conseguisse manter-se interiormente vazio e assim perambular pelo mundo, então quem o poderia prejudicar?" 

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Pei Kung She andava a angariar fundos para o Duke Ling de Wei, para mandar fazer um conjunto de sinos. Ele construiu uma plataforma fora dos portões da cidade e, no espaço de três meses, os sinos ficaram concluídos, tanto no nível superior como no inferior. O príncipe Ching-Chi, observando-o, perguntou: "Que arte é que domina?"

Pei Kung She respondeu: "Tudo foi feito naturalmente, sem promessa nem pressão. Ouvi dizer que, quando tivermos passado pela talha e pelo polimento, tudo volta à simplicidade. Embotado, não tenho entendimento, ando despreocupado, permaneço na ociosidade. Não encorajo a contribuição nem persuado os que não querem contribuir, despeço-me dos que passam ao largo, acolho os que vêm ao meu encontro, pois os que vêm não podem ser negados, e os que passam não pode ser retidos. Consinto os rudes e os fortes, sigo os mansos e os que se acomodam, e deixo que cada um atinja o seu próprio fim. Assim me ocupo de manhã até à noite sem enfrentar nenhum contratempo. Quanto mais não seria isso verdade, pois, no caso de um homem que tenha compreendido a Grande Via?" 

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Confucius foi assediado entre Chen e Tsai, e por sete dias ele não comeu nada que fosse cozinhado. Tai Kung Jen foi apresentar-lhe a sua simpatia. 

"Parece que esteve perto da morte," disse ele.

"Certamente."

"Não abomina a ideia de morrer?"

"Certamente!"

Jen disse: "Então, deixe-me tentar revelar-lhe uma maneira de atingir a imortalidade. No mar do leste há um pássaro e seu nome é Indiferente. Ele move-se lentamente, como se não tivesse forças. Precisa ser ajudado a alçar voo, e precisa de ajuda para voltar ao ninho. Nunca se atreve a ser o primeiro a avançar, nunca se atreve a seguir em último. Ao comer, nunca se aventura a dar a primeira mordidela, mas escolhe apenas as sobras. Então, quando ele não será afastado pelos outros, nem prejudicado pelos homens. Dessa forma escapa ele ao desastre. A árvore de tronco direito será a primeira a ser derrubada, o poço de água doce é o primeiro a secar.

"Agora você exibe a sua sabedoria de modo a surpreender os ignorantes, aperfeiçoa a sua boa conduta de modo a poder apontar os defeitos dos outros, anda por aí a exibir-se e a resplandecer como se carregasse o sol e a lua na mão! É por isso que você não pode escapar ao perigo!

"Ouvi dizer que o Homem Realizado diz:" A jactância não é sinal de sucesso; aquele que alcançar o sucesso, perde-lo-á; aquele que alcançar a fama perde-la-á. Quem consegue restituir o sucesso e a fama ao vulgo? O Caminho flui amplamente, mas ele não tem consciência de si; a Virtude move-se por toda a parte, mas ela não ostenta o seu nome. 
Ser simples e comum parece estarjuntar-se aos mentecaptos. Abandone a sua posição, livre-se da sua autoridade, não trabalhe em função do sucesso nem da fama. Assim, não tem motivo para culpar os outros, nem os outros para o culpar a si. O homem perfeito não procura a reputação. Por que, pois, você se deleita nisso também?"

"Excelente!" exclamou Confúcio. Assim, ele retirou-se dos seus amigos e associados, despediu os discípulos e afastou-se para o deserto, e passou a envergar peles e pano grosseiro e a viver de bolotas e castanhas. Ele pode andar entre os animais sem alarmar os rebanhos, caminhar entre os pássaros sem espantar os bandos. E, se nem mesmo os pássaros e os animais se ressentiam dele, quanto mais os homens!

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Confúcio disse ao Mestre Sang Hu: "Duas vezes fui expulso de Lu. O povo abateu a minha árvore predileta em Sung, apagou os vestígios da minha presença em Wei, causou-me problemas em Shang e Chou e sitiou-me entre Chen e Tsai - e deparei-me com muitas calamidades. Os meus parentes e associados afastaram-se cada vez mais, os meus amigos e seguidores abandonaram-me um atrás do outro. A que se deverá isso?"

O Mestre Sang Hu disse: "Nunca ouviu falar sobre Lin Hui, o homem que fugiu de Chia? Ele jogou fora o disco de jade que tinha que valia mil medidas de ouro, amarrou o filho pequenino que tinha às costas e apressou-se a partir. Alguém lhe disse: "Você pensou em termos de valores? Decerto que uma criança pequena não vale tanto dinheiro! Ou pensou em termos de incómodo? Mas uma criança pequena constitui um grande incómodo! Por que jogar fora um disco de jade no valor de mil medidas de ouro e apressar-se a fugir com uma criança pequena às costas? Porquê?”

Lin Hui respondeu: "O que me unia ao disco de jade assentava no proveito, mas a ligação que tenho com o pequeno assenta no Céu. As coisas juntas em função do lucro, quando pressionadas pelo infortúnio e pelo perigo, separar-se-ão, mas as coisas reunidas pelo Céu, quando pressionadas pelo infortúnio e pelo perigo, apegar-se-ão umas às outras. Há uma verdadeira distinção entre a separação e a união.

"A amizade de um homem virtuoso, segundo dizem, é insípida como a água; a de um homem mesquinho e mau, é doce quanto o vinho doce. Mas a insipidez do homem de virtude leva ao afecto, enquanto a doçura do homem insignificante conduz à repugnância. Aqueles cuja união não tiver tido bons motivos também não terão bons motivos para se afastar."

Confúcio disse: "Eu farei o meu melhor para honrar as suas instruções!" E assim, com passos sem pressa e de forma gratuita e fácil, ele regressou a casa. Abandonou os estudos, distribuiu os livros, e os discípulos deixaram de vir curvar-se diante dele, mas o carinho que tinham por ele era maior do que nunca.

Outro dia, o Mestre Sang Hu também disse: "Quando o rei Shun estava prestes a morrer, ele cuidadosamente" instruiu Yu com as seguintes palavras:
"Presta atenção ao que te digo! O formal é menos fiável do que o racional; o sentimental é menos fiável do que o que é fiel. O melhor é que tua conduta exterior se acomode e no teu sentimento interior sigas o natural; se fores acomodado não se separarão as pessoas de ti, e se fores natural evitarás a fadiga. E quando não há separação nem fadiga, então não precisamos buscar nenhum adorno exterior nem depender da vaidade. E quando não procuramos mais o adorno nem depende da vaidade, teremos de facto deixado de depender de tudo quanto é material." 

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Chuang Tzu envergava a sua túnica de pano grosseiro com remendos, atava os sapatos com cânhamo para evitar que eles saíssem dos pés e foi recorrer ao rei de Wei.
"Credo, senhor, você parece estar mesmo desesperado!" disse o rei de Wei.

