sexta-feira, 21 de julho de 2017

O LIVRO DE CHUANG TZU - 3ª PARTE



CHUANG TZU

Tradução: Amadeu António Tavares Duarte
duartfil@gmail.com

ÍNDICE
MISCELÂNEA DE CAPÍTULOS

23 Keng Seng Chu
24 Hsu Wu Kuei
25 Feh Yang
(Viajando para Sul)
26 Afectação do Exterior
27 Fábulas
(Conhecimento Transmitido)
28 Capitulação
29 O Ladrão Zhi
30 Persuasão pelo Uso da Espada
(a Delícia Decorrente do Debate)
31 O Velho Pescador
32 Lieh Tzu
33 Governar o Mundo

TEMÁTICA DOS CAPÍTULOS

capítulo 23
keng Seng Chu
Este capítulo começa com histórias de Lao Tzu e os seus alunos. O que se segue é uma série de ensaios curtos sobre diversos temas, como a importância da paz de espírito, o limite da busca pelo conhecimento, o poder da vontade de um homem e a incerteza quanto a estarmos certos e errados. Conclui com as qualificações de um Taoista, referindo que a chave para se tornar versado no Tao está em preservar o estado natural das coisas por o núcleo do Tao se encontrar no "vazio" que encerram.

capítulo 24
hsu wu kuei
As três primeiras secções ridicularizam os governantes do presente e do passado (contemporâneos ao autor), que podiam mas que nada fizeram, como o marquês de Wei, ou quem procurava ansiosamente uma "panaceia" para a governação como o rei Huang. Duas secções sobre Hui Tzu dão-nos informações adicionais sobre o relacionamento pessoal existente entre ele e Chuang Tzu. A secção 11 dá-nos uma visão rara da fisionomia dos olhos de um Taoista. Somente ao resolverem os dilemas e quebra-cabeças, poderão as pessoas manter uma mente tranquila e não interferir, mas seguir o curso natural dos eventos.

capítulo 25
feh yang
A maioria das secções são relativamente pequenas e não apresentam relação entre si. As duas últimas seções estão num formato de diálogo entre dois homens. A primeira delas preocupa-se com a formação da opinião pública, um conceito bastante novo nesse tempo; A segunda aborda a forma como os Taoistas vêem o surgimento das coisas. Podemos recordar que num capítulo anterior (18:6) se discute a transformação de germes em formas superiores de vida. 

capítulo 26
afectação do exterior
Embora as várias secções não estejam relacionadas a um tema, cada uma parece apresentar uma lição que encerra um desafio. Por exemplo, a secção 1 mostra o abandono da lealdade, da confiança, da piedade e do amor com consequências trágicas. A secção 2 demonstra a essência do momento oportuno em relação a tudo. A secção 3 usa a história absurda de pesca de um príncipe como um lembrete para quem procura posições responsáveis, no sentido de não prestar atenção aos boatos, mas a ter um grande plano plausível de futuro. Por fim, a secção 13 conclui com um aforismo popular: captar a ideia e esquecer as palavras. 

capítulo 27
fábulas
(conhecimento transmitido)
A primeira secção deste capítulo é um resumo dos três estilos literários usados na redação deste livro. Isso dá-nos uma boa ideia de como foi escrito. O leitor irá ser surpreendido com o quanto isso tem de factual e o quanto tem de alegórico. As restantes secções não têm relação com o título do capítulo per se. 

capítulo 28
capitulação
O pensamento central deste capítulo é o significado da vida. O que faz com que o título deste capítulo tenha que ver com a vida? Pois, quando alguém está disposto a ceder um trono, para já não se falar do resto, a favor da vida, isso constitui um grande empreendimento. Muitos estudiosos desde a dinastia Song (AD 960) expressaram dúvidas de que Chuang Tzu tenha tido mão na redacção deste capítulo por causa do estilo retórico que encerra. (Claro que isso não impede a probabilidade de algumas das secções em anteriores capítulos serem igualmente suspeitas.) No entanto, a ideia de que a vida é preciosa é consistente com a filosofia de Chuang Tzu. Em cada uma das quinze secções deste capítulo, existem nomes próprios de pessoas e lugares. Cada secção conta uma história, que pode ser histórica ou fictícia ou ambas as coisas. 

capítulo 29
o ladrão zhi
Este capítulo tem três secções e apenas a secção 1 conta uma história sobre Chi, o Salteador. É também a secção mais longa deste livro. Trata-se de um suposto encontro entre Confúcio e Chi, o Salteador, que critica os códigos morais e o utilitarismo dos confucionistas. Embora seja apenas uma história, fez subir a pressão arterial de muitos estudiosos confucionistas famosos desde a dinastia Tang, por acusarem o escritor Taoista, seja quem for que possa ter sido, de difamar o sábio. 

capítulo 30
persuasão pelo uso da espada
Este capítulo foi identificado por estudiosos famosos, do passado ​​e do presente, como sendo não apenas uma falsificação total do trabalho de Chuang Tzu, como dando um passo adiante ao que nada tem que ver com a escola de pensamento Taoista. É uma pobre imitação espúria. Esses estudiosos incluem Han Yu (768-824) da Dinastia Tang, Su Dongpo (1036-1111), Lin Xiyi (1193-1270) da dinastia Song, e Chen Guying do presente, para mencionar apenas alguns.
Embora este capítulo consista em duas secções, elas são contínuas até agora no que toca à narrativa da história. O leitor pode ver por si mesmo como Chuang Tzu neste capítulo é retractado como uma personalidade diferente do Chuang Tzu de outros capítulos deste livro. 

capítulo 31
o velho pescador
Contém duas secções contínuas que consistem de um diálogo espúrio entre Confúcio e o pescador sobre que mais não é senão uma crítica à prática confuciana dos rituais, da música e da ordenação. O pescador havia apreendido o Tao e Confúcio é retractado como candidato a seguidor dele. 

capítulo 32
lie tzu
Este capítulo comporta doze secções sem relação nenhuma entre si. Algumas secções são tão curtas que só apresentam duas ou três frases. Algumas secções contêm histórias sobre Chuang Tzu. Elas ajudam-nos a entender um pouco mais esse homem. 

capítulo 33
governar o mundo
Este último capítulo do trabalho é realmente a primeira história da literatura chinesa redigida. É um ensaio breve no que toca à história, sobre o desenvolvimento das várias escolas de pensamento. O trabalho de muitos proeminentes autores, como Hui Tzu, que teriam sido completamente perdidos sem este capítulo. Assim, as suas contribuições para o nosso conhecimento da literatura chinesa inicial são de um valor inestimável. A secção 1 é uma introdução. Cada uma das secções seguintes é dedicada a uma escola do pensamento filosófico e aos contribuintes notáveis ​​dos tempos antigos ao longo do tempo em que este trabalho foi sendo redigido. Por isso, é referência indispensável sobre a história do pensamento filosófico chinês anterior.

CAPÍTULO 23
KENG SANG CHU

ENTRE OS DISCÍPULOS DE LAO TZU havia um chamado Keng Sang Chu, que tinha dominado uma boa porção da doutrina de Lao Tzu, e com isso foi para norte para habitar entre as Montanhas de Weilei. Ele exonerou os serventes que exibiam esperteza e afastou-se das criadas que exibiam gentileza, com suas maneiras afectuosas e solícitas. Em vez disso, ele manteve ao seu serviço os simples e diligentes. Ele habitava ali havia três anos quando Weilei começou a desfrutar de colheitas abundantes, e as pessoas de Weilei comentavam umas com as outras: "Quando Keng Sang inicialmente veio viver entre nós, nós desconfiávamos dele, por nos assombrar e parecer um estranho. Mas agora, analisando bem, num curto período de tempo, passamos da penúria diária à abundância anual! Poderá muito bem acontecer que ele seja um santo! Por que não fazemos dele nosso soberano e oramos por ele, e consagramos-lhe terra e arroz nos nossos altares?"

Quando o mestre Keng Sang ouviu isso, ele voltou-se para sul com um ar de preocupação. Os seus discípulos pensaram que isso era estranho, mas o Mestre Keng Sang disse: "Por que deverão os meus discípulos interrogar-se da razão do meu descontentamento? Quando surgiu o sopro da Primavera, as cem gramíneas começaram a crescer, e mais tarde, quando o Outono os visitou, os seus dez mil frutos já se encontravam crescidos e maduros. No entanto, como poderiam a Primavera e o Outono fazer outra para além do que fazem? - O Caminho do Céu já os pôs em movimento. Ouvi dizer que o Homem Perfeito habita qual cadáver no seu pequeno aposento de quatro paredes, deixando ao vulgo entregue às suas grosseiras e despreocupadas maneiras, sem saber para onde se dirigem, para onde estão se encaminham. Mas agora as gentes de Weilei nas suas ocupações servis e impertinentes querem trazer os seus cavaletes e escudelas de sacrifício e fazer de mim um dos seus "dignitários!" Será que eu vou ser erigido como modelo para os homens? É por isso que, recordando as palavras de Lao Tzu, estou tão descontente!"

"Mas não há necessidade disso!" disseram os seus discípulos. "Uma pequena vala, o peixe grande nem sequer tem espaço para se voltar, mas as carpas e os peixes de água doce pensam que é amplo. Uma pequena toca não tem nem espaço suficiente para um animal grande se esconder, mas as raposas astutas pensam que é ideal. Além disso, honrar o dignos e atribuir cargo aos aptos, conceder-lhes precedência e outorgar-lhes privilégios - isso tem sido costume desde os tempos antigos dos sábios Yao e Shun. Quanto mais, pois, não deverá ser costume entre as pessoas comuns de Weilei. Peço-lhe que reconsidere, Mestre."

O mestre Keng Sang disse: "Ora, meu filho! Uma besta grande o suficiente para engolir uma carruagem, não se atreve a sair sozinha das montanhas, devido aos perigos das armadilhas; um peixe grande o suficiente para engolir um barco, não se atreve a nadar em águas rasas, com medo de encalhar, e de se tornar vítima das formigas e dos vermes. Por conseguinte, os pássaros e as bestas não se preocupam quão alto precisam subir para escapar ao perigo, e os peixes e as tartarugas não se importam com quão fundo precisam mergulhar. Assim, o homem que quiser ocultar o corpo e a sua vida deve pensar apenas em como se esconder, não se importa o quão longe possa ir ou o quão recluso possa tornar-se.
"E quanto aos dois que você mencionaste - Yao e Shun - porque serão eles dignos de ser louvados? Com as ​​suas boas distinções, foram eles quem introduziu as discriminações, os que intencionalmente fizeram buracos nas paredes e nos muros para plantar sarças e arbustos neles, os que começaram a separar os cabelos da cabeça a pentear e os que contaram os grãos do arroz que haviam de cozer. Essa agitação e impertinência de promover os dignos - isso é introduzir competição entre o povo. Como poderá isso ser de alguma utilidade na salvação desta geração? Promovei homens de valor e as pessoas começarão a calcar umas às outras; empregai homens de conhecimento e as pessoas começarão a furtar umas às outras. Procedimentos desses nada farão para libertar as pessoas do seu conhecimento. Em vez disso, as pessoas só se tornarão mais diligentes na ganância, até que acabem a surgir filhos que matem os seus pais, ministros que liquidem os seus senhores, homens que roubem à plena luz do dia. Eu digo-te que a fonte de toda esta enorme confusão teve justamente origem exactamente em Yao e Shun! E mais de mil gerações depois, isso ainda estará connosco. E daqui a muitas gerações - anota o que te digo - haverão homens que se comerão uns aos outros!"
 
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Nan Jung Chu endireitou-se no tapete com um olhar perplexo e disse: "Um homem como eu, que já se encontra numa idade avançada, que estudos deverá ele empreender para alcançar esse estado de qual fala?"

O mestre Keng Sang disse: "Preserve o corpo íntegro, abrace decididamente a vida! Não se deixes cair presa da agitação e do espalhafato das ideias e intrigas. Se fizer isso durante três anos, então poderá alcançar o estado de que falei."

Nan Jung Chu disse: "Eu não vejo diferença alguma no formato externo dos olhos de uns e de outros, mas um cego não consegue ver. Também não vejo diferença nenhuma na aparência externa dos ouvidos de uns e de outros, mas um surdo não consegue ouvir. Não vejo diferença alguma na mente de uns e de outros mas o louco não é capaz de compreender. O aspecto de uns é semelhante ao dos outros, porém, talvez haja entre eles alguma coisa que os diferencie. Procuro essa coisa de que gostaríamos de ser mutuamente informados mas não a encontro. E agora dizem-me a mim, Chu, que preserve o meu corpo, que guarde a minha vida e que evite excessivas preocupações. Por mais que me esforce por entender a explicação que faz do Caminho, receio que as suas palavras não me penetrem mais do que os ouvidos."
"Eu disse tudo o que podia dizer," exclamou o mestre Keng Sang. "O ditado diz que as vespas não se podem transformar em lagartas. As pequenas galinhas de Yueh não podem chocar ovos de ganso, embora as galinhas maiores de Lu possam fazê-lo suficientemente bem. Não é que esse tipo de galinha não seja simplesmente tão parecido com o outro. Uma consegue e a outra não, por os seus talentos simplesmente serem diferentes. Agora, receio bem que eu não possua talento suficiente para provocar qualquer transformação em si. Por que não vai até ao sul consultar Lao Tzu?"

Nan Jung Chu empacotou as provisões e viajou por sete dias e sete noites até chegar no lugarejo de Lao Tzu. Lao Tzu disse: "Você veio da parte de Keng Chan Chu?"

"Vim sim, senhor," disse Nan Jung Chu.

"Por que veio com toda essa multidão?" perguntou Lao Tzu.

Nan Jung Chu, atônito, virou-se para atrás.

"Você não sabe o que eu quero dizer?" Perguntou a Lao Tzu.

Nan Jung Chu inclinou a cabeça envergonhado e depois, olhando para cima com um suspiro, disse: "Neste momento esqueci até o que ia responder, pelo que naturalmente também esqueci o que vinha perguntar."

"O que quer dizer com isso?" Perguntou Lao Tzu.

"Se eu me mostrar ignorante, então as pessoas chamar-me-ão idiota," disse Nan Jung Chu. "Mas se eu me mostrar inteligente, então, pelo contrário, arranjarei preocupações. Se eu não for benevolente, prejudicarei os outros, mas se eu for benevolente, então, pelo contrário, eu ver-me-ei à mercê dos outros. Se não for justo, eu prejudicarei os outros, mas se eu for justo, então, pelo contrário, afligir-me-ei com o pesar. Como poderei escapar a estes inconvenientes? São esses os três dilemas que me assediam, e assim, por intermédio da apresentação de Keng Chan Chu, vim implorar um conselho."

Lao Tzu disse: "Há um instante atrás, quando eu olhei para o seu franzir de testa, eu poderia dizer que tipo de pessoa você é. E aquilo que disse agora mesmo confirmou isso. Você está confuso e abatido, como se tivesse perdido o seu pai e a sua mãe e partido com uma cana para pescar no fundo do mar. Você é um homem perdido - hesitante e inseguro, e quer retornar à sua verdadeira forma e natureza inata, mas não descobre como fazê-lo - é uma visão verdadeiramente lamentável!"

Nan Jung Chu pediu autorização para permanecer na sua casa. Lá ele tentou cultivar as suas boas qualidades e livrar-se das más; mas passados dez dias a sentir-se infeliz, ele foi ver Lao Tzu novamente. Lao Tzu disse: "Tem sido muito diligente na lavagem e purificação das preferências e das aversões - como posso constatar pelo seu aspecto limpo e asseado que apresenta. Mas ainda há algo a arder dentro de si - parece que ainda guarda algumas aversões. Se não se conseguir controlar prontamente os apegos e os impedimentos externos, eles cerrarão e sufocarão o espírito. Se, por outro lado, não se sujeitar e controlar as prisões internas, estas sujeitarão e obstruirão o exterior. E se estivermos presos e obstruídos por fora e por dentro, não poderemos manter o Caminho nem a Virtude, e mais nos afastaremos deles.

Nan Jung Chu disse: "Quando um aldeão adoece e os seus vizinhos lhe perguntam como se sente, se ele for capaz de descrever a sua doença, isso significa que ele ainda consegue reconhecer a sua doença como uma doença - pelo que deixa de se sentir doente. Mas eu, ao contrário, interrogo-o sobre o Grande Caminho, e é como tomar um remédio que me deixe mais doente do que antes. O que eu gostaria de saber é simplesmente a regra básica da preservação da vida - é tudo."

Lao Tzu disse: "Ah, a regra básica da preservação da vida. Consegue alcançar a união de corpo e espírito e evitar perdê-la? Poderá você, sem consultar as carapaças da tartaruga (oráculos) nem as varinhas de adivinhação, prever a fortuna e o infortúnio? Sabe quando parar, e sabe quando sair? Sabes como ignorar os outros e, em vez disso, procurar a si mesmo? Consegue desembaraçar-se e livrar-se de tudo? Consegue ser rude e infantil? Consegue ser como um bebé? O bebé chora o dia inteiro, mas nunca fica com a garganta rouca - o que representa o auge da harmonia! O bebé consegue ficar o dia todo com as mãos fechadas, sem ficar com os dedos doridos - por participar da virtude do Caminho. O bebé olha fixamente o dia todo sem pestanejar - não se distrai nem se desvia das coisas, por não ter preferências no mundo das coisas externas. Move-se sem saber para onde está a ir, senta-se sem saber o que está a fazer, perambula e arrasta-se por entre as coisas, acompanha-as em harmonia com elas - esta é a regra básica da preservação da vida!"

Nan Jung Chu disse: "Então, isso será tudo quanto há a dizer quanto à virtude do Homem Perfeito?"

"Ah, não! Isso é apenas o que se chama a virtude do quebrar do gelo da mente obstruída. O Homem Perfeito não é como os outros na busca do sustento da Terra, e dos prazeres no Céu. Ele não se envolve com os demais em questões pessoais e de lucros e perdas. Ele não se junta a eles na busca da exclusividade nem para chamar a atenção; ele não se junta a eles para fazer planos; ele não se junta a eles nos seus negócios. Activo e incansável, ele afasta-se disso; rude e inconsciente, ele persegue o seu caminho. É o que se chama regra básica da preservação da vida."

"Então, será esse o estágio mais elevado?" perguntou Nan Jung Chu.

"Ainda não! Apenas há um instante atrás eu perguntei-lhe se conseguia tornar-se como um bebé. O bebé age sem saber o que está a fazer, mexe-se sem saber para onde vai. O seu corpo é como o membro de uma árvore murcha, a sua mente assemelha-se a cinzas mortas. E como é assim, nenhum infortúnio nem boa sorte o atingirão. E se for livre da boa e da má sorte, então, de que sofrimento humano poderá padecer?"
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Aquele cujo ser interno repousa na Grande Serenidade irradiará uma luz interior espiritual. Mas, embora ele emita uma luz espiritual, os homens vê-lo-ão como um homem. Quando um homem se tiver treinado na perfeição a esse ponto, então, pela primeira vez, ele alcançará a constância na virtude. E por possuir constância na virtude, os homens virão a alojar-se junto dele e o Céu será seu auxiliar. Aqueles junto de quem os homens vêm alojar-se poderão ser chamadas Homens do Céu; aqueles a quem o Céu ajuda podem ser chamados Filhos do Céu.

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O estudante procura aprender o que não pode ser aprendido; o praticante procura praticar o que não pode ser praticado; o orador procura debater o que não pode ser debatido. A compreensão que assenta no travamento do que não pode ser entendido é a melhor. Se não tiver consciência disso, então verá o dom natural comprometido.

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Utilizem as coisas e deixem que lhes nutram o corpo; afastem-se da irreflexão e dessa forma deixem que o espírito conquiste a sua espontaneidade; usem da reverência com respeito à vida do espírito e estendam essa mesma reverência aos outros. Se fizerem essas coisas e ainda forem acometidos por incontáveis infortúnios, então eles serão todos enviados pelo Céu e não representarão os trabalhos do homem; não deverão ser suficientes para lhes minar a harmonia, nem devem ter permissão para lhes penetrar o espírito. O Espírito tem o seu controlo e domínio, mas a menos que ele entenda esse domínio, não será possível exercê-lo.

Se não perceberem a vossa verdadeira natureza e ainda assim tentarem ir junto dos outros, verão que os movimentos serão sempre mal orientados, serão incapazes de evitar as influências externas, e consequentemente perderão o vosso verdadeiro centro. Se cometerem actos ilícitos às claras serão castigados pelos homens. Se cometerem actos ilícitos de forma encoberta serão punidos pelo espírito. Somente aquele que se atreve a enfrentar os homens e os espíritos sem vergonha poderá caminhar em paz."

Aquele que se concentra no cultivo interno não alcança a fama. Aquele que se concentra nos negócios externos restringe a sua mente ao acúmulo de bens. Aquele que não vive em função da fama será para sempre possuidor da luz interna. Aquele que pensa no acúmulo de bens não passa de um comerciante satisfeito consigo próprio; aos olhos dos outros, ele parece andar em bicos de pés de tanto que se esforça, na ganância que o move. Ele, porém, acha que está acima dos outros.
Se um homem se entregar por completo às coisas, obterá a sua completa fidelidade, e se ele não for cauteloso e encontrar limites para as coisas, então poderá confrontar-se com o que não terá lugar para si próprio, quanto mais para os outros. Aquele que não pode encontrar espaço para os outros não tem sentimento pelos seus companheiros, e para aquele que não tem sentimentos amigáveis, todos os homens serão sempre estranhos.
Não há arma mais mortal do que a vontade - até mesmo Moya (Antiga casta de espadas famosa) lhe fica aquém. Não há inimigos maiores que os instigados pela separação do Yin e do Yang - porque nenhum lugar entre o céu e a terra lhes consegue escapar. Não é o Yin nem o Yang quem deliberadamente o instiga, mas a própria mente do homem que o leva a agir assim.
 
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O Tao é omnipresente em todas as coisas; elas dividem, e aperfeiçoam. Elas aperfeiçoam, e desintegram. Aquilo de que os homens não gostam é da divisão aparente, pelo que buscam a perfeição; e o que lhes desagrada nessa divisão é a ideia do esforço a que alude, para a deterem. Mas, após terem atingido a perfeição, saturam-se da realização. Não reabastecem a energia que gastam e eventualmente abeiram-se da morte. Se alguma coisa acharem ter ganho em troca, o provável é que seja a morte. Mas trocar o espírito pelo esqueleto é comércio de fantasma. Contudo, seria óptimo se as pessoas pudessem modelar o corpo visível pelo Tao invisível.

Ele não provém de fonte nenhuma, e não regressa por abertura nenhuma. Alcança a existência real mas não reside em parte alguma; tem continuidade mas nada tem que ver com começo nem fim. Ele possui vida, ele contém morte. Há um emergir que se traduz pelo nascimento, há um regresso que se traduz pela morte - contudo, no surgimento e no regresso a sua forma nunca é vista. Isso é chamado de Portal Celestial. O Portal Celestial é o não-ser. As dez mil coisas emergem do não-ser. O que existe não pode ter origem na existência, mas deve, inevitavelmente, surgir da não-existência. O não-ser é o absoluto, e é aí que o sábio se protege.

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O conhecimento dos antigos tinha um limite. Porquê? Por alguns acreditarem que as coisas nunca existiram - até agora, até o término a que nada pode ser acrescentado. Outros acreditavam que as coisas existiam. Eles encaravam o nascimento como uma perda da sua condição primitiva, a morte como um retorno a ela - assim eles instauravam uma distinção entre vida e morte. Outros ainda afirmavam: "No início existia o não-ser. Mais tarde, a vida passou a ter existência, e quando a vida teve existência de repente passou a existir a morte. Nós encaramos a não-existência como o princípio, a vida como o corpo, e a morte como o lombo. Quem sabe se a existência e a não-existência, a vida e a morte não são uma única coisa? Com um homem dotado de uma compreensão dessas poderei travar amizade!"

Embora essas três categorias sejam distintas, provêm da mesma fonte. São como os apelidos de família Chao e Ching, (títulos de linhagem) e Chi, (título do feudo) que não são apelidos idênticos, mas que pertencem à mesma família.

A vida resulta da coalescência da energia vital. Quando esta se dispersa, chama-se a isso “morte.” É óbvio que se poderá dizer que isso esteja certo ou errado. Tentar analisar isso e traduzir a análise por palavras, é coisa que não se pode fazer, por não poder ser colocado em palavras. No entanto, não conseguem entender. Numa oferenda sacrificial, as partes do animal podem ser separadas, porém, não podem ser consideradas como provenientes de diferentes vítimas. No entanto, não podem ser consideradas separadas. Na avaliação de um templo precisa-se avaliar todas as dependências e dormitórios, assim como as retretes, e há que proceder à avaliação diferente das distintas partes. Isso é o que move as distinções como “certo” e “errado,” “bem” e “mal” ancestrais.

Deixem que tente descrever a análise que fazem. A vida é a vossa fundação e o conhecimento é o vosso guia, a partir do qual passam a definir o "certo" e o "errado." Assim, temos as palavras e as coisas por elas designadas no final, e em consequência, cada homem considera a própria pessoa como essencial. Nos seus esforços para fazer com que outros homens apreciem a devoção que tem pelo dever, por exemplo, ele chegará a aceitar a morte como recompensa por essa devoção. Para um homem desses, aquele que for arrogante será considerado esperto, e aquele que for humilde será considerado tolo. Aquele que é opulento obtém fama; aquele que se depara com problemas ou é indigente é cumulado de vergonha. Analistas - isso é o que os homens de hoje são, na incerteza que têm quanto ao certo e ao errado! Eles têm a mesma visão que a cigarra e a rola, que concordam somente naquilo que têm de comum.
 
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Se pisarem o pé de um transeunte, pedem, com deferência, desculpas pelo descuido cometido. Se pisarem o pé do vosso irmão mais velho, dão-lhe uma palmadinha afectuosa, e pedem-lhe desculpa. Se pisarem o pé do vosso pai, sabem que já estão, por natureza, perdoados. Por isso se diz que a expressão mais nobre da cortesia repousa na ausência de distinção entre as pessoas, e que a expressão mais nobre da sabedoria está em não levar as coisas em conta, e que a mais nobre expressão da fé está na ausência de promessas dela. 

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Varram com os delírios da vontade, destruam as ciladas do coração; livrem-se dos enredos em favor da virtude; arrumem com os obstáculos do Caminho. Eminência e riqueza, reconhecimento e autoridade, fama e lucro - estes são os seis delírios da vontade. Aparências e procedimento, compleição e características, temperamento e atitude - estas são as seis ciladas do espírito. Repugnância e desejo, alegria e raiva, pesar e felicidade - estes são os seis enredos que embaraçam a virtude. Rejeição e aceitação, tirar e dar, conhecimento e capacidade - estes são os seis obstáculos do Caminho. Quando estas vinte e quatro classes de coisas já não lhes perturbarem o íntimo, alcançarão a retidão; sendo justos, vocês permanecerão imóveis; imóveis, atingirão a iluminação; tendo atingido a iluminação, ficarão vazios; ficando vazio, vocês nada farão, e ainda assim não haverá nada que não seja feito.

O Tao é o objecto de reverência de todas as virtudes. A vida é o que permite a exibição do esplendor dessa virtude. A natureza inata é a essência da vida. À actuação da natureza inata se chamada acção. A acção que se torna artificial e hipócrita chama-se perda. O conhecimento alcança e estabelece o contacto; a argúcia do pensar traça planos. Quando não se conhece é-se limitado pela visão parcial (percepção de um lado). A acção que é exercida por não nos podermos furtar a ela é chamada de virtude. A acção que não se coaduna com a nossa maneira de agir é chamada de princípio. Por definição, as duas parecem ser contrárias, mas na realidade, querem dizer o mesmo.

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O arqueiro Yi era habilidoso a atingir o alvo mais reduzido, mas desajeitado ao não impedir que as pessoas o elogiassem por isso. O sábio é hábil no conformar-se à natureza, mas é desajeitado no que diz respeito às maneiras do homem. Ser capaz de se conformar à natureza e beneficiar as pessoas é coisa que apenas o Homem Perfeito pode fazer. Apenas os pássaros e as bestas podem sentir conforto em ser pássaros e bestas; por se conformarem com a própria natureza. O Homem Perfeito aborrece a natureza, porém, a natureza que ele aborrece é a natureza humana. Quanto menos, pois, não deverá entender e distinguir o que não sabemos se é da natureza ou do homem.

Se um único pássaro se pusesse ao alcance do arqueiro Yi, cairia certamente nas suas mãos, tal é o seu poder. Mas se ele pudesse tornar o mundo numa gaiola, os pássaros não teriam para onde fugir. Foi assim que Tang enclausurou Yi Yin, ao servir-se da afeição que sentia pela cozinha, e faz com que ele se tornasse num cozinheiro; o Duque Mu enjaulou Po Li Hsi pelo preço de cinco peles de carneiro. Ninguém se deixa seduzir se não for em função de algo por que seja aficionado.

O homem a quem cortaram os pés por castigo dispensa o decoro e a elegância - por a maledicência e a crítica já não o afectarem. O escravo acorrentado não teme ser acometido pelas vertigens ao escalar o pico mais alto - por ter abandonado toda ideia de vida e morte. Esses dois tipos de homens são submissos e não têm vergonha por terem esquecido os outros, e ao esquecer os outros, eles se tornaram um com a Natureza. Por conseguinte, poderão tratar tais homens com respeito que eles não evidenciarão satisfação; poderão tratá-los com insolência e não se enfurecerão em razão do ultraje. Apenas por se terem tornado um em harmonia com a Natureza conseguem eles ser assim.