Chuang Tzu disse: "Eu sou pobre, mas não me encontro angustiado! Quando um homem conhece o Caminho e a Virtude, mas não consegue pô-los em prática, aí sim, ele está angustiado. Quando as suas roupas se encontram em ruínas e os seus sapatos gastos, então ele é pobre, mas não está desesperado. Isso representa o que se diz não se deparar com tempos favoráveis. Sua Majestade nunca observou os macacos saltitões? Se conseguirem alcançar os cedros altos, as Catalpas ou as Canforeiras, eles põem-se a baloiçar e a saltar com os seus membros, a divertir-se e a fazer travessuras no seu meio, e até mesmo os famosos arqueiros Yi ou Peng Meng não conseguem tê-los na mira por muito tempo. Mas quando se encontram entre os arbustos, as amoreiras pretas, os espinheiros espinhosos, eles precisam mexer-se com cautela, olhar para um lado e para o outro, com receio. Não é que tenham ficado com os ossos e tendões rígidos e tenham perdido a flexibilidade. É simplesmente por os macacos se encontrarem numa posição difícil e desvantajosa onde não podem exercer a sua capacidade ao máximo. Agora, se eu precisar viver sob um governante ignorante e entre ministros traidores e ainda esperar escapar da angústia, que esperança terei de o conseguir? Foi por isso que Pi Kan teve o seu coração arrancado – isso ilustra bem o que quero dizer!" 

(Pi Kan fora o tio de um governante cruel do Estado de Shang 1154-1123 que, irritado com a firme admoestação de seu tio, mandou tirar-lhe o coração e dissecá-lo para ver o aspecto de um homem amável)

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Confúcio teve problemas entre as povoações de Chen e Tsai, onde se viu sitiado, e durante sete dias não comeu comida preparada. Apoiou o braço esquerdo contra uma árvore murcha, com os dedos da mão direita a bater de forma ritmada num ramo murcho, enquanto entoava o canto do senhor de Ien, Cheng Nung. As batidas que fazia com os dedos no ramo forneciam-lhe um acompanhamento, mas não apresentavam ritmo; o canto apresentava melodia, mas nenhum acorde que se enquadrasse nas categorias tonais usuais de Kung ou Chueh. O tamborilar no ramo da árvore e a voz do cantor revelavam paixão por acalmarem o coração dos ouvintes.

Yen Hui, de pé com as mãos respeitosamente cruzadas no peito, olhava em volta a ver a impressão que o mestre produzia, e depois olhou inquisitivamente para Confúcio. Confúcio, com receio de que o respeito que Yen Hui tinha por si próprio o levasse ao exagero e ao orgulho, e que o afecto que tinha por ele o levasse a lamentar-se, disse-lhe:

"Hui! É fácil mostrar-se indiferente com o que a natureza nos tira, que nos pertença, mas é difícil ficar indiferente para com o que os homens nos lançam que não tenha que ver connosco. Não há começo que não tenha o seu fim. Homem e Céu são um. Quem é, pois, que entoa este canto agora senão a natureza?"

Hui disse: "Posso-me aventurar a perguntar o que quer dizer quando diz que é fácil permanecer indiferente para com o que a natureza nos tira?"

Confúcio disse: "A fome, a sede, o frio, o calor, adversidades e impedimentos - são coisa do Céu e da Terra, a mudança das coisas que se acham em constante movimento. Há que acompanhá-las. Aquele que é súbdito não se atreve a refutar as ordens do seu amo. E se essa é a regra de todo súbdito, quanto mais não será com aquele que depende da natureza!"

"E o que quer dizer quando diz que é difícil permanecer indiferente para com o que os homens nos lançam?"

Confúcio respondeu: "Um homem dedica-se a uma carreira, e se tiver uma oportunidade começará a ter êxito em todas os sentidos. Obtém títulos e estipêndios sem fim, mas não passam de meros vantagens e proveitos que nada têm que ver com a pessoa em si mesma. Quanto a mim, o meu destino está fora de mim. Um homem de virtude não cometerá furto nem um homem digno não se tornará usurpador. Porque tentaria eu tentar adquirir tais privilégios? Por isso se diz: Não há pássaro mais sábio do que a andorinha. Se não vir local que lhe convenha, passa adiante. Se acontecer de se soltar o alimento que leva no bico, ela deixa-o e segue o caminho. Desconfia dos homens, e contudo vive entre eles, e do mesmo modo que os homens, encontra morada e sustento nos altares da aldeia, no solo e no grão."

"E o que quer dizer, com isso de:" Não existir começo que não tenha o seu fim?"

Confúcio disse: "Há um ser que transforma as dez mil coisas, mas não sabemos como ele opera tais mudanças. Como saberemos o que seja um fim? Como saberemos o que seja um começo? A única que nos resta fazer é apenas contentar-nos em esperar!"

"E que quer dizer com isso de: "O homem e o céu são um só?"

Confúcio disse: "O homem existe por causa da natureza. As coisas naturais também existem por causa da natureza. Mas o homem não pode fazer o que não cabe na sua posse, o que se deve às limitações da sua natureza inata. Somente o sábio, calmo e tranquilo, pode completar a mudança em pleno acordo com a natureza." 

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Chuang Tzu andava a passear pelo parque em Tiao Ling quando viu um peculiar tipo de pega que vinha a voar do sul. Tinha uma amplitude de asa de sete pés e os seus olhos tinham uma boa polegada de diâmetro. Ele roçou a testa de Chuang Tzu e depois foi-se instalar num bosque de castanheiros. "Que tipo de pássaro é este?" exclamou Chuang Tzu. "que tem umas asas enormes, mas que é incapaz de voar, tem uns olhos enormes, mas nem sequer pode ver por onde anda!" Então ele ergueu o manto, avançou, aprontou o arco e preparou-se para apontar a flecha. Ao fazê-lo, ele viu uma cigarra que tinha encontrado um lindo lugar à sombra e que esquecera todo perigo em que pudesse incorrer. Por trás dela, viu um louva-a-deus que, de garras estendidas, se preparava para agarrar a cigarra, que também esquecera o perigo, de tão concentrada que esteva na sua presa. A pega peculiar estava mais para atrás, mas estava preparada para apanhar o louva-a-deus, esquecendo-se da própria segurança, ao fixar os seus olhos na perspectiva do que estava para conquistar. Chuang Tzu, estremecendo à visão daquilo, disse: "Ah! - os seres vivos só causam problemas uns aos outros - cada uma destas criaturas convida o próprio desastre!" Ele jogou o arco ao chão, virou-se e apressou-se a sair do parque, mas o guarda do parque, tomando-o por um caçador, correu atrás dele com brados e imprecações.

Chuang Tzu voltou para casa e por três meses aparentou um ar infeliz. "Lin Chu no decurso do trato das necessidades de seu mestre, questionou-o, dizendo:" Mestre, por que anda tão infeliz por estes dias?"

Chuang Tzu disse: "Ao me apegar à forma externa, esqueci-me de mim próprio. Ao observar as águas pantanosas, enganei-me e tomei-as por uma lagoa de água clara. Além disso, ouvi o meu Mestre dizer: "Quando andares entre o vulgo, segue as suas regras! Eu andei a vaguear por Tiao Ling e esqueci-me da minha própria vida. Uma pega peculiar embateu na minha testa e foi para o bosque dos castanheiros, e aí negligenciou a sua existência. E o guardião do bosque de castanheiros, para minha grande vergonha, tomou-me por um intruso e encheu-me de insultos! É por isso que me sinto infeliz."

Yang Tzu, a caminho de Sung, parou numa pousada para passar a noite. O estalajadeiro tinha duas concubinas, uma linda e outra feia. Mas a feia foi tratada como uma dama de posição, enquanto a bela era menosprezada e tratada como uma serviçal. Quando Yang Tzu perguntou o motivo daquilo, um jovem garoto da pousada respondeu: "O belo tem demasiada consciência da sua beleza, de modo que não pensamos nela como tão bonita. A feia está demasiado consciente da fealdade que a caracteriza, de modo que não nos leva a achá-la feia."

Yang Tzu disse: "Lembrem-se disto, meus alunos! Se vocês agirem com dignidade, mas se livrarem da consciência de estar a agir de forma digna, então, onde poderão vocês ir, que não sejam amados?"

CAPÍTULO 21
TIEN TZU-FANG

T'IEN TZU-FANG estava ao serviço do Marquês Wen de Wei. Quando ele repetidamente elogiou um tal Chi Kung, o Marquês Wen perguntou: "É Chi Kung seu mestre?"

"Não," respondeu Tzu Fang. "Ele é do mesmo bairro que eu. Ao discutir o Caminho com ele, descobri que ele muitas vezes acerta - é por isso que o elogio."

"Então você não tem mestre?" Perguntou o Marquês Wen.

"Tenho," disse Tzu Fang.

"Quem é o seu mestre?"

"Mestre Shun da parte oriental," disse Tzu Fang.

"Então por que nunca o elogiou?" Perguntou o Marquês Wen.

Tzu Fang disse: "Ele é de facto um homem Verdadeiro - possui a aparência de homem, mas a amplidão do Céu. Ele segue o seu caminho e mantém-se firme no Verdadeiro; no estado puro do vazio, ele consegue abranger todas as coisas. Se os homens não têm o Caminho, ele só precisa adoptar um aspecto grave e ficam logo iluminados; ele leva-as a diluir as ilusões que têm. Mas de que valerá louvar isso?!"

Tzu Fang retirou-se da sala e o Marquês Wen, estupefacto, sentou-se durante o resto do dia em silêncio. Então, ele chamou os ministros que tinha ao seu serviço e disse: "Quão longe nos encontramos - da Completa Virtude! Eu costumava pensar que as palavras da sabedoria dos sábios e os actos de benevolência e de justiça representavam o mais alto ideal. Mas agora que ouvi falar do mestre de Tzu Fang, o meu corpo ficou desarticulado e não sinto mais vontade de me mexer, tenho a boca presa e não sinto mais vontade de falar. Essas coisas que tenho vindo a estudar não passam de bonecas de barro - nada mais! Este Estado de Wei, na verdade, não passa de um mero fardo para mim!" 

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Ao viajar para Chi, Wen Po Hsueh Tzu, parou no caminho no Estado de Lu. Um homem de Lu pediu para o entrevistar, mas Wen Po Hsueh Tzu disse: "Não me é possível! Ouvi dizer que os homens de virtude desses Estados do Meio (China) - são esclarecidos nas questões dos princípios rituais, mas muito embotados na compreensão que tem da natureza do homem. Não tenho vontade de estar com eles."

Ele chegou ao seu destino em Chi, e a caminho de casa, parou de novo em Lu, quando o homem mais uma vez lhe rogou por uma entrevista. Wen Po Hsueh Tzu disse: "No passado eles tentaram ver-me, e agora estão de novo a tentar. Sem dúvida que devem ter algum meio pelo qual me esperem inspirar.

Ele saiu a acolher os visitantes e voltou para os seus próprios aposentos com um suspiro. No dia seguinte, ele recebeu outro visitante uma vez mais e mais uma vez regressou com um suspiro. O seu servo disse: "Toda vez que você recebe um visitante, você volta a suspirar. A que se deve isso?"

"Eu disse-te antes, não? Estes homens dos Estados do Meio acham-se esclarecidos quanto aos princípios rituais, mas são embotados quanto à compreensão da natureza do homem. Ontem, quando esse homem veio me ver, agiu em tão perfeito acordo com o protocolo tanto ao entrar como ao sair que parecia marcados por um compasso ou um esquadro. Adoptou o semblante de um dragão e a atitude de um tigre. Ele protestou comigo como se fosse meu filho e ofereceu-me conselho como se fosse meu pai! Foi por isso que suspirei."

Confúcio também foi entrevistar Wen Po Hsueh Tzu, mas voltou sem ter dito palavra. Tzu Lu disse: "Você tem querido ver Yen Po Hsueh Tzu faz tempo. E agora que teve uma oportunidade de o visitar, por que você não disse nada?"

Confúcio respondeu-lhe: "Com esse tipo de homem, um olhar diz-nos que o Caminho está aí diante de nós. Que lugar isso nos deixará a qualquer possibilidade de falar?" 

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Yen Yuan disse a Confúcio: "Mestre, quando você caminha, eu caminho; quando você acelera, eu também acelero, quando você corre, eu também corro. Mas quando você alça voo e desaparece, tudo quanto posso fazer é observá-lo atónito!"

"Hui, do que é que está a falar?" perguntou o Mestre.

"Quando você anda, eu ando - ou seja, eu posso falar como você fala. Quando você acelera, eu também acelero - ou seja, eu consigo fazer discriminações como você. Quando você corre, eu também corro - isto é, consigo expor sobre o Caminho como você faz. Mas quando alça voo e levanta o pó atrás de si, tudo quanto posso fazer é olhar para você com espanto - com isso quero dizer que você não precisa falar para ganhar a confiança dos outros, toda a gente respeita a universalidade e falta de preconceito que denota, "e, apesar de não possuir posição oficial, as pessoas ainda se reúnem ao seu redor, e com tudo isso, ainda não entendo como o consegue."

"Ah," disse Confúcio, "como isso é simples! Não há sofrimento maior do que a morte do espírito - comparado a isso, a morte do corpo é uma questão de menor monta. O sol nasce no leste, põe-se no cabo do oeste, e cada uma das dez mil coisas se move a par com ele. As criaturas dependem do sol para ser bem-sucedidas. O facto de surge pela manhã significa que elas trabalham; quando se põe elas repousam. É assim com todas as dez mil coisas. Após um compasso de espera podem morrer, e após outro compasso de espera podem viver. Tendo recebido esta forma corporal fixa, mantemo-la imutável, e deixamos que chegue o fim. Entretanto, deixamo-nos mover pelas outras coisas, dia e noite sem interrupção, e não sabemos quando virá esse fim. Não sabendo o que o destino nos reserva, acompanhamos as mudanças diárias. É assim que procedo, dia após dia.

"Eu atravessei a vida de braço dado contigo, mas ainda não me compreendes - isso não será triste? Começas agora a viver o exemplo que dei - mas essa parte já terminou para mim. Que tu ainda a procures, pensando que ainda existe, é como procurar um cavalo depois que a cavalgada tenha terminado. Eu servir-te-ei melhor quando te tiver esquecido por completo, e tu também me servirás melhor quando me tiveres esquecido por completo. Mesmo assim, nada tens a recear? Mesmo que esqueças o meu velho eu, ainda possuo algo que não será esquecido!"  

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Confúcio foi ligar apelar a Lao Tzu. Lao Tzu acabara de lavar os cabelos e estendia-os sobre os ombros a secar. Completamente imóvel, ele nem parecia ser humano. Confúcio, escondido da vista, ficou à espera e, depois de algum tempo, apresentou-se exclamando: "Estarão os meus olhos a pregar-me partidas, ou será o que vejo realmente verdade? Um momento atrás, Senhor, a sua forma e o seu corpo pareciam rígidos como uma velha árvore morta, como se tivesse esquecido as coisas, tivesse deixado os homens e estivesse postado na própria solidão!"

Lao Tzu disse: "Eu deixava a minha mente vagar pelo começo das coisas."

"O que significa isso?" Perguntou Confúcio.

"Quando ficamos com a mente barrada, não chegamos a compreender; ficamos de boca aberta, mas não conseguimos falar. No entanto, vou tentar explicá-lo em traços largos.