Se aquele que explode de raiva não se sente verdadeiramente irado, então a sua raiva será uma explosão que brota sem raiva. A obra daquele que age sem agir é uma obra que brota do não agir. Aquele que desejar permanecer tranquilo precisa acalmar o espírito; aquele que desejar ser espiritual deve seguir o coração; aquele que com as suas acções desejar atingir o alvo deve deixar-se-levar como que pelo pesar. Esse deixar-se levar “como que pelo pesar” é a doutrina dos santos.  

CAPÍTULO 24
HSU WU KUEI


POR INTERMÉDIO DE NU SHANG, o recluso Hsu Wu Kuei obteve uma audiência junto do Marquês Wu de Wei. O Marquês Wu confortou-o com palavras de consolo, dizendo: "Senhor, você não está bem. Suponho que as dificuldades da vida na floresta e nos montes se tenham tornado demasiado árduas para si, para se dispor a vir-me visitar."

"Sou eu quem o precisa confortar!" disse Hsu Wu-kuei. "Que razão tem para me confortar? Se Vossa Majestade tentar satisfazer as suas ambições e desejos e ceder às suas simpatias e antipatias, o que lhe trará uma aflição à sua verdadeira natureza e destino inatos. E se Vossa Majestade tentar negar os seus apetites e desejos e forçosamente sublimar os seus gostos e aversões, então irá privar-se do gozo dos seus ouvidos e dos seus olhos. É meu dever confortá-lo - mas Vossa Majestade não tem qualquer razão para me confortar!"

O Marquês Wu, parecendo confuso, não respondeu.

Depois de um bom bocado de tempo, Hsu Wu Kuei disse: "Vossa Alteza, permita que tente contar-lhe sobre o jeito como avalio os cães. Um cão de comum pensa apenas em satisfazer a fome e comer até se fartarem - isto é, tem mais a índole de um gato selvagem. Os de raça mediana são os que estão sempre de olhar fixo, como se estivessem a olhar para o sol. Mas os de pedigree agem como se tivessem esquecido de si próprios. Mas entendo ainda melhor a natureza dos cavalos do que a dos cães. Quando avalio um cavalo, se ele conseguir galopar tão direito como um fio-de-prumo, e conseguir arquear-se tão bem quanto uma curva, fazer ângulos tão bem quanto um esquadro, e voltar-se tão bem quanto um compasso, então eu diria que é um cavalo de que o reino se poderá vangloriar. Mas não um cavalo de que todo o mundo se vanglorie. Um cavalo que todo o mundo ache que seja um campeão - já nascerá com qualidades perfeitas. Ele parecerá nervoso e inquieto, parecerá que tenha esquecido de si mesmo e dessa forma supera e deixa os outros!"

O marquês de Wu, muito satisfeito, ria de regozijo.

Quando Hsu Wu kuei abandonou a audiência, Nu Shang disse-lhe: "Senhor, como só o senhor conseguiu alegrar o nosso governante? Quando estou com ele, converso com ele sobre as Odes e os Crónicas, sobre os Tratados do Ritual e da Música, ou então abordo com ele as Tábuas Douradas e os Livros da Estratégia Militar. Eu fiz-lhe propostas que levaram a um excelente sucesso em mais casos do que poderão ser narrados e no entanto, ele nunca chegou a mostrar os dentes nem a esboçar um único sorriso. Que esteve você a dizer a Sua Senhoria para conseguir deixá-lo animado dessa forma?

Hsu Wu Kuei disse: "Eu estive apenas a falar-lhe dos conhecimentos que tenho de cães e de cavalos."

"Terá sido tudo?" disse Nu Shang.

"Você nunca ouviu falar sobre aqueles que são exilados para Yueh?" disse Hsu Wu Kuei. "Volvidos poucos dias de terem deixado as suas terras, eles ficam encantados se acaso se deparem com alguém conhecido. Volvidas mais umas semanas ou um mês, ficam encantados se encontrarem alguém que tenham conhecido quando se encontravam na sua terra. E após um ano, eles ficarão encantados caso se deparem com alguém que pareça possa ter sido um conterrâneo. Quanto mais tempo eles estiverem longe dos seus compatriotas, mais profundamente eles são assaltados pela nostalgia - não será?
Aquele que tenha optado por viver no vale, onde as trilhas das doninhas se encontram cheias de arbustos e lá tenha vivido no vazio e no isolamento por um período prolongado, ficará encantado se ouvir nem que seja o sussurro de passadas humanas. Quanto mais por ouvir os seus próprios irmãos e parentes a tagarelar e a rir a seu lado!
Faz muito tempo, creio eu, que alguém que fale como um homem simples e verdadeiro não se sentava a conversar e a rir ao lado do nosso regente.

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Hsu Wu Kuei foi prestar uma visita ao marquês Wu. "Senhor," disse o marquês Wu, "viveu na sua floresta e nos montes por tanto tempo, a viver de bolotas e de castanhas, que me desprezou por completo. Agora, terá sido a velhice, ou porventura a saudade do sabor da carne e do vinho que o trouxe até aqui? Ou talvez você tenha vindo trazer bênçãos aos meus altares do solo e dos grãos. Não considerará também que possuo a fortuna do meu Estado?"

Hsu Wu Kuei disse: "Eu nasci na pobreza e na humildade e jamais me aventuraria a desfrutar de qualquer vinho ou carne, Vossa Majestade. Eu venho é confortá-lo."

"O que?" Disse o regente. "Por que deveria você confortar-me?"

"Eu quero trazer-lhe conforto ao corpo e espírito."

"O que você quer dizer com isso?" Perguntou o marquês Wu.

Hsu Wu Kuei disse: "O Céu e a Terra fornecem suprimento por igual a todas as coisas. Elevar-se a uma elevado posição não deve ser considerado uma vantagem; viver na humildade não deve ser considerado uma desvantagem. Agora Vossa Majestade, enquanto único governante desta terra de dez mil carruagens, pode tributar os recursos de toda a população do reino para satisfazer os apetites dos seus ouvidos e dos seus olhos, do seu nariz e da sua boca, o que invariavelmente lhe consumirá o espírito. O espírito tem predileção pela harmonia e é avesso à licenciosidade. A licenciosidade é uma espécie de mal, e é por isso que venho estender-lhe o meu conforto. Eu só gostava de saber, meu senhor, se você está consciente do próprio mal de que padece."

O marquês Wu disse: "De facto, há muito que acalentava a esperança de o ver, senhor, e de lhe dizer que, pela estima que tenho pelo meu povo, implementei a prática da justiça e renunciei à guerra - não acha isso excelente?"

"De anda vale, senhor!" disse que Hsu Wu Kuei "Estimar o povo é abrir caminho ao seu agravo! Praticar a equidade e o abandono das armas é lançar as sementes para uma maior corrida ao armamento! Se Vossa Senhoria começar por aí, eu receio que nunca venha a ter sucesso. Todas as tentativas de implementar o bem constituirão as armas do mal. Você pode pensar que esteja a praticar a benevolência e a equidade, mas na verdade estará a gerar hipocrisia. Onde se erigir um modelo, deverá proceder-se à imitação e à competitividade; onde grandes façanhas forem conseguidas, serão seguidas pelo orgulho e pela emulação; todo tumulto interior produzirá hostilidade exterior.
"Por outro lado, de nada valerá, Senhor, suprimir as fileiras de soldados a marchar por toda a área da fortaleza, nem as fileiras da cavalaria expostas diante do Palácio. Não oculte ganhos obtidos por meios não éticos; não use da sagacidade para se aproveitar dos outros, exceder os outros pelo uso da habilidade, nem tente enganá-los com estratagemas, nem conquistá-los pela guerra. Se eliminar o povo do governante oponente e anexar as suas terras e as usar para satisfazer os seus próprios desejos e o seu espírito, não poderei dizer quem a guerra trará algum mérito benefício; tão pouco saberei dizer se aquele que obtiver a vitória conseguirá qualquer sentido, ou a quem a vitória pertencerá verdadeiramente! Se, por um lado, de nada vale suprimir o armamento e a guerra, por outro deve cultivar a sinceridade do coração e usá-la para responder sem oposição ao mandato do Céu e da Terra. Então, as pessoas terão conquistado o seu indulto de morte, e não terá necessidade de recorrer a tais estratagemas.

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O Imperador Amarelo partiu em visita a Ta Wei no monte Chil Tzu. Fang Ming era o condutor da sua carruagem, enquanto Chang Yu cavalgava ao seu lado direito; Chang Jo e Hsi Peng lideraram os cavalos e Kun Hun e Ku
​​Chi seguiam atrás da carruagem. Quando chegaram às regiões selvagens de Xiang Cheng, todos os sete sábios esqueceram o caminho e não conseguiram encontrar ninguém a quem perguntar pela direcção. Passado um instante, eles cruzaram-se com um jovem que pastoreava cavalos e perguntaram-lhe se conhecia a direcção. "Conheces o caminho para o monte Chil Tzu?" perguntaram.

"Conheço."

"E sabes onde se encontra Tai Wei?"

"Sei."

"Que jovem surpreendente!" exclamou o Imperador Amarelo. "Não só conhece o caminho para o monte Chil Tzu, como também sabe onde encontrar Tai Wei! E do governo de um império, conheces alguma coisa?"

"Governar o império significa apenas fazer o que estou aqui a fazer, não será?" Disse o jovem. "Quando eu era pequeno, eu costumava perambular por toda a parte sozinho, mas com o tempo eu contraí um problema de tonturas. Um velho de idade avançada aconselhou-me a montar na carruagem e a perambular pelo deserto de Xiang Cheng. Agora estou um pouco melhor do mal que me acometeu. Logo eu poderei perambular uma vez mais, desta vez além da área por onde andava. Governar o império significa apenas fazer o que estou a fazer - eu não vejo por que tenha que ser algo especial."

"É verdade que o governo do império não é algo que precise preocupar-te, rapaz," disse o Imperador Amarelo. "No entanto, gostaria de perguntar-te como deverá ser feito."

O jovem recorreu a desculpas, mas quando o Imperador Amarelo repetiu o pedido, o moço disse: "Governar o império, suponho eu, não é muito diferente de pastorear cavalos. Livre-se dos cavalos que forem inaptos para o rebanho - é tudo."

O Imperador Amarelo, dirigindo-se ao moço como "Tutor Celestial," fez-lhe uma vénia duas vezes em sinal de reverência e retirou-se.

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Os eruditos não se sentirão felizes se não derem voltas às ideias e ao pensamento. O retórico não é feliz sem o argumento e a refutação. Os inspectores não passarão sem as tarefas do interrogatório e da punição. Todos se encontram encurralados pelas ideias.
Os medíocres que atraem a atenção da sua geração obtêm glória na corte. Os homens que se mostram complacentes com as pessoas alcançam o prestígio nos cargos públicos. Os homens de força e energia orgulham-se das dificuldades. Os homens de bravura e ousadia são estimulados pelo perigo. Os combatentes deleitam-se com a guerra. Os homens do isolamento procuram a fama. Os homens das leis e dos regulamentos prosperam com a legislação que impõem. Os homens das cerimónias e do conhecimento veneram o decoro e a aparência. Os homens de benevolência e justiça valorizam as relações sociais. Os fazendeiros não se satisfazem se não tiver o seu trabalho nos campos. Os comerciantes não se sentirão contente sem o seu mercado. As pessoas comuns gostam de se ocupar com algo do nascer do sol até ao anoitecer. Os artesãos sentem-se mais encorajados quando usam as suas ferramentas e utensílios. Se não acumularem bens e dinheiro, os avarentos ficam transtornados; se não virem o seu poder e autoridade superiores às dos demais, os ambiciosos afligem-se.
Servis para com os superiores e impiedosos para com os subalternos, eles põem as suas esperanças nas coisas e alegram-se com as suas mudanças. Quando se lhes apresenta uma oportunidade para agir, não conseguem resignar-se à não-acção. Dessa forma, todos são oportunistas e prisioneiros do seu próprio mundo. Em vão labutam com a mente e o corpo. Ocupam o pensamento apenas com coisas materiais, e jamais têm percepção das situações. São dignos de toda a compaixão!

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Chuang Tzu disse: "Se um arqueiro se gabar de ser hábil por acertar num alvo ao acaso, então toda gente poderá ser um arqueiro como o excelente Yi - não será verdade?"

"É," disse Hui Tzu.

Chuang Tzu disse: "Se não houver convénio nenhum sobre o que seja correcto, que seja aceite por todo mundo, e cada um defender o que achar correcto e verdadeiro, então toda a gente no mundo poderá ser um rei Yao - não será verdade?"

"É", disse Hui Tzu.

Chuang Tzu disse: "Pois bem, então aqui temos as quatro escolas dos literatos Confucionistas, de Mo Tzu, de Yang Tzu e de Kung Sun Lung, mais a sua, o que perfaz cinco. Agora, qual delas será de facto verdadeira? Ou será como no caso de Lu Chu? O discípulo dele disse-lhe: "Mestre, sou senhor da ciência que domina. Já consigo aquecer o caldeirão no inverno e produzir gelo no verão."
"Mas isso é simplesmente usar o yang para atrair o yang, e o yin para atrair o yin," disse Lu Chu. "Isso não é o que eu chamo de Caminho! Eu vou-te mostrar a minha doutrina!"
Então, ele afinou dois alaúdes, pousou um pouco afastado do outro. Quando ele atingiu uma corda num alaúde, o outro alaúde começou a reverberar a mesma nota, e quando ele tangeu uma segunda corda, o outro também a reverberou - O timbre dos dois instrumentos encontrava-se em perfeita harmonia. Então ele desafinou uma corda para que não correspondesse a nenhuma das cinco notas, e quando ele tangeu essa corda, levou a que o outro instrumento provocasse um som dissonante. Não poderia dar um som diferente; aquela era a nota dominante. Não será assim?"

Hui Tzu disse: "Os seguidores de Confúcio, de Mo, de Yang e de Kung Sun Lung envolvem-se comigo muitas vezes em disputas, tentam atacar-me com frases e silenciar-me com os seus altos brados - mas até agora nunca conseguiram provar que eu estivesse errado. Porquê?"

Chuang Tzu disse: "Um homem do Estado de Chi dispensou o seu próprio filho para o serviço em Sung, e como estava destinado a tornar-se Porteiro e gozasse de integridade física, mutilou-o. Outro trazia uma campainha cuidadosamente atada, para que não se quebrasse. Um outro ainda foi à procura de um filho perdido, mas sem se dispor a transpor os limites da sua região - tudo isto apresenta um traço similar de procedimento impróprio, não será? Um habitante de Chu que se tivesse mutilado para poder concorrer ao serviço da Guarda ao Portão, a meio da noite quando ninguém mais se encontrasse por perto, se metesse numa briga com o barqueiro, eu diria que antes mesmo que o barco deixasse a margem ele já se teria metido em considerável confusão."

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Chuang Tzu acompanhava certa vez um funeral quando passou pelo sepulcro de Hui Tzu. Voltando-se para os que iam com ele, disse: "Houve certa vez um estucador que, se ele tivesse uma pinta de gesso na ponta do nariz, não mais espessa do que a asa de uma mosca, procuraria que o seu amigo pedreiro Shih lha tirasse. O pedreiro Shih, fazendo girar o seu martelo e cinzel com um silvo semelhante ao do vento, aceitava a tarefa e passava a cortá-la, removendo cada pedaço de gesso sem lhe magoar nariz, enquanto o estucador ficava imóvel e completamente imperturbável.
O Senhor Yuan de Song, ouvindo falar de tal feito, convocou o pedreiro Shih e disse-lhe: "Você poderia mostrar-me isso?" Mas o pedreiro Shih respondeu: "É verdade que já fui capaz de o fazer assim - mas a quem o fazia morreu há faz tempo."
Desde que esse mestre morreu, deixei de ter em quem praticar. Não tenho com quem possa falar."

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Quando Kuan Chung adoeceu, o Duque Huan foi visitá-lo e perguntou-lhe como passava. "Meu Pai Chung," disse ele, "você encontra-se muito doente. Como poderei evitar falar-lhe sobre o que lhe vou dizer? - Se a sua doença se agravar, a quem eu podei confiar os assuntos do meu Estado?"

Kuan Chung disse: "A quem pensa sua graça confiá-los?"

"A Pao Shu Ya," disse o duque.

"A ele não! Enquanto pessoa ele é um homem muito honrado e íntegro. Mas não quererá associar-se àqueles que não viverem de acordo com os seus padrões. E se ele tomar conhecimento dos defeitos de alguém, ele jamais o esquecerá. Se ele fosse encarregado do Estado, ele revelar-se-ia intransigente com o superior a ele e recalcitrante com os súbditos. Não tardaria muito até se sentisse ofendido por ele."

"Bem, então, quem estará qualificado?" perguntou o duque.

"Se mais ninguém lhe for indicado, então eu diria que Hsi Peng serviria. Enquanto pessoa ele não se deixa impressionar pela eminência e não discrimina os que estão abaixo dele. Envergonha-se de não ser como o Imperador Amarelo, e lastima aqueles que não chegam à sua posição.
Aquele que partilha da sua virtude com os outros é chamado de sábio, o que partilha dos seus talentos com os outros é chamado de homem digno. Aquele que, com o seu talento e sabedoria se impõe aos outros, nunca conquistará a sua confiança. Aquele que a usar para se humilhar em serviço pelos outros, esse nunca deixará de obter o seu apoio. No comando do Estado um homem desses não quererá inteirar-se demasiado das coisas que ouve dizer; e ao governo da sua família tudo deixará. Se mais ninguém lhe for indicado, eu diria que poderia ser Hsi Peng."

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O rei de Wu, passeava de barco pelo Yangtze, mas resolveu ir até à margem e subiu ao monte conhecido por ter sido habitado por macacos. O grupo de macacos que o viu, correu a fugir apavorado e saiu a esconder-se atrás dos arbustos. Mas houve um macaco que com indiferença andava a saltar de um ramo para o outro, a coçar-se. O rei apontou-lhe o arco e atirou-lhe uma flecha veloz, que ele com grande agilidade agarrou antes que o atingisse. Então, o rei ordenou que os seus assistentes se apressassem a juntar-se a ele no tiro, e o macaco logo foi capturado e morto. O rei dirigiu-se para o amigo Yen Pui e disse: "Este macaco, ao se pavonear da habilidade que tinha e confiar na sua destreza, demonstrou deliberadamente o desprezo que sentia por mim - pelo que se deparou com este fim. Previnam-se disso! Ah - nunca devem deixar que o vosso procedimento mostre arrogância para com os outros! "

Quando Yen Pui voltou, ele submeteu-se à instrução de Tung Wu, e aprendeu a limpar a expressão de altivez do rosto, a controlar as simpatias e as afeições, e todo mundo no Estado o elogiou.

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Tzu Chi de Nan Po encontrava-se recostado no sofá, a olhar para o céu e a suspirar. Yen Cheng Tzu entrou e fez o seguinte comentário: "Mestre, o senhor já superou todas as coisas. Consegue mesmo fazer com que o corpo pareça uma árvore ressequida e com que o espírito se assemelhe a cinzas mortas!"

Mas ele contestando-o, disse: "Certa vez vivi numa caverna nos montes. Toda vez que Tien Ho, o rei de Chi, vinha visitar-me as pessoas do Estado de Chi congratulavam-se três vezes junto dele. A minha reputação deve ter-me precedido para que ele descobrisse quem eu era; devo ter feito alarde da minha reputação para que ele ma viesse comprar como se fosse uma mercadoria. Se eu não tivesse feito alarde da minha fama, então como poderia ele chegar a conhecer-me? Ah, como eu lastimava aqueles que se deitavam a perder! Apiedava-me daqueles que lastimam os outros, e depois ainda lastimava aqueles que lamentam aqueles que lastimam os outros. Mas, por fim distanciei-me de tudo isso."

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Quando Confúcio foi de visita a Chu, o rei deu um banquete em sua homenagem. Sun Shuao pegou numa taça de vinho e pôs-se de pé, enquanto Chinan Yliao, vizinho do sul da cidade, pegou no vinho e derramou-o num acto de libação, dizendo: "Os antigos costumavam fazer discursos em ocasiões destas, pelo que lhe peço que diga algumas palavras apropriadas à ocasião."

Confúcio disse: "Eu, Confúcio, aprendi a doutrina no silêncio, pelo que não costumo falar." Mas depois de um bocado, lá disse: "Yliao resolveu as desavenças de duas famílias com uns malabarismos com bolas (que por não terem encontrado resposta ao que pediam, tinham matado dois homens). Sun Shuao adormeceu profundamente, no ócio a que se entregou, com um leque de penas a abaná-lo, e os habitantes de Chu depuseram as armas. Eu, Confúcio, precisaria ter uma língua de três palmos!"

O discurso usado foi o discurso sem argumentos. O discurso de Confúcio é o chamado discurso do silêncio. Por isso, a Virtude resume o que o Tao unificou. Quando as palavras se estendem ao que o conhecimento não alcança, isso é uma limitação. O que a compreensão não abarca é algo que o debate nunca poderá colmatar. Adjectivar à maneira dos Confucionistas e dos Moistas é convidar o erro.
O mar não anseia pelos rios que correm a afluir nele, oriundos do leste - nisso reside a perfeição da grandeza. O sábio abraça todo o Céu e Terra, e a sua generosidade estende-se ao mundo inteiro, mas ninguém o conhece pelo nome nem sabe de que família descende. Por essa razão, na vida ele não acumula bens, e depois de morrer não recebe títulos póstumos. Eles são chamados Grandes Homens.

Um cão não é considerado bom apenas por ladrar muito. Um homem não é considerado digno apenas por falar com eloquência, muito menos, pois, deverá ele ser considerado virtuoso. Nada possui uma medida de grandeza superior à do Céu e à da Terra, mas quando será que terão desejado tal grandeza? Aquele que entende o que significa possuir grandeza não a busca, nem a perde, nem a abandona, nem a rejeita nem muda em função das coisas. Volta-se para si mesmo e descobre o inesgotável; segue a consistência do Tao sem conjeturas nem polidez e descobre o imperecível - essa é a autenticidade do Grande Homem.

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Tzu Chi teve oito filhos e, reunindo-os diante de si, convocou Chiu Fang Yin e disse: "Por favor, prognostique-me a sorte dos meus filhos e diga-me qual deles terá um destino auspicioso."

Chiu Fang Yin respondeu: "Aquele que se chama Kun - será ele que gozará de boa sorte."

Tzu Chi, num misto de atordoamento e de satisfação, disse: "Como assim?"

"Kun chegará a comer da mesma mesa de um Chefe de Estado, até ao fim dos seus dias."

Tzu Chi de súbito irrompeu em lágrimas, e com grande abatimento, disse: "Por que deverá o meu menino ser levado e tal extremo?"

"Supõe-se que do favor de comer da mesma mesa de um Chefe de Estado se estenda a três gerações da sua família, para não falar dos próprios pais," disse Chiu Fang Yin. "No entanto, agora, ao ouvir falar sobre nisto, o senhor caiu num pranto! O filho é suficientemente auspicioso, mas o pai é decididamente infeliz!"

Tzu-chi disse: "Yin, o que sabe você das implicações desses bons auspícios? Diz que Kun virá a ter sorte - mas fala unicamente de dispor da carne e do vinho. Mas quando ele dispuser disso numa base de continuidade como poderá entender de onde virão essas coisas? Suponha que, eu nunca tenha sido pastor, mas que um bando de ovelhas aparecesse repentinamente na minha casa dos meus terrenos; ou que, nunca tendo tido gosto pela caça, uma codorniz ou um bando delas aparecesse de súbito na minha casa - se isso não fosse considerado peculiar, então o que seria?
"As andanças que quero para os meus filhos são em consonância de pelo Céu e Terra. Eles e eu encontrávamos o nosso deleite no Céu e o nosso alimento na Terra. Eu quisera para eles as alegrias do Céu e o sustento da Terra, e não que se ocupassem de assuntos. Não queria que andassem a discorrer nem que chamem a atenção com coisas extraordinárias. Quisera que rementem à verdade de Céu e Terra, e que não tivessem que lutar com as coisas. Só queria que fossem levando a vida sem precisarem calcular as conveniências do obrar. Agora vem-me falar dessa vulgar e mundana "recompensa" que virá ao seu encontro. Por regra, onde houver alguma manifestação extraordinária, deve haver sempre algum feito extraordinário que a atraia. Mas certamente isso não pode ser culpa do meu filho nem minha - deve ser-lhe infligido pelo Céu. É por essa razão que eu choro!"

Pouco tempo depois, Tzu Chi enviou o seu filho Kun numa missão ao Estado do Yen, e ao longo do caminho ele foi capturado por bandidos. Considerando que ele seria mais difícil de vender do que no estado actual de integridade física em que se encontrava do que mutilado para que não pudesse fugir, eles cortaram-lhe os pés e venderam-no no Estado de Chi. Conforme veio a suceder, ele foi feito porteiro da corte no palácio do Duque de Kang, e assim veio a puder comer carne até o final dos seus dias.
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Nieh Chueh encontrou-se com Hsi Yu, a quem perguntou: "Onde vai?"

"Vou a fugir do rei Yao."

"Por quê?"

"Por Yao promover tão fervorosa e diligentemente a benevolência! Receio que ele se venha a tornar objecto da chacota de todo mundo, e que em breve os homens venham a comer-se uns aos outros por causa dele!
"Atrair as pessoas é algo que não é difícil. Amem-nas e elas virão a vós. Beneficiem-nas e eles ficarão animadas. Louvem-nas e elas irão sentir-se encorajadas. Façam algo de que elas não gostem e elas dispersar-se-ão.
"O amor e o benefício são produto da benevolência e da equidade. São poucos os homens que se sacrifiquem pela benevolência e pela equidade, mas muitos os que procuram tirar proveito delas. A prática da benevolência e da equidade dessa maneira é na melhor das hipóteses uma forma de hipocrisia, e na pior das hipóteses uma cedência deliberada de instrumentos da ambição e da brutalidade. Além disso, esse é um regime fixado por um só homem, para tirar vantagem de todo mundo, o que se assemelha a querer ver todas as coisas com um só golpe de vista. O rei Yao entendia bem o quão os homens dignos poderiam beneficiar o mundo, mas não entendia como eles também lhe podiam trazer ruína. Apenas aqueles que apartem de si os "dignitários" poderão adverti-lo!"

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Há os convencidos e satisfeitos, há os que se encontram precariamente empoleirados, e depois há os vergados pelos encargos. Os que eu chamo de convencidos e satisfeitos são aqueles que, depois de terem apreendido a doutrina de um mestre, se mostram presunçosos e satisfeitos consigo próprios, e que acham que o que conseguiram seja suficiente sem nem sequer perceberem que ainda nem começaram a perceber coisa nenhuma palpável. Esses são o que eu chamo de convencidos e satisfeitos.

Os que eu chamo de precariamente empoleirados são como os piolhos de um porco. Eles escolhem um lugar onde as cerdas sejam longas e esparsas e chamam-lhes a sua mansão espaçosa, o seu amplo parque; ou um lugar em algum canto dos pernis ou dos cascos, entre os mamilos, ou em torno das ancas, e chamam-lhes a sua casa de repouso, a sua fonte de vantagens. Eles não sabem que um belo dia, o talhante irá brandir o cutelo, espalhará a palha, acender o fogo e que eles virão a ser assados
​​ junto com o porco. O seu avanço no mundo está sujeito a tais contingências. São os que eu chamo de precariamente empoleirados.

O que eu chamo de vergados pelos encargos são aqueles como Shun. O carneiro não anseia pelas formigas; são as formigas que anseiam pelo carneiro. O carneiro tem um odor rançoso agradável, e Shun deve ter cometido feitos que terão exalado um bom aroma para que o povo se deleitasse tanto com ele. Por isso, três vezes teve que mudar a capital, mas onde parou, sempre se formou uma grande povoação, e quando chegou à região selvagem de Teng, seguiram-no cem mil famílias. Quando o rei Yao soube do mérito de Shun promoveu-o e tirou-o das planícies áridas, na esperança de que a sua boa influência pudesse vir a trazer-lhe proveito. Quando Shun foi promovido das zonas áridas, ele já se encontrava bem adiantado na idade e a sua clarividência e inteligência começavam a falhar, e ainda assim ele não conseguiu voltar a usá-las nem a gozar de descanso. Isto é o que eu chamo de vergados pelos encargos.

Portanto, o Homem Santo detesta as multidões acorram a ele, por saber que das multidões nunca obterão harmonia; e sem harmonia não poderão alcançar sucesso. Assim, ele garante que não haja nada a que se sinta muito chegado, nem nada do que se distancie muito. Abraçando a virtude, e cultivando a harmonia, ele conforma-se ao mundo – esse é o que se eu chamo de Homem Verdadeiro. Ele deixa a sabedoria para as formigas, capta a alegria dos peixes, e deixa a obstinação da intenção de anelos para o carneiro.

Usai os olhos para observar o que os olhos conseguem ver, o ouvido para ouvir o que o ouvido consegue ouvir e o coração para sentir o que só o coração consegue sentir. Fazei isso e nivelareis e aplanareis tudo como se traçado à linha e passado a ferro, e ajustar-vos-eis a todas as vicissitudes.
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Os verdadeiros homens da antiguidade tudo encaravam como arranjos do Céu e não procuravam tirar-lhe o lugar com a sua intromissão; os verdadeiros homens da antiguidade ora encaravam o êxito como vida, e o fracasso como morte; ora o êxito como morte e o fracasso como vida. As plantas medicinais servem de exemplo. O acónito, a violeta, os abrolhos e a salsaparrilha, tudo tem o seu momento apropriado e a condição apropriada para que se prestam. Como poderão as palavras expressar tudo isto?
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Kou Chien, implantou um exército de três mil homens de armadura e escudo em punho, em Kuai Chi. Nessa época, só Wen Chung conseguia perceber como um estado que se encontrasse em perigo ainda pudesse ser salvo, mas só ele não entendeu como ele próprio incorreu num verdadeiro perigo. Por isso se diz: Os olhos da coruja têm a sua aptidão, e as pernas da cegonha têm as suas proporções adequadas; tentar tirar-lhes o que quer que fosse deixaria tristes essas indefesas.