"Quando o Yin (obscuridade, feminino) se desenvolve ao extremo torna-se obscuro e frígido; quando o Yang (luz, masculino) se desenvolve ao extremo torna-se quente e cintilante. A obscuridade e a frigidez vêm do céu, o calor e a cintilação emergem da terra; os dois misturam-se, interpenetram-se, juntam-se, harmonizam-se e fazem brotar todas as coisas. Isso poderá mostrar a regularidade da natureza, mas ninguém jamais viu a forma como o faz. Decadência, crescimento, plenitude, vazio, ora turvo, ora brilhante, o movimento do sol, a mudança da lua - dia após dia, essas coisas prosseguem, mas ninguém vê quem as produz. A vida tem o seu germinar, a morte é o seu destino, o fim e o início alternam-se um ao outro numa rodada ininterrupta, e ninguém alguma vez ouviu dizer que isso tenha um fim. Se não é como eu digo, então quem mais poderia ter originado tudo isso?"

Confúcio perguntou: "Posso perguntar em que condições se chega a vagar por essas bandas?"

Lao Tzu disse: "Quando alcançamos a beleza perfeita e a felicidade perfeita. Aquele que alcançou a beleza perfeita e vagueia pela felicidade perfeita pode ser chamado de homem realizado."

Confúcio disse: "Eu gostaria de saber como consegui-lo."

"As bestas que se alimentam da erva não se preocupam com uma mudança de pasto; as criaturas que vivem na água não se preocupam com uma mudança do riacho. Elas aceitam as mudanças periféricas conquanto as necessidades mais importante não sejam afectadas. Sê como elas, e alegria, raiva, tristeza e felicidade nunca poderão encontrar assento no teu coração. Neste mundo, todas as dez mil coisas têm um denominador comum, e se conseguires descobrir esse denominador comum e aplicá-lo a tudo por igual, então os teus braços e pernas e as tuas cem articulações irão tornar-se como a poeira e o lixo, a vida e a morte seguir-se-ão naturalmente, o começo e o fim serão como a dia e a noite, e nada poderá perturbar-te – quanto mais as contingências como ganho e perda, boa ou má fortuna!

"Um homem tem que sacudir a posição do mesmo modo que sacode o pó ou a lama, pois ele sabe que a sua própria pessoa é mais valiosa do que a posição social. O valor está dentro de si mesmo e nenhuma mudança externa o levará à perdição. E uma vez que as dez mil transformações prosseguem sem começo nem fim, como elas poderiam ser suficientes para lhe trazer ansiedade à mente? Quem pratica o caminho entende tudo isso." 

Confúcio disse: "A sua virtude, senhor, é a própria equivalência do céu e da terra, e se mesmo você precisa usar esses ensinamentos perfeitos para cultivar o espírito, quem, pois, entre os homens perfeitos do passado poderiam tê-lo superado?"

"Não é verdade!" Disse Lao Tzu. "A água brota espontaneamente, não é algo que faça deliberadamente nem com esforço. O Homem Perfeito posiciona-se na mesma ordem de relação à virtude. Sem a cultivar, ele possui-a a tal ponto que as coisas não podem se afastar dele. Tão natural quanto o céu alcançar as alturas, a terra alcançar a sua densidade, o sol e a lua alcançarem o seu brilho. O que haverá a ser cultivado?"

Quando Confúcio saiu da entrevista, ele relatou o que havia passado a Yen Hui, dizendo: "No que diz respeito ao Caminho, eu era um mero mosquito no frasco de vinagre, de tão ignorante! Se o Mestre não me tivesse instruído mim, eu nunca teria entendido a sublime integridade que envolve o céu e a terra!" 

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Chuang Tzu foi ver o Duque Ai, do Estado de Lu. O Duque Ai disse: "Temos muitos confucionistas aqui no Estado de Lu, mas parece haver muito poucos homens que sigam a sua orientação, senhor!"

"Há muito poucos eruditos confucionistas no estado de Lu!" disse Chuang Tzu.

"Mas como, se todo o estado de Lu enverga as vestes confucianas!" disse o Duke Ai. "Como poderá dizer que só haja uns quantos?"

"Eu ouvi dizer," disse Chuang Tzu, "que os confucionistas usam bonés nas cabeças para mostrar que eles compreendem os ciclos do céu (astrologia); que andam em sapatos quadrados para mostrar que eles entendem da ciência da terra (geografia), e que atam ornamentos na forma de um disco de jade às faixas das vestes, a fim de mostrar que, quando preciso for são decisivos na resolução de problemas críticos. Mas alguém realmente versado pode abraçar uma doutrina sem usar necessariamente a indumentária que o identifique com ela, assim como alguém poderá usar essa indumentária sem compreender necessariamente a doutrina. Se Sua Graça não acredita que seja assim, então por que não edita uma ordem que proclame: "Todos aqueles que usam a indumentária e não praticarem a doutrina correspondente serão condenados à morte!"

De facto, o duque Ai, proclamou tal édito, e dentro de cinco dias não havia ninguém no estado de Lu, que ousasse usar as vestes confucianas. Apenas um homem velho surgiu em vestes confucianas e pôs-se em frente ao portão do duque. O duque convocou-o de imediato e questionou-o sobre assuntos de estado e, embora a discussão tenha tomado mil voltas e reviravoltas, o velho nunca ficou sem argumentação. Chuang Tzu disse: "Em todo o estado de Lu, pois, há apenas um homem que é um confuciano autêntico. Como você pode dizer que há uma grande quantidade deles?" 

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Po Li Hsi não permitiu que o título de nobreza e o salário lhe afectassem a mente. Ele alimentou o gado e o gado engordou, e esse fato fez com que o duque Mu de Chin esquecesse as origens humildes de Po Li Hsi e o nomeasse para o governo. Shun, o homem do clã Yu, não deixou a vida e a morte lhe afectassem a mente. Assim, ele conseguiu influenciar os outros.

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O duque Yuan, do Estado de Sung, desejou mandar pintar um retracto. Uma multidão de funcionários da corte reuniu-se na sua presença, recebeu as pranchetas de desenho, e tomou o seu lugar na fila, a preparar os seus pincéis e a misturar as suas tintas, tantos que havia mais fora do quarto do que dentro. Houve um funcionário que chegou atrasado, e entrou sem a menor pressa. Quando recebeu a sua prancha de desenho, ele não procurou um lugar na fila, mas foi directo para casa. O governante enviou alguém para ver o que estava a fazer, e descobriu-se que retirou as vestes, cruzou as pernas e ali ficou sentado semi nu. "Excelente," disse o governante. "Esse é o verdadeiro artista!" 

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O rei Wen andava a ver as vistas em Tsang quando ele viu um velho a pescar. No entanto, não estava verdadeiramente a pescar, por não parecer que, de cana na mão, estivesse a pescar qualquer coisa, mas como se fosse a sua ocupação constante. O rei Wen quis nomeá-lo para o governo, mas temia que os altos funcionários e seus tios e irmãos viessem a mostrar-se desfavoráveis. Ele pensou que talvez fosse melhor esquecer o assunto e deixá-lo assentar, no entanto, não conseguia suportar privar os cem clãs de uma oportunidade enviada pelos Céus, se deixasse que ele se fosse. Na manhã do dia seguinte, ele transmitiu-o aos seus ministros, dizendo: "Na noite passada sonhei com um bom homem, de tez escura e barbudo, montado em um cavalo sarapintado de cascos meio vermelhos. Ele ordenou-me, que entregasse o governo a um velho de Tsang – que talvez assim os males do povo pudessem ser remediados!" 

Os ministros, aterrados, disseram: "Foi o falecido rei, seu pai, vossa majestade!"