(NT: Wen Chung foi um dos ministros do rei, que o levou à vitória no combate com o seu arqui inimigo Fuchai, durante o período dos Estados Bélicos, mas em tempo de paz, começou a perceber que a personalidade do rei era tal que, durante a guerra podia acompanhá-lo, mas não em tempo de prosperidade. Após se escusar demasiado, e de ter merecido a suspeita do rei, foi condenado a cometer suicídio)

Diz-se que: Quando o vento sopra sobre as águas, o rio sempre perde alguma água; quando o sol bate sobre ele, ele sempre perde alguma água. Mas mesmo que o vento soprasse constantemente e o sol estivesse sempre a aquece-lo, o rio não perderia muita - por depender das nascentes que o alimentam. Assim, o rio tem o cuidado de guardar a terra, e a sombra não mais faz que guardar a forma, e as coisas ocupam-se de preservar as coisas.
Daí que: a visão aguda possa ser um perigo para os olhos; uma audição exacerbada pode ser um perigo para o ouvido; o hábito do pensar possa constituir um perigo para o espírito. Toda a sagacidade que se aloja no espírito torna-se numa potencial fonte de perigo, e se esse perigo se tornar real e não for evitado, os infortúnios acumular-se-ão em número crescente. Um retorno à condição original exige introspecção; a sua realização leva tempo. No entanto, os homens consideram essas faculdades como tesouros - não será isso triste? Por isso, temos essa destruição infindável dos Estados e o abate de pessoas - por ninguém saber o suficiente para lhes questionar as causas!
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O que o homem percorre um um só pé na terra é muito pouco, mas, indo onde nunca tenha ido antes, levá-lo-á longe. O conhecimento do homem é mínimo, mas, ainda assim, pode-se contar com ele para tornar tudo quando desconhece numa mais ampla compreensão da natureza.
Entender a Grande Unidade, entender o Grande Yin, entender o Grande Olho. Compreender a Grande Justiça, compreender o Grande Método, compreender a Grande Confiança, compreender a Grande Serenidade - isso é a perfeição. Com a Grande Unidade, poderão penetrá-la; com o Grande Yin, aliviá-la; com o Grande Olho, apreendê-la; com a grande justiça, segui-la; com o Grande Método, incorporá-la; com a Grande Confiança, alcançá-la; com a Grande Serenidade, retê-la.

Assim, o Céu repousa em tudo; do acordo disso resulta a iluminação. Da contemplação resulta a fundação; do próprio começo resulta o fim. Assim, a apreensão obtida sem esforço não parece apreensão nenhuma e conhecimento obtido sem esforço não parece conhecimento nenhum, por o não saber preceder o conhecimento. Nenhuma investigação pode ser restrita e ainda assim não se pode deixar de se impor um limite à investigação. Passado e presente, não o altera - nada pode causar-lhe prejuízo. Por que não indagar sobre isso? Por que agir com base em tal dúvida? Procurar a dúvida com base no que não deixa margem a dúvidas e subsequentemente atingir a ausência de dúvida, essa será a condição que não deixa margem a dúvida alguma.   

CAPÍTULO 25
FEH Yang
(Viajando para Chu)

TENDO CHE YANG VIAJADO PARA CHU, Yi Chieh falou nele ao rei, mas como o rei não lhe concedesse audiência, deixou-o e regressou a casa. Che Yang foi ver Wang Chuo, e disse-lhe:

"Mestre, por que razão não me menciona ao rei?"
Wang Chuo respondeu:
"Eu não sou tão bom nisso quanto Kung Yueh Hsiu."
"Que tipo de homem é ele?" perguntou o outro, e recebeu a seguinte resposta:

"No inverno ele anda a caçar tartarugas e no verão repousa nos locais sombrios nos montes. Quando os transeuntes o questionam do que anda por lá a fazer, ele responde que é o seu local de habitação. Se Yi Chie não foi capaz de induzir o rei a recebe-lo, quanto menos seria eu, que não me equiparo a ele!

Yi Chien possui um carácter assim: Não possui propriamente virtudes reais, mas usa da influência. Goza de excesso de confiança nele próprio e de articulação na relação com os demais. É aficionado pelo mundo da fama e da fortuna. Ele não é negligente com ele próprio, mas devota todas as suas energias a favorecer aqueles que o rodeiam. Se não se submeter de bom grado a ele, mas empregar o espírito de influência a seu favor, certo será que venha a ficar aborrecido, porque se ele o ajudar não será em função de nenhuma virtude e poder mesmo chegar a ser-lhe prejudicial.

"É vaidoso como uma pessoa trêmula de frio que enverga roupas finas a fingir que chegou a primavera ou como aquele que, no pico do calor do verão, espera que os ventos frios do inverno o venham refrescar, e não tiras as vestes. Além disso, o rei de Chu é autoritário e severo, e se alguém o ofender ele revelar-se-á tão implacável quanto um tigre. Unicamente um homem de subtil eloquência, ou alguém dotado de perfeita virtude poderia demovê-lo do seu objectivo.

"Por isso, quando é acometido pela pobreza, o homem sábio leva os membros da família a esquecer as agruras da vida, e na abundância e a influência que gozam, leva os duques e os reis a esquecer as suas posições e os estipêndios e a tornar-se humildes. Com as criaturas inferiores ele partilha os seus prazeres e tanto mais elas disfrutam deles. Em associação com os outros homens, ele alegra-se no Tao, e preserva-o em si mesmo. Assim, embora possa não dizer palavra, ele transforma-os até que alcancem o sentimento de pais e filhos que se encontrem em bons termos de relação mútua. Tudo isso consegue sem qualquer evidência de esforço, por se ter apartado do instinto dos homens e repousar na paz de espírito, pelo que esse é o efeito que exerce ocasionalmente no intercâmbio que tem com eles. É assim a influência que exerce nos seus espíritos. Por isso lhe digo que aguarde por Kung Yueh Hiu.

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O sábio desata os problemas que tem com os demais, e vai além da confusão e da diversidade, e tudo torna num só corpo coerente. Muito embora certamente ele não saiba como, é fiel à sua natureza inata. Seja no que sabe ou no que não sabe, seja no que tenha ouvido ou no que não tenha ouvido, ele usa o Céu como seu guia. Em consequência disso os homens apelidam-no de sábio. Se ele se apoquentasse com a insuficiência do seu conhecimento, o que quer que fizesse sempre se provaria insuficiente, e como haveria de saber quando se deter?

Quando as pessoas nascem com um bom aspecto, vocês poderão estender-lhes um espelho, mas se não as advertirem disso, elas jamais saberão que têm melhor aspecto que as outras. Quer tenham ou não ideia disso, quer lhes digam isso ou não, o seu encantador bom aspecto permanece inalterado até ao fim, e os outros poderão continuar a admirá-los sem parar - é uma questão da sua natureza inata. O sábio ama ou outros, mas não o sabe, até que lho digam. Em conformidade com isso, os homens atribuem-lhe apelidos. Quer tenha ou não ideia disso, quer lho digam ou não, o seu amor permanece inalterado até ao fim, e os outros poderão encontrar contínua segurança nisso - é uma questão da sua natureza inata.

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A nossa velha terra pátria, a velha cidade, só de a olharmos de longe leva-nos a sentir inundados por um sentimento transbordante de alegria. Mesmo quando as suas colinas e montes estão cobertas pelas ervas daninhas e pelas moitas, e a maior parte daqueles que tenhamos conhecido tenham ido para debaixo da terra, ainda nos sentimos cheios de júbilo. Quanto mais não será, pois, quando encontramos aqueles que costumávamos ver, quando escutamos as vozes que costumávamos escutar - elas destacam-se como torres altíssimas por entre a multidão.

O senhor Shin Chiang captou o princípio nuclear ao redor do que tudo gira e seguiu-o até ao fim. Acompanhando todas as coisas, ele não conheceu fim, nem começo, nem ano nem estação. E por mudar com as coisas de dia para dia, ele era um com o homem que jamais sofre mudança - assim, por que razão haveria ele de deixar de fazer isso? Aquele que tenta fazer da natureza seu mestre, nunca chegará a deixar que a natureza o ensine, mas acabará por seguir às cegas e competir com as coisas, e aí, independentemente de como se der com as coisas, que poderá ele fazer? O sábio jamais chega a pensar no Céu, nem chega a pensar no homem; jamais chega a pensar num começo ou num fim, jamais chega a pensar nas coisas. Avança na companhia da sua geração, sem jamais se alterar; para onde quer que vá, encontra perfeição e ausência de impedimentos. Outros procuram manter-se a par da sua estatura espiritual, mas que poderão fazer?

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O rei Tang conseguiu fazer do lacaio e soldado da guarda Deng Heng seu preceptor. Seguiu-o e tratou-o como seu mestre, sem lhe negar nada. Seguindo-o alcançou a perfeição. Fez com que o seu servidor arcasse com a glória e a fama, que transbordando resplandecia legitimamente sobre ambos. Também Confúcio se tornou mestre pelo suprimir todo discurso e reflexão. Já Yung Cheng havia dito: "Suprima-se o sol e não mais haverão anos; sem interior não pode haver exterior."

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O rei Yiang de Wei estabeleceu um pacto com o marquês Tian Mou de Chi, mas o marquês Tian de Chi violou-o. O rei Yiang, enfurecido, esteve para enviar um homem a assassiná-lo. Gongsun Yan, o ministro da guerra, ouviu isso e sentiu-se coberto de vergonha:
"Vós sois o Regente de um Estado de dez mil carruagens," disse ele ao rei," e ainda assim procura vingar-se como um homem ordinário! Rogo-lhe que me conceda o comando de duzentos mil tropas blindadas de modo a eu poder atacá-lo por si, tornar a sua gente prisioneira, e arrecadar os seus cavalos e gado. Fá-lo-ei arder de raiva com tal crueldade que lhe quebre a espinha. De seguida irromperei pela sua capital de modo que, quando Tian de Chi procurar fugir, atingi-lo-ei de modo a quebrar-lhe a espinha!"

Ao ficar inteirado disso, Shin Chiang sentiu-se coberto de vergonha e disse: "Se nos determinarmos a construir um muro de 24 metros e quando estiver sete décimos erguido deliberadamente lhe abrirem um rombo, os trabalhadores escravos que o tiverem construído encararão isso como um enorme desperdício de energias. Agora, há sete anos que não precisamos recorrer à guerra, e esta paz tem representado as fundações da nossa soberania. Gonsun Yan é um arruaceiro - não lhe devem dar ouvidos!"

Quando ficou a par disso, Huazi encheu-se de vergonha e disse: "Aquele que se precipita a dizer que se deva atacar Chi é um arruaceiro, e aquele se apressa a dizer que não se deve atacar, um arruaceiro é! E aquele que defender que ambos os que estejam a favor ou contra o ataque são arruaceiros, um arruaceiro deverá do mesmo modo ser!"
“Nesse caso que deveria eu ter dito?” disse o governante.
“Procure simplesmente o Caminho, isso é tudo.”

Ao escutar aquilo, Hui Tzu, foi apresentar Tai Chin Chen ao governante.
Tai Chin Chen perguntou-lhe: “Existe uma criatura chamada caracol -- estará Vossa Majestade inteirado disso?”
“Sim, estou.”
"No topo do seu tentáculo (olho) esquerdo há um reino chamado Provocação, e sobre o topo do tentáculo direito um reino chamado Estupidez. Por vezes guerreiam-se entre si por causa de território e chegam à agressão semeando o campo de corpos às dezenas de milhar e os vencedores perseguem os vencidos por meio mês antes de regressarem a casa.
“Ora!” disse o governante. “Que conversa fiada é essa?”
"Mas Vossa Majestade porventura permitir-me-á que lhe mostre a verdade que isso encerra. Acredita que haja um limite nas quatro direcções, em cima e em baixo?"
"Elas não têm limites," disse o governante.
"E quando em espírito Sua Majestade se põe a vaguear por essa infinitude e volta a pensar num estado real, isso não lhe parecerá insignificante que poderá não conseguir distinguir se realmente existirá tal estado ou não?
"Assim é," disse o governante.
“Pois por entre essas terras reais acha-se o Estado de Wei, e no Estado de Wei encontra-se a cidade de Liang, e na cidade de Liang se encontra Vossa Majestade. Existirá alguma diferença entre o rei e o tentáculo direito do caracol?”
“Nenhuma,” disse o rei.

Depois do visitante ter saído, o rei sentou-se estupefacto, como que perdido para o mundo. Terminada a audiência, Hui Tzu compareceu diante dele. “Este nosso visitante é um grande homem,” disse o rei. “Mesmo um sábio não se compararia a ele!” Hui Tzu disse: “Toque uma flauta e obterá uma nota aguda agradável; porém, sopre pelo orifício do punho da sua espada, e tudo quanto obterá será um fraco chiado. As pessoas tendem a elogiar os reis sábios Yao e Shun, mas se começarem a expor sobre Yao e Shun na presença de Dai Tai Chin Chen, isso assemelhar-se-á a um fraco chiado!”

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Quando Confúcio viajou para a capital de Chu, parou para passar a noite na taverna de YI Chiu. As mulheres e os homens, os servos e as servas da casa do lado subiram ao telhado para o ver (provavelmente espantados com este pseudo sábio, inconscientes de se encontrarem ao serviço de um verdadeiro sábio).

Tzu Lu disse: “Que gente toda é aquela que se aglomera ali?”

“São os servos de um santo,” disse Confúcio. “Ele esconde-se entre as pessoas, e vive ocultado nos campos. Não preza a reputação, porém, possui um ânimo imenso. Embora a sua boca fale, o seu espírito permanece sempre em silêncio. Talvez ele esteja em desacordo com a sua geração, porém, no seu íntimo, não se digna aceitá-la. É um daqueles que se afogou em meio à terra seca. Eu diria tratar-se de Yi Liao, do sul da cidade, não será?

“Poderei eu ir à porta do lado convidá-los?” perguntou Tzu Lu, mas Confúcio disse: “Deixa para lá!” Ele sabe que eu o conheço, assim como sabe que estou a caminho da capital de Chu. Presume que vou à corte do rei de Chu, e que por recomendação minha, o rei o promova, e tem-me na conta de um adulador. Um homem assim envergonha-se até mesmo de escutar as palavras de alguém assim que tenha uma língua volúvel, quanto mais apresentar-se em pessoa à sua frente! De qualquer modo, que será que te leva a supor que se encontre em casa?" Tzu Lu foi até à porta do lado dar uma espreitadela e encontrou a casa vazia.

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Um guarda de fronteira de Chang Wu disse a Tzu Lu: “Na sua administração não deve o regente ser rude; no governo do povo não deve ser impetuoso! No passado eu costumava plantar arroz. Arava a terra de uma maneira desleixada e em resultado obtinha colheitas impróprias. Limpava os campos de ervas daninhas à toa e obtinha uma colheita pobre. Subsequentemente alterei os métodos e arei mais fundo que antes e limpei com um maior cuidado, e o grão cresceu abundante e luxuriante, e tive o que comer durante todo o ano.”

Ao ouvir isso, Chuang Tzu disse: “O homem de hoje, no que toca ao governo do seu corpo e à regulação do seu espírito, frequentemente fá-lo de um modo semelhante ao que o guarda da fronteira descreveu. Voltam as costas ao espírito, desviam-se da sua natureza genuína, ignoram a sua verdade e traem os próprios sentimentos apenas para se conduzirem como o vulgo. Por isso, aquele que é desleixado em relação à sua natureza inata, descobrirá que os demónios do desejo e do ódio lhe afectam a natureza inata quais ervas daninhas e arbustos. Quando começam a despontar, parece que venham a tornar-se num conforto para o corpo, mas no devido tempo acabarão por sufocar a natureza inata. Ao lodo dos outros, começam a eclodir e a esvair-se, não apenas numa parte do corpo mas por todo o lado. Úlceras, furúnculos e febres internas e urina cheia de pus – esse será o resultado!”

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Tendo estudado sob a tutela de Lao Tzu, Po Chu disse: “Gostaria de obter permissão para correr mundo.”
“Deixa lá isso!” disse Lao Tzu. “O mundo é exactamente como aqui.”
Quando Po Chu repetiu o pedido, Lao Tzu disse: “Por onde começarás?”
“Começarei por ir a Chi.”
Quando ele chegou a Chi, deparou-se com o cadáver de um criminoso que tinha sido executado, e puxando-o e arrastando-o até o ter na posição adequada, despiu as vestes e cobriu-o com elas, fazendo um pranto voltado para o céu e exclamando: “Ai meu filho, que o mundo encontra-se numa terrível desgraça e tu descobriste-o primeiro que o resto de nós. Pregam por aí: “Não matarás; não roubarás, mas assim que glória e o opróbrio são estabelecidos, vemos as falhas a aparecer. Quando bens e fortuna são acumulados assistimos a disputas.”
Define-se as causas do sofrimento do homem, acumula-se o que os leva à disputa, impõem-se-lhes sofrimento e exaustão sem nunca lhes concederem um período de repouso, e ainda assim espera-se que por obra do acaso não venham a acabar num atoleiro destes – como poderia tal coisa ser possível?

Os governantes de antigamente atribuíam todo o sucesso que tivessem às pessoas e todo o fracasso que tivessem a eles próprios. Atribuíam o que era justo aos outros e o que era distorcido a eles próprios. Por isso, se acontecesse apenas um faltasse no seu comportamento, eles resignariam ao cargo e assumiriam eles próprios a culpa. Mas hoje isso não é feito assim. Eles negam a verdade dos factos ao povo e não reconhecem as próprias faltas, e depois culpam as pessoas por serem ignorantes; Aumentam-lhe o grau das dificuldades e a seguir castigam o povo por não ser capaz de cumprir com o exigido; sobrecarregam-nas as pessoas de responsabilidades e depois penalizam-nas por não serem capazes de as satisfazer; aumentam a jornada e a seguir castigam as pessoas por não irem até ao fim. Quando o conhecimento e as forças das pessoas são exauridas, começam a enganá-las com artifício e a fraude; e quando dia após dia o volume do artifício e das fraudes aumenta, como poderão os homens evitar recorrer à hipocrisia e não se sentir traídos? Quando as forças não bastam isso convida a desonestidade; a falta de conhecimento convida o engano, a falta de bens convida o roubo. Mas quem será verdadeiramente culpado desses furtos e roubos?

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Chu Po Yu estava com sessenta anos e sessenta vezes tinha mudado na forma de pensar. Não havia um único caso em que aquilo a que tivesse chamado correcto no início, o não viesse a chamar, no fim, mas viesse em vez disso a rejeitá-lo como um erro. Por isso agora não temos como dizer se aquilo a que chamava justo num momento não seria, de facto, aquilo a que teria chamado errado durante os cinquenta e nove anos anteriores.
Todas as coisas são produzidas ao nosso redor, contudo ninguém lhes aponta a raiz; têm o seu eclodir, porém, ninguém lhes vê por onde eclodem. Os homens prestam todos reverência àquilo que o entendimento entende, mas nenhum entende o suficiente para se apoiar no que o entendimento não entende para desse modo chegarem a conhecer mais. Poderemos chamar a isso outra coisa que não uma enorme perplexidade? Deixem para lá, deixem para lá. Não têm como escapar a isso. Acaso será verdadeiro aquilo a que se chama verdadeiro?”

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Confúcio colocou aos grandes analistas Ta Tao, a Po Chang Chien e a Chi Wei a seguinte questão: “O Duque Ling de Wei era aficionado do vinho e rebolava no prazer e não prestava atenção ao governo do Estado; foi caçar e jogar com redes e arcos e flechas, ignorando as obrigações que tinha para com os outros senhores feudais. Como terá vindo, pois, a receber o título de Duque Ling?”

Ta Tao disse: “Por essas razões.”

Mas Po Chang Chien disse: “O Duque Ling teve três mulheres que banhava na mesma bacia. Mas quando Shi Chiu foi convocado para a sua presença e penetrou na câmara interna do palácio para receber ordens, o duque acolheu-o em pessoa e respeitosamente pegou nos vestidos para ocultar a sua nudez. Ele era licencioso a ponto de se banhar com as três esposas e ainda assim tão correcto no comportamento que adoptava diante de um homem digno – foi por isso que foi apelidado Duque Ling.”

Chi Wei disse: "Quando o Duque Ling morreu e se recorreu à adivinhação para ver se ele deveria ser sepultado na sepultura da família, mas o presságio mostrou-se desfavorável. Depois procurou-se um oráculo para ver se deveria ser sepultado na Colina Sand, e o prognóstico mostrou-se favorável. Ao cavarem várias braças descobriram um caixão de pedra, e quando o lavaram e examinaram, descobriram uma inscrição que dizia: "Não podendo confiar nos seus descendentes - o Duque Ling tomará este local como sua própria morada." Por isso, parecia que o Duque Ling já tinha sido intitulado havia muito, muito tempo. Como poderiam estes dois aqui saber o suficiente para compreender isto?!"

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O Pequeno Conhecimento disse ao Grande Conciliador Equitativo: "Que se entende pelo termo "Opinião Popular?"

O Grande Conciliador Equitativo disse: "Opinião Popular" refere a combinação de inúmeras famílias das aldeias que se juntam e que definem um convênio ou costume. A unificação das diferenças dá lugar à igualdade, e na diversificação das igualdades têm lugar as diferenças. Agora, podemos apontar cada uma das cem partes do corpo do cavalo e nunca chegar a ver o cavalo no seu todo. Assim, pegamos na centena de partes dessas e definimo-las como um "cavalo." Assim é que montes e colinas se amontoam, uma pequena camada sobre a outra até se atingir a imponência. O rio Yangtze e o rio Amarelo combinam afluente atrás de afluente até alcançar magnitude.

O Grande Homem combina e reúne até alcançar a consideração geral. Assim, quando as ideias lhe penetram na mente a partir do exterior, ele é capaz de as acolher mas não se fixa em nenhuma. Do mesmo modo, quando suscita alguma ideia no seu espírito, ela é como um marco para os que o rodeiam, mas não deve constrangi-los.
                                                                                       
As quatro estações diferem todas nas características, mas o Céu não mostra parcialidade entre elas, e assim o ano atinge a conclusão.
Os diversos ministérios do governo diferem na função, porém, o governante não revela parcialidade entre eles, pelo que o Estado é governado.
Tanto em assuntos civis como militares, o Grande Homem não revela parcialidade, pelo que a sua virtude é perfeita.
As dez mil coisas diferem em princípio, porém, o Caminho não reserva qualquer parcialidade entre elas e por isso alcançam o anonimato; sendo anónimas, são destituídas de acção; não inferindo a acção, não há nada que não façam.

"As estações têm o seu começo e o seu fim; as eras têm as suas mudanças e transformações. A má sorte e a fortuna por vezes acometem-nos de forma inoportuna e outras vezes bem-vinda. Defini a vossa própria opinião, e orientação diferentes das dos outros, ora julgando as coisas como correctas ora como pervertidas. Se ao menos pudessem ser como o grande pantanal, que encontra acomodação nos cem diferentes tipos de árvores, ou pegar o exemplo da grande montanha, cujas árvores e penedos partilham dos mesmos alicerces comuns! É isso que se quer dizer com os Opinião Popular."

A Pequena Compreensão disse: "Bom, então se chamamos a esses conceitos gerais o Caminho, será isso suficiente?"
"Ah, não," disse o Grande Conciliador Equitativo. "Se calcularmos o número de seres que existem, a contagem decerto não parará nas dez mil. Contudo nós estabelecemos um limite e falamos das "dez mil coisas" por selecionarmos um número suficientemente vasto e concordamos em aplicá-lo a elas.

Da mesma forma, Céu e Terra são formas vastas, o yin e o yang são espíritos vastos, e o Caminho é o termo que os engloba a todos. Se do ponto de vista da vastidão concordarmos em aplicar o termo Caminho a elas, então não resultará qualquer objecção. Mas se, tendo estabelecido o seu termo, avançarmos para a comparação com um cão ou uma cavalo - a distância que as distinguirá será incomensuravelmente vasta."

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A Pequena Compreensão disse: "De entre as quatro direcções do espaço e dos seis pontos de inserção, de onde brotarão as dez mil coisas para chegarem a existir?"
O Grande Conciliador Equitativo disse: "O yin e o yang reflectem-se um no outro, anulam-se um ao outro, complementam-se um ao outro; as quatro estações sucedem-se umas às outras, dão origem umas às outras, abatem-se para dar lugar às outras. Desejo e ódio, rejeição e aceitação passam a surgir em sucessão; a união das metades de macho e fêmea tornam-se ocorrência regular. Segurança e perigo trocam de lugar uma com a outra; A boa e a má sorte dão origem uma à outra e alternam-se; épocas de tensão e de descontração substituem-se umas às outras; reunião e dispersão chegam a ter êxito no fim.

Estes são os factos específicos que podem ser registados e os detalhes minuciosos que podem ser recordados. Tanto a regularidade da sequência como o improviso da mudança seguem a regra que dita que os extremos conduzem à reversão e um fim conduz a um princípio.

Mas aquilo que as palavras conseguem adequadamente descrever, aquilo que a compreensão consegue alcançar, estende-se unicamente ao nível das coisas, e não mais. O homem que busca o Caminho não o segue até ao fim, nem procura o seu começo. É aí que o debate esbarra com o limite.”

A Pequena Compreensão disse: “Shi Cheng propôs a ausência de toda acção e o outro propôs a presença de alguns esforços. Da perspectiva de ambas essas escolas, qual descreverá correctamente a verdade da questão, e qual terá tomado facção na sua compreensão dos princípios?

O Grande Conciliador Equitativo disse: “Os galos cantam, os cães latem – isso é algo que todos os homens sabem. Mas não obstante o seu entendimento poder ser grande, não conseguem explicar por palavras como o galo e o cão chegaram a tornar-se naquilo que são, nem tão pouco conseguem imaginar no seu espírito o que virão a fazer a seguir. Podem separar e analisar até que a análise a que tiverem chegado se revele tão insignificante que careça de forma, e o que é tão vasto não possa ser abarcado. Mas, quer afirmem a ausência de toda acção, que parece demasiado vaga e abstracta, ou afirmem a presença de algum esforço, que parece muito obstinada, ainda não terão escapado do domínio das coisas, e assim, no final caem no erro. Se algo o torna como é, então esse algo é real; caso nada responda por isso, então será irreal. Quando nomes e factos entram em jogo, vocês encontram-se na presença de coisas. Quando nomes e factos não entram em jogo, vocês existem na ausência das coisas. Podem falar disso e podem pensar nisso; porém, quanto mais falarem, mais se afastam da sua compreensão, por causa da ambiguidade das palavras.

“Antes de nascerem, as coisas não podem ser impedidas de nascer; quando já se encontram mortas, não podem ser impedidas de jazer mortas. A morte e a vida não se encontram tão distanciadas assim, embora o princípio que lhes está subjacente não possa ser visto.
Que alguém tenha actuado pelo esforço ou não houvesse quem pudesse actuar não passa de especulação que brota da dúvida. Eu volto-me para as raízes do passado, porém elas estendem-se para trás sem fim. Procuro o seu fim e o seu futuro revela-se infinito. Expressar o sem fim, o que não tem paragem por palavras, é tão improdutivo quanto explicar a lógica das coisas por meio do silêncio. Ambas essas proposições partilham do mesmo princípio de começo e fim das coisas. Mas nada responde por elas, nada as leva a ser o que são – isso é o começo das palavras, e elas têm início e fim juntamente com as coisas.

 “Não se pode pensar que o Caminho exista, nem se pode pensar que não tenha existência. Ao lhe chamarmos Caminho, estamos unicamente a adoptar um expediente temporário. A ausência de acção, ou a presença de esforço, isso apenas ocupa um canto do domínio das coisas. Que ligação poderiam ter com o Grande Método? Se falarem de maneira digna, poderão falar durante todo o dia, que tudo isso pertencerá ao Caminho. Porém, se falarem disso de uma forma indigna, poderão falar durante todo o dia, que tudo isso não deixará de dizer respeito às meras coisas. A perfeição do Caminho e das coisas – nem as palavras nem o silêncio são dignos de a expressar. Não falar, não ficar em silêncio – essa é a mais elevada forma de debate.”

CAPÍTULO 26
AFECTAÇÃO DO EXTERIOR

Não se pode contar com as coisas exteriores, por poderem não acarretar as consequências esperadas. Por isso foi executado Long Feng, Pi Chang foi sentenciado à morte e o Príncipe Chi fingiu simulou loucura, E Lai foi assassinado e Chie e Chou foram destronados.

Não há governante que não queira que os seus ministros sejam leais. Mas os ministros leais nem sempre são de confiar, por a lealdade nem sempre obter a confiança em troca. Por isso, Wu Yun foi lançado ao rio Yangtze, e Chang Hong ficou sem vísceras em Sishuan, onde o povo preservou o seu sangue, que após três anos se transformou em jade verde.

Não há pais que não queiram que os seus filhos sejam cumpridores dos deveres filiais, porém, a piedade nem sempre significa amor. Por isso Hsiau Ji, o filho do rei Gao Zong afligiu-se por causa do tratamento que a mãe adoptiva lhe dispensou; e Zeng Shen caiu na melancolia por se ter visto privado do afecto dos seus pais.