"Então, talvez devêssemos consultar um oráculo para ver o que deverá ser feito," disse o rei Wen.

"É a ordem do seu falecido pai!" disseram os ministros. "Sua Majestade não deve ter qualquer dúvida. Qual a necessidade de consultar o oráculo?"

No final, pois, o rei mandou escoltar o ancião de Tsang até à capital e entregou-lhe o governo, mas este não alterou os precedentes e as leis comuns, nem emitiu qualquer outro decreto.

Ao fim de três anos, o rei Wen realizou uma visita de inspeção ao estado e descobriu que as autoridades locais haviam deitado abaixo as suas barracas e dissolvido os partidos por considerarem todas as tarefas como igualmente distintas; descobriu que os chefes das agências do governo não tinham obtido nenhuma distinção especial e que os contrabandistas que entravam pelas quatro fronteiras provenientes de outros estados já não se arriscavam a introduzir os seus produtos. Quando o contrabando não entrava no território, os vassalos não alimentavam ambição. Os magistrados, não trabalhando com o fito na fama, reinava a concórdia e todos trabalhavam pelo bem comum.

O rei Wen concluiu, pois, que ele havia descoberto um grande mestre e, virado para o norte em sinal de respeito, perguntou-lhe se poderia estender seus métodos de governo a todo Império. Mas o velho de Tsang ficou impávido e não respondeu; terminadas as suas tarefas, saiu nessa mesma noite e nunca mais se ouviu falar dele.

Yen Yuan questionou Confúcio sobre esta história, dizendo: "O rei Wen ainda não tinha conquistado a confiança do povo. Porque que é que ele teve que simular aquele sonho?"

"Cala-te! Não fales assim" disse Confúcio. "Wen era um rei consumado, a personificação da perfeição - como podes atrever-te a criticá-lo? O sonho - foi apenas uma maneira de se acomodar às necessidades do momento." 

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Lieh Yu Kou (Lie Tzu) estava a demonstrar a destreza de que gozava no tiro ao arco a Po Hun Wu Jen. Retesou o arco ao máximo, colocou uma xícara de água no seu cotovelo e largou a flecha. A primeira flecha ainda nem bem tinha deixado o anel do polegar quando uma segunda repousava já prontamente ao lado do braço protector enquanto permanecia imóvel como uma estátua. Po Hun Wu Jen disse: "Esta é a proficiência de um arqueiro, não o tiro ao arco de um não-arqueiro! Comprová-lo-ei levanto-te a subir uma montanha alta comigo, escalar as rochas íngremes até o limite de um abismo de quase oitocentos pés, e então veremos que tipo de tiro você consegue praticar!"

Assim, eles começaram a subir a uma montanha alta, a escalar as rochas íngremes até a beira de um abismo de quase oitocentos pés. Po Hun Wu Jen, virando as costas para o abismo, caminhou para trás até ficar com os pés meio fora do limite do penhasco, inclinou-se para Lieh Yu Jou e convidou-o a aproximar-se dele. Mas Lieh Yu Kou encolheu-se no chão, a suar até os calcanhares. Po Hun Wu Jen disse: "O Homem Perfeito pode olhar para o céu azul acima, mergulhar nas Nascentes Amarelas abaixo, vaguear até o final das oito direcções, sem que o seu espírito sofra qualquer perturbação. E aqui está você este estado de espírito encolhido e a estremecer - se você tentasse atirar agora, as hipóteses de acertar o alvo seriam mínimas!" 

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Chien Wu disse a Sun Shu Ao: "Três vezes você se tornou primeiro-ministro, mas você não pareceu sentir-se glorificado com isso. Três vezes você foi demitido do posto, mas nunca pareceu contrariado. No início eu duvidava que isso fosse realmente verdade, mas agora que me encontro diante da sua aparente impassibilidade vejo o quão sereno e despreocupado você está. Você tem alguma maneira especial de usar o seu espírito?"

Sun Shu Ao respondeu: "Como poderei eu ser melhor do que os outros? Eu considerei que o acolhimento de tal honra não poderia ser recusado, e que a sua perda não poderia ser evitada. No que me diz respeito, a questão do ganho e da perda nada tem que ver comigo e, por isso, não tive motivo para mostrar qualquer expressão de preocupação - é tudo. Como poderei eu ser superior aos outros? Além disso, não tenho certeza se a glória reside no cargo de primeiro-ministro ou em mim. Se estiver na posição de primeiro-ministro, então isso não significa nada para mim. E se estiver em mim, então não significará nada para o cargo de primeiro-ministro. Agora estou prestes a dar um passeio ocioso pelas quatro direções. Que prazer encontrarei em procurar saber quem ocupa uma posição eminente e quem ocupa uma posição humilde?"

Confúcio, ao tomar conhecimento do incidente, disse: "Ele era um verdadeiro homem de verdade como os de antigamente, o tipo com que os sábios não conseguem persuadir, as beldades não conseguem seduzir, nem os ladrões não conseguem roubar; até mesmo Fu Hsi ou o Imperador Amarelo não poderia ter travado amizade com ele.
"A vida e a morte envolvem profundas questões, e ainda assim para ele não representam mudanças - quanto mais não o são as coisas títulos e bolsas! Com um tal homem, o seu espírito pode elevar-se sobre o monte Tai sem encontrar obstáculos, mergulhar na mais profunda das nascentes sem se molhar, pode ocupar a condição mais humilde sem angústia. Ele pode preenche todo o céu e a terra, e quanto mais ele dá aos outros, mais ele tem para si mesmo." 

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O Chefe de Estado de Chu estava sentado com o governante de Fan. Passado um tempo, um dos oficiais do rei de Chu veio relatar que o estado do Fan havia sido caído, e fê-lo três vezes. O governante do Fan disse: "A queda de Fan não é suficiente para me fazer perder o que tenho intenção de preservar. E se a destruição do Fan não é suficiente para me fazer perder a existência, então a preservação de Chu tão pouco é suficiente para estender a sua existência. Olhando assim, Fan, ainda não começou a ser destruída, e Chu ainda não começou a estender-se!"

CAPÍTULO 22
O CONHECIMENTO VIAJOU PARA NORTE

A INTELIGÊNCIA VIAJOU PARA NORTE, para a nascente do Rio Yuan, subiu o Ermo das Alturas Ocultas, e, por acaso, foi de encontro ao Nada-Fazer Naturalmente. A inteligência dizia ao Mistério: Gostaria de lhe perguntar que tipo de cogitação ou que tipo reflexão será necessária para chegarmos a conhecer o Tao? Que tipo de conduta ou que tipo de prática será precisa para encontrarmos repouso na paz do Tao? Que tipo de curso ou que tipo de procedimento me conduzirá ao Tao?" Três vezes a pergunta fez, mas o Nada-Fazer Naturalmente não respondeu. Não é que ele simplesmente não respondesse - não sabia como responder!

Ao não conseguir obter qualquer resposta, a inteligência voltou para sul do rio Po, subiu ao cume da vacilação, Hu Chueh, e ali  avistou Kuang Chu, o Selvagem-e-Imbecil, a quem dirigiu as mesmas perguntas. "Ah, eu sei a resposta," disse o Nada-Saber, "e vou-ta contar." Mas, assim que estava prestes a dizer alguma coisa, esqueceu o que ia a dizer.

Na falta de uma resposta, a inteligência retornou ao palácio imperial, onde foi recebido em público pelo Imperador Amarelo, e a quem colocou as mesmas perguntas. O Imperador Amarelo disse: "Somente quando não ponderares e nem reflectires, chegarás a conhecer o Tao. Somente quando você usares de conduta alguma e não seguires prática nenhuma, encontrarás descanso na paz do Tao. Somente quando não seguires curso nenhum nem qualquer procedimento poderás atingir o Tao."