Quando a madeira roça na madeira, isso provoca fogo. Quando o metal se demora no fogo, derrete e derrama-se. Quando Yin e Yang se juntam, causam espanto na Terra e no Céu. Então ouve-se o rebentar e o rolar dos trovões, e o fogo surge em meio à chuva e incendeia a grande árvore do pagode. Alguns preocupam-se em demasia e dão por si presos entre as perspectivas do ganho e da perda. Ficam apreensivos ante o fracasso, aflitos e deprimidos como se tivessem o espírito suspenso entre céu e terra.

Proveito e sucesso e fracasso deixam a mente num tormento, de tão assediada. Tais homens deixam que fogos incontáveis lhes consuma a harmonia interna. A calma nocturna da lua não consegue apagar esse fogo de modo que, com o tempo, o espírito sofre um decréscimo e o raciocínio é mitigado.

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A família de Chuang Tzu era muito pobre, pelo que ele foi pedir algum grão emprestado ao marquês de Chien Ho. O marquês disse: "Mas é claro! Em breve vou receber o tributo do meu feudo, e quando o receber, com agrado lhe emprestarei trezentas peças de ouro. Está bem assim?"

Chuang Tzu ficou vermelho de raiva e disse: "Vinha eu ontem para aqui quando ouvi alguém que me chamava da estrada. Voltei-me e vi uma carpa no sulco deixado pela carruagem. Eu disse-lhe: "Vá lá, carpa, que fazes aí?" E ela respondeu: "Sou súbdito das águas do mar do leste. Não me poderia dar um balde de água para que me possa manter viva?" Eu disse-lhe: "Mas é claro! Estou a dirigir-me justamente para o sul em visita aos reis Wu e Yue. Vou mudar o curso do Rio do Oeste e enviá-lo na tua direcção. Está bem assim?"

A carpa ficou vermelha de raiva e respondeu: "Perdi o meu elemento! Não tenho como viver! Se me pudesses dar um balde de água conseguiria manter-me viva. Porém, se me dás uma resposta dessas, então será melhor que em breve me procures na loja do peixe seco!"

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O Princípe Jen fez um enorme anzol com uma linha enorme, usou como isca cinquenta novilhos, acomodou-se no topo do Monte Kuai Chi, e lançou a vara no mar do leste. Manhã após manhã, ele lançava o anzol mas durante todo o ano não apanhou nada. Por fim um enorme peixe mordeu a isca e mergulhou fundo, arrastando o enorme anzol. Submergiu até ao fundo numa carga feroz, emergiu e sacudiu as barbatanas dorsais até as ondas brancas parecerem montanhas e as águas do mar se agitarem e fazerem espuma. O ruído do mar era como o ruído dos deuses e dos demónios, e espalhou o terror por milhas. Quando o Príncipe Jen apanhou o peixe, cortou-o e secou-o no fumeiro, e do leste de Chih Ho até norte de Chang-Wu, não houve quem não tenha ficado satisfeito. Desde então, os pobres de espírito das gerações subsequentes detentores de talentos fúteis e com tendência para a disseminação de boatos espantam-se uns aos outros repetindo esse conto.

Agora, se pegarem na vossa cana e linha de pesca e marcharem por valas e barrancos à procura de vairões e carpas, encontrarão dificuldade em conseguir apanhar um peixe grande. Se ostentarem as vossas pequenas narrativas e contos para fisgar altos postos e fama, distanciar-se-ão muito do Grande Êxito. Assim, se uma homem nunca tiver ouvido falar no estilo arrogante do Príncipe Jen, estará longe de ser capaz de se juntar aos homens que governam o mundo.

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Dois letrados Confucianos assaltam sepulturas, de acordo com as Odes e o ritual.

O mestre mais velho anuncia ao seu subalterno:
"O céu de leste está a clarear! Como está isso a correr?"
O mais novo diz:

"Ainda não lhe despimos as vestes, mas tem uma pérola na boca!"
O mais velho diz:

"Assim como reza a Ode:

Verde, verde é o grão
Que cresce nas encostas da colina;
Se em vida não tiveres dado esmola,
Como poderás merecer na morte uma pérola?"

"Afasta-lhe os cachos do cabelo, pressiona-lhe a barba e a seguir um deles força-lhe o queixo com uma verruma de metal e com um martelo afasta-lhe os maxilares sem danificares a pérola que tem na boca."

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Um discípulo de Lao Lai Tzu andava a reunir lenha quando casualmente se deparou com Confúcio. Regressou e contou ao mestre: "Está ali um homem com um corpo cumprido e pernas curtas, as costas meio arqueadas e as orelhas bem voltadas para trás que parece querer atender a todas as coisas que existem pelos quatro mares. Não sei quem possa ser."

Lao Lai Tzu disse: "É Kong Chui. Pede-lhe para vir aqui!"

Assim que Confúcio chegou, Lao Lai Tzu disse: "Chui, livra-te dessa atitude orgulhosa e desse ar de sabichão que adoptas, e poderás vir a tornar-te num cavalheiro."

Confúcio fez uma vênia em reverência e afastou-se um pouco, com uma expressão de espanto e alterado, mas de súbito, alterando de atitude, perguntou:
"Crê que consiga fazer algum progresso na minha conduta?"

Lao Lai Tzu disse: "Quem, por não querer aguentar os males da sua geração deixar que sejam infligidos nas dez gerações posteriores, não será porventura por causa da intransigência ou de uma inteligência inferior? Fazer favores para agradar é expor-se à vergonha para toda a vida. Essas são as acções, ou o "progresso" dos medíocres - daqueles que passam por cima uns dos outros por causa da fama, dos que se arrastam uns aos outros para tramas secretas, dos que se reúnem a elogiar Yao e a condenar Chie, quando o melhor seria que os esquecessem a ambos e detivessem os elogios! O que é contrário à natureza não pode deixar de ser alvo do prejuízo; não há acção que não traga o seu mal. O sábio hesita e sente relutância em iniciar uma tarefa, e assim sempre assegura o êxito. Porém, de que valerão essas tuas acções? Elas não acabam noutra coisa senão na gabarolice!"

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O Senhor Yuan de Song sonhou certa noite que vira um homem de ar desgrenhado a espreitar-lhe por um portão lateral, que lhe dissera: "Eu venho das profundezas do rio Tsai-Lu. Seguia o meu caminho como enviado do exímio Yang Tzu para a corte do rei do Rio Amarelo quando um pescador chamado Yu Chu me apanhou!"
Assim que o Senhor Yuan acordou, ordenou aos seus homens que adivinhassem o significado do sonho, ao que eles responderam: "Isso é uma tartaruga sagrada."
"Haverá algum pescador chamado Yu Chu?" perguntou ele, ao que os assistentes responderam: "Existe, sim."
"Ordenem a Yu Chu que compareça na corte!" ordenou ele.
No dia seguinte Yu Chu compareceu na corte, e o governante disse: "Que tipo de peixe terá recentemente apanhado?"
Yu Chu respondeu: "Apanhei uma tartaruga branca na minha rede. Tem metro e meio de diâmetro."
"Apresenta a tua tartaruga!" ordenou o governante. Assim que a tartaruga foi trazida, o governante não conseguiu decidir se devia sacrificá-la ou se devia deixá-la viver, e estando em dúvida, consultou os seus adivinhos, que apuraram:
"Mate a tartaruga e profetize com ela - isso trar-lhe-á boa sorte."
De acordo com isso a tartaruga foi dissecada, mas dos setenta e dois buracos que foram abertos nela para prognosticar, nenhum deixou de acertar na predissera.
Confúcio disse: "A tartaruga sagrada pode aparecer ao Senhor de Yuan num sonho, mas não conseguiu escapar à rede de Yu Chu. A sua ciência transcendente não falhou em nenhuma das respostas que deu às setenta e duas perguntas, mas não conseguiu escapar à desgraça de ser estripada. Daí se conclui que o conhecimento tem as suas desvantagens, e que o sagrado tem aquilo a respeito do que nada se pode fazer.

"Até mesmo a sabedoria mais perfeita pode ser superada pelos dez mil conspiradores. Os peixes não sabem o suficiente para temer as redes mas apenas para temer o pelicano. Descartem a mesquinhes que a grande sabedoria tornar-se-á clara e poderá florescer. Descartem a benevolência do autoelogio que a bondade sucederá por si própria. As criancinhas aprendem a falar, embora não tenham mestres eruditos - por conviverem com aqueles que conseguem falar."

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Hui Tzu disse a Chuang Tzu: "As tuas palavras são inúteis!"
Chuang Tzu respondeu: "Os homens têm que entender o inútil antes que possam falar sobre o útil. Decerto que a Terra é vasta e ampla, embora um homem não use mais dela do que a área em que coloca os pés. Contudo, se cavássemos toda a terra ao redor dos nossos pés até alcançarmos as Fontes Amarelas, então ela ser-lhe-ia ainda útil?"
"Não, seria inútil," disse Huizi.
"Nesse caso, assim se prova,” concluiu Chuang Tzu, "a utilidade do inútil."

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Chuang Tzu disse: "Se uma pessoa gozar da faculdade de deixar o espírito vaguear livremente, quem quererá evitar fazê-lo? Porém, se não tiver essa capacidade, quem o quererá fazer? Contudo, só uma alta sabedoria e uma virtude consolidada serão capazes de cumprir o propósito de deixar-se levar pela corrente e de se retrair de todo. Aqueles que sempre se acham enredados nos afazeres mundanos ou que se precipitam para eles sem a devida consideração poderão deparar-se com a alternância da posição que assumem. Mas embora possam ser ora governante ora súbdito, isso é simples questão temporária. Tais distinções mudam com a idade e nem uma nem a outra se menospreza mais. Por isso digo que cumpre que o Homem Perfeito jamais se detenha nessas coisas, para não se ver impedido pelas circunstâncias.

"Admirar a antiguidade e desprezar o presente - essa é a moda favorita dos académicos. Mas se observarmos a era actual segundo as ideias de Hsi Wei, quem poderá revelar-se isento de preconceito? Somente o Homem Perfeito pode vaguear pelo mundo sem tomar partido nem se perder a si mesmo. As suas doutrinas não são para se cultivar, e quem lhes compreender o sentido não terá necessidade delas.

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Quem tem os olhos abertos vê com clareza; quem der atenção ouvirá com clareza; quem tiver um olfato sensível distinguirá os aromas; quem tiver um paladar intenso distinguirá os sabores; quem possuir um espírito penetrante possuirá compreensão; quem tiver uma inteligência aguçada possuirá virtude. Em todas as coisas o Caminho não quer encontrar obstrução, pois que se houver obstrução, haverá sufoco; e se o sufoco não cessar, haverá desordem; e a desordem conduz ao abuso e prejudica a vida de todas as criaturas.

"Todas as coisas que possuem consciência dependem do alento. Se não receberem o seu suprimento de alento, isso não será culpa do Céu. O Céu procura manter as passagens abertas e supre-as dia e noite sem parar. Porém, o homem, ao contrário, bloqueia os orifícios. A cavidade do corpo é um cofre de muitos andares; o espírito possui as suas peregrinações Celestes. Porém, se as câmaras não forem amplas e espaçosas, aí a esposa e a sogra cairão na discussão. Se o espírito não puder deixar-se levar livremente pela corrente, então as seis aberturas da sensação começarão a queixar-se das dificuldades. É por isso que as florestas e os montes deixam as pessoas à vontade e em paz."

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"No homem, a virtude é desperdiçada com a preocupação com a fama, e a preocupação com a fama é desperdiçada com o gosto pela exibição. A estratégia é elaborada em face da emergência dos momentos de crise; na competição a esperteza brota da contenção; a obstrução decorre da obsessão com uma posição; assuntos de governo são orquestrados com base na conveniência das multidões. Na Primavera, quando as chuvas sazonais e o sol chegam, a relva e as árvores despertam para a vida, e as foices e as enxadas são, uma vez mais, preparadas para uso. Por essa altura, mais de metade da relva e das árvores que tiverem sido podadas começam de novo a crescer, embora ninguém saiba porquê.

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"Na tranquilidade e no silêncio pode a enfermidade restabelecer-se; as massagens podem trazer alívio aos idosos; a calma pode reprimir a precipitação. Mas isso são recursos a que o perturbado e o exausto recorrem. O homem que se entrega ao ócio não necessita disso nem se dá ao trabalho de indagar acerca disso. O que o Homem Santo faz para deixar o mundo perplexo é o que o homem espirituoso não se dá ao trabalho de indagar. O que o homem digno faz para deixar a nação perplexa é o que o homem santo não se dá ao trabalho de indagar. O que o homem mesquinho faz para se ajustar aos tempos, é o que o homem digno não se dá ao trabalho de indagar.

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"Havia um homem nos portões de Yan que, à morte dos seus pais, foi alvo de elogios por os prantear e por se desfigurar com a agonia, e foi recompensado com um posto de Professor do Estado. Os aldeões da vila praticaram o mesma coisa e mais de metade deles morreu. Yao estendeu o Império a Hsu You, e Hsu You fugiu dele. O rei Tang ofereceu-o a Wu Kuang, e Wu Kuang protestou com ele. Quando Chi To ouviu isso, pegou nos seus discípulos e votou-se ao isolamento das margens do Rio Kuan, onde os senhores feudais o foram consolar. Três anos mais tarde, por idêntico motivo, lançou-se Shen Tu Ti ao rio Amarelo.

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As armadilhas para peixes existem por causa dos peixes; quando os tiverem apanhado, permanecem esquecidas. A cilada para o coelho tem valor por causa do coelho; assim que se apanha o coelho pode-se esquecer a cilada. As palavras existem para transmitirem ideias; assim que se capta as ideias, pode-se esquecer as palavras. Onde poderei encontrar um homem que tenha esquecido as palavras para ter uma "conversa" com ele?"


CAPÍTULO 27
ALEGORIAS
(CONHECIMENTO TRANSMITIDO)

NoveNTA POR CENTO do nosso discurso corrente é composto de um conhecimento que brota da suposição e do saber imputado a terceiros; setenta por cento do discurso é composto pela repetição de citações de terceiros, e palavras de circunstância são enunciadas a cada passo, em conformidade com o seu curso natural.

O saber decorrente da suposição que representa os noventa por cento é em grande parte  emprestado de fontes externas. Por exemplo, nenhum pai quer ser casamenteiro de um filho, por o pai não poder ser tão objectivo no elogio que lhe faz quanto alguém que não seja da família.

Não é culpa minha que precise recorrer a tal linguagem, mas dos outros, que de outro modo não me entenderiam. Porque caso contrário, as pessoas só prestariam atenção ao que já conhecem e recusariam todo o resto. Daí que digam que, o que quer que esteja de acordo com elas esteja certo e aquilo de que não gostam esteja errado.

As citações que perfazem setenta por cento são empregues para pôr cobro às disputas, o que conseguem, por serem levadas em conta de serem as palavras dos antigos sábios. Contudo, aqueles que forem mais velhos mas não tiverem previdência, e não tiverem chegado a compreender a urdidura e a trama, o começo e o fim de uma questão, as raízes e as ramificações das coisas, não apresentarão um conhecimento proporcional, pelo que não poderão ser citados como sábios. Uma pessoa assim, que não tenha nada de superior, nem princípios na vida, não terá chegado a compreender o Tao do Céu nem o Tao da humanidade, nem estará apta a preceder os outros, mas fica para trás no tempo.

As palavras de circunstância são pronunciadas a cada passo, mas ao harmonizarmos todas as coisas por influência do céu deixámo-las entregues às suas intermináveis mudanças e desse modo tratamos de prolongar os nossos anos. Se não exprimirmos as opiniões que temos, os princípios que governam todas as coisas são iguais. Quando impomos as nossas opiniões no que de outra forma serão princípios iguais, todas as coisas se tornam desiguais. Por isso, devemos evitar falar e emitir opiniões subjectivas. Quando falamos sem opiniões subjectivas é como se nunca tivéssemos falado, ainda que não tenhamos feito outra coisa. As palavras nada dizem, pelo que podereis falar uma vida inteira sem dizer uma palavra. Em contraste, podeis viver toda a vossa vida sem pronunciar palavra, e ter exposto coisas de valor.

Diferentes pontos de vista tornam as coisas aceitáveis e inaceitáveis. A afirmação tem motivos e a negação motivos tem. Determinado ponto de vista torna as coisas certas e um ponto de vista diferente torna-as incertas. Como será isso assim? Por ter razões para o ser. Como é que isso não é ao contrário? Por ter razões para não ser ao contrário. Como é que isso chega a ter lugar? Como deixa de chegar a ter? Não ocorre, porque não ocorre.

Tudo é definido pela realidade que circunscreve, e pelo que é possível. Se não houver possibilidade, então não poderá ter existência. Se o que referimos de forma inadvertida não estiver em conformidade com o curso natural, como poderá ser sustentado por muito tempo? Se as palavras correntes sempre forem influenciadas pelo Céu, então como poderá tudo isso persistir?

Todas as formas de vida brotam da mesma base e na diversidade que as circunscreve elas sucedem-se umas às outras. Começam e terminam num círculo inquebrantável sem que ninguém consiga dizer porquê. Isso representa a influência do espiritual. Essa influência espiritual constitui a harmonia do Céu.

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Chuang Tzu perguntou a Hui Tzu: "Ao atingir a idade de sessenta anos Confúcio já tinha alterado os pontos de vista que defendia sessenta vezes, de modo que o que tinha previamente adoptado por certo, agora aceitava como errado. Como haveremos de saber se aquilo a que certa vez ele chamou certo não terá chamado errado cinquenta e nove vezes?"

Hui Tzu disse-lhe: "Confúcio procura sinceramente compreender e procura agir de acordo com isso."

"Confúcio rejeitou a sua sabedoria," disse Chuang Tzu, "e diz muito pouco. Diz que todos recebemos as nossas capacidades da Grande Origem do nosso ser, e que nascemos com uma espiritualidade latente, pelo que devíamos procurar restaurar o numinoso nas nossas vidas. Diz que quando cantamos, o nosso canto devia afinar pelos acordes e quando nos pronunciamos o nosso discurso devia conformar-se às regras. Mas confrontados com o proveito e a equidade, as preferências e as aversões, a provação e a reprovação, isso só nos leva a uma concordância verbal destinada a conquistar a opinião pública. Para conquistarmos o coração das pessoas de modo que não se atrevam a opor-se ao estabelecimento de uma paz duradoura, precisamos deixar tudo sob este céu estável.
O que diz serve, mas nem vontade tenho de chegar perto dele."

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Tzen Tzu deteve por duas vezes o poder mas por duas vezes mudou de atitude, dizendo: "Quando inicialmente assumi o cargo, enquanto os meus pais estavam vivos, recebia um salário de três sacos de arroz e sentia-me regozijado. Porém, quando assumi o cargo pela segunda vez, o salário era de trinta sacos de arroz mas não o pude partilhar com os meus pais, por terem desaparecido, pelo que fiquei triste."

Zenf Shen, um discípulo de Confúcio disse: "Decerto que de Tzen Tzu não se poderá dizer que esteja livre da insensatez e do apego, pode?"

"Mas ele já se encontrava enredado com os honorários públicos," respondeu Confúcio. "Tivesse ele estado livre do apego, que razão teria para ficar tão triste? Ele teria encarado tanto os três como os trinta sacos como pardais e mosquitos a esvoaçar diante dele."

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Yun Cheng Tzu Yu disse a Dong Wuo Tzu Chi, da periferia do Oriente: "Desde que comecei a escutar as suas palavras, Mestre, ao fim do primeiro ano não passava de um saloio. Ao fim do segundo ano senti-me afortunado por conseguir acompanhá-lo sem ver qualquer contradição. Ao fim do terceiro ano consegui penetrar tudo sem encontrar resistência. Ao fim do quarto ano eu sentia-me identificado com as coisas. Ao fim do quinto ano as coisas acudiam a mim. Ao fim do sexto ano o espírito veio ao meu encontro. Ao fim do sétimo ano surgiu em mim a perfeição do Céu. Ao fim do oitavo ano atingi a liberdade de não conseguir distinguir a morte da vida. Ao fim do nono ano alcancei o mistério do Tao.

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Quando vivemos de modo impróprio na vida caminhamos para a morte, como se o carácter comum da vida e da morte fosse coisa prescrita. O que é sucede sucessivamente, mas aquilo que vive no Yang não tem razão de ser. Será isto realmente assim? Mas como haveremos de buscar e de descobrir porque está isto bem e aquilo mal? O Céu tem os seus ciclos e a terra os seus espaços que podem ser calculados e transformados em cidades e estados. No entanto, que mais haveremos de querer? Não fazemos ideia de como nem quando a vida terminará, mas, como poderemos concluir que não sejam determinados a partir do exterior e perfaçam o destino? Mas, como não haverá um Espírito que o governe, e como poderemos concluir que não seja assim determinado? Se todas as coisas são susceptíveis às outras, como haveremos de concluir que sejam presididas por um Espírito?

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A penumbra perguntou à sombra: "Há uns minutos atrás estavas a olhar para baixo e a gora estás a olhar para cima. Há uns minutos atrás estavas empilhada, agora estás ao dependuro. Há uns minutos atrás estavas sentada e agora encontras-te de pé. Há uns minutos caminhavas e agora encontras-te imóvel. Porquê?"

A sombra disse: "Isso é trivial, porque me perguntas tu isso? É nem mais nem menos, só que não faço ideia da razão que me leva a fazer tudo isso. Sou como a casca da cigarra ou a pele da cobra - algo que parece a mesma coisa mas que não é. Surjo ao nascer do sol e na escuridão desvaneço-me; contudo, achas que dependo delas? Porque o nascer do sol e a escuridão dependem de outros factores. Quando surgem, eu também surjo. Quando desaparecem, eu desapareço com elas. Se brotam do potente Yang, também eu. Contudo, de que valerá indagar do potente Yang?

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Yang Tzu viajou para Pei, Lao Tzu foi para Oeste na direcção de Chin, mas Yang pediu-lhe para se encontrar com ele nas margens de Liang. Lao Tzu permaneceu no meio da rua, fixou o olhar no Céu, e num suspiro deixou escapar: "Inicialmente eu pensava que fosse passível de ser instruído, mas agora sei que isso não é."

Yang Tzu não disse nada. Mais tarde chegaram à estalagem e ele foi buscar água para lavar o mestre, uma toalha e um pente. Deixando os sapatos à porta, engatinhou ao longo do chão e disse: "Antes, Mestre, este seu discípulo queria interrogá-lo com respeito ao que disse, mas o Mestre estava ocupado e não se revelou oportuno. Agora a altura parecer ser apropriada, pelo que gostaria de o interrogar sobre o que será que eu tenha feito de errado."

Lao Tzu disse: Esse seu aspecto orgulhoso e essa arrogância! Quanta dignidade e certeza; quem suportaria estar a seu lado? O mais puro parecerá envergonhado, e o mais virtuoso e íntegro parecerá indigente."

Yang Tzu mudou abruptamente de semblante e disse: "Respeitosamente acato a sua advertência.

Quando Yang Tzu Chu veio pela primeira vez à estalagem, foi saudado pelo povo da localidade. O estalajadeiro trouxe-lhe uma esteira e a mulher dele trouxe-lhe toalhas e um pente. Os presentes na estalagem afastaram-se da sua esteira, em sinal de respeito. Contudo, quando foi embora, todos teriam competido por um lugar na esteira."

CAPÍTULO 28
CAPITULAÇÃO

Yao quis ceder o Império a Xu You, mas Xu Yu recusou-o. A seguir tentou cedê-lo a Zichou Zhifu, mas Zichou Zhifou disse:

"Tornar-me num Filho do Céu? Quanto a isso nada a obstar, suponho, mas acontece que padeço de um distúrbio de melancolia aborrecido que estou justamente a tentar colmatar, em razão do que não tenho tempo para governar o Império. O Império é coisa de suprema importância, porém, não se pode permitir que lhe prejudique a vida. Somente aquele que não governe o Império em proveito próprio estará apto a que lho confiem à sua guarda. Por isso, não tenho tempo para colocar o Império em ordem."

O Império constitui um grande barco, no entanto ele não trocaria a sua vida por ele. É nisso que o mestre do Caminho difere do homem vulgar. O rei Shun procurou ceder o Império a Shan Quan, mas Shan Quan disse:

"Permaneço no meio do espaço e do tempo. Nos dias de Inverno envergo túnicas e peles; nos dias de Verão, linho e cânhamo. Na Primavera, cavo e semeio - o que me dá ao corpo a ocupação e o exercício de que necessita; no Outono, colho e armazeno - isso traz-me o lazer e o sustento de que necessito. Quando o sol nasce, eu trabalho; quando o sol se põe, repouso. Vagueio livremente por entre céu e terra, e o meu espírito encontrou tudo quanto podia desejar. Que uso teria a dar ao Império? Que lástima que não me entenda!"

No fim, ele não aceitou mas afastou-se e ocultou-se nas profundezas dos montes, e ninguém alguma vez veio a saber para onde foi.

Shun quis ceder o Império ao seu amigo, o lavrador da Porta de Pedra. O lavrador disse-lhe:

"Quanto vigor e vitalidade possui, meu senhor! Sois um cavalheiro de perseverança e de resistência!"

Então, na verdade supunha que a virtude de Shun dificilmente fosse muita, pelo que carregou com a mulher às costas, levou o filho pela mão, e desapareceu por entre as ilhas do mar, e até ao final dos seus dias nunca mais regressou.

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Quando o Grande Rei Danfu vivia em Bin, as tribos Di atacaram-lhe frequentemente o território. Ele ofereceu-lhes túnicas e peles em troca da paz, mas eles recusaram-nas; ele ofereceu-lhes cães e cavalos, mas eles recusaram-nos; ele ofereceu-lhes pérolas e jades, mas eles recusaram-nos. Aquilo em que os homens das tribos de Di tinham o olho era na sua terra. O Grande Rei Danfu disse:

"Não suporto a ideia de conceder um lugar para viver aos irmãos mais velhos e deixar que os mais novos sejam mortos, ou dar a um pai um lugar para viver e deixar que o filho seja morto! Meu povo, vocês esforçaram-se arduamente por viver, por isso sejam diligentes em permanecer onde estão. Que diferença fará que sejam meus súbditos ou dos homens de Di? Além do mais, ouvi dizer que não se deve permitir que a terra que nos sustenta prejudique aqueles que são sustentados pela terra."

Assim, usando o seu chicote de equitação como bastão, ele partiu mas o seu povo, liderando-se uns aos outros, seguiram-no e, no devido tempo, instalaram-se numa nova terra aos pés do Monte Qi, onde formaram um estado.

O Grande Rei Danfu pode ter fama de quem soube respeitar a vida. E aquele que sabe como respeitar a vida, embora possa ser rico e honrado, não permitirá que a indulgência lhe prejudique a existência. E embora possa ser pobre e humilde, não permitirá que interesses de proveito lhe sobrecarreguem o corpo. Os homens da geração actual, caso ocupem altos cargos e se vejam homenageados com títulos, todos pensam unicamente no quão grave seria perdê-los. Com os olhos fixos no proveito, eles põem seriamente em risco as suas vidas. Não será isso deveras surpreendente?

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Os homens de Yue por três vezes sucessivas assassinaram o seu governante. O Príncipe Sou, temendo pela sua vida, fugiu para a Caverna de Cinnabar, e o Estado de Yue ficou sem um governante. Os homens de Yue, procurando o Príncipe Sou sem sucesso, conseguiram segui-lo até à Caverna de Cinnabar, mas ele recusou apresentar-se. Eles defumaram-lha a caverna com artemísia e colocaram-no na carruagem real. Quando o Príncipe Sou agarrou a correia e puxou o corpo para dentro da carruagem, voltou o rosto para o céu e exclamou:

"Ó governante! Ó governante! Não poderia eu ter sido poupado a tal coisa?"

Não era que ele detestasse tornar-se governante deles; ele receava os perigos que acompanham a tarefa de governante. O Príncipe Sou, poder-se-á dizer, era do género que não permitia que o Estado lhe trouxesse prejuízo à vida. Na verdade, essa foi precisamente a razão por que as pessoas de Yue o quiseram para seu governante.

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Os estados de Han e Wei combatiam por causa de uma faixa de território. O Mestre Huazi foi a uma audiência junto do Marquês Zhaoxi, o governante de Han. O Marquês Zhaozi apresentava um grave aspecto estampado no rosto. O Mestre Huazi disse: "Supondo que estabelecessem um decreto escrito que dissesse: Se pegarem nisto com a vossa mão esquerda perderão a mão direita; se pegarem nisto com a vossa mão direita perderão a esquerda. Quem quer que o tivesse entendido obteria posse do Império. Estaria disposto a tirá-lo?"

"Não!" disse o Marquês Zhaoxi.

"Excelente!" exclamou o Mestre Huazi. "Justamente por isso posso constatar que as suas duas mãos têm mais importantes para si do que o Império. E é claro, o seu corpo no seu todo é muito mais importante do que as suas duas mãos, enquanto o Estado de Han é muitíssimo menos importante do que o Império no seu todo. Além disso, esta faixa de território porque estão a travar esta contenda é muito menos importante do que o Estado de Han no seu todo. E no entanto infernizam a sua vida e põem-na em perigo ao se preocuparem e atormentarem por não conseguirem apossar-se dela!"

"Excelente!" disse o Marquês Zhaoxi.
"Muitos foram os homens que me aconselharam, mas jamais tive o privilégio de escutar palavras como estas!"

O Mestre Huazi, podemos dizer, compreendeu a diferença existente entra as coisas importantes e as coisas destituídas de importância.

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O governante de Lu, ao ouvir dizer que Yan He era um homem conhecedor do Tao, enviou um mensageiro com prendas para estabelecer relações com ele. Yan He encontrava-se na sua humilde habitação situada num beco e usava um manto de linho puído e dava de comer a uma vaca, quando o mensageiro do governante de Lu chegou, e o qual acolheu à porta em pessoa.

"É esta a habitação de Yan He? perguntou o mensageiro.
"É, esta é a casa de He," disse Yan He.
O mensageiro passou a apresentar-lhe as oferendas, mas Yan He disse:
"Receio que tenha trocado as ordens que lhe deram. Decerto que será culpabilizado se as entregar à pessoa errada, por isso será melhor que as verifique uma vez mais."
O mensageiro regressou à origem, assegurou-se das ordens que lhe tinha dado o governante, e foi à procura de Yang He uma segunda vez, mas aí já não foi capaz de o encontrar. Homens como Yan He desprezam de verdade riqueza e honra.

Daí que se diga que a Verdade do Caminho esteja em nos procurarmos a nós próprios; as suas franjas e sobras estão no dirigir o Estado e as suas grandes famílias; as suas miudezas e o joio estão em governar o Império. A realização de imperadores e de reis são questões supérfluas no que diz respeito ao sábio, e não os meios pelos quais mantêm o corpo íntegro nem de olharem pela vida. Contudo, quantos cavalheiros do mundo da vulgaridade de hoje não se colocam em perigo e não desbaratam as suas vidas na perseguição de ganhos e fama! Como poderemos deixar de sentir pena deles?

Sempre que o sábio dá um passo, poderão estar certos de que ele terá considerado cuidadosamente o propósito e os meios de o fazer. Agora suponhamos que estivesse aqui um homem que pegasse na pérola preciosa do Marquês de Sui e a usasse como bala para disparar contra um pardal que esvoaçasse a um milhar de jardas no céu - certamente que o mundo riria dele. E porquê? Por aquilo que ele usasse ter muito valor, enquanto aquilo a que ele estaria a disparar ser insignificante. E a vida - seguramente que possui um valor maior do que a pérola do Marquês de Sui!

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O Mestre Lie Tzu viva na pobreza e o seu rosto apresentava um aspecto de subnutrição. Um visitante mencionou isso a Ziyang, o primeiro ministro de Zheng, dizendo:

"Lie parece ser um cavalheiro que tenha alcançado o Caminho. Aí está ele a viver no Estado de Vossa Excelência, na completa pobreza! Quase parece que Vossa Excelência não sente agrado por tais cavalheiros, não parecerá?"

Ziyang imediatamente ordenou aos seus súbditos para lhe enviarem uma oferenda de arroz. O Mestre Lie Tzu acolheu o mensageiro, fez duas vénias, mas recusou a oferta. Assim que o mensageiro partiu e o Mestre Lie Tzu voltou para a sua casa, a sua mulher, ressentida e amargurada, bateu no peito e disse:

"Já ouvi dizer que as mulheres e filhos daqueles que possuem princípios vivem todos no conforto e na felicidade - mas cá nós passamos fome! Sua Excelência, enviou-te algo que comer, mas tu recusaste-te a aceitá-lo - suponho que isso seja aquilo a que chamam destino!"

O Mestre Lie Tzu riu e disse: "Sua Excelência não me conhece pessoalmente - ele enviou-me o arroz simplesmente por alguém lhe ter falado de mim. E um belo dia bem que poderia condenar-me ao suplício, uma vez mais simplesmente por alguém lhe ter falado de mim. Foi por isso que me recusei a aceitá-lo."

No fim, conforme o relato, deu-se uma rebelião entre a população de Zheng, e Ziyang foi assassinado.

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Quando o Rei Zhao de Chu foi exilado do seu Estado. O açougueiro Yue fechou o açougue ao mesmo tempo e acompanhou o Rei Zhao no exílio. Quando o Rei Zhao recuperou o domínio do Estado, decidiu recompensar os que o seguiram, porém, quando chegou a vez de se virar para o açougueiro Yue, este disse: "Sua Majestade perdeu o controlo do Estado, e eu perdi o meu açougue. Agora Sua Majestade recuperou o Estado, e eu recuperei o meu açougue. Assim, o título e o soldo que me caberiam foi-me restituído. Por que haverá de se falar numa recompensa?"

"Forcem-no a aceitá-lo!" ordenou o rei.

Porém o açougueiro Yue disse:

"O facto que Sua Majestade ter perdido o reino não foi culpa minha; por isso, não me aventuraria a aceitar qualquer punição por isso. E o facto de Sua majestade ter recuperado o seu reino não foi obra minha - pelo que não me aventuraria a aceitar qualquer recompensa por isso."

"Tragam-no à minha presença!" ordenou o rei.

Porém, o açougueiro Yue disse:

"De acordo com as leis do Estado de Chu, um homem precisa receber recompensas de peso e ter praticado grandes obras antes que lhe possa ser concedida uma audiência com o rei. Agora, eu não fui suficientemente sensato para salvar o Estado nem corajoso o suficiente para morrer em combate contra os invasores. Eu não acompanhei intencionalmente Sua Majestade. Agora Sua majestade deseja ignorar as leis e romper com os precedentes ao me conceder uma audiência. Mas, em vista dos factos, isso não me traria qualquer reputação aos olhos do mundo!"

O rei disse a Zigi, o seu ministro da guerra:

"O açougueiro Yue é um homem de posição insignificante e humilde; porém, as afirmações que profere sobre a justiça são verdadeiramente grandiosas! Quero promovê-lo a um dos cargos das três classes ministeriais."

Quando isso lhe foi contado, o açougueiro Yue disse:

"Estou plenamente inteirado de que um cargo num dos três ministérios constitui condição muito mais elevada do que a tenda de açougueiro, e que um soldo de dez mil zhong é uma fortuna muito maior do que alguma vez alcançarei matando carneiros. Mas como poderia eu, simplesmente motivado pela cobiça de título e de soldo, permitir que o meu governante angarie uma reputação de irresponsabilidade por conceder favores desses? Não me atrevo a aceitá-lo. Por favor, permita que regresse à minha tenda de açougueiro."
E lá acabou por recusar o cargo.

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Yuan Hsien viveu no Estado de Lu num casebre pequenino que dificilmente tinha mais que quatro paredes. Era coberta a colmo, tinha uma porta quebrada coberta por sarças e ramos de amoreira por umbrais como protecção contra o tempo; panelas de barro sem fundo, penduradas a fazer de janelas, pedaços de pano grosso a dividir os dois quartos. O telhado deixava entrar água, e o chão estava humedecido, mas Yuan Hsien sentava-se numa posição digna, a tocar harpa e a cantar.

Tzu Kung, envergando um manto interno de um azul real e outro externo branco, conduzindo uma alta carruagem cujo tejadilho era demasiado largo para passar no beco, chamou por Yuan Hsien. Yuan Hsien, usando um barrete desgastado e chinelos de palha, carregando um bastão de pau na mão foi até ao portão para o cumprimentar.

"Meu deus!" exclamou Tzu Kung. "Em que estado está, senhor!"
Yuan Hsien respondeu: "Eu ouvi dizer que se nos faltar riqueza, isso se chama pobreza; e que se estudarmos mas não conseguirmos pôr em prática o que tivermos aprendido, isso seja aflição. Eu sou pobre, mas não estou aflito!"

Tzu Kung recuou uns passos com um aspecto de embaraço. Yuan Xian riu e disse:

"Agir com base na ambição mundana; agrupar-se com outros em amizades facciosas; estudar para se ostentar diante dos demais; ensinar com o propósito de alcançar distinção; encobrir as más obras com a benevolência e equidade; embelezar-se com carros e cavalos - jamais suportaria fazer tais coisas!"

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Zengzi viveu no Estado de Wei, envergando um manto acolchoado de linho esfarrapado, o rosto manchado e inchado, as mãos e pés carregados de calos. Era frequente passar três dias sem acender uma fogueira para cozinhar, dez anos sem arranjar uma veste nova. Se tentasse compor o chapéu, a alça quebraria; se estreitasse as mangas, os cotovelos apareceriam à vista; se calçasse os sapatos, os calcanhares ficariam de fora. Ainda assim, arrastando-se, ele lá ia entoando as Odes de sacrifício de Shang numa voz que enchiam Céu e Terra, como se fosse emitida por instrumentos musicais. Os regentes não o aceitariam por ministro; os senhores do feudo não o aceitariam por amigo.

Daí que aquele que satisfaça os seus ideais esqueça a aparência; aquele que cultiva a aparência esqueça os privilégios; e aquele que chegue junto do Caminho esquecerá a sagacidade.

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Confúcio disse a Yan Hui:
"Hui, deixa que te diga. A tua família é pobre, a casa que habitas encontra-se gasta, e a posição que assumes é demasiado humilde. Porque não aceitas um cargo de funcionário público?"
Yan Hui respondeu:
"Não tenho qualquer desejo de me tornar funcionário público. Tenho uma medida de terra fora do muro externo, que chega para me fornecer o mingau e a aveia, e tenho dez medidas de terra dentro da muralha externa que me chega para colher seda e cânhamo para tecer. Tocar o meu alaúde dá-me muita satisfação; estudar o Caminho do Mestre traz-me felicidade suficiente. Não tenho o menor ensejo de me tornar funcionário."

A face de Confúcio adoptou uma expressão tímida, e ele disse: "Excelente Hui - a determinação que revelas! Ouvi dizer que aquele que alcança o contentamento não quererá carregar o fardo do ganho; que aquele que realmente compreende como encontrar satisfação, não receará quaisquer formas de perda; e que aquele que pratica o cultivo interior não se envergonhará de não assumir posição proeminente. Há já muito que venho pregando estas ideias, mas agora por uma primeira vez vejo-as plasmadas na tua pessoa, Hui. Esse foi o meu ganho."

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O Príncipe Mou de Wei, que vivia em Zhongshan, disse a Zhanzi:
"O meu corpo encontra-se aqui junto a estes rios e aos mares, mas a minha mente ainda se encontra lá junto às torres do palácio de Wei. Que deverei fazer com relação a esta situação?"
"Dê mais importância à vida!" disse Zhanzi. "Aquele que encara a vida como importante mostrará indiferença pelo ganho material."

"Eu sei que é o que deveria fazer," disse o Príncipe Mou, "porém, não consigo superar as tendências que me dominam."
"Se não consegue superar as tendências que o dominam, então siga-as!" disse Zhanzi.
"Mas não causará isso dano ao espírito?"
"Se não consegue superar as tendências que tem e ainda assim procura forçar-se pela coação a não as seguir, isso será cometer um duplo prejuízo a si próprio. Aqueles que cometem duplos danos a si próprios jamais veem a constar nas fileiras dos que viveram muito!"

Mou de Wei era príncipe de um estado de dez mil carruagens, pelo que se lhe tornava mais difícil retirar-se para habitar por entre os penedos e as cavernas do que a uma pessoa normal. Embora não tenha alcançado o Caminho, poderemos dizer que ele demonstrou vontade de o fazer.

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Confúcio caiu num grande cerco entre Chen e Cai, e durante sete dias não comeu alimento devidamente preparado mas somente uma sopa de couves sem qualquer arroz. O seu rosto tornou-se deformado com a fadiga, porém, ele sentou-se no seu aposento a tocar alaúde e a cantar. Yan Hui encontrava-se fora, a apanhar couves, e Zilu e Zigong conversavam com ele:

"O nosso Mestre por duas vezes foi expulso do estado de Lu," disseram. "Apagaram todos os vestígios da sua presença em Wei, passou pelo incidente da árvore que abateram em Song, fizeram alvoroço por sua causa nas cidades capitais de Shang e de Zhou, e agora assediam-no aqui entre os estados Chen e Cai. Qualquer um que o quiser assassinar será perdoado de toda culpa, e quem quer que queira abusar dele vê-se livre para o fazer. No entanto ele continua a tocar e a cantar, e a dedilhar o alaúde sem esmorecer. Poderá a imprudência ir assim tão longe?"

Sem saber o que responder, Yan Hui entrou e reportou o que tinha ouvido a Confúcio. Confúcio colocou de lado o seu alaúde, soltou um grande suspiro, e disse:

"Esses dois são ordinários! Chama-os aqui, que eu converso com eles."

Assim que Zilu e Zigong entraram no aposento, Zilu disse: "Penso que se possa dizer que todos nós nos encontramos numa situação de verdadeiramente angústia."

Confúcio disse: "Que conversa é essa? Quando um cavalheiro segue os seus princípios, a isso se chama sucesso. Quando não consegue seguir os seus princípios, a isso se chama sair empobrecido. Agora, eu abraço o caminho da benevolência e da equidade e, com isso, defronto-me com os perigos e os infortúnios de uma geração em desordem. Que tem isso de verdadeira angústia? Assim, examino o meu íntimo e não encontro problema em seguir os meus princípios. Enfrento as dificuldades com que me deparo e não lamento ter que sonegar a doutrina para não comprometer a minha virtude. Quando os dias do frio chegam e caem a neve e o gelo, aprendo a admirar o poder dos pinheiros e dos ciprestes. Possam estes perigos em que incorro aqui entre Chen e Cai constituir uma bênção para mim!"

Então, Confúcio voltou-se complacentemente para o seu alaúde e começou de novo a tocar e a cantar. Zilu excitadamente agarrou na lança e começou a dançar, enquanto Zigong dizia: "Não tinha percebido a altura do Céu, nem a profundidade da Terra!"

Os homens da antiguidade que alcançaram o Caminho apreciavam a vida em temos de dificuldades assim como em tempos de prosperidade, não porque tivessem apreço pela dureza e prosperidade mas por terem o Tao consigo. Conquanto tenham genuinamente apreendido o Caminho, ficar bloqueado ou gozar de prosperidade não mais são que a alternância ordenada do frio e do calor, do vento e da chuva. Por isso, Xu You desfrutou do tempo que passou nas margens ensolaradas do Rio Ying, e o Conde Gong Bo encontrou aquilo que queria no alto da colina de Qiushou.

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O rei Shun quis abdicar a favor de um amigo, um homem do norte chamado Wu Jie. Wu Jie disse: "Que homem estranho é este vosso governante! Primeiro viveu por entre os campos e as valas, para depois perambular pelos portões do rei Yao. Não satisfeito com isso, ele agora quer pegar nas acções vergonhosas que cometeu e despejá-las em cima de mim. Eu teria vergonha até mesmo de o ver!"
Em consequência disso ele foi-se deitar às águas profundas do Chingling.

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Quando Tang estava a planear atacar o rei Jie, foi-se aconselhar junto de Pien Sui, que lhe disse:
"Não é coisa que me diga respeito."

Então, Tang disse:
"A quem deverei dirigir-me?"
O outro respondeu:
"Não sei."
Então, Tang foi-se aconselhar com Wu Guang, que deu a mesma resposta que Pien Sui; e quando perguntou a quem deveria recorrer, disse da mesma forma:
"Eu não sei."

Então, Tang disse:
"Suponha que recorro a Yi Yin; que me poderá dizer dele?"

Mas recebeu a seguinte resposta:
Ele possui um dom maravilhoso para praticar a infâmia, mas nada mais sei sobre ele!"
Na decorrência disso Tang foi pedir conselho a Yi Yin, atacou Jie e derrotou-o, a seguir ao que se propôs entregar o trono a Pien Sui, que o declinou dizendo:
"Quando Jie e me veio pedir conselho sobre a minha tomada do trono, deve ter suposto que eu fosse uma pessoa traiçoeira. Agora que conquistou Jie, e se propõe delegar-me o trono, deve considerar que eu seja ganancioso. Eu nasci numa era de desordem, e por duas vezes me vem um homem sem princípios aliciar com as suas vergonhosas fabricações! Não suporto ouvir repetir as suas propostas. Não posso tolerar ouvir mais falar disso."
Com isso ele lançou-se às águas do Kau e morreu.

Mas Tang ainda foi oferecer o trono a Wu Guang, dizendo:
“Os sábios armam os enredos; os homens de armas levam-no avante; agora homens de benevolência precisam encarregar-se dele: esse tem sido o método desde a antiguidade. Por que devereis vós, senhor, deixar de assumir a posição?”

Wu Guang recusou a oferta, dizendo:
“Depor um soberano é contrário ao direito; matar gente é contrário à benevolência. Deixar que outros arrisquem as suas vidas para que eu possa beneficiar dos benefícios seria violar a minha probidade. Ouvi dizer que não se deve aceitar recompensas de um injusto, e que na terra que tenha um governo sem princípios não se deve pôr o pé – quanto mais aceitar uma posição de honra! Eu não suporto mais isso.”
Posto isso, atou uma pedra às costas e lançou-se às águas do rio Lu, onde se afogou.

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Há muito tempo atrás, quando a dinastia Zhou chegou ao poder, havia dois eruditos que vivam em Guzhu chamados Bai Yi e Shu Qi, que disseram um ao outro:
“Ouvimos dizer que na região oeste há um homem que parece possuir o Caminho, por viver segundo princípios.”
Assim que alcançaram o lado ensolarado do monte Chi, o Rei Wu, ao escutá-los, enviou o seu irmão mais novo Dan ao seu encontro. Ele propôs-se oferecer-lhes um emolumento de segunda ordem, dizendo:
“Ser-lhes-ão concedidos funcionários de primeira categoria numa aliança que deve ser celebrada com um sacrifício e um enterro conforme o protocolo.”
Os dois homens entreolharam-se e riram dizendo:

“Ah, que coisa estranha! Decerto que não é a isto que chamamos Caminho! Na antiguidade, quando Shen Nong governou o Império, ele realizou os sacrifícios sazonais com a maior das reverências, mas ele não orava por bênçãos. Nos assuntos que tinha com os homens, mostrava-se leal e digno de confiança e observava a perfeita ordem, mas não buscava retribuição alguma. Administrava pelo amor de administrar; deleitava-se em impor ordem em função da própria ordem. Não pretendia triunfar às custas da ruina dos outros, nem explorava as oportunidades em benefício próprio. Apenas por acontecer ter um momento de sorte, não procurava transformá-lo em proveito próprio. Agora os Zhou, ao verem que Yin caíra na anarquia, de súbito fazem alarde das regras, e honram aqueles que sabem armar complôs e concedem subornos, e apoiam-se nas armas para manter o poder, oferecem sacrifícios e estabelecem pactos para impressionar os homens com a sua boa-fé, louvando as suas conquistas para aproveitar o ganho – o que é simplesmente afastar a desordem e substituí-la pela autoridade, ou substituir a anarquia pela tirania!

“Ouvimos dizer que os eruditos de antigamente, se acaso em tempos de paz gozassem de um bom governo, não recusavam os cargos públicos; mas se tivessem um governo tumultuoso, não procurariam manter os cargos de forma desonrosa. Agora o mundo encontra-se nas trevas, e a virtude dos Zhou em declínio. Em vez de nos juntarmos aos Zhou e manchar a nossa pessoa, melhor seria que fugíssemos protegendo desse modo a pureza da nossa conduta!”

Os dois cavalheiros dirigiram-se a norte e atingiram o sul do monte Shouyang, onde eventualmente morreram de fome. Homens como Bai Yi e Shu Qi nada têm que ver com a riqueza e a iminência caso consigam evitá-la. Ser grandioso em princípios e meticuloso na conduta, deleitar-se com o seu ideal sem se curvar para servir o mundo – tal era o ideal desses dois cavalheiros.


CAPÍTULO 29
O LADRÃO CHI

Confúcio era amigo de Liu HSIa, que tinha um irmão mais novo que era conhecido como Ladrão Chi. O Ladrão Chi, com um bando de nove mil seguidores começou a esbravejar por todo o Império, a assaltar e a aterrorizar os senhores feudais, a estroncar residências, a coscuvilhar por entre as portas abertas, a reunir os cavalos e o gado das pessoas, a apossar-se das suas mulheres e filhas.
Cobiçando o ganho, ele esqueceu os parentes, não se preocupou em pensar no pai e na mãe, no irmão mais velho ou mais novo, e não cumpriu os sacrifícios para com os antepassados. Sempre que se aproximava de uma cidade, caso se situasse num grande Estado, os habitantes guarneciam as paredes das suas habitações; se fosse caso de se tratar de um pequeno Estado, acorriam a refugiar-se nos seus redutos. Toda uma população de dez mil pessoas viva no terror que ele inspirava.

Confúcio disse a Liu Hsia:
"Um pai deve ser capaz de impor a lei ao filho, e um irmão mais velho tem o dever de instruir o irmão mais novo. Caso um pai não consiga impor a lei a um filho e o irmão mais velho não consiga instruir o irmão mais novo, então a relação entre pai e filho e irmão mais velho e irmão mais novo perderá todo o valor. Agora aqui está o senhor, um dos indivíduos mais talentosos da sua geração, e o seu irmão mais novo é o Ladrão Chi, uma ameaça para o mundo, e o senhor parece incapaz de o instruir melhor!
"Caso me seja permitido dize-lo, envergonho-me de si, pelo que gostaria de poder continuar em seu nome a tentar persuadi-lo a mudar as coisas."

Liu Hsia disse:
"Observou que um pai deve ser capaz de admoestar a seu filho, e que o irmão mais velho deve ser capaz de aconselhar o mais novo. Mas caso o filho não dê ouvidos quando o pai lhe impõe a lei e o irmão mais novo se recusar a dar atenção às instruções do irmão mais velho, então que se poderá fazer até mesmo com uma eloquência como a sua? Para além disso, Chi é um homem de carácter impetuoso, de uma vontade como uma rajada de vento, sobra-lhe força para repelir qualquer ataque e de eloquência suficiente para superar qualquer aberração. Se concordar com a sua maneira de pensar, ele ficará encantado, mas se for contra, ele ficará furioso, e não se coíbe de amaldiçoar as pessoas na mais vil das linguagens!"

Porém, Confúcio não quis saber do aviso, e com Yan Hui como seu condutor, e Zigong à sua direita, partiu de visita ao Ladrão Chi. Este encontrava-se justamente a fazer  uma excursão nessa altura, junto com o seu bando de seguidores, pelo lado ensolarado do Monte Tai, e desfrutava de um lanche de grelhado de fígado humano ao entardecer.
Confúcio desceu da sua carruagem e avançou até encontrar o funcionário encarregado da recepção das visitas, e disse:

"Eu sou Confúcio, nativo do Estado de Lu, e ouvi dizer que o seu general é um homem de elevados princípios," disse ele, prostrando-se numa vénia por duas vezes diante do funcionário. O funcionário então entrou e transmitiu a mensagem. Assim que o Ladrão Chi ouviu o sucedido, irrompeu numa fúria descontrolada, e ficou com os olhos a brilhar como estrelas, e com os cabelos em pé e arrepiado por baixo do manto.
"Não deve ser outro senão o pretensioso e hipócrita do Confúcio natural do Estado de Lu!

Pois bem, diz-lhe da minha parte, o seguinte:
"Tu brincas com histórias e palavras, falsificas o legado dos reis Wen e Wu. Coroado com um boné tão elegante quanto um ramo de árvore, cingido por um cinto feito do couro de uma vitela morta, propões ideias triviais e frívolas, e teorias falaciosas. Comes sem nunca teres semeado, vestes-te sem precisares fiar nem tecer. Meneando os lábios e estalando a língua, inventas todo género de controvérsia entre "certo" e "errado" que te convém, e desencaminhas os líderes do mundo, e impedes que os académicos do mundo regressem ao estado, ao estabeleceres caprichosamente os ideais da "piedade filial" e da "subordinação fraterna," sempre na esperança de alcançares o favor dos senhores dos campos ou dos ricos e iminentes! Os crimes que cometes são imensos, e as ofensas, gravíssimas. Melhor seria que corresses para casa tão rápido quanto pudesses, porque se não o fizeres, tirar-te-ei o fígado e acrescentá-lo-ei à refeição da tarde!"

Confúcio insistiu em voltar a enviar uma palavra através do atendente, dizendo:
"Tive o privilégio de conhecer o seu irmão Liu Hsia, pelo que lhe rogo concessão para o contemplar à distância os seus pés por trás da cortina."
Quando funcionário entregou a mensagem, o Ladrão Chi disse:
"Deixa que venha à minha presença."

Confúcio apressou-se a adiantar-se, recusou o estrado que lhe foi estendido, recuou alguns passos e prostrou-se diante do Ladrão Chi. O Ladrão Chi ainda encolerizado, sentava-se com ambas as pernas estendidas, inclinado com a sua espada nas mãos, com os olhos ofuscantes. Com uma voz semelhante ao rugido de uma tigresa com crias, disse:
"Vem lá daí, ó Confúcio! Caso aquilo que me tiveres a dizer for do meu agrado, viverás. Se me criares embaraço, morrerás!"

Confúcio disse:
"Ouvi dizer que em todo o mundo existem três tipos de virtude. Crescermos até sermos grandes e nos tornarmos altos, sermos dotados de agradável comportamento, de modo que todos, novos ou velhos, iminente ou humildes, se deleitem connosco - esse é o tipo mais elevado de virtude. Ser senhor de uma sabedoria que alcance céu e terra, ser capaz de falar com eloquência sobre qualquer assunto - essa é uma virtude medíocre. Sermos corajosos e ferozes, resolutos e determinados, juntar um bando de seguidores ao nosso redor - esse é o tipo mais baixo de virtude. Qualquer um que possua qualquer dessas virtudes é digno de contemplar o sul e de se chamar de Homem Só ou Governante. E agora aqui está o senhor, general, dotado de todas elas! Tem uma estatura de dois metros de altura; uns olhos resplandecentes; lábios de um vermelho cinábrio; dentes que nem pérolas perfeitamente alinhadas; um timbre de voz como o rebombar de sinos - e ainda assim o único título que tem é o de Ladrão Chi. Caso me for permitido dizer, General, é uma desgraça, uma verdadeira lástima!

"Porém, se der ouvidos à proposta que tenho a fazer-lhe, então rogo-lhe que me conceda permissão para ir como seu enviado a sul até Wu e Yue, e a norte até Qi e a Lu, a este até Song e Wei, e a oeste até Jin e Chu, persuadi-los a criar um Estado murado de várias milhas de tamanho, a estabelecerem uma cidade de vários milhares de lares, e a honrá-lo como um dos senhores feudais. Então poderá empreender um novo começo no mundo, a renunciar às suas armas e dispersar o seu séquito, reunir e a cuidar dos seus irmãos e parentes, e a juntar-se-lhes nos sacrifícios aos seus antepassados. Essa representaria a actuação de um sábio, de um cavalheiro de genuíno talento, e o desejo que o mundo mais acalenta."

O Ladrão Chi, furioso como sempre, disse:
"Confúcio, aproxima-te lá mais! Aqueles que são passíveis de ser demovidos em função de vantagens ou reformados pelo emprego de palavras não passam de meros idiotas, simplórios, o tipo mais reles de homem! O facto de eu ser grande e alto e de ter um aspecto apresentável que leve todos a sentir-se encantados comigo - isso é uma virtude herdada dos meus pais. Mesmo sem os teus elogios, crês que não teria consciência disso? Além disso, ouvi dizer que aqueles que são aficionados por quem elogiar os outros na frente, também têm predileção por falar mal deles pelas costas.

Agora vens-me falar nesse grande Estado murado com toda essa multidão de gente, e tentar seduzir-me com ofertas de ganho, e tentar enganar-me como a um idiota. Mas, por quanto tempo achas que poderia ser senhor disso? Não existe Estado mais vasto que o próprio Império, e ainda assim, embora Yao e Shun sejam senhores do Império, os seus herdeiros foram deixados sem ter onde ficar. Tang e Wu estabeleceram-se com Filhos do Céu (reis), no entanto as gerações seguintes e as suas dinastias pereceram. Não terá isso ficado a dever-se à ambição?

"Ademais, ouvi dizer que na antiguidade as bestas e as aves abundavam e as pessoas eram poucas. Daí que as pessoas viviam em árvores durante o dia para poderem escapar ao perigo, e reunissem bolotas e castanhas, e que depois do pôr-do-sol regressavam ao repouso nas árvores. Daí que ficassem conhecidos como o povo Criador de Ninhos. Na antiguidade as pessoas nada sabiam de envergar roupas. Durante o Verão amontoavam enormes pilhas de lenha e no Inverno queimavam-na para se aquecerem. Consequentemente ficaram conhecidos com o povo que sabia como permanecer vivo. Na era de Shen Nong, (2737ac) as pessoas deitavam-se tranquilas, e acordavam satisfeitas. Conheciam as mães, porém, não os pais, convivam com o alce e o veado. Plantavam para subsistirem, teceram para cobrirem os corpos, mas não abrigavam no seu íntimo a menor intenção de prejudicar os outros. Era a Suprema Virtude no seu auge!"

"Mas o Imperador Amarelo não conseguiu alcançar tal virtude. Combateu Chi You no campo de Zhuolu até que o sangue jorrasse cem milhas. Os reis Yao e Shun sucederam-lhe no trono, e estabeleceram uma trupe de funcionários; mais tarde, o rei Tang baniu o soberano Jie; o Rei Wu assassinou o soberano Zhou; e a partir daí, o forte passou a oprimir o fraco, e os muitos passaram a abusar dos poucos. Desde os reis Tang e Wu até ao presente, todos têm sido nada mais do que uns perturbadores e uns malfeitores. E agora vens-me com o cultivo dos ensinamentos dos reis Wen e Wu e, recorrer a toda a eloquência do mundo para pregares essas coisas às gerações futuras!

"Nas tuas vestes folgadas e faixas soltas tu espalhas mentiras e hipocrisia, para confundires e desencaminhares os líderes do mundo, esperando com tal zelo deitar mão às suas riquezas e iminência. Não há ladrão pior que tu! Não sei porquê, já que o mundo me chama Ladrão Chi, não te chama a ti Ladrão Kung Fu Tzu!