A inteligência disse ao Imperador Amarelo: "Você e eu cremos conhecer, mas os outros dois que eu interroguei não conhecem. Interrogo-me qual de nós estará certo."

O Imperador Amarelo disse: O Nada-Fazer Naturalmente - ele é o único que verdadeiramente tem razão. O Nada-Saber parece saber. Mas tu e eu, no final, não chegamos nem perto de o conhecermos. Aqueles que sabem não falam; aqueles que falam não sabem. Portanto, o sábio pratica a instrução sem fazer uso da palavra. O Caminho é inacessível; a sua virtude não pode ser trazida à existência. Mas a benevolência - podemos colocá-la em prática, podemos falar sobre a equidade, e na sua falta podemo-nos enganar uns aos outros com a cortesia e os cumprimentos da praxe. Por isso é que se diz: quando se perde de vista o Caminho, surge a virtude; quando se perde a virtude, surge a benevolência; quando se perde a benevolência, aí surge a equidade; e quando por fim se perde a equidade, aí surgem os ritos. Os cumprimentos e a cortesia são os adornos do Caminho e os precursores da desordem.
Por isso se diz: Aquele que pratica o Caminho a cada dia faz menos e continua a fazer menos, até chegar a ponto de não fazer nada; não faz nada e ainda assim não há nada que não seja feito.'' Agora que nos tornamos "coisas," se quisermos voltar novamente para à Raiz, receio que enfrentemos dificuldade! Só o Grande Homem será o único que poderá achar isso fácil.

"O nascimento é o percursor da morte, a morte é o princípio da vida. Quem entende o seu funcionamento? A vida do homem é uma combinação de sopro vital que, se ele se congregar, resulta na vida, e se se dispersar, resulta na morte. E se a vida e a morte sucedem uma à outra, então, o que haverá que nos deva preocupar? As dez mil coisas são realmente uma só. Nós consideramos algumas das mais belas como sendo raras ou sobrenaturais; consideramos outras como feias por serem abomináveis e carcomidas. Mas a fealdade e o abominável e a corrupção podem transformar-se em coisa rara e sobrenatural, e o raro e sobrenatural podem transformar-se em abominável e corrupto e. Por isso se diz: Só é preciso compreendermos que o mundo é uma mesma matéria que se difunde. O sábio nunca deixa de valorizar a unidade."

A inteligência disse ao Imperador Amarelo: "Interroguei o Silêncio e ele não me respondeu. Não é que ele simplesmente não me tenha querido responder - ele não sabia como me responder. Eu interroguei o Selvagem-e-Imbecil e ele esteve quase a explicar-mo, embora não me tenha explicado nada. Não é que ele não me tenha querido explicar - mas quando estava prestes a faze-lo, esqueceu do que se tratava. Agora eu perguntei-lhe a si e você conhece a resposta. Por que razão diz, pois, que nem perto está da verdade?"

O Imperador Amarelo disse: "O Nada-Fazer-Naturalmente é quem está verdadeiramente certo - por não saber. O Sabe-Nada parece estar perto - por o ter esquecido. Mas no final tu e eu não chegamos nem perto da verdade - por não o conhecermos."

O Nada-Saber ouviu falar do incidente e concluiu que o Imperador Amarelo sabia do que estava a falar.

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O Céu e a Terra possuem grande beleza, mas não se vangloriam dela; as quatro estações têm a sua regularidade marcada, mas não a discutem; as dez mil coisas têm a sua razão de existir, mas não as expõem. O sábio busca a origem da beleza do Céu e da Terra e domina a razão de ser de todas as coisas. Assim é que o Homem Superior pratica a não-acção, o Grande Sábio não age como quer - por perceberem o Caminho do Céu e da Terra. Combinando o impressionante poder do Céu e da Terra com as inúmeras mudanças em que todas as coisas têm estado vivas ou mortas, quadradas ou arredondadas, ninguém conseguirá apurar que origem terão mas aí estão as dez mil coisas em toda a sua pujança e azáfama, tal como estiveram desde a antiguidade. Imenso é o espaço com as suas Seis Dimensões contudo nunca ultrapassaram a fronteira do Caminho; coisas tão pequenas como uma pena de outono dependem dele para a sua formação. Não há nada no mundo que não atravesse vicissitudes do profundo e do superficial; nada permanece inalterável até ao fim dos seus dias. O yin (feminino) e o yang (masculino), e as quatro estações seguem-se sucessivamente, cada uma mantendo a sua devida ordem. Obscuro e invisível, o Tao parece não existir, contudo encontra-se aí, exuberante e sem limites, não possui qualquer forma, mas somente espírito; as dez mil coisas são nutridas por ele, embora não o saibam - isso é o que é chamado a Raiz, o Fundamento. Isto é o que pode ser percebido no Céu.

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Nieh Chueh interrogou Pi-i sobre o Caminho. Pi-i disse: "Endireita o teu corpo, unifica a tua visão e a harmonia do céu virá até ti. Conserva a tua inteligência, unifica o seu porte e os espíritos estarão contigo. A virtude será a tua beleza, o Caminho será o seu lar e, inocente como um bezerro recém-nascido, não tentarás descobrir o motivo disso."
Antes de terminar de falar, no entanto, Nieh Chueh adormeceu profundamente. Pi-i, imensamente satisfeito, saiu e afastou-se, a cantarolar a seguinte canção:

Corpo como um cadáver murcho,
Mente como cinzas mortas,
Verdadeiro na realidade do conhecimento,
Não se obstina quanto às razões das coisas,
Com a mente livre de todo estratagema,
Sem vontade-própria, não consegue ordenar as ideias:
Que homem este!

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O rei Shun perguntou a Cheng: "É possível obter sentido de posse do Caminho?"
“Você nem posse detém sobre o seu próprio corpo - como poderás obter posse do Caminho?!"

"Se eu não tenho posse do teu próprio corpo, então, quem terá?" perguntou Shun.

"É uma forma que lhe foi emprestada pelo Céu e pela Terra. Não tem posse da vida - é a harmonia que o Céu e a Terra lhe legaram. Não tem posse nem da sua natureza inata nem do destino, que são contingências cedidas pelo Céu e pela Terra. Não tem nem posse dos seus filhos e netos - eles são-lhe cedidos pelo Céu e pela Terra. Por isso, melhor será andar sem saber para onde nos encaminhamos, ficar em casa sem sabermos o que estamos a guardar, comer sem saber o que estamos a provar. Tudo é o trabalho da poderosa energia de Céu e Terra. Como, seria, pois, possível possuir qualquer coisa?"

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Confúcio interrogou a Lao Tzu: "Hoje você parece ter um momento de lazer - posso aventurar-me a interrogá-lo sobre o Caminho Perfeito?"

Lao Tzu disse: "Precisas jejuar e praticar abstinência, purificar a tua mente, lavar e purificar o teu espírito interior, destruir e eliminar o teu conhecimento. O Caminho é abstruso e difícil de descrever. Mas vou traçar-te um esboço grosseiro dele.