"Usaste palavras com sabor a mel para persuadires Zilu a tornar-se teu seguidor, a despir a sua garbosa capa e a desabotoar o cinto da sua espada para receber instrução da sua parte, e para que todo o mundo diga que Confúcio sabe suprimir a violência e travar o mal. Mas no fim Zilu tentou assassinar o governante de Wei, mas o seu plano saiu gorado e eles mataram-no e recolheram o seu cadáver e penduraram-no no portão oeste de Wei. Isso é prova do quão pouco efeito tiveram as tuas instruções nele! E chamas a ti próprio um cavalheiro de talento, um sábio? Por duas vezes te expulsaram de Lu e apagaram todos os vestígios que deixaras em Wei; fizeram alvoroço em Qi, e assediaram-te em Chen e Cai - em parte nenhuma te querem no Império! Deste instruções a Zilu, e total foi o desastre que lhe trouxeste. Não podes cuidar de olhar por ti nem pelos outros; como poderá esse teu Caminho valer de algo?

"Não há quem seja mais estimado pelo mundo do que o Imperador Amarelo, e no entanto nem mesmo ele conseguiu preservar a sua virtude intacta e combateu no campo de Zhuolu, até o sangue jorrar por cem milhas. O rei Yao foi um pai implacável; O rei Shun foi um filho destituído de sentimento de devoção filial; O rei Yu ficou meio paralisado; O rei Tang baniu o seu governante Jie; o Rei Wu atacou o seu soberano Zhou, e o Rei Wen derrotou o rei Zhou.

"Todos esses seis homens são reverenciados pelo mundo com a mais elevada das estimas, no entanto se olharmos mais atentamente veremos que todos eles, por causa do ganho, trouxeram confusão à Verdade que carregam dentro deles, por violarem os seus temperamentos e se terem voltado contra a sua verdadeira natureza inata. E por terem feito isso apresentaram uma conduta vergonhosa!

"Shen Tzu Ti pronunciou-se em protesto e foi ignorado; pôs uma pedra às costas e lançou-se a um rio, onde os peixes e as tartarugas o comeram. Chieh Tzu Tui foi um adepto tão leal e prezara a fidelidade a tal ponto, que cortou um pedaço da própria perna para a dar a comer ao seu senhor, o Duque Wen. No entanto, posteriormente o Duque ignorou-o, e Chieh Tzu cheio de ira suicidou-se lançando-se ao fogo atado a uma árvore. Wei Sheng marcou um encontro com uma mulher debaixo de uma ponte, porém, a mulher não apareceu. As águas começaram a subir, mas em vez de se afastar, agarrou-se a um pilar da ponte e morreu. Todos esses seis homens não foram diferentes de um cão esfolado, de um porco sacrificado às águas, de um pedinte com a cabaça das esmolas na mão. Todos foram aliciados por ideias de reputação e encararam a morte de forma irreflectida, não recordaram a Origem nem apreciaram os anos que o destino lhes trouxera.

"Quando o mundo fala dos varões virtuosos, ouvimos falar de Po Yi e de Shu Chi. No entanto Po Yi e Chu Chi renunciaram ao trono do Estado de Ku Chu e morreram de fome no Monte Chou Yang, e não tiveram quem lhes enterrasse os ossos nem a carne. Pao Chiao fez grande alarde da sua conduta e condenou o mundo; atou os braços a uma árvore e aí ficou até morrer. Quando o mundo fala de ministros leais, é-nos dito que nenhum ultrapassou o Príncipe Pi Kan e Wu Tzu Hsu. No entanto, Wu Tzu Hsu afundou no rio e Pi Kan viu o seu coração arrancado. Ambos esses dois homens foram apelidados de ministros leais pelo mundo, contudo acabaram como motivo de chacota do Império. Olhando todos esses homens, desde o primeiro que mencionei até ao Wu Tzu Hsu e Pi Kan, é óbvio que nenhum é digno de respeito.

"Agora, com esse teu sermão, Confúcio, com que me vens falar de histórias da carochinha, então não tenho como saber se o que me dizes é certo ou errado. Mas se me vier falar das histórias dos homens - que não são mais do que isto que descrevi - então já ouvi tudo!

“Mas agora eu vou-te dizer uma coisa - sobre a verdadeira forma ou natureza inata do homem. Os seus olhos ansiam por ver as cores; os ouvidos por ouvir sons; a boca para provar sabores; a sua vontade e o seu espírito por alcançarem a realização. Um homem que atinja a maior longevidade viverá por cem anos; um que atinja uma longevidade média, por oitenta anos; e um que viva por sessenta anos atingirá uma menor longevidade. Se lhe descontarmos o tempo perdido com as doenças, o sofrimento, a preocupação e a ansiedade, e nesta vida não terão mais de quatro ou cinco dias por mês, em que possam rir com vontade. O céu e a terra não têm fim, mas o homem tem um tempo para morrer. Pega nesse longo período possível de tempo, coloca-o a par do que não tem fim, e whoosh! - ele desaparece tão rápido quanto o vislumbre da passagem de um cavalo a galope por uma fenda na parede!

"Nenhum homem que seja incapaz de satisfazer os seus desejos ou de apreciar os anos que o destino lhe deu pode ser chamado de mestre do Caminho. O que me tens vindo a contar - eu rejeito tudo isso!

"Rápido, vá lá, põe-te a caminho. Não quero mais conversa dessa. Esse "Caminho" de que me falas é inábil e inadequado, uma coisa fraudulenta, astuta, vaga e hipócrita, e não o tipo de coisa que seja capaz de preservar a verdade no íntimo. Como poderia valer a pena discutir?!"

Confúcio curvou-se duas vezes e deitou a fugir. Do lado de fora do portão, ele entrou na sua carruagem e por três vezes fez uma tentativa para agarrar as rédeas, que deixava sucessivamente escapar, por estar com os olhos vazios e sem ver, o rosto branco como a cal. Apoiando-se na barra de madeira, com a cabeça inclinada, ele não conseguiu invocar nenhum espírito.

Regressando a Lu, ele mal chegou junto ao lado do portão leste da capital quando encontrou Liu Hsia. "Não tenho visto Vossa Mercê nos últimos dias", perguntou-lhe Liu Hsia," mas pela carruagem e pelos cavalos parece ter estado de viagem. Não acredito que tenha ido visitar o meu irmão Chi, foi?"

Confúcio olhou para o céu, suspirou e disse: "Fui, sim."
"E ele ficou furioso com os seus pontos de vista, tal como eu disse que ficaria?", perguntou Liu Hsia.

"Ficou," disse Confúcio. "Poder-se-á dizer que se submeteu, conforme o ditado, ao cautério da moxabustão sem nem sequer se encontrar doente. Fui ingenuamente passar a mão pela cabeça e pelos bigodes do tigre - e quase não consegui escapar das suas mandíbulas!"
cultivo da ética, ou cultivo do ganho – considere-se o fundamento
Tzu Chang disse a Man Kou Te (que viva e se divertia ás custas dos demais): "Por que não pensa mais no seu cultivo interno? Sem uma conduta distinta não será objecto de confiança; se não merecer confiança não conseguirá nenhuma posição oficial; se não conseguir nenhuma posição oficial não obterá qualquer ganho. Assim, se é a reputação que tem em vista ou é o ganho que está a planear, então a integridade é realmente chave nisso. Se abandonar as considerações de reputação e de ganho e retornar à verdadeira natureza do coração, também lhe direi que não deve deixar passar um único dia sem pensar no seu cultivo interno."

Man Kou Te disse: "Aqueles que são desavergonhados enriquecem; aqueles que se ostentam ​​alcançam a fama. A reputação e o ganho verdadeiramente desmedidos parecem ir para os homens que são descarados e que se vangloriam. Assim, do ponto de vista da fama e do ganho, a ostentação é chave. Mas se pudermos abandonar as considerações de reputação e de ganho e retornarmos à introspecção, então até mesmo um erudito não deve passar um único dia sem abranger a sua natureza celeste."

Tzu Chang disse: "Nos tempos antigos, os tiranos Chie e Chou gozavam da honra de serem Filhos do Céu e possuíam toda a riqueza do império. No entanto, agora, se disser a um mero escravo ou lacaio: "A tua conduta é como a de um Chie ou um Chou," ele ficará envergonhado e, no seu íntimo, não sentirá acordo com tais acusações, pois mesmo um homem mesquinho despreza os nomes de Chie e Chou. Confúcio e Mo Ti, por outro lado, eram homens do povo, pobres. No entanto, agora, se disser ao mais alto ministro de Estado:

"A sua conduta é como a de Confúcio ou a de Mo Ti," ele irá e moderar a sua conduta e desculpar-se e dizer que não é digno de tais elogios, por eles terem sido verdadeiramente admirados e educados. Portanto, brandir o poder de um Filho do Céu não significa necessariamente que seja admirável, e ser pobre e plebeu não significa necessariamente ser desprezável. A diferença entre ser honrado e ser desprezado reside na virtude ou negligência da própria conduta."

Man Kou Te disse: "O pequeno ladrão é metido na cadeia, enquanto o grande ladrão torna-se um senhor feudal, mas todos sabemos que se pode encontrar cavalheiros dentro de portas dos senhores feudais. No passado, Hsiao Po, duque de Huan de Qi, assassinou o seu irmão mais velho e tomou a sua cunhada por esposa e, no entanto, Kuan Chung ainda se dispôs a tornar-se seu ministro. Chang Tien Cheng, assassinou o seu soberano e roubou-lhe o estado, no entanto Confúcio não recusou aceitar presentes dele. Nos debates, eles os condenavam, mas na prática eles se curvavam diante deles. Pense no conflito moral decorrente da contradição patente entre os factos a palavra e a acção, que se lhes deve ter gerado no espírito! Poderiam ambos não gerar conflito, se estivessem em contradição? Por isso é que reza o preceito: Quem será mau? Quem será bom? O homem bem-sucedido é bom, o homem mal sucedido é mau."

"Mas," disse Tzu Chang, "se não prestar atenção ao cultivo, então deixará de haver qualquer vínculo ético e moral entre parentes próximos e distantes, deixarão de haver quaisquer distinções adequadas entre nobres e súbditos, deixará de haver qualquer ordem adequada entre as velhas e as jovens gerações. Como conseguiremos manter as distinções decretadas pelos cinco princípios morais e as seis posições sociais?"

Man Kou Te disse: "Yao matou o seu filho mais velho; Shun exilou o irmão mais novo da sua mãe – mostrará isso alguns laços éticos entre parentes próximos e distantes? Tang baniu o soberano Chie; o rei Wu matou o seu soberano Chou - isso indicará alguma distinção apropriada entre nobre e súbdito? O rei Chi recebeu a herança do pequeno estado que era devida ao irmão. O duque de Chou matou o seu irmão mais velho - isso indicará alguma ordem adequada entre as gerações mais velhas e as mais jovens?"

"Os Confucionistas com os seus discursos hipócritas, os Moistas com a sua conversa sobre o amor universal - indicarão eles alguma tentativa por manter as distinções decretadas pelos cinco princípios morais e pelas seis posições sociais? Agora, as suas ideias baseiam-se na reputação, as minhas no ganho, mas nem a reputação nem o ganho, de facto, se revelam consistentes com a razão ou refletem alguma compreensão genuína do Caminho. No outro dia, quando relatamos o assunto a Wu Yue para que arbitrasse, ele deu a seguinte resposta:

"Os homens medíocres seriam capazes de ir até à morte pelas riquezas; o cavalheiro seria capaz de morrer pela reputação. É lógico que eles diferem na maneira como alteram a sua forma verdadeira e mudam sua natureza inata. Mas eles equiparam-se na medida em que jogam fora o que já possuem e se dispõem a sacrificar a vida por algo que não lhes pertence. Por isso se diz: não sejam triviais e não persigam aquilo que os homens medíocres perseguem para recuperarem a vossa verdadeira natureza, nem persigam a ostentação da personalidade nem a lógica da natureza – mas deixem que o Céu determine o certo e o errado. Observem o que os rodeia e procedam a mudanças oportunas; quer seja certo ou errado, mantenham a flexibilidade da mudança. Na solidão, conduzam a vossa vontade à conclusão; deambulem na companhia do Caminho. Não se esforcem por tornar a vossa conduta consistente; não tentem aperfeiçoar a vossa retidão, ou perderão o que já têm – a vossa verdadeira natureza. Não corram atrás das riquezas, nem arrisquem a vossa vida pelo sucesso, ou irão deixar escapar o céu dentro de vós.

“Pi Kan teve o coração foi arrancado; Tzu Hsu teve os olhos arrancados de suas órbitas – essas foram as calamidades resultantes da lealdade. A honestidade de Kung comprovou os enganos do pai; Wei Sheng morreu afogado – essas foram as tragédias resultantes da sinceridade. Pao Chiao ficou de pé até murchar; Shen Tzu não se defendeu – assas foram as vítimas da integridade. Confúcio não esteve presente à cabeceira da cama da mãe moribunda; Chuang Tzu foi crítico para com o pai e partiu e nunca mais o tornou a ver – esses foram os fracassos dos justos.

“Estes são os incidentes transmitidos de eras passadas, que serão discutidos pelas gerações futuras, com respeito a saber se o cavalheiro deve determinar-se a ser correcto na palavra e consistente na conduta, ou se deverá curvar-se diante do desastre, e enfrentar a aflição."
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Wu Zu (o insaciável) disse a Zhi He (o conciliador): "Afinal, não há quem não se esforce pela reputação e não procure o mérito. Se for rico, as pessoas acorrerão a si; e acorrendo a si, mostrarão humildade e respeito; e quando mostram humildade e respeito, isso mostra que o querem impressionar. Levar as pessoas a curvar-se e a abaixar-se, e a prestar honras - é a maneira de lhes garantir vida longa e conforto das necessidades do corpo, assim como paz de espírito.

Agora, você não se importa com essas coisas. Será por falta de compreensão? Ou será que lhe reconhece o valor, mas simplesmente não tem poder de determinação para se esforçar por isso? Não estará a esforçar-se deliberadamente por encontrar o Tao como desculpa para encobrir o que não consegue esquecer?"

Zhi He disse: "Você e os do seu tipo encaram aqueles que nasceram ao mesmo tempo e que vivem na mesma comunidade, e decidem que sejam cavalheiros que se encontram muito acima das gentes comuns, e que sejam transcendentes. Mas de facto não têm um princípio orientador pelo qual avaliem o passado e o presente, nem distinguem entre o certo e o errado. Em vez disso, juntam-se ao vulgar e mudam ao sabor das mudanças do mundo, deixam de lado o que é mais valioso e descartam o que é mais digno de honra, pensando que haja algo que tenha que ser feito, defendendo que essa seja a maneira de garantir vida longa, conforto, saúde e alegria - mas estão longe disso!

“A agitação do sofrimento e da tristeza, o consolo de contentamento e da alegria - isso não é coisa que salte à cara, mas jaz fundo no espírito. O medo alarmante e a paixão jubilosa - isso não é coisa que acometa o espírito, mas salta à cara. Sabe o que faz, mas não sabe porque o faz. Dessa forma, pode possuir toda a nobreza do Filho do Céu (Rei) e toda a riqueza do senhor do império e no entanto não conseguir escapar à calamidade."

"Mas," disse Wu Zu, "não há vantagem que as riquezas não possam trazer ao homem – ajuda-o a conquistar o bem e a influência que o Homem Perfeito jamais conseguiria alcançar, e o homem digno nunca poderia obter. Ao cultivar a coragem dos outros obtém autoridade; ao dominar os conselhos (conhecimentos e esquemas) dos outros torna-se sagaz e bem informado (Discriminação); ao depender da virtude de outros torna-se um homem digno de valor. Assume majestade como um rei, embora não governe coisa nenhuma. Além disso uma pessoa goza dos belos sons e cores, ricos sabores, poder e autoridade - um homem não precisa instruir a mente antes de se deleitar com eles, não precisa treinar o seu corpo antes que encontre paz nisso. O que desejar, o que odiar, o que procurar e o que evitar – isso vem tudo com naturalidade e ninguém precisa de um mestre nesses assuntos; eles dizem respeito à natureza inata do homem. O mundo poderá criticar-me, mas quem poderá negar a natureza humana? Onde estará, em todo o mundo, quem esteja disposto a abrir mão disso?"

Zhi He disse: "Quando o sábio trata de fazer algo, ele sempre se move pelo bem das pessoas e não viola as regras. Assim, se tiver quanto baste, o povo não disputará por mais. Se não tiver motivo para agir com naturalidade, as pessoas não recorrerão à desculpa. Mas, se não houver o suficiente, elas buscarão, e revolverão as quatro direções, mas não se tornam gananciosas. Se existir um excedente, elas recusar-se-ão a procurar mais e doá-lo-ão. Podendo deixar todo um mundo de riquezas para trás, não se têm na conta de modestas. A avidez ou a mentalidade elevada, na verdade, não podem ser determinados pelos padrões ou condições impostas pelo exterior – mas pelo seu carácter íntimo.

“Assim, um homem pode brandir todo o poder de um Filho do Céu e ainda assim não exibir a sua nobreza perante os outros; ele pode possuir todas as riquezas do império e, no entanto não se vangloriar das suas posses. Ele calcula a probabilidade de risco, pensa nas possibilidades que possam mostrar-se contrárias e prejudiciais. Por conseguinte, caso se verifique danoso para a sua verdadeira natureza, recusará o que lhe for oferecido, e não se apoquentar com reputação e louvor. Yao e Shun governaram como imperadores e imperou a harmonia - não porque buscassem trazer benevolência ao mundo, mas por não quererem que a majestade lhes pusesse as vidas em risco. Shan Kuan e Shu You tiveram oportunidade de se tornarem imperadores e redondamente declinaram, mas não porque desejassem fazer um gesto vazio e insincero de recusa, mas por não permitirem que as questões oficiais os sobrecarregassem. Todos esses homens procuraram o que resultasse em sua vantagem e declinaram o que lhes pudesse ser prejudicial. O mundo os elogia como homens de virtude, mas eles não o fizeram por reputação nem louvor."

"Porém se, para manter uma reputação como a deles", disse Wu Zu, "for preciso afadigar o corpo e abrir mão de tudo quanto é doce e de todo conforto, levar uma vida frugal apenas para se manter vivo," então isso não será diferente de padecer de uma doença crónica, e não se permitir (curar nem) morrer!"

Zhi He disse: "Toda medida justa (equilíbrio, moderação) acarreta sucesso; todo excesso traz prejuízo - isso é válido em todas as coisas, mas muito mais no caso da riqueza. Os ouvidos do homem rico regalam-se com os sons de sinos e tambores, flauta e gaita-de-foles; a sua boca é tratada com o sabor de animais de gramado e do arroz, ricos vinhos, para que lhe desperte desejos e esqueça os seus deveres – o que sugere a perplexidade. Atolado e enfatuado na inflação do orgulho, ele é como um homem que carrega uma carga pesada pela encosta da colina acima - isso pode ser chamado de sofrimento.

A cobiça leva a incorrer na má vontade; a ganância do poder, conduz à exaustão; e no lazer leva a afundar na superficialidade da afeição; a boa saúde não leva à demonstração de uma conduta orgulhosa – isso é tudo quanto sugere um mal. No seu desejo por riqueza, na sua busca pelo ganho, ele não se satisfará até que chegue a transbordar, e não saberá como deter-se - isso sugere vergonha. Acumula riqueza do que jamais poderia usar, mas ainda insiste em sobrecarregar a sua mente de preocupação e fadiga – o que sugere preocupação. Em casa, preocupa-se com os ladrões pelo que mantém portas e janelas fechadas; na rua, ele sente-se aterrorizado com a possibilidade de ser assaltado, de modo que não se atreve a andar sozinho - isso sugere medo. Essas seis coisas – a perplexidade, o sofrimento, a doença, a vergonha, a preocupação e o medo, são os maiores males do mundo.
“No entanto, as pessoas ignoram os avisos, até se depararem com o infortúnio. Quando o desastre as acomete, então, as pessoas esgotam a sua sagacidade e riqueza em busca da paz de espírito, mesmo que por um só dia, por um instante sem problemas, elas não o conseguem.

"Por conseguinte, do ponto de vista da fama, nada se terá evidenciado. Do ponto de vista do proveito, nada terá sido ganho. Exaurir o espírito e o corpo num atropelo por tais coisas - não será isso realmente uma ilusão?”

CAPÍTULO 30
PERSUASÃO PELO USO DA ESPADA

Na antiguidade, o rei Wen de Chao foi um aficcionado por espadas. Espadachins experientes acorriam para a sua corte, e mais de três mil deles foram suportados como convidados em sua casa, dia e noite, e envolviam-se em torneios na sua presença até que mortos e feridos atingissem mais de uma centena de homens por ano. No entanto, o deleite do rei nunca pareceu decrescer, e as coisas continuaram assim por três anos enquanto o Estado afundava no declínio e os outros senhores feudais conspiravam.
O príncipe herdeiro Kui, angustiado com a situação, convocou os seus partidários para junto dele e disse: "Vou conceder mil peças de ouro a quem conseguir chegar à argumentação com o rei e o persuadir a desistir dessas lutas de esgrima!"

"Chuang Tzu é quem se acha habilitado a consegui-lo," disseram os seus partidários.
O príncipe herdeiro enviou um emissário com mil peças de ouro para apresentar a Chuang Tzu, mas Chuang Tzu recusou-se a aceitar a oferta. Em vez disso, ele acompanhou o emissário no seu retorno e foi recorrer ao príncipe herdeiro.

"Que instruções tem para mim, para me apresentar mil peças de ouro?", perguntou ele.
"Eu ouvi dizer, senhor," disse o príncipe herdeiro, "que você é um sábio iluminado, e queria, com o devido respeito, oferecer estas mil peças de ouro como presente aos seus servidores. Mas se você se recusar a aceitá-las, então não ousarei dizer mais nada sobre o assunto."

Chuang Tzu disse: "Ouvi dizer que o príncipe da coroa me quer empregar na esperança de que eu possa livrar o rei da paixão de que padece. Bom, se, ao tentar persuadir Sua Majestade, eu viesse a despertar-lhe a raiva e a deixar de lhe satisfazer as esperanças que nutre, então eu seria condenado à execução. Nesse caso, que uso poderia eu fazer do ouro? E se eu conseguisse persuadir Sua Majestade e satisfazer as suas esperanças, então o que poderia eu pedir em todo o reino de Chao que não me fosse concedido?"
"O problema está em que," disse o príncipe herdeiro, "meu pai, o rei, se recusa a ver alguém que não um espadachim."

"Tudo bem," disse Chuang Tzu. "Eu sou capaz de lidar com uma espada."
"Mas os espadachins que o meu pai recebe", disse o príncipe herdeiro, "têm todos a cabelos desgrenhados e a barba eriçada, usam barretes desleixados amarrados com cordões grosseiros, e vestes cortadas por trás; possuem aspectos ferozes e são de pouca fala. Ele deleita-se com homens assim! Agora, senhor, se você insistir em visitá-lo com roupas de erudito, todo a questão irá começar desde logo do avesso."

"Então, permita-me que arranje um traje de um espadachim," disse Chuang Tzu. Volvidos três dias, ele conseguira a sua roupa de espadachim e prontamente e foi recorrer ao príncipe herdeiro. O príncipe herdeiro então foi junto com ele ver o rei. O rei, empunhando a espada desembainhada, esperou com a lâmina na mão, sem protecção. Chuang Tzu entrou da porta para o corredor num passo sem pressa, olhou para o rei, mas não fez qualquer vénia.
O rei disse: "Bom; já que você conseguiu que o príncipe herdeiro lhe preparasse o caminho, que tipo de instrução é que pretende dar-me?"

"Ouvi dizer que Vossa Majestade gosta de espadas, e por isso vim apresentar-me diante de si com uma espada."
"E que tipo de uso dá à sua espada em combate?", Perguntou o rei.
“A espada deste seu súbdito abate um homem em dez passos, e durante o espaço de mil milhas não para de golpear!”

O rei, muito satisfeito, exclamou: "Não deve ter nenhum rival por todo este mundo!" Chuang Tzu disse: "A supremacia do portador da espada exibe um ar de vazio em simulação, empata o oponente na esperança de obter vantagem levando-o assim a reagir, atrasa-se a dar, é o primeiro a receber, e acaba com ele de forma inesperada. Permite-me que tente demonstrar-lhe o que posso fazer?"

O rei disse: "Agora pode ir-se, senhor, mas vá para os seus aposentos e aguardar as minhas ordens. Quando eu estiver pronto para enfrentar a luta, solicitarei de novo a sua presença."
O rei decretou uma competição de sete dias entre os seus espadachins. Mais de sessenta foram feridos ou morreram durante o processo, deixando cinco ou seis sobreviventes que receberam ordens para se apresentarem com as suas espadas no pátio do rei. Então o rei mandou chamar Chuang Tzu, dizendo: "Hoje, venha hoje competir com estes senhores."
Chuang Tzu disse: "É o que desejei durante muito tempo."

"Que arma usará você, senhor," perguntou o rei, "uma espada longa ou uma curta?"
"Estou preparado para usar qualquer tipo. Acontece que eu disponho de três espadas - Sua Majestade apenas precisa indicar qual deseja que eu use. Se puder, primeiro vou explicar-lhes, e de seguida pô-los à prova."
"Gostaria de saber mais acerca dessas suas três espadas," disse o rei.
"Há a espada do Filho do Céu, a espada do nobre príncipe e a espada do homem do povo."
"Qual é a espada do Filho do Céu?", perguntou o rei.

"A espada do Filho do Céu? É aquela que tem a cidade de Shi com o Ribeiro de Yan por ponta; tem Chi e Tai por lâmina; os montes Chin e Wey como as costas da lâmina; Chou e Sung como o seu cabo; e os estados de Han e de Wei por bainha. Acha-se rodeada em todas as quatro direcções por tribos bárbaras; envolvida pelas quatro estações; cercada pelos mares de Po; e cintada pelas eternas montanhas de Chang. É governada pelos cinco elementos e ela desempenha o que a punição e o favor lhe exigirem. Alterna com o yin e o yang, mantem-se alerta e pronta na primavera e no verão, e entra em acção no outono e no inverno. Uma vez empunhada em riste, não há nada que se coloque diante dela; elevada acima das cabeças, não há nada que se lhe coloque por cima; baixada, não terá nada por baixo; brandida à nossa volta, e nada encontrará em torno dela; erguida, ela corta as nuvens que flutuam; baixada, pode fender a terra. Quando esta espada é usada, os senhores feudais retornam à sua antiga obediência, e todo o mundo se submete. Essa é a espada do Filho do Céu."

O rei Wen, atordoado, parecia ter esquecido tudo. Mas então ele perguntou:
"Como será a espada do príncipe?"

"A espada do nobre Príncipe? Tem por ponta homens de sabedoria e de valentia; tem por lâmina homens íntegros e incorruptos; tem por espalda homens de valor e bondade, por bainha possui homens de lealdade e sagacidade; e por punho tem feitos heróicos e prodígios. Quando essa espada é empunhada em riste, também não encontra oposição; erguida, não tem por cima; baixada, nada tem por baixo; brandida à nossa volta, não encontra nada em torno de nós tampouco. Encontra o seu modelo no firmamento, acima, e acompanha os três astros luminosos., Encontra o seu modelo na quadratura da terra, abaixo, e segue as quatro estações. Encontra a harmonia com as opiniões das pessoas, no meio, e equilíbrio nas quatro direcções.
Essa espada, uma vez posta em uso, é como o estrondo do trovão: ninguém nos quatro cantos do estado deixará de se inclinar em submissão às ordens do príncipe; ninguém falará em prestar atenção e obedecer aos comandos da régua. Essa é a espada do nobre príncipe."
E, por fim, o rei perguntou: "Como é a espada do homem comum?"

"A espada do homem comum? Ela é usada por homens de cabelos desgrenhados e barbas eriçadas, de barretes desleixados amarrados com cordões grosseiros, e vestes cortadas por trás, que possuem aspectos ferozes e que só falam em tom de reprovação enquanto se digladiam diante do rei. Brandida na resolução dos problemas, ela decepa cabeças e pescoços acima e em baixo, separa fígados e pulmões. Aqueles que utilizam essa espada dos plebeus não são diferentes dos galos de combate, que a qualquer momento podem ter a vida encurtada. Elas não são úteis na administração do Estado. Agora, Sua Majestade ocupa a posição de um Filho do Céu, mas ainda assim mostra-se indigno ao se associar com a espada do plebeu. Se posso ousar dizê-lo, acho que é bastante indigno de si!

O rei então conduziu Chuang Tzu ao seu estrado; o mordomo real trouxe-lhe bandejas de comida, enquanto o rei andou simplesmente ao redor do salão.
"Sua Majestade deve sentar-se à vontade e acalmar os seus espíritos", disse Chuang Tzu. "O que havia a dizer acerca das espadas foi dito!"

Depois disso, o rei Wen não emergiu do seu palácio durante três meses, e os seus espadachins de tão exasperados que ficaram suicidaram-se nos seus aposentos.

CAPÍTULO 31
O VELHO PESCADOR

Confúcio, depois de ter andado a errar pela Floresta da Cortina Negra, sentou-se a descansar num ermo, junto ao rio, na Floresta Negra. Enquanto os seus discípulos se voltaram para os seus livros, ele pegou no seu alaúde e pôs-se a cantar. Ainda não tinha chegado a meio do canto quando surgiu um velho pescador, saiu do barco e se aproximou. A sua barba e sobrancelhas eram de um branco puro; o seu cabelo desgrenhado pendia sobre os ombros; as mangas pendiam a pender. Ele subiu o aterro, parou quando alcançou chão mais elevado, apoiou a mão esquerda sobre o joelho, apoiou o queixo na direita e escutou até que o canto terminasse. Então acenou para Tzu Kung e Tzu Lu, e ambos responderam ao seu apelo. O estranho apontou para Confúcio e disse: "Quem é ele?"
"É um homem de elevada moral e princípios, de Lu", respondeu Tzu Lu.
O estranho de seguida perguntou a qual família ele pertencia, e Tzu Lu respondeu: "À família Kung."