"O luminoso e resplandecente brota do mistério profundo; a ordem brota da falta de forma; o que é distinto na aparência brota da ausência de forma. O espírito brota originalmente da pureza do Tao, a forma provém do espírito, e as dez mil coisas concedem forma corporal umas às outras por meio do processo do nascimento. Portanto, os seres dotados de nove orifícios corporais brotam do útero, os seres dotados de oito aberturas brotam do ovo. Não deixam vestígios da sua chegada, nem têm limite na sua ida. Não há passagens, nem lugares de espera, os caminhos amplos cruzam-se por toda a parte. Aquele que acompanha o Tao terá membros fortes, possuirá uma atenção viva e penetrante, terá um ouvido apurado, olhos brilhantes, adapta-se às coisas sem preconceito, não se exaurindo. O Céu não pode evitar ser elevado, a Terra não pode deixar de ser ampla, o sol e a lua não podem evitar mover-se, as dez mil coisas não podem deixar de florescer. Isso é o Tao.

"Aqueles que são instruídos não possuem necessariamente um verdadeiro conhecimento; a eloquência não significa necessariamente sabedoria - portanto, o sábio livra-se dessas coisas. O que pode ser incrementado sem mostrar qualquer sinal de incremento; o que pode ser reduzido sem que sofra qualquer diminuição - isso é aquilo a que o sábio se agarra firmemente. Profundo, insondável, o Tao é como o mar; sublime e escarpado como uma montanha. Dá origem às coisas sem cessar, e sem se exaurir. O "Caminho do Homem Superior" que pregas é mera superficialidade, não? Mas aquilo de que as dez mil coisas dependem para o seu sustento, que nunca lhes falta, não será isso o Caminho Real?

"Há um homem do Reino do Meio (China), que nem é yin nem yang, a viver entre o Céu e a Terra. Por um breve período apenas será ele um homem, porque logo regressará ao Ancestral. Olhe para ele do ponto de vista da Origem da vida ele não passará de uma mera condensação da energia do alento (vital). Quer ele morra jovem ou viva até atingir a velhice, esses dois destinos dificilmente se diferenciarão - será questão de alguns momentos, poder-se-á dizer. Terá, pois, algum valor na distinção do bem e do mal entre o rei Yao e o rei Chieh?

"Os frutos das árvores e das videiras têm uma razão para existir. Embora as relações humanas sejam delicadas e complexas, ainda têm razões para viver juntos. O sábio, descobrindo-as, não se posiciona contra elas, mas acomoda-se a elas; associa-se aos demais e responde-lhes num espírito de harmonia - isso é a Virtude. Responder-lhes em espírito de comunhão - isso é o Caminho. Assim foi que os imperadores se elevaram e os reis ascenderam ao poder.

"A vida do homem entre o Céu e a Terra é como a passagem de uma sombra a passar por uma fenda no muro - um instante fugaz! Tudo cresce em profusão e progride. Tudo penetra no silêncio, e não há nada que não regresse à sua origem. Submetendo-se às transformações, as coisas alcançam a existência; submetendo-se a novas transformações elas alcançam a morte. Os seres vivos sofrem com isso, a humanidade lamenta-o. É o desatar da envoltura do arco do Céu  e o cair das suas amarras, uma mutação suave, e a alma e o espírito vão-se, o corpo segue-os por fim no Grande Retorno.

"A passagem do amorfo para o domínio da forma; a forma volta ao reino da ausência de forma. Isso todos os homens entendem. Mas não é algo a ser alcançado pela luta. O comum dos homens discute como atingir isso. Mas aqueles que o alcançaram não o debatem, e aqueles que debatem não o atingiram. O que é óbvio pode não ser o que é buscado. Aqueles que o perscrutam com brilho nos olhos nunca o verão; a alocução não é tão boa quanto o silêncio. O Caminho não pode ser escutado; escutá-lo não é tão bom quanto tapar os ouvidos. Essa é verdadeiramente a maneira de se apreender o Grande Tao."

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O Mestre Tung Kuo perguntou a Chuang Tzu: "Essa coisa chamada Caminho - onde é que existe?"

Chuang Tzu disse: "Não há lugar onde não exista."

"Vá lá", disse o Mestre Tung Kuo, "você precisa ser mais específico!"

"Encontra-se nas formigas."

"Desce assim tão baixo?"

"Encontra-se na relva."

"Mas isso ainda é muito baixo!"

"Encontra-se nos azulejos e nos cacos."

"Como pode existir tão em baixo?"

"Encontra-se no estrume!"

O mestre Tung Kuo não respondeu.

Chuang Tzu disse: "Senhor, as suas perguntas simplesmente não chegam a tocar o fundo da questão. Quando o chefe Huo interrogou o açougueiro sobre como apurar a gordura de um porco perscrutando-lhe as partes baixas, este disse-lhe que quanto mais baixo pressionasse o porco, mais perto chegaria da verdade. Não é preciso precisá-lo mais e o Tao não se separa das coisas. Isso é verdadeiro em relação ao Caminho Perfeito, e também às palavras verdadeiramente grandes. "Total," "universal," "incluído em tudo" - esses são três termos distintos que possuem o mesmo significado. Todos apontam a realidade única.

"Suponha que viajamos juntos para o Reino do Sem-Nome - identidade e concórdia serão a base das nossas discussões mas elas jamais alcançarão qualquer conclusão, nem atingirão a exaustão. Supõe que nos juntamos na não-acção; não será uma quietude silenciosa, uma pureza silenciosa, uma harmonia e ócio? Mantenho o espírito aberto. Eu saio mas não vou a lugar nenhum; regresso mas não sei onde parar. Eu já fui lá e voltei mas não sei quando a jornada estará terminada. Deambulo hesitante por entre a vastidão não demarcada, mas até  mesmo homens de grande conhecimento entram nela e não sabem onde acaba.

"O que controla as coisas não é limitado pelas coisas. As coisas têm os seus limites - os contornos que delimitam as coisas. Porém, os limites do ilimitado são o infinito implícito aos seus limites. Falamos sobre o preenchimento e o esvaziamento, o murchar e a decadência das coisas. O Caminho torna-os cheios e vazios sem que eles se encham ou esvaziem; torna-os murchos e decadentes sem eles mesmos murchem ou declinem. Estabelece o começo e o fim, mas não conhece começo nem fim; determina quando congregar ou dispersar, mas não conhece qualquer congregação nem dispersão."

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Ah Ho Kan e Shen Nung estavam a estudar juntos sob a tutela do velho Lung Chi. Shen Nung sentou-se encostado ao seu apoio de braços à hora do almoço, de porta fechada, a fazer a sesta diária, quando Ah Ho Kan abriu a porta, entrou e anunciou: " O Velho Lung está morto!"

Shen Nung, ainda apoiado no encosto de braços, pegou no seu bastão e levantou-se. Então deixou cair o bastão com estrondo e começou a rir, dizendo: "Meu mestre enviado pelo céu - ele sabia o quão simplório e malvado, quão insolente sou, e abandonou-me morrendo. Meu Mestre foi-se sem me ter deixado uma palavra que me abrisse o espírito!"

Yen Kang Tiao, ouvindo o incidente, disse: "Aquele que encarna o Caminho, tem a admiração de todos os cavalheiros do mundo. No que diz respeito ao Caminho, se o Velho Lung não conseguiu compreender nem um pedaço como a ponta de um pelo de outono, nem encontrou uma décima milionésima parte do Caminho, mas soube ser suficiente atinado para preservar as palavras mais arrojadas e morrer sem as pronunciar. Quanto mais não será, pois, no caso do homem que encarne o Caminho! Procurem-no, mas ele não tem forma, ouçam-no, mas ele não tem voz. Aqueles que discorrem sobre ele com os outros falam dele como obscuro e misterioso. O Caminho que é discutido não é o Caminho em absoluto!"