"Esse homem da família Kung," disse o estranho, "que ocupação tem ele?"
Tzu Lu ainda estava a tentar enquadrar a sua resposta quando Tzu Kung respondeu: "Este homem da família Kong na sua natureza inata observa a lealdade e a boa-fé, e na sua pessoa pratica a benevolência e equidade; ele confere uma bela ordem aos ritos e à música e escolhe o que é adequado às relações humanas. Ele presta lealdade ao soberano desta era acima; em baixo, e transforma as pessoas abaixo, por intermédio da educação e dessa forma traz proveito ao mundo. Tal é a ocupação deste homem da família Kung!"
"Ele governa algum território?", perguntou o estranho, prosseguindo com o inquérito.

"Não," disse Tzu Kung.
"Ele é conselheiro de algum rei ou príncipe?"
"Não," disse Tzu Kung.
O estranho então sorriu e voltou-se para sair, dizendo enquanto se afastava: "No que diz respeito à benevolência, ele é sem dúvida benevolente. Mas receio que não escape ileso mas venha a perder a vida.
Exaurindo o espírito e desgastando o corpo, pondo o seu verdadeiro ser assim em perigo - infelizmente, receio que ele esteja bastante distanciado do Caminho Supremo!"
Tzu Kung voltou e relatou o sucedido a Confúcio. Confúcio pôs o alaúde de lado, levantou-se e disse: "Provavelmente esse homem é um sábio!" Então ele pôs-se a descer o aterro no encalço do outro, atingindo a borda do lago, justo quando o pescador estava prestes a recolher o remo e a arrastar o barco para dentro da água. Olhando para trás e percebendo Confúcio, ele virou-se e pôs-se diante ele. Confúcio precipitou-se e deu uns passos atrás, prostrou-se duas vezes, e de seguida avançou.

"Que é que se passa?", perguntou o estranho.
"Há um instante atrás," disse Confúcio, "o senhor você fez umas observações enigmáticas e não as terminou. Indigno como sou, receio não entender o que elas signifiquem. Se me for permitido esperar, com a devida humildade, ser da sua parte favorecido com o tom das suas augustas palavras, a minha ignorância poderá ser remediada a tempo."

"Céus!", exclamou o estranho. "O amor que tem pela aprendizagem é realmente digno de nota!"

Confúcio prostrou-se duas vezes e de seguida, endireitando-se, disse: "Desde a infância eu venho a cultivar a aprendizagem, até que finalmente alcancei a idade de sessenta e nove. Mas eu jamais escutei a Perfeita Doutrina. Atrever-me-ei a fazer alguma coisa, pois, senão aguardar com abertura de espírito?"

"O semelhante busca o semelhante; cada nota reage às que lhe são afins," disse o estranho; "Esta tem sido a regra do Céu desde o início dos tempos. Com a sua permissão, pois, vou deixar de lado os meus próprios assuntos e tentar aplicar-me às coisas que lhe interessam. Aquilo com que se preocupa é com os assuntos dos homens. Há o Filho do Céu (rei), os príncipes, os altos ministros, o povo comum - quando todos eles desempenham devidamente os seus deveres, resulta a paz e um admirável estado de ordem. Mas se eles se separam do seu posto, não poderá resultar desordem maior. Quando as autoridades atendem aos seus deveres e os homens se contentam, não se ultrapassa a marca.

"Quando os campos são abandonados, os aposentos destelhados, as roupas e os alimentos são insuficientes, os impostos e os serviços de mão-de-obra não conseguem ser satisfeitos, as esposas e as concubinas estão em constante zaragata, novos e velhos caem na desordem - isso é a preocupação do homem comum. Falta de competência para desempenhar o cargo, desconcerto na administração, falta de claridade e de transparência na conduta, descuido e desprezo pelos súbditos, falta de mérito e de reputação, insustentabilidade de estipêndios e títulos - essas são as preocupações de um alto ministro. Falta de ministros leais na corte, um estado e suas grandes famílias revoltadas e em desordem, artífices e artesãos sem habilidade, tributos para a corte de baixa qualidade, classificações inferiores nas audiências da corte na primavera e no outono, fracasso na captação das boas graças do Filho do Céu - essas são as preocupações de um príncipe.

"Desequilíbrio entre yin e yang, frio e calor tão extremos que tragam prejuízo a todas as culturas, príncipes em guerra uns com os outros que atacam injustamente os territórios e destroem a gente comum; o uso incorrecto de rituais e da execução de música; o erário público e recursos que se perdem para sempre, desconcerto nas instituições sociais e a anarquia nas aldeias - essas são as preocupações do Filho do Céu e dos seus chanceleres.
Agora, você não ocupa a posição de um governante, de um príncipe, nem de um ministro; e tão pouco foi designado para o cargo de alto ministro influente. Ainda assim, presume "trazer uma ordem perfeita a rituais e à música, e enfatizar as regras das relações humanas" e, assim, "reeducar a plebe." Isso não será um empreendimento demasiado ambicioso?
"Além disso, não deve ignorar que os homens se encontram sujeitos a oito fraquezas, e a quatro vícios que os atacam as questões do foro humano, que não devemos deixar de examinar cuidadosamente:

arrogância - Meter-se no que não lhes diz respeito.
adulação - Captar a atenção a si quando ninguém deseja a sua intervenção.
bajulação - Tentar convencer alguém com discursos com a intenção de agradar.
lisonja - Não considerar o certo e o errado no que os outros dizem.
calúnia, difamação - Deliciar-se em falar sobre as falhas e os fracassos dos outros.
malevolência - Romper amizades e deixar parentes em desacordo.
perversão - Louvar a falsidade e a hipocrisia, de modo a causar lesões e o mal a outros.
traição - Não pensar no que é certo ou errado, mas tentar usar de duas faces (ambiguidade) de modo a descobrir o que os outros sabem.

Estas oito fraquezas deixam os outros desorientados e provocam danos no seu autor. Um homem de princípios não favorecerá quem as possua; um governante esclarecido não o quererá para seu ministro.

"Quanto aos quatro males de que falei, são:

Avidez - Empreender grandes causas, modificar-se e desviar-se dos velhos caminhos aceitos, esperando assim aumentar o seu mérito e fama.
insolência - Monopolizar a sabedoria, querer que tudo seja feito ao seu jeito, arrebatando dos outros os louros e apropriando-se deles para uso próprio.
Obstinação (intransigência) - Ver os defeitos, mas não os corrigir, receber censuras mas persistir em fazer as coisas do seu jeito.
Intolerância (altivez) - Sorrir para aquele que concorda consigo, mas negá-lo e desprezá-lo quando não concorda.
Esses são os quatro males. Se você se livrar dessas oito falhas e evitar cometer os quatro males, então e somente então, você se tornará capaz de ser ensinado!"

~~~~~~

Confúcio pareceu mortificado e soltou um suspiro. Então, curvou-se duas vezes, endireitou-se e disse: "Duas vezes fui exilado de Lu; vi apagados todos os vestígios da minha presença em Wei, fui citado por abater as árvores em Song e cercado entre Chen e Cai. Não tenho consciência de ter cometido qualquer desses erros, no entanto, por que fui vítima de tal menosprezo?"

Uma expressão de dor recaiu sobre o rosto do estranho e ele disse: "Quão difícil é fazer com que entenda! Certa vez existiu um homem que tinha medo da própria sombra e que detestava as próprias pegadas; então, ele tentou afastar-se delas deitando a correr. Mas quanto mais ele levantava os pés e os baixava de novo, mais pegadas deixava. E não importava quão rápido ele corria, a sua sombra nunca o deixava, e assim, pensando que ainda estava a correr muito devagar, ele correu mais e mais rápido sem parar até que a sua forças o abandonaram e ele caiu morto. Ele não entendeu que, colocando-se à sombra, ele poderia ter-se livrado da sua sombra e que repousando na quietude, ele poderia ter acabado com as suas pegadas. Como poderá ele ter sido tão néscio?!"

"Agora, você anda a sondar o domínio comum da benevolência e da equidade, a examinar os limites da semelhança e da diferença, a inquirir acerca das mudanças entre quietude e movimento, a definir as normas da conveniência entre o dar e o receber, a regular as emoções do amor e do ódio, a moderar as paixões da alegria e da raiva - e assim é por pouco que consegue escapar ao dano. Se você fosse diligente em se aperfeiçoar a si mesmo, teria o cuidado de preservar a sua autenticidade e de deixar os outros serem como são, e não os quereria aperfeiçoar. Mas agora, sem melhorar a si mesmo, você faz exigências aos outros – não será manifestamente ingénuo?"

Confúcio parecendo envergonhado disse: "Por favor, posso perguntar o que entende por "autenticidade?"

O estranho disse: "Por “autenticidade” refiro-me à pureza e à sinceridade máxima. Aquele que carece de pureza e de sinceridade não pode mover os outros. Portanto, aquele que lamenta de forma forçada, embora possa parecer triste, não despertará a menor comoção. Aquele cuja ira é simulada, embora possa parecer severo, não se impõe. E aquele que simula o afecto e se mostra carinhoso de uma forma forçada, embora possa sorrir, não criará conciliação nem simpatia. A tristeza verdadeira não precisa de lamentações para causar impressão; a verdadeira raiva impõe-se antes de se desencadear; o verdadeiro carinho não precisa sorrir para criar simpatia. Quando um homem é genuíno no seu íntimo, pode mover o seu espírito por entre as coisas exteriores. É por isso que a verdade é tão apreciada!
"A forma como a aplicamos baseia-se na nossa razão. Pode ser aplicado às relações humanas das seguintes maneiras: ao serviço dos pais, torna-se amor e piedade filial; ao serviço do governante, torna-se lealdade e integridade; nos banquetes festivos, torna-se alegria e regozijo; nos períodos de luto, torna-se tristeza e aflição. Na lealdade presta-se à angariação de fama; os banquetes festivos prestam-se à alegria; os períodos de luto prestam-se ao pesar; o serviço pelos pais presta-se ao seu conforto.

“O esplendor do serviço não está em fazer sempre a mesma coisa nem sempre procurar abordá-lo da mesma forma. No garantir o conforto ao serviço dos pais, não se questiona os meios a ser empregados, nem a razão. A procura da alegria nos banquetes festivos não requer preferência. A expressão do sofrimento apropriado aos períodos de luto não requer a obediência aos rituais exactos. Os rituais são algo criado pelos homens que a gente vulgar do mundo observa; a autenticidade é aquilo que é recebido do céu. É espontânea e não mutável. Portanto, o sábio toma-a como modelo do céu, aprecia a autenticidade e não se deixa ficar atado aos modos vulgares. Os néscios, ao contrário, são incapazes de se modelar pela natureza e, em vez disso, são influenciados pelas preocupações humanas e buscam as mudanças da vulgaridade. Daí que não conheçam a satisfação nem valorizam o genuíno. É uma lástima que você tenha caído nessa hipocrisia humana numa idade tão precoce e que já venha atrasado para ouvir sobre o Grande Caminho!"

Confúcio mais uma vez curvou-se duas vezes, endireitou-se e disse:
"Agora que tive a sorte de o ter conhecido, parece que fui abençoado pelo céu. Se o mestre não considerar uma desgraça que alguém como eu entre para as fileiras daqueles que esperam aprender consigo, e ser ensinado por si em pessoa, então eu ousaria perguntar onde ficam os seus alojamentos? Gostaria de obter permissão para lá ir, receber instrução e, por fim, aprender sobre o Grande Caminho!"

O estranho respondeu: "Ouvi dizer que, se encontrar alguém com quem possa caminhar junto, então vá com ele até o fim do Caminho misterioso; mas se for alguém com quem você não possa seguir, alguém que não entenda o Caminho, então tome cuidado e não tenha nada que ver com ele - somente então você poderá evitar o perigo para si mesmo. Aplique-se, senhor! Agora vou deixá-lo." Assim dizendo, ele empurrou o seu barco e partiu por um caminho coberto de juncos.

Yen Yuan deu a volta à carruagem; Tzu Lu estendeu-lhe as rédeas, mas Confúcio não deu atenção, e esperou até que a ondulação das águas se acalmasse e até não mais conseguir ouvir o som dos remos, para se sentar.

Tzu Lu, seguindo ao lado da carruagem, disse: "Foi-me permitido servi-lo por muito tempo, Mestre, mas nunca vi você encontrar alguém que o deixasse tão cheio de admiração. Quando o rei  e os chefes de estado o recebem, invariavelmente fazem-no ao mesmo nível e tratam-no com a etiqueta devida a um igual, e ainda assim o mestre mantém um ar rígido e arrogante. Agora, este velho pescador apresenta-se-lhe à frente com um remo na mão, e você dobra-se pela cintura, e curva-se em reverencia-o, e faz uma vênia toda a vez que responde às palavras dele - isso não será exceder-se? Os seus discípulos, estão todos a questionar esse seu comportamento. Por que um pescador deveria ter um tratamento desses?"

Confúcio inclinando-se para a frente sobre a barra do carro, suspirou e disse:
"Tzu, tu decerto tens dificuldade em mudar! Tens estado todo este tempo imerso no estudo dos princípios e dos rituais, e ainda não te livraste das tuas maneiras de pensar vulgares e servis. Chega-te mais perto que eu explico-te. Quando nos encontramos com um ancião, deixar de o tratar com respeito constitui um comprometimento dos rituais da cortesia. Se ele não fosse um homem superior ele não nos deixaria humildes defronte dele. Mas se, ao nos humilharmos diante dele, os homens carecerem de pureza de intenção, então nunca alcançaremos a verdade. Em resultado, lamentavelmente continuaremos consecutivamente a causar prejuízo a cós próprios. Por isso, o sábio honra quem quer que demonstre estar na posse do Tao. Além disso, o Tao é a origem das dez mil coisas. Todas as coisas que o perdem, morrem; tudo quanto o obtém permanece vivo. Ir contra isso nos seus compromissos é convidar a ruína; cumprir com isso é obter sucesso. Por isso, onde quer que o caminho seja encontrado, o sábio irá homenageá-lo. No que diz respeito a este velho pescador certamente pode dizer-se que ele possui o Caminho. Como, pois, poderei eu ousar deixar de lhe mostrar respeito?!"


CAPÍTULO 32
LIE TZU

Lie Tzu (Lie You Kow) ia para Chi, mas, a meio do caminho, ele deu meia volta e regressou a casa. Por mero acaso ele encontrou Po Hun Wu Jen.

"O que fez com que você mudasse de ideias e voltasse?", perguntou Po Hun Wu Jen.
"Eu fiquei assustado."
"Por que ficou com medo?"
"Eu parei para comer em dez tabernas de sopa ao longo do caminho, e em cinco delas serviram-me sopa antes de todo mundo!"
"O que tem isso de tão assustador?", perguntou Po Hun Wu Jen.

"Se não pudermos dissipar a sinceridade dentro de nós, ela exalará pelo corpo e formará um brilho que, uma vez fora, supera as mentes dos homens e os deixa descuidados na forma como me tratam à frente das pessoas idosas. E é desse tipo de prelúdio de desastre que vem o problema.

"Os vendedores de sopas de feijão não têm nada além dos seus caldos para vender e a sua margem de ganhos não pode ser muito grande, além de não gozarem de influência. Se pessoas com lucros tão escassos e tão pouco poder ainda me tratam com tal deferência, então, que haveria o governante de Chi, o senhor de um estado de dez mil carros, fazer-me? Eu preparei-me para servir a minha nação e para usar a minha sabedoria na administração dos negócios públicos. O rei está com o corpo e a sabedoria esgotados pelo peso da sua administração, e gostaria de transferir os seus assuntos e pode-me apontar para um cargo e recompensar-me de acordo com os meus méritos - foi isso que me deixou assustado!"

"A observação que fez foi excelente," disse Po Hun Wu Jen. "Mas tenha lá calma, que as pessoas irão reunir-se em torno de si."
Pouco tempo depois, Po Hun Wu Jen foi até casa de Lie Tzu e encontrou a frente do portão numa desordem com tantos sapatos. Ele ficou a olhar para o norte, com o bastão erecto, o queixo apoiado nele. Depois de ali ficar de pé algum tempo, afastou-se sem dizer palavra. Um servente encarregado de receber os convidados entrou e relatou o sucedido a Lie Tzu. Lie Tzu pegou nos sapatos e correu descalço atrás dele, apanhando-o no portão. "Agora que percorreu todo este caminho, você não tem nenhum "remédio" a dar-me?"

"De nada vale. Eu disse-lhe desde o início que as pessoas se iriam reunir ao seu redor a apoiá-lo, e aí estão elas ao seu redor. Não é que seja capaz de fazer com que o apoiem - é que você não consegue evitar que o façam. Mas de que lhe servirá isso a si? Se você mudar as pessoas e as deixar felizes, mostrando-lhes que é diferente de nós, você deverá ter algum sentimento no seu íntimo que lhe altere a natureza.

"Mas, se você mudar os outros, invariavelmente perturbará a sua própria natureza básica, caso em que nada mais haverá a ser dito. Esses com quem você anda por aí - nenhum deles lhe dará bons conselhos nem lhe dirá isto que eu lhe disse. Tudo o que eles dizem são palavras insignificantes, do tipo que envenena um homem. Não há compreensão disto nem afecto mútuo, por isso, quem lho poderá esclarecer a si? O homem inteligente desgasta-se, e o homem sábio preocupa-se. Contudo, o homem sem aptidão não tem nada que procurar, excepto comer pela medida grande e perambular de maneira ociosa, à deriva como um barco sem governo."

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"Havia um homem de Cheng chamado Huan que, depois de três anos de recitar e memorizar textos em um lugar chamado Qiushi, finalmente se tornou num erudito confuciano. Tal como o Rio Amarelo se espalha por nove milhas ao longo das suas margens, também a afluência de Huan espalha as suas bênçãos sobre os seus três níveis dos seus parentes. Ele fez com que o seu irmão mais novo, Di, se tornasse um Moista, e o Confucionista e o Moista discutiram um com o outro, mas o seu pai sempre tomava o partido do irmão mais novo. Depois de dez anos nisso, Huan cometeu suicídio. Aparecendo a seu pai num sonho uma bela noite, ele disse: "Fui eu quem tornou possível que o seu filho se tornasse um Moista. Por que não procura visitar a minha sepultura - e ver como os juníperos se transformaram fizeram crescer pinhas?" Quando a Criação recompensa um homem, ele não recompensa o que a pessoa tem de humano, mas com o que tem de espiritual. O que têm de espiritual leva-os a desenvolver-se nas suas respectivas vidas.

"Era o que o irmão mais novo tinha que o tornou um Moista. No entanto, existem alguns como Huan que pensam ser diferentes dos outros e que desprezam até mesmo os próprios pais. Ele pensou que fora ele quem levou o irmão a tornar-se num Moista e desprezou a própria família, à semelhança do povo de Chi, que impedem que as pessoas também bebam do poço, e que tentam se afastar-se umas das outras. Diz-se que no mundo de hoje, as pessoas são como Huan - todos pensam que somente eles estão certos. Mas os homens que verdadeiramente possuem virtude acham que isso seja insensatez, quanto mais os homens que possuem o Caminho. Na antiguidade, dizia-se dos homens como Huan que haviam cometido o castigo de desobedecerem à natureza.

"O sábio repousa no que é natural e não tenta descansar no que é artificial. O vulgo procura o repouso do que é artificial descansar e não no que é natural."
Chuang Tzu disse: "Conhecer o caminho é fácil." Evitar falar sobre ele é o que está em conformidade com a natureza. Conhecer e falar - isso leva-nos ao celestial; conhecer e não falar, isso conduz-nos ao humano. Os homens da antiguidade conformavam-se com a natureza e não com a artificialidade."

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Chu Ping Man estudou a arte de caçar dragões sob a tutela de Chih Li. Isso custou-lhe um milhar de peças de ouro da sua fortuna, mas após três anos ele chegou a dominar a arte, só que não encontrava oportunidade de fazer uso da sua perícia.

O sábio olha o que é certo como incerto - de modo que não faz face à discussão. O homem comum considera o que é incerto como uma certeza e decide que é necessário e inevitável - portanto, ele defronta-se comummente com a discussão. Aquele que se defronta com a discussão sempre procura algo. Mas quem se entrega à discussão acabará na desgraça.

A compreensão do homem medíocre nunca ultrapassa os intercâmbios sociais e efémeros, cartas e cartões telefônicos. Ele desgasta o espírito no superficial e no trivial e, no entanto, quer ser visto como o salvador do mundo e que digam que alcançou a unidade do Caminho. Um homem assim irá equivocar-se e sentir-se perdido com as complexidades do universo; com o corpo desgastado, ele nunca chegará a conhecer o Grande Começo. Mas o Homem Perfeito, ao contrário, deixa o espírito retornar ao que existia antes do Início, e dorme um sono agradável naquilo que não possui nada; como a água, ele atravessa o sem-forma e derrama-se na Suprema Pureza. Quão lamentável, que o seu entendimento não seja maior que um cabelo, e que nada conheçam da suprema tranquilidade!

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Um homem de Song, um tal de Cao Shang, foi enviado pelo rei de Song como emissário ao estado de Chin. Ao partir, ele não recebeu mais de quatro ou cinco carruagens, mas o rei de Chin, ficou tão encantado com ele que lhe concedeu mais cem carros. Quando ele voltou a Song, foi ver Chuang Tzu e disse:

"Viver em favelas pobres e becos apertados, restringir-se, morrer de fome, tecer as próprias sandálias, de pescoço mirrado e rosto emaciado, nesse tipo de coisa eu não sou bom. Mas conquistar o reconhecimento instantâneo do governante de um estado de dez mil carros e retornar com uma centena deles como séquito - é nisso que eu me notabilizo!"

Chuang Tzu disse:
"Quando o rei de Chin fica doente, ele chama os médicos. O médico que lhe lanceta a úlcera ou lhe drena o abscesso facial e recebe uma carruagem como paga, mas àquele que lhe tratar das hemorroidas recebe cinco carruagens. Quanto mais baixa a área a ser tratada, maior o número de carros. Pelo enorme número de carruagens que você conseguiu, eu presumo que você lhe deva ter tratado das hemorroidas. Vá-se lá embora, senhor!"

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O duque Ai de Lu disse a Yen Ho: "Se eu fizesse de Confúcio, o meu principal pilar, você acha que remediaria a falta de paz no meu estado?"

"Cuidado, apoiar-se em Confúcio é um perigo!" disse Yen Ho. "Confúcio é sobredotado nos adornos com plumas e no recurso à retórica e confunde questões periféricas com o cerne. Ele está disposto a distorcer a sua natureza inata para se tornar num modelo para as pessoas, sem que sequer percebam que está a agir intencionalmente. Ele tudo considera como proveniente do coração, tudo submete à sua intuição - como poderia um homem desses liderar as pessoas? Ele gozará da sua aprovação? Confiar-lhe-ia você as coisas? Seria um erro, por ele vir a deixar de corresponder às expectativas que tem. No entanto, quem quer que induza as pessoas a voltar costas à realidade e a aprender com a hipocrisia dificilmente poderá ser tornado num modelo para as pessoas. Se quiser pensar no futuro, melhor será que deixe essa ideia. Governar em paz tornar-se-á coisa difícil."

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"Dispensar favores aos homens sem nunca esquecer - isso não é uma dádiva natural. Nem mesmo os comerciantes e os vendedores ambulantes se sentem merecedores em relação a isso, embora o possam mencionar vez por outra.

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Os castigos externos são infligidos por implementos de metal e de madeira; os castigos internos são infligidos pela agitação e pelo arrependimento. O homem medíocre sofre os castigos externos, e é corrigido por meio dos implementos de metal e madeira; Quando ele incorre no castigo interno, são devorados pelo yin e pelo yang. Escapar à punição externa e interna - somente o Homem Verdadeiro é capaz disso."

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Confúcio disse:
"O coração do homem é mais perigoso do que montanhas ou rios, mais difícil de entender do que a Natureza. A Natureza, pelo menos, tem as suas estações fixas da primavera e do outono, do inverno e do verão, um tempo para o amanhecer e para anoitecer. Mas o homem possui uma cobertura espeça e esconde a sua natureza verdadeira fundo. Assim é que, pode apresentar uma face séria e, no entanto não passar de uma pessoa mesquinha; pode parecer ter qualidades superiores e ainda não ter qualquer valor. Pode parecer um imbecil e no entanto, saber exatamente o que está a fazer. Pode parece ser firme, e na verdade ser dissoluto; Pode parecer ser lerdo, e de facto ser enérgico; pode parecer impetuoso e no entanto proceder com cautela. Portanto, aqueles que acorrem à moral e aos princípios quais homens sedentos à água, podem fugir deles como se do fogo fugissem.

"Por esse motivo, o homem de princípios manda aquele que para ele trabalha, e observa o grau de lealdade que tem; mantém-no perto de si e vê o grau de respeito que tem. Ele testa-lhe a competência ao confiar-lhe questões de dinheiro e observa o quão bem ele as administra; testa-lhe os conhecimentos interrogando-o de improvido. Exige-lhe uma promessa difícil e comprova a sua fidelidade; confia-lhe fundos e comprova a sua integridade; adverte-o de um perigo iminente e verifica o quão fiel ele é para com os seus deveres. Enche-o de vinho e observará o quão bem ele trata de si; junta-os com toda a sorte de mulheres e vê se é casto ou promíscuo. Aplicando esses nove testes, pode-se prontamente determinar quem é indigno."

Quando Cheng Kao Fu cumpriu o seu primeiro mandato no governo, passou a andar de cabeça baixa; quando cumpriu o seu segundo mandato, passou a andar de costas inclinadas; quando foi nomeado por uma terceira vez, ele caminhava agachado; andava junto às paredes, deixando o centro aos demais. Quem ousaria reprovar-lhe o exemplo? Mas o homem comum - ao receber seu primeiro mandato, começa com ideias de grandeza; ao receber o segundo mandato, ele põe-se a dançar; ao receber uma terceira nomeação, ele começa a tratar os seus superiores pelos seus nomes. Quem conseguirá ser tão humilde quanto um Yao ou um Tang?!

Não há mal maior do que uma prática da virtude dotada de propósito, que torna a mente arrogante, o que leva a que só pense em si. Porque quando só pensa em si cai na ruína.
Esse mal tem cinco fontes potenciais de dano: visão, fala, olfato, audição e vontade. E a central (a vontade) é a pior. O que quero dizer com dano central? Aquele que possui só aceita as suas próprias perspectivas e denigre as dos outros. São oito as dificuldades que o restringem. A versatilidade tem três condições que a protegem. O corpo tem seis receptáculos. A formosura, a barba, a estatura, a corpulência, a robustez, o estilo, a bravura e a determinação - essas são as oito qualidades por que a versatilidade é restringida. Se nelas superar os outros, nelas encontrará a perdição.
Seguir ou imitar os outros; submeter-se para ser promovido; a ambição de ser melhor que os outros - essas são as três coisas que garantem o avanço.

Sabedoria e conhecimento, e o reconhecimento externo que envolvem; bravura e determinação, e os numerosos ressentimentos que suscitam; benevolência e equidade, e todas as responsabilidades que envolvem - esses seis são o que acarretam a crítica. Aquele que domina a realidade da vida é liberal, tolerante e possui abertura de espírito; aquele que domina a sagacidade é medíocre; aquele que domina o Grande Destino segue a natureza; aquele que domina os pequenos destinos precisa aceitar o que acontece para chegar ao seu caminho.

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Um certo homem que teve uma audiência com o rei de Song recebeu dele de presente dez carruagens. Com as suas dez carruagens, ele vangloriou-se e pavoneou-se junto de Chuang Tzu. Chuang Tzu disse:

"Há uma família pobre junto ao rio que ganha a vida a tecer artigos de vime. O filho mergulhava certa vez na parte mais profunda do rio quando encontrou uma pérola no valor de mil peças de ouro. O pai disse-lhe: "Traz-me uma pedra que eu faço-a em pedaços! Uma pérola de uma valia de mil peças em ouro só poderia ter vindo debaixo do queixo do Dragão Negro que vive no fundo da lagoa de nove camadas de profundidade. Para poderes pegar a pérola, deves tê-lo feito quando ele estava a dormir. Se o Dragão Negro estivesse acordado, achas que teria sobrado algum pedaço de ti? Agora, o estado de Song é mais profundo que essas nove camadas de profundidade, e o rei de Song mais truculento e feroz do que o Dragão Negro. Para teres conseguido essas carruagens, deves ter-te aproveitado dele quando estivesse a "dormir." Se o rei de Song estivesse desperto, teria acabados em mil pedaços!"

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Alguém enviou presentes a Chuang Tzu com um convite para o governo. Chuang Tzu respondeu ao mensageiro com as seguintes palavras:
"Já não terá presenciado um boi de sacrifício? Eles colocam-lhe bordados e enfeites, engordam-no com relva e feijão. Mas quando por fim o levam ao grande templo ancestral, aí, embora deseje poder torna-se num bezerro solitário uma vez mais, isso não lhe será possível.”

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Quando Chuang Tzu estava para morrer, os seus discípulos expressaram o desejo de lhe fazer um enterro sumptuoso. Porém, Chuang Tzu disse:
"Eu vou ter o céu e a terra por mortalha e caixão, o sol e a lua por par de discos de jade, as estrelas e constelações como minhas pérolas e contas, e as dez mil coisas como meus presentes de despedida. Os acessórios para o meu funeral já estão preparados - o que haverá mais a acrescentar?"

"Mas temos receio que os corvos e os papagaios o devorem, Mestre!", disseram os discípulos.

Chuang Tzu disse:

"Sobre o solo, eu arrisco-me a ser comido por corvos e papagaios; no subsolo, eu arrisco-me a ser devorado pelas toupeiras, pelos grilos e pelas formigas. Não seria bastante intolerante despojar um grupo para favorecer o outro?

"Se considerarmos o injusto como justo, isso levará a que aquilo que parecer justo seja realmente injusto. Se usarmos a falta de prova para estabelecer a comprovação, as nossas evidências serão pouco fiáveis. O homem sagaz não é mais que um servo dos outros, mas o homem espiritual sabe onde encontrar as provas cabais. O sagaz não consegue ultrapassar o homem espiritual - há muito tempo que esse tem sido o caso. No entanto, o tolo confia no preconceito e obtém resultados tangíveis. Porém, todas as suas realizações são irrelevantes – o que é lamentável, não será?!"

CAPÍTULO 33
O MUNDO

Muitos são os homens do mundo que se entregam a doutrinas e a políticas, cada um acreditando possuir um sistema inultrapassável. Onde parará o que nos tempos antigos era chamado de "Arte do Caminho"? Eu afirmo que não há lugar onde não exista. Mas, perguntarão vocês, de onde descenderá a santidade, de onde nos virá a iluminação? O sábio trá-las à existência, o rei completa-as, mas elas têm a sua fonte no Um.

Aquele que não se afasta do Princípio é chamado de Homem Celestial;
Aquele que não se afasta do Puro é chamado de Homem Santo;
Aquele que não se afasta do Verdadeiro é chamado de Homem Espiritual.
Fazer do Céu a sua fonte, da Virtude sua raiz e do Caminho do seu portal, e encarar a mudança e a transformação como naturais - obtém presciência e é chamado de Sábio.
Aquele que torna a benevolência no seu padrão de bondade, a justiça no seu modelo de razão, o ritual no seu guia de conduta e a música na sua fonte de harmonia, a serenidade na misericórdia - aquele que faz isso é chamado de homem de moral e princípios.
Aquele que faz uso das leis para determinar obrigações, das designações para indicar classificação, das comparações para descobrir o desempenho real, das investigações dos diversos factores para chegar a decisões - esse, verificá-las-á a todas, uma a uma sequencialmente, e dessa forma atribuirá aos cem funcionários os seus postos. Os ministros mantêm o olho constantemente nos assuntos administrativos, pensam primeiro na alimentação e no vestir, têm em mente a necessidade de produzir e de desenvolver alimento, de pastorear e de armazenar, de providenciar para o velho e o fraco, o órfão e a viúva, para que todos sejam devidamente nutridos - esses são os princípios pelos quais as pessoas cuidam das pessoas.

Com efeito, eram os homens dos tempos antigos excediam-se em cuidados! Confrades na santidade e na iluminação, puros como o Céu e a Terra, zeladores das dez mil coisas, harmonizadores do mundo - a sua generosidade estendia-se a toda a gente. Eles sabiam que o Tao é a primeira e a última de todas as coisas; possuíam uma compreensão clara das políticas básicas e prestavam atenção até às mudanças mais insignificantes - a sua sabedoria estendia-se a toda a parte, ao que era grande e pequeno, ao grosseiro e ao requintado; não havia lugar onde não chegasse. Incorporavam essa sabedoria nas suas políticas e regulamentos e, em muitos casos, ainda refletiam as antigas leis e registos dos historiadores transmitidos ao longo dos tempos.

Quanto às intuições que tinham, são discerníveis nas leis e práticas que estabeleceram, foram passadas de geração em geração nos seus códigos e histórias. Em Tsou e Lu há académicos de classe que conseguem compreender o que se acha registado no Livro da Poesia (Odes) e no Livro das Crónicas (História), no livro dos Rituais do Comportamento e no da Música; no das Mudanças do Yin e do Yang (Chung Chiu). Os Anais da Primavera e do Outono encerram os títulos e as categorias. O Livro das Odes descreve o Tao da vontade; o Livro das Crónicas descreve o Tao dos eventos; o dos Rituais fala do Tao da conduta; o da música fala do Tao da harmonia; o Livro das Mutações descreve o Tao do yin e yang; o dos Anais da Primavera e Outono descreve os títulos e as funções. Essas várias políticas acham-se dispersas por todo o mundo e são propostas no Reino do Meio (China). Os estudiosos das cem escolas, frequentemente elogiam-nos e tratam deles nas suas pregações.

Mas o mundo encontra-se numa grande desordem, as personalidades e os sagazes já não possuem clareza de visão, e o Caminho e a Virtude já não são entendidos de forma uniforme. Assim, são muitos os que no mundo muitas vezes captam um só aspecto, ao se aterem aos pontos de vista que defendem, e acham que conseguiram perceber o Todo. Podem ser comparados à orelha, ao olho, ao nariz e à boca: cada um tem a sua própria função, mas não conseguem permutá-las entre si. Podem igualmente ser comparados aos artesãos, cada qual dono da sua especialidade, que são úteis somente em certas ocasiões. Porém, como não possuem um conhecimento amplo do campo, não passam de eruditos atacanhados. Da mesma forma, as diversas particularidades das cem escolas têm todas os seus pontos fortes, e cada uma tem o seu tempo. Mas nenhuma abrange a verdade total, posto que nenhuma é universal.

Distinguem a verdade e a beleza do Céu e da Terra, analisam as razões das dez mil coisas, examinam a perfeição dos antigos, mas raramente são capazes de abranger a verdadeira nobreza do Céu e da Terra, para chegarem a descrever a verdadeira face do espírito sagrado. Por isso, as doutrinas que inspiravam a santidade interior e um governo pacífico exterior, foram sido obscurecidas e sufocadas em meio à ambiguidade. Os académicos do mundo, fazem o que querem na formulação dos seus ensinamentos. Quão triste! As múltiplas escolas seguem a sua marcha, e não voltam a reagrupar-se, e inevitavelmente nunca mais se voltam a unificar. Os estudiosos das gerações futuras, infelizmente nunca chegarão a perceber a pureza do Céu e da Terra, nem chegarão a perspectivar a grande unidade dos antigos. "A Arte do Caminho" com o tempo, foi-se dispersando e fragmentando pelo mundo fora.

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Algumas das antigas doutrinas de filosofia tinham as seguintes características:
Não deixar nenhum exemplo de extravagância às gerações posteriores; não desperdiçar nada no uso das coisas; evitar qualquer ostentação das regras e ritos na própria conduta, recorrendo à regra estrita da disciplina, preparando-se desse modo para as emergências futuras. Na antiguidade havia quem acreditasse que isso fazia parte da "Arte do Caminho," e era apreciado por Mo Ti e o seu discípulo, Chin Ku Li. Quando eles ouviam esses pontos de vista ficavam encantados com eles, mas eles os conduziam ao extremo e aplicaram-nos com excesso de zelo.

Mozi redigiu um tratado intitulado "Contra a Música," e ordenou um outro intitulado "Moderação na Despesa," aos seus discípulos, declarando que na vida não deveria haver canto, nem luto na morte. Com o desejo de instaurar o Amor Universal e a vontade de garantir o bem comum, ele proscreveu a guerra, e não havia lugar nos seus ensinamentos para a ira. Uma vez mais, amou e estudou diligentemente e conseguiu um vasto conhecimento e esforçou-se por suprimir as distinções entre as pessoas. As suas opiniões, no entanto, nem sempre estiveram de acordo com as dos antigos reis, pois denunciou e favoreceu a abolição dos ritos e da música na antiguidade. O Imperador Amarelo teve o seu hino Hsien Chi; Yao, teve o seu Ta Chang; Shun teve o seu Ta Shao; Yu, teve o seu Ta Hsia; Tang teve o seu Ta Huo, e o Rei Wen Wang a música do Pi Yung, enquanto o rei Wu Wang e o duque de Chou formaram a dança guerreira Wu.

Os ritos de luto da antiguidade prescreviam as cerimônias estritamente apropriadas para eminentes e humildes, diferentes regulamentações para superior e súbdito. O ataúde do Filho do Céu tinha sete camadas; os dos príncipes, cinco camadas; os dos ministros elevados, três camadas; os dos funcionários, duas camadas.

No entanto, somente Mozi declarava que não devia haver canto na sua vida, nem luto na sua morte. Por regra, ele adoptava um ataúde de madeira dura (Paulownia) de três centímetros de espessura, sem cobertura exterior - esse era o governo, o ideal que a si mesmo impunha. Se ele ensinava os homens dessa maneira, então receio que ele não tivesse amor por eles; e se impunha tais práticas a ele próprio, então ele certamente não tinha amor por si mesmo! Isso não desacreditou inteiramente os seus ensinamentos, mas ainda assim os homens queriam cantar, e ele dizia: "Não é lícito regozijar-se!" Tinham vontade de chorar, e ele condenava o pranto - alguém se interrogará se isso seria de facto humano ou estaria em conformidade com a realidade. Depois de uma vida diligente e frívolo na morte – a sua prática é excessivamente severa. Deixava os homens ansiosos e deprimidos - tais práticas defendem algo difícil de realizar, e receio que não possam ser consideradas como o Caminho do Sábio. São contrárias ao espírito das pessoas, e o mundo não consegue suportá-las. Embora o próprio Mozi possa ter sido capaz de tal resistência, como poderá a aversão do resto do mundo ser superada? Sendo-lhe o mundo avesso, elas devem estar muito afastadas das do verdadeiro rei.

Mozi defendia os seus ensinamentos dizendo: "Nos tempos antigos, Yu deteve as águas da enxurrada e abriu os canais do rio Yangtze e do Rio Amarelo para que as águas atravessassem os quatro pontos cardeais e as nove províncias. Canalizou trezentos rios famosos, mais três mil afluentes e um número incalculável de pequenos riachos. Naquele tempo, Yu carregava ele próprio a cesta e usava as ferramentas, reunindo e misturando os rios do mundo até ficar com os músculos descarnados e sem pelo nas pernas, encharcado pelas chuvas, os ventos fortes alisavam-lhe os cabelos enquanto ele tratava de estabelecer os dez mil estados. Yu era um grande sábio, no entanto, com o seu próprio corpo, carregou a carga do império! O exemplo disso está em que muitos dos Moistas das épocas actuais envergam peles e pano grosso, usam tamancos de madeira ou sandálias de cânhamo, não descansam dia e noite, e deixam-se conduzir para os esforços mais amargos. "Se não conseguirmos fazer o mesmo," dizem eles, "então não estaremos a seguir o caminho de Yu e seremos indignos de nos chamar Moistas!"

Os discípulos de Chiang Li Chin, os seguidores de Wu Hou e os Moistas do sul, como Ku Huo, I Chih, Deng Ling Tzu, todos eles recitam o cânone Moista, mas apesar de tudo diferenciam-se e discordam nas interpretações que fazem, e chamam uns aos outros "facciosos Moistas." Nas discussões que têm acerca do "duro" e do "branco," "diferença" e "semelhança," eles replicam para um e para o outro lado; nas investigações que empreendem sobre a incompatibilidade da "estranheza" e da "uniformidade," trocam torrentes de refutação. Eles consideram o Grande Mestre do seu movimento como o seu sábio, e cada seita tenta fazer do seu Grande Mestre o chefe reconhecido da escola na esperança de que a sua autoridade seja reconhecida pelas gerações posteriores, mas até o presente, a disputa ainda não foi resolvida.

Mo Ti e Chin Ku Li são de louvar, por terem estado certos nas ideias que tinham, mas erraram nas suas práticas, em resultado do que os Moistas de mais gerações posteriores se sentiram obrigados a submeter-se a dificuldades "até que não lhes restasse mais pelos nos músculos" - a sua ambição reside em se superarem uns ao outros. Tais esforços representam o nível da confusão, por serem bons em tempo de caos, e o ponto mais baixo da sua unidade, por serem maus em tempos de paz. No entanto, Mozi era alguém que tinha um verdadeiro amor pelo mundo. Apesar de não o conseguir salvar, ainda assim, gasto e exausto, ele nunca deixou de o tentar. Ele era realmente um espírito nobre e talentoso!

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Alguns dos antigos ensinamentos de filosofia tinham as seguintes características:
Não se permitir cair presa das ciladas das convenções; não se preocupar com a vulgaridade e o decoro; não ser imprudente e irreflectido no trato dos demais; evitar opor-se à opinião pública; promover a paz e o equilíbrio do mundo pelo bem da vida das pessoas; prover para os outros assim como para si próprio. Contentar-se quando esses objetivos se cumprem, purificando assim o espírito.

Havia quem na antiguidade que acreditava que a "Arte do Caminho" estava nessas coisas. Sung Chien e Yin Wen ouviram falar destas ideias e ficaram encantados. Eles fizeram dos bonés na forma do Monte Hua a sua marca de distinção. Ao lidarem com as dez mil coisas, eles estabeleceram o princípio da indulgência para com o desigual; pregavam a cordialidade e à expansão da mente chamavam de "comportamento interior," na esperança de congregar os homens na alegria da harmonia, para garantir a concórdia pelos quatro cantos do mundo. No entanto, a sua tarefa principal era o esforço com que se empenhavam no estabelecimento desses ideais.
Não consideravam vergonha nenhuma sofrer insultos, mas resolviam os conflitos que se geravam entre as pessoas; procuravam afastar as pessoas da guerra, prevenir a agressão, abolir o uso de armas e resgatar o mundo da guerra. Com tais objectivos, eles andaram por todo o mundo, a tentar persuadir os seus superiores e ensinar aqueles que se situavam abaixo na escala social (massas); e embora o mundo se recusasse a aceitar as suas doutrinas, eles não deixaram de clamar nem desistiram até que os homens dissessem: "Por toda a parte são detestados por superiores e súbditos, mas queiramos ou não, temos que os ver por toda a parte!"

No entanto, conquanto aos outros o seu zelo parecesse excessivo, a eles parecia muito pouco. Diziam: "Uma só refeição de arroz de cinco moedas é suficiente," porém a essa altura receio que esses mestres não tenham recebido o suficiente. Apesar de seus próprios discípulos terem fome, no entanto, eles nunca esqueceram o resto do mundo, mas continuaram dia e noite sem parar, a pregar: "Estamos determinados a garantir que todos os homens possam viver!" Quão elevados os objectivos desses salvadores do mundo! Mais uma vez, eles disseram: "O homem de moral e princípios não julga os outros com um olhar áspero; ele não precisa de sobrecarregar os outros para se vestir." Se determinada linha de inquérito não trouxesse qualquer benefício ao mundo, eles achavam preferível abandoná-la a procurar a sua compreensão. Proibir a agressão e abolir o uso das armas - esses eram os objectivos externos que tinham. Diminuir os desejos e enfraquecer as emoções - esses eram os objectivos internos que tinham. Buscavam isso tanto a uma grande como a uma pequena escala - e quando aperfeiçoavam esses objetivos sentiam-se orgulhosos.

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Alguns dos ensinamentos da filosofia do passado tinham as seguintes características:
Possuir um espírito justo e não partidário, de mentalidade neutra e não ser dado ao favoritismo, ser-se flexível e não alimentar o preconceito, não ter preferência na selecção das coisas, não planear nem ter segundas intenções mas tratar todas as coisas sem discriminação mas participar das suas mudanças; não alimentar preocupações nem cultivar a astúcia - havia quem na antiguidade acreditasse que a "Arte do Caminho" estava em tais coisas. Peng Meng, Tian Pien e Shen Tao ouviram os seus pontos de vista e ficaram encantados. O Caminho, acreditavam eles, estava em tornar as dez mil coisas iguais. "O céu é capaz de abranger, mas não de suportar," diziam. "A Terra é capaz de suportar, mas não de as abranger. O Grande Caminho é capaz de abraçar todas as coisas, mas não é capaz de as discriminar." Desse modo, deduziram que cada uma das dez mil coisas possui aptidões e limitações por abrigar o que é aceitável e o que é inaceitável. Assim, eles diziam: "Escolher é abandonar a universalidade; comparar as coisas é deixar de atingir o objectivo. O Caminho não tem nada que seja deixado fora dele."

Por este motivo, Shen Tao prescindiu do saber, despojou-se de toda a preocupação com a sua pessoa, seguiu o impulso das coisas, aquiescente e desinteressado em relação a elas, e fez disso o seu princípio. "Saber é não saber," dizia ele, "procurar o conhecimento no que não é conhecido resultará no prejuízo da natureza salutar do buscador." E assim ele desprezou o conhecimento e labutou para o ridicularizar. Rebelde, troçava da honra dos homens dignos do mundo, e despreocupado, seguia sem ambição, não aceitava responsabilidades, e ria daqueles que homenageavam esses homens honrados. Casual e desinibido, não nada fez para se distinguir, mas desprezou os grandes sábios do mundo. Burilando as esquinas agudas e ásperas, ele se deixava levar e mudava com as coisas. Abandonou a diferença entre o certo e o errado e de alguma forma conseguiu ver-se livre dos problemas.

Nada tendo a aprender com o conhecimento ou o planeamento, sem entender a diferença entre o antes e o depois, ele simplesmente repousava onde ele se encontrava, sem pensar. Impulsionado, ele finalmente dava um passo; arrastado, ele finalmente começaria a percorrer o caminho. Era como uma brisa, e girava que nem um redemoinho, revoluteava como uma pena, andava às voltas como a pedra de moagem, mantendo-se íntegro e livre da condenação. Isento de erro, seja em movimento ou em repouso, nunca foi culpabilizado por coisa nenhuma. Como foi isso possível? Porque uma criatura que não racionalize não cai na preocupação - dessa forma ela vive os seus anos sem procurar o louvor.

Assim, Shen Tao dizia:

"Deixa-me tornar-me como aquelas criaturas que não raciocinam, isso é suficiente. Tais criaturas não têm uso a dar às sumidades nem os iminentes. Quais torrões, eles nunca se desviam do Caminho."

Os grandes e eminentes haveriam de se juntar e rir dele, dizendo:
"Os ensinamentos de Shen Tao não são regras para os vivos, mas ideais para um homem morto. Não é de admirar que ele seja encarado como peculiar!"

Tien Pien era um caso assim. Ele estudou sob a tutela de Peng Meng e cultivou a transmissão do conhecimento sem palavras. O mestre de Peng Meng costumava dizer:
"Nos tempos antigos, os homens do Caminho chegavam ao ponto em que não consideravam nada certo e nada de errado - isso é tudo." Mas tais caminhos são mudos e abafados - como poderiam eles ser capturados em palavras? Peng Meng e Tien Pien sempre agiram ao contrário dos outros homens e raramente foram ouvidos. Não podiam evitar esquivar-se para os cantos. O que eles chamavam de Caminho não era o verdadeiro Caminho, e quando eles diziam que uma coisa estava certa, eles não poderiam evitar aumentar a possibilidade de isso estar errado. Peng Meng, Tien Pien e Shen Tao realmente não entendiam o Caminho, embora todos tivessem a certa altura ouvido dizer o que era.

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Alguns dos ensinamentos da filosofia do passado tinham as seguintes características:
Considerar o fundamental como delicado e as coisas que dela emergem como grosseiras; considerar o acúmulo como insuficiência; optar por viver sozinho, em paz e na placidez, no esplendor espiritual - havia quem na antiguidade acreditasse que a "Arte do Caminho" estivesse nessas coisas.

O Kuan Yin e Lao Tzu ouviram falar dos seus pontos de vista e ficaram encantados. Eles expuseram sobre eles em termos da constância do ser e do existir e encabeçaram a sua doutrina no conceito da Grande Unidade. A suave fraqueza e o humilde apagamento da própria pessoa são marcas externas; o nada, o estado do vazio e a decisão de não prejudicar as dez mil coisas são a sua essência.

Kuan Yin dizia: "Quando um homem não habita em si (é isento de egoísmo), verá os outros como eles realmente são, e tudo quanto possui contornos externos se revelará. O seu movimento será como o da água, a sua quietude será como a de um espelho, a sua reacção será como a do eco. Quando permanece vazio, ele parece estar perdido; quando permanece imóvel, apresenta a limpidez da água; quando se sente em paz, ele alcança a harmonia com todos; se ele saísse dela, ele iria perdê-la. A avareza conduz à perda; nunca toma a dianteira aos outros, mas segue sempre no seu rasto."

Lao Tzu dizia: "Conheçam o masculino (forte), mas apeguem-se ao feminino (fraco); tornar-se no ribeiro do mundo (para onde todas as águas fluem). Conheçam o esplendor, mas atenham-se ao obscuro; tornem-se num vale para todo mundo." Os outros vivam ansiosos por alcançar o primeiro lugar; só ele compreendia o que significa ficar para último. Ele dizia: "Aceitem para si as imundícies do mundo." Outros preferiam o cheio (a satisfação) mas só ele preferia o vazio. Ele nunca acumulou, por isso ele tinha mais do que suficiente; ele tinha tanto que lhe sobrava! No seu movimento, ele era de fácil trato e não perdia o sossego, pelo que não se desgastou.

Zombava da astúcia dos homens. Outros procuram as bênçãos e a boa-sorte; só ele se manteve livre para se dobrar e torcer. Aceitava as ofensas em troca da inocência e dizia que só procurava ser livre da censura. Tomava a profundidade por raiz e a frugalidade por orientação e dizia que aquilo que é forte quebrar-se-á, o que é afiado virá a embotar-se. Sempre estava de mãos abertas e se mostrava permissivo com as coisas e não causava dano aos outros - isso pode ser chamado perfeição. Kuan Yin e Lao Tzu - na sua amplitude e estatura, realmente foram os Verdadeiros Homens do passado!

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Alguns dos ensinamentos da filosofia da antiguidade apresentavam as seguintes características:
Considera a vida como indistinta e sem forma; indistinta e em transformação, em mudança, nunca constante. Estar juntos no céu e na terra ou deixar-se ir com os espíritos na vida e na morte. Ficar confusos quanto a ir ou ficar.  Conter todas as coisas, mas não saber onde parar - havia quem nos tempos antigos acreditasse que a "Arte do Caminho" estava nessas coisas. Chuang Tzu ouviu falar nos seus pontos de vista e ficou encantado.

Ele expôs sobre eles em termos estranhos e em dicções esquisitas, numa linguagem impetuosa e imprecisa, em frases não vinculadas e desordenadas, abandonando-se aos tempos sem partidarismo, sem olhar as coisas de uma só perspectiva. Ele acreditava que o mundo estava mergulhado no lodaçal e que era impossível abordá-lo por uma linguagem sóbria e séria. Assim, ele recorria a palavras de improviso para expressar as suas efusivas elaborações; recorria à citação para dar um ar de verdade à repetição e a metáfora para lhe conferir uma maior amplitude. Ele veio e foi sozinho com o puro espírito do céu e da terra, mas sem ser arrogante com as dez mil coisas. Não insistiu no "certo" e no "errado" mas viveu em consonância com a sua geração e a sua vulgaridade. Embora os seus escritos pareçam uma coisa extraordinária, eles são reticentes. Embora as suas palavras pareçam variar por entre voltas e revoltas, contêm mais do que se pode esperar, por estarem abarrotadas de verdades reais e eternas.

Acima, ele acompanha o Criador, abaixo ele fez amizade com aqueles que encaram a vida e a morte como coisa insignificante, que nada sabem do começo e do fim. Quanto ao Fundamento, a compreensão que tinha era ampla, expansiva e penetrante; profunda, liberal e sem obstáculos. Quanto à Origem, pode-se dizer que ele falava com acerto e justiça. Os seus raciocínios eram inesgotáveis e beiravam os píncaros. Sabia adaptar-se às mudanças e explicar a natureza das coisas. Contudo, ele nunca foi completamente compreendido e os seus ensinamentos nunca foram devidamente apreciados, por serem obscuros e subtis.
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Hui Shi foi um homem muito dotado em termos das disciplinas de que tinha conhecimento, e os seus escritos poderiam encher cinco carruagens. Mas as suas doutrinas eram incoerentes, e os seus ditos revelavam uma certa pomposidade. A razão com que analisava as coisas pode ser visto nestes ditos:

A maior das coisas, que nada tem além de si, é chamada de Grande Unidade.
A coisa mais pequena que nada tem dentro de si; é chamado de um de Pequena Unidade.
O que não tem espessura não pode ser empilhado; mas possui uma dimensão de grandeza de mil milhas.

O céu é tão baixo quanto a terra; as montanhas e os pântanos encontram-se ao mesmo nível.
Assim que o sol tanto atinge o zénite também atinge o nadir. 
Quando as coisas nascem, já estão a morrer.
À diferença entre a máxima semelhança e a menor semelhança, se chama menor similitude e diferença. Todas as coisas são diferentes e no entanto são similares; a isso se chama a máxima semelhança e diferença.
A região do sul não tem limite e ainda assim é limitada.
Partirei para Yue hoje e chegarei ontem.
Os anéis unidos podem ser separados.
Sei onde se encontra o centro do mundo: fica a norte de Yen (setentrional) e ao sul de Yue (meridional).
Deixem o amor abranger as dez mil coisas; O céu e a terra são um único corpo.
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Com palavras destas, Hui Shi tentou apresentar uma visão mais magnânima do mundo e propôs-se esclarecer os retóricos. Os sofistas do mundo gostavam de tratar entre si destas coisas:

O ovo tem penas.
Um frango tem três pernas.
A cidade capital Ying contém o mundo inteiro.
Um cão pode ser considerado uma ovelha. Os cavalos colocam ovos.
Os sapos têm cauda.
O fogo não é quente.
As montanhas têm saídas.
As carruagens jamais tocam no chão.
Os olhos não veem as coisas.
Designando uma coisa nunca chegamos a alcançá-la; se chegássemos, não haveria separação.
A tartaruga é mais comprida do que a cobra.
Os esquadros não têm um ângulo reto; os compassos não podem fazer círculos.
O cinzel não envolve o cabo.
A sombra do pássaro voador nunca se move.
Não importa quão rápido seja a flecha, há alturas em que não está em movimento nem em repouso.
Um cachorrinho não é um cão.
Um cavalo baio e uma vaca negra perfazem três.
O cão branco é negro.
O potro órfão nunca teve mãe.
Pega num pau de uns 30 cm de comprimento, corta metade dele todos os dias, e no final de dez mil gerações, ainda não estará gasto.
Tais eram os ditos que os retóricos usavam em resposta a Hui Shi, caminhando sem parar até o final dos seus dias.

Huan Tuan e Kun Sun Long encontravam-se entre esses retóricos. Deixando o espírito dos homens deslumbrado, e os seus pontos de vista perturbados, podiam superar os outros no diálogo, mas podiam não conseguiam convencê-los - tais eram as limitações dos retóricos.
Hui Shi, dia após dia, usou de todo o conhecimento que tinha nos debates que tinha com os outros, e pensava deliberadamente em maneiras de surpreender os retóricos do mundo - os exemplos precedentes ilustram isso. No entanto, a eloquência de Hui Shi mostrava que ele se considerava o homem mais dotado vivo. "Céu e terra - talvez sejam os maiores!" declarava ele. Tudo quanto sabia era fazer de herói; ele não tinha uma arte real. Era ambicioso porém, nada sabia de filosofia.

No sul, havia um excêntrico chamado Huang Liao, que perguntava por que os céus e a terra não colapsavam e desmoronavam, ou o que provoca o vento e a chuva, o trovão e o relâmpago. Hui Shi, impávido, comprometeu-se em dar-lhe uma resposta; ele começou a responder, sem parar, tocando em cada uma das dez mil coisas no seu discurso, expondo e continuando sem parar por entre torrentes de palavras sem fim. Mas ainda não era suficiente, e então ele começou a acrescentar histórias fantásticas às assombrosas afirmações. O que quer que parecesse contradizer os pontos de vista de outros homens, ele declarava ser verdade, na esperança de ganhar uma reputação que ultrapassasse os outros. Foi por isso que ele nunca se deu bem com as pessoas comuns.

Fraco na virtude interior, forte na preocupação que tinha em relação às coisas externas, ele percorreu uma trajetória distorcida! Se examinarmos as realizações de Hui Shi do ponto de vista do Caminho do céu e da terra, eles parecem os esforços de um mosquito - de que valerão essas coisas? É verdade que ele ainda merece ser considerado o fundador de uma escola, embora eu diga que, se ele tivesse mostrado um maior respeito pelo Caminho, ele se teria aproximado da verdade. Hui Shi, no entanto, não conseguiu encontrar qualquer tranquilidade para si mesmo com tal abordagem. Em vez disso, prosseguiu incansavelmente a distinguir e a analisar as dez mil coisas e no final, ficou conhecido apenas pela habilidade que tinha em expor. Que pena que Hui Shi tenha abusado e dissipado os seus talentos sem realmente ter conseguido nada! Perseguiu as dez mil coisas e nunca inverteu a tendência, como aquele que tentou abafar o eco gritando-lhe ou levar a forma a ultrapassar a sombra. Que lástima!


2 comentários:

  1. Amigo bom dia, Amo seu blog achei aqui grandes estudos sobre o TAO que eu amo... Queria saber se você um dia pretende traduzir o livro do Wen TZU, tenho ele em ambas as versões espanhol e inglês mas em português não tenho, tento traduzir pelo google mas fica a desejar... Se precisar dos PDF eu te mando, se já tiver estes traduzidos e puder me mandar eu te agradeço muito!!!

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    1. Yuri, seja bem vindo.
      Grato pela gentileza, viu.

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