Mais tarde, a Grande Pureza (Tai Ching) perguntou ao Infinito (Wu Chiong), "Entendes o Caminho?"

"Não entendo," disse o Infinito.

Então ele perguntou à Não-Acção (Wu Wei), e este disse: "Eu entendo o Caminho."

"Você diz que você entende o Caminho - conhece-lhe algumas características?

"Conheço sim."

"Quais são as características?"

A Não-Acção disse: "Eu entendo que o Caminho pode exaltar as coisas e pode humilhá-las; que pode uni-las e fazer com que elas se dispersem." Essas são as características que eu aponto ao Caminho."

Tendo recebido essas respostas a Tai Ching foi e questionou o infinito, dizendo: "Se esse for o caso, então, entre a declaração do "não entendimento" do Infinito, e a declaração do entendimento da Não-Acção, qual estará certa e qual estará errada?"

O Infinito disse: "Não entender é profundo; entender é superficial. Não entender é estar por dentro; entender é perceber o externo."

Então, a Grande Pureza olhou para cima e suspirou, dizendo: "Acaso, ignorar não será conhecê-lo? E conhecê-lo não será ignorá-lo? Quem entenderá a compreensão da ignorância?"

O Infinito disse: "O Caminho não pode ser escutado; o que é escutado, não é o Caminho. O Caminho não pode ser visto; o que é visto, não é o Caminho. O Caminho não pode ser descrito; o que é descrito, não é o Caminho. Lembra-te que a origem das coisas em si mesma é destituída de forma - consegues entender isso? Não há nome algum que se ajuste ao Caminho."

O infinito prosseguiu: "Aquele que, quando interrogado sobre o Caminho, dá uma resposta, não entende o Caminho; e quem interrogar sobre o Caminho realmente não terá ouvido o Caminho. O Caminho não deve ser questionado, mas mesmo que seja questionado, não pode ter uma resposta. Questionar o que não pode ser questionado é questionar em vão. Responder ao que não tem resposta revela falta de substância. Se a falta de substância aguarda uma indagação vazia, então nenhum perceberá o tempo e o espaço que os cercam por fora, ou entenderá a Origem que se acha dentro. Esses homens nunca poderão atingir as alturas do Kun-lun, nunca poderão percorrer o Grande Vazio!"

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A Luz Resplandecente (Wu, Nada, ou Sem-Nome) perguntou à Não-Existência (You, Todas as Coisas, ou Designação): "Vós existis ou não existis?" Incapaz de obter qualquer resposta, a Luz Resplandecente olhou atentamente para o rosto e a forma da coisa - mas tudo era profundidade e vazio. Ele fixou o olhar o dia todo nela, mas não conseguiu vê-la; quis ouvi-la mas não a ouviu, esticou a mão, mas não conseguiu tocar nada. "Perfeito!" Exclamou a Luz Resplandecente. "Este deve ser o estado mais elevado da perfeição! Eu posso conceber ideias de existência e de inexistência, mas não a ideia da existência não existente. No entanto, esta coisa alcançou o estágio da existência não existente. Como podei eu alguma vez alcançar tal perfeição?!"

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O fabricante de fivelas do ministro da Guerra estava com oitenta anos de idade, mas não tinha perdido nada da sua velha destreza. O ministro disse: "Quanta habilidade! Isso terá algum jeito especial para ser feito?"

"Eu tenho um jeito. Desde o tempo que eu tinha vinte anos eu adorei forjar fivelas. Utilizo este não fazer uso das outras coisas, para aumentar a minha utilidade ou eficácia, porquanto mais eficaz se tornará aquele para quem não haja coisa que não utilize."

Se ele deliberadamente fez uso de não usar outras coisas ao longo dos anos e conseguiu tirar algum uso disso, quanto mais não conseguirá aquele que, pelo mesmo método, chegar a ponto em que não haja nada que não utilize! Tudo dependerá dele.

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Jan Chiu perguntou a Confúcio: "Será possível sabermos algo sobre antes da existência do Céu e da Terra?"

Confúcio disse: "Pode-se - o passado foi como o presente."
Não tendo recebido a resposta que esperava, Jan Chiu retirou-se. No dia seguinte, voltou a visitar Confúcio e disse: "Ontem perguntei se seria possível conhecer alguma coisa anterior à existência do Céu e da Terra, e você, Mestre, disse que sim - e que o passado foi como o presente." Ontem, isso pareceu-me bastante claro, mas hoje parece-me demasiado obscuro. Posso-me perguntar o que quer dizer com isso?

Confúcio respondeu: "Ontem ficou claro por teres tido receptividade de espírito. Hoje, parece-te obscuro, por o teu espírito se ver impedido pelo formalismo e ansiar por uma clarificação. Não existe passado nem presente, começo nem fim. Ter filhos e netos antes mesmo que filhos e netos existam - poderemos esperar que isso seja possível?"

Jan Chiu não respondeu, mas Confúcio continuou: "Para! - Não precisas responder! Não uses a vida para dar origem à morte, nem a morte para dares origem à vida." Vida e morte não sendo contrários, não dependerão uma da outra? Ambas têm lugar na Unidade do Tao. O que tiver existido antes do Céu e da Terra terá sido uma coisa? As coisas que são produzidas não podem existir antes daquilo que as produz, por isso já existir. Do mesmo modo, foram produzidas por um coisa que existiam antes delas, e assim sucessivamente ao longo do tempo. O amor que o sábio tem pelos homens, que não tem fim, foi tirado desse princípio."

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Yen Yuan disse a Confúcio: "Mestre, eu ouvi você dizer que não deveríamos recusar nada nem acolher coisa nenhuma. Posso atrever-me a perguntar como nos poderemos aventurar por esses domínios?"

Confúcio disse: "Os antigos mudavam a aparência, mas não o seu espírito. Os homens de hoje mudam o espírito, mas não na aparência. O que muda a aparência junto com as coisas é como aquele que não muda. Em que é que muda? Em que é que permanece imutável? Conforma-se ao inelutável, e nada mais. Mas permanecer em paz com ou sem mudança significa estar pronto a seguir as condições vigentes sem as aumentar.
O rei Hsi-wei teve o seu parque, o Imperador Amarelo o seu jardim, o rei Shun o seu palácio, Tang e Wu os seus salões. E, entre os cavalheiros, havia aqueles como os Confucionistas e os Moistas que se tornaram "mestres." Em resultado, as pessoas começaram dar valor às coisas e a recorrer ao "certo" e "errado" para se forçarem uns aos outros. Mas quão piores não são os homens de hoje!

"O sábio vive com as coisas, mas não as prejudica, e aquele que não prejudica as coisas não pode ser prejudicado por elas. Somente aquele que não faz mal se acha qualificado para se juntar aos outros homens; "para recusar" ou "acolher."

"As montanhas e as florestas, as colinas e os campos nos enchem de deleite transbordante e deixam alegres. Ah, mas o nosso sofrimento tem início antes mesmo que a nossa alegria termine. Não temos como recusar o sofrimento e a alegria, nem modo algum de evitar que se esvaiam. Infelizmente, porém, os homens deste mundo não são mais do que uma pousada para as coisas. Eles conhecem as coisas que encontram, mas não aquelas que nunca encontram. A ignorância e a incapacidade são coisas que não consegue evitar. Mas não será de lamentar que ansiemos por aquilo que não podemos evitar? Há quem se debata para escapar do inevitável - mas, poderemos evitar compadecer-nos? O discurso perfeito assenta no abandono de todo discurso; a ação perfeita está no abandono da ação. Limitar-se à compreensão apenas do que é compreendido - isso é de facto superficial!"



